sábado, novembro 15, 2008

Krugman, O Alquimista



Rodrigo Constantino

“O Estado é a grande ficção através da qual todo mundo se esforça para viver à custa de todo mundo.” (Frédéric Bastiat)

Em seu recente artigo “Economia da Depressão”, o economista Paul Krugman defende a gastança do governo como solução para a crise. As crenças keynesianas de Krugman estão mais vivas que nunca, e o autor inverte a lógica econômica toda, achando que o consumo em alta é que gera investimentos produtivos, que por sua vez gera crescimento econômico. Eis o raciocínio dele:

“A alta do desemprego resultará em redução do consumo... O consumo fraco levará a cortes nos planos de investimentos das empresas. E a economia enfraquecida resultará em novas perdas de empregos, o que gerará um novo ciclo de contração”.

Não deixa de ser bem curioso ver os mesmos economistas que sempre condenaram o “excesso de consumo” dos americanos, colocando agora a culpa da crise na queda do consumo dos americanos! Ora, se o mal fora causado justamente pelo consumismo desenfreado, segundo eles mesmos, um corte no consumo não seria parte da solução dos problemas? Que lógica econômica é essa que condena o consumo pela crise e demanda mais consumo como solução?

Paul Krugman defende claramente a irresponsabilidade fiscal do governo como meio para resolver a crise. Ele diz isso com todas as letras:

“Quando a economia da depressão prevalece, regras usuais da política econômica deixam de se aplicar: a virtude se torna vício, a cautela é arriscada e a prudência é insensatez. [...] Em momentos normais, é bom se preocupar com o déficit orçamentário e responsabilidade fiscal é uma virtude que teremos de reaprender assim que passar a crise. Quando a economia da depressão está em vigor, porém, essa virtude se torna vício. [...] Por fim, em tempos normais, modéstia e prudência quanto às metas de uma nova política costumam ser boas. Nas condições atuais, porém, é muito melhor pecar pelo exagero do que pela cautela. O risco, caso o plano de estímulo venha a se provar mais forte que o necessário, seria o de que a economia se reaqueça e gere inflação, mas o Federal Reserve sempre pode combater essa ameaça por uma elevação nas taxas de juros”.

A constatação na epígrafe do economista francês do século XIX nunca foi tão verdadeira. De fato, todos parecem encarar o governo como uma força divina, um ente abstrato que produz recursos do nada. De onde o governo obtém seus recursos? De Marte, por acaso? Ora, o governo pode levantar recursos apenas tirando da sociedade, ou seja, criando impostos ou emitindo dívida e moeda. Quando o governo gasta mais do que arrecada, como sugere Krugman, ele está apenas hipotecando o futuro daquela sociedade. Esses macro-economistas que adoram dados agregados, esquecendo que existem apenas indivíduos concretos, não são muito diferentes dos alquimistas, que acham ser possível fazer ouro do nada.

Uma reflexão sobre Robinson Crusoé sozinho numa ilha evitaria muitos erros grosseiros em economia. Pensando em termos micro, ficaria evidente que para consumir é preciso antes produzir, e que consumir à base de crédito é apenas trocar consumo futuro por consumo presente. Mas a conta deve ser paga sempre! Se o consumo sem lastro na produção fosse mesmo a locomotiva do crescimento econômico, e se o governo pudesse estimular isso imprimindo moeda e gastando, não haveria miséria no mundo faz tempo! Para quem entende isso, fica claro que a proposta de Krugman, pela irresponsabilidade fiscal do governo, significa apenas jogar para o futuro os problemas. O que Krugman está sugerindo, sem rodeios, é produzir um crescimento artificial no presente, deixando a conta para ser paga no futuro.

Em termos individuais, seria o mesmo que alguém, passando pela necessidade de aperto nos gastos, simplesmente tomar mais dívida com um agiota para manter o consumo presente. Enfrentar a dura realidade de que gastou por conta antes, e que agora deverá sacrificar o consumo para poupar novamente, não passa pela cabeça dos alquimistas. Para estes, a recessão é um mal que deve ser evitado a qualquer custo, mesmo ao custo da inflação, o imposto mais perverso para os pobres. Em tempos de crise, tudo vale para essa turma, como se a lógica econômica fosse alterada de acordo com a situação. Seria como ignorar a lei da gravidade num momento de crise, simplesmente porque me recuso a aceitar a inevitável queda após pular de um prédio. As leis econômicas não podem ser manipuladas pelo governo. E é realmente espantoso que um economista que acaba de ganhar o Prêmio Nobel ignore este fato. Estão transformando a ciência econômica num misticismo tolo, e o mais novo Nobel de economia não passa de um grande alquimista.

4 comentários:

Joao Melo disse...

Caro Rodrigo,

Além de sempre que possível, ler seus textos, também tenho acompanhando os do Krugman, inclusive comentado em meu blog. Porém, hoje você colocou o assunto de maneira brilhante.
PARABÉNS.

João Melo, direto da selva

Thomás disse...

Quando eu era pequeno olhava pro mundo e via os pobres. Aí pensava, como acho que muitos pensaram na primeira infância: "se eles são pobres, por que não imprimem dinheiro e dão pra eles?"

Acho que os keynesianos não saíram da primeira infância.

Marcelo Werlang de Assis disse...

Viva, mais uma vez, o Bem Comum!!!
O interessante é que a maioria dos ganhadores do Nobel sempre se compôs de gente "milagreira", inventando novas panacéias governamentais (isto é, pondo-as em novos rótulos, pois em essência são todas iguais)! O nosso saudoso amigo Mises já dissera que a principal causa de o keynesianismo vingar no mundo inteiro está no simples fato de suas dementes teorias justificarem através de cálculos "sérios" as barbáries econômicas cometidas pelos governos desde que o homem se conhece como homem! E ainda chamam Keynes de "economista genial"! É mesmo o Bem Comum!!!

Adriano disse...

Evite ressaca: mantenha-se bêbedo.
Parabéns pelo texto.