segunda-feira, junho 19, 2006

A Ética no Lixo



Rodrigo Constantino

“Não se queixe da neve no telhado da casa do seu vizinho, quando a soleira da sua porta não está limpa.” (Confúcio)

Não temos o direito de exigir uma determinada conduta ética dos nossos vizinhos quando nós mesmos a ignoramos por completo. Dizem que o exemplo correto vale por mil palavras na educação dos filhos. Creio estarem certos. A ética da malandragem, o “faça o que eu digo e não o que eu faço”, abre os portões do caos. Se queremos viver em uma sociedade organizada e de confiança – e temos todos os interesses individualistas para desejar isso – devemos abandonar urgentemente essa postura imoral de cobrar dos outros o que não respeitamos individualmente.

A popular “lei de Gérson”, de tentar tirar vantagem ilícita em cima de todos o tempo todo, cria um ambiente totalmente hostil ao desenvolvimento da sociedade. A relevância do império da lei e da confiança mútua não pode ser subestimada para o sucesso de uma nação. Saber que o próximo irá respeitar as regras isonômicas, e que quando não o fizer será punido, é um ótimo estímulo ao bom andamento das trocas voluntárias entre os cidadãos. Por outro lado, quando impera a lei da selva, quando cada um tenta apenas tirar proveito da inocência alheia ou se organizar para defender seus interesses, por mais injustos e nefastos que sejam, temos um convite irresistível ao atraso. Nenhuma civilização progride decentemente desta forma.

Não fazer com o próximo aquilo que você não gostaria que fizessem contigo é um aforismo bastante razoável, de claro apelo individualista, mas que gera um bom resultado para o coletivo. Infelizmente, esta máxima tem sido bastante ignorada em nosso país, desde os pequenos atos até as decisões que alteram o rumo da nação. Quem realmente respeita o próximo e evita trafegar pelo acostamento durante o engarrafamento? Com receio de ser o “único otário”, a grande maioria acaba aderindo à tentação, prejudicando o resultado geral e todos aqueles que respeitam as regras. Da mesma forma, quantos se dão ao trabalho de recolher as fezes do cão na calçada? Esses exemplos – e existem muitos outros – são simples, do cotidiano, mas denotam o abandono de um código de ética decente.

Transportando isso para os temas maiores, como a política, vemos um quadro mais preocupante ainda. Eleitores simplesmente parecem ignorar as manchas éticas na trajetória dos candidatos, escolhendo-os somente por puro imediatismo, com critérios totalmente imorais. Se o candidato me garante um cargo público, entrega uma esmola estatal qualquer, discursa com afinidade à minha ideologia, protege meu sindicato ou oferece algum privilégio ao meu grupo de interesse, recebe meu voto. Nada mais prejudicial ao bom funcionamento da democracia a longo prazo. Eleger corruptos para defender um interesse imediato é garantia de perpetuar a miséria em nosso país.

Dito isso, me espanta o fato do atual presidente contar com ampla vantagem nas pesquisas de intenção de votos para as próximas eleições. Afinal, trata-se de um governo atolado em infinitos casos de corrupção, com fortes evidências ou mesmo provas. O próprio Ministério Público já deflagrou o esquema de quadrilha montado pelos principais membros do governo e aliados do presidente, que confiava e ainda confia fielmente neles. São escândalos atrás de escândalos, um mais grave que o outro. Os envolvidos não poderiam ser mais próximos do presidente, que foi o maior beneficiado do esquema. Nem mesmo seu filho escapou ileso.

A bandeira da ética, sempre utilizada pelo PT, está completamente esgarçada pelas traças do poder. E não obstante tudo isso, Lula será reeleito, ao que tudo indica. Qual a mensagem que o cidadão brasileiro está mandando? O crime compensa? Tanto faz roubar, contanto que pela minha causa? Se a reeleição de fato se concretizar, parece que esse é o recado do povo. A ética será jogada no lixo. Quando isso ocorre, normalmente o futuro da nação vai para o lixo também. Pobres daqueles cidadãos honestos, que não compactuam com o crime nem são complacentes com os corruptos. Pagarão o preço da irresponsabilidade e da falta de ética da maioria do povo.

7 comentários:

C. Mouro disse...

Bem, eu imagino que ocorra o que ocorreu com a, estéril, votação sobre o comércio de armas. As pesquisas não são apenas pesquisas, mas sobretudo propaganda, póis que são divulgadas mais para influenciar opinião do que para informar. A massa símia tende a imitar o que imagina ser a opinião da maioria, é nisso que o marketing se baseia. Portanto, convencer que "todos pensam (preferem) assim" ou "ninguém mais pensa assim" tem forte influencia sobre a massa que apenas segue por incapaz de pensar por si, ainda cada um receoso de "estar sozinho", sem apoio do meio (o velho Schop foi magistral nas questão), pois a consciência dos imbecis é o que imagina ser o senso comum ou o senso consagrador, tudo depende da propaganda ou da idéia defendida com maior visibilidade (o mais visível é o verdadeiro, para a massa). Pois a visibilidade é a ostentação da "consciência externa" que controla os imbecis que Não Julgam, ficando sujeitos aos julgamentos que lhes são passados. Não é a própria consciência que os incomoda, é a "consciência externa" do meio em que estão inseridos (Jung bem coloca quando diz que o indivíduo sob o apoio de seu grupo é capaz de fazer coisas que não faria sem estar agrupado; o grupo de apoio bestializa o indivíduo _os bandidos com o apoio da mídia e dos "intelectuais" ficam cada vez mais tranquilos em suas práticas, isso é que os incentiva e não as "desigualdades" ou falta de escola).
Fazer ver que também há outras opiniões é fundamental para a massa não ser empurrada para a opinião mais propagandeada. É preciso também demonstrar mais emoção nas opiniões, pois a emoção contagia. Por isso a povança não se indigna tanto com a roubalheira atual, ela não vê exemplos pungentes (como o PT fazia com os outros), mas apenas um bostas dizendo que "temos que apurar com cautela" e coisas belas (até de amor ao inimigo - coisa da moral 5ª coluna).
...hi! parei!
Abraços
C. Mouro

cachorrão disse...

Muito bom o texto, o brasileiro realmente não está muito preocupado com os rumos do país, muitos defendem Lula por ter aumentado o poder aquisitivo da população de baixa renda, mas se esquecem dos inumeros casos de corrupção. Pois é, esquecimento é um mal crônico do brasileiro, outro dia publiquei um texto no site de uma faculdade, alertando para a atual situação do país, que só pensava em copa do mundo, teve uma aluna que escreveu que eu deveria relaxar, que estava preocupado demais com a situação, é somos um país de alienados mesmo.

C. Mouro disse...

Ora, Lulla não tem aumentado o poder aquisitivo da pop baixa renda, ele e a camarilha apenas falam isso insistentemente para criar tal "realidade" na imaginação. Mas basta a proximidade comos de baixa renda para perceber que tal propaganda é falsa. Os primeiros anos do Real sim, aumentaram em muito a reda (consumo) dos baixa renda e lhes permitiu "voos", mas lulla é so propaganda e não realidade. Basta o convivio com os bx renda para perceber, mas a propaganda é algo tão forte que alguns deles mesmo na pior imaginam que "outros deles" desconhecidos estão melhjorando a farsa da propaganda é muito forte. ...hehehe! o "mais visivel" torna-se verdadeiro. ...Hitler sabia bem disso: "UMA MENTIRA REPETIDA MIL VEZES, TORNA-SE VERDADE" ...hehehe!
Abraços
C. Mouro

Lisavieta disse...

Isso me desespera tb!
A inércia da população!
Esse Presidente ameaça se reeleger, sim. E aí? O q sobra? O q podemos julgar depois, se tudo é permitido?
E as próximas gerações, q recebem muito mais bombardeios de permicividade e tem acesso tão fácil a todos os meios... como será essa geração? Como será a política no Brasil em 2025???

Lisavieta disse...

Esse seu texto lembrou-me algo q eu li há pouco, e acho q se encaixa - ou revela a total ausência - do q deveríamos ter/ser.

Como define H.D.F.Kitto, em seu livro OS GREGOS, “o que impulsiona o herói grego a praticar atos de heroísmo não é o senso de dever que conhecemos – o dever em relação aos outros; ao contrário, é um dever com relação a si mesmo. Ele luta para conseguir aquilo que designamos 'virtude', mas que os gragos chamam aretê, ou seja, superioridade”. É a descrição do motivo de “dever para consigo mesmo”, tradução perfeita da palavra sânscrita dharma.

C. Mouro disse...

Esse dever é o dever para com sua forte consciência individual, com seus julgamentos do certo e do errado, sem esperar outra compensação que não o prazer de agir conforme sua consciência. Mas se a recompensa é a amizade dos parceiros, a glória segundo a moral estabelecida (por vezes anti-ética), então o dever já não é para com sua prória consciência, mas para com a "consciência coletiva" estabelecida no, ou para, o grupo em que está inserido (o lugar comum do Ari).
.
É frase precisa aquela que diz: "a moral falsifica a ética".
Infelizmente a idéia de moral é entendida como um absoluto (por vezes arbitrado e não segundo a lógica), quando na verdade é apenas um consenso majoritário fazendo com que o estabelecido para o grupo seja "o certo"; daí que grupos estabelecem variadas morais, ou o que é paral para uns grupos não o é para outros. De forma semelhante estabelece-se que as decisões do aparato judiciário sejam entendidas como justiça; e o próprio aparato se denomina justiça, julgando com base na lei, mesmo que a lei seja injusta. Pois o que é legal nem sempre é legítimo. ...que nos nos diga F. Bastiat.
Abraços
C. Mouro

whk disse...

Num dia, lá pelos finais dos anos 80, estava uma discussão na minha sala onde trabalho. O pessoal comentava que achava um absurdo a desfaçatez com que os políticos tratavam das coisas públicas e o descaramento com que roubavam.
Eu teci um comentário: ora, se os políticos são os nossos representantes, se a câmara dos deputados, dos vereadores e senado fossem compostas somente por pessoas íntegras, a sociedade estaria muito mal representada.
Infelizmente, acho que estava absolutamente correto. Agora, mais ainda.

Winston H. Kanashiro
whk@amcham.com.br