segunda-feira, maio 04, 2009

A Origem do Dinheiro



Rodrigo Constantino

“Se os governos desvalorizam a moeda para trair todos os credores, você educadamente chama este procedimento de ‘inflação’.” (George Bernard Shaw)

Qual a origem do dinheiro? Segundo Mises, o dinheiro não pode surgir por decreto estatal ou algum tipo de contrato social acordado entre os cidadãos; ele deve sempre se originar num processo de livre mercado. O escambo, que os homens praticam desde os primórdios da civilização, conta com sérias limitações. Um problema crucial é a necessidade de um desejo mútuo coincidente, ou seja, os dois agentes envolvidos na troca precisam concordar exatamente com o que recebem em relação ao que oferecem. Outro problema é o das indivisibilidades, isto é, uma troca teria que ter a mesma magnitude de valor. Basta pensar na situação de alguém querendo trocar uma casa por vários produtos distintos, para mostrar a impraticabilidade desse método. Eis quando surge o dinheiro.

Em The Mystery of Banking, o economista Rothbard explica melhor a origem do dinheiro e os riscos inflacionários provenientes do papel-moeda. Justamente por conta dessas barreiras do escambo, que atende não mais que as demandas de uma vila primitiva, o próprio mercado criou gradualmente um meio de troca mais eficiente. Foi ficando claro para os comerciantes que o uso de uma commodity amplamente aceita como meio de troca fazia muito sentido. Em vez de um produtor de calçados ter que encontrar um vendedor de carne disposto a trocar exatamente carne por calçado, bastava ele vender no mercado seus produtos em troca desta commodity, e depois usá-la para comprar os bens que desejava. Para atender esta função, a commodity deveria ser demandada por seu valor intrínseco, ser divisível, portável e durável, além de apresentar um elevado valor por unidade. Durante a história, diversas commodities serviram como moeda, mas invariavelmente o ouro e a prata foram os escolhidos quando possível.

Com o tempo, surgiu a demanda por certo padrão homogêneo de commodity usada como moeda. Os reis estampavam seus rostos nas moedas de ouro, garantindo sua qualidade e peso, e em troca cobravam a “senhoriagem”. Automaticamente, surgiu o risco de o próprio governo alterar o peso das moedas e embolsar a diferença. Era o começo do “imposto inflacionário”, ou a desvalorização da moeda. Esta prática foi bastante facilitada com a introdução do papel como moeda, servindo no início como um certificado garantindo o peso do ouro. É importante notar que praticamente todas as moedas mais importantes, como o dólar, libra, marco ou franco, começaram simplesmente como nomes para diferentes unidades de peso do ouro ou prata. O dólar surgiu como o nome usado para a moeda de prata cunhada por um condado chamado Schlick, no século XVI. Suas moedas, com elevada reputação, eram chamadas thalers, e essa é a origem do termo dólar. Ele era apenas uma unidade de peso em relação à commodity que representava.

Naturalmente, o risco de falsificar a moeda sempre existiu, e por isso mesmo surgiu a demanda por padrões e selos de governos ou bancos. A falsificação de moeda é uma fraude, que enriquece o fraudador em detrimento do restante dos usuários da moeda. Os primeiros a receberem o dinheiro falsificado se beneficiam à custa dos últimos. O governo tem como função justamente evitar tal fraude, punindo com prisão os criminosos. O grande problema é quando o próprio governo adere à prática de “falsificação”, com o respaldo da lei. A invenção do papel-moeda foi um convite tentador para os governos embarcarem nessa nefasta prática inflacionária. Esse processo não foi instantâneo, e Rothbard explica passo a passo como ele ocorreu.

Em primeiro lugar, o governo deve garantir que os pedaços de papel são resgatáveis em seu equivalente em ouro. Caso contrário, ninguém irá aceitá-los voluntariamente. Em seguida, o governo geralmente tenta sustentar seu papel-moeda através de legislação coercitiva, instando o público a aceitá-lo, incluindo os credores de montantes em ouro, através das leis de “legal tender”. O papel-moeda passa a ser aceito como pagamento dos impostos, e os contratos privados são forçados a aceitar pagamento em papel. Quando a moeda começa a ser amplamente aceita e utilizada, o governo pode então inflar sua oferta para financiar seus gastos de forma menos escancarada. A inflação é o processo pelo qual o imposto escondido é usado para beneficiar o governo e os primeiros a receberem a nova moeda. Após um prazo suficiente, o governo adota um passo definitivo: corta a ligação da moeda com o ouro que ela representava antes. O dólar, por exemplo, passa a ter uma vida própria, independente do ouro que ele representava anteriormente, e o ouro passa a ser apenas uma commodity qualquer. O caminho para a inflação está totalmente livre de obstáculos.

O primeiro papel-moeda governamental do Ocidente, segundo Rothbard, foi emitido na província de Massachusetts em 1690. Sua origem ilustra muito bem o relato acima. Massachusetts estava acostumada a periódicas expedições militares contra a Quebec francesa, e os ataques bem-sucedidos permitiam o pagamento dos soldados com a pilhagem obtida. Dessa vez, no entanto, a expedição perdeu feio, e os soldados retornaram para Boston sem pagamento e descontentes. O governo de Massachusetts, então, precisava arrumar alguma outra forma para pagá-los. Em dezembro de 1690, foram impressos sete mil libras em notas de papel. O governo garantira que tais notas seriam resgatadas em ouro ou prata em poucos anos, e que novas notas não seriam emitidas. No entanto, já em fevereiro de 1691, o governo declarou não ter recursos novamente, e emitiu mais 40 mil libras em notas para pagar a dívida acumulada. Além disso, as notas não poderiam ser resgatadas pelos próximos 40 anos. As portas do inferno inflacionário estavam abertas!

Pelo menos em três vezes na história americana, desde o fim do período colonial, os americanos sofreram bastante com o sistema de fiat money. Durante a Revolução Americana, para financiar o esforço de guerra, o governo central emitiu vasta quantidade de papel-moeda, os “Continentals”. A desvalorização foi abrupta, e antes mesmo do término da guerra essas notas não tinham mais valor algum. O segundo período foi durante a guerra de 1812, quando os Estados Unidos saíram do padrão-ouro, mas retornaram dois anos depois. O terceiro período ocorreu durante a Guerra Civil, com a emissão dos greenbacks, notas não-resgatáveis para pagar a guerra. No final da guerra, os greenbacks tinham perdido metade de seu valor inicial. Mais recentemente, pode-se falar numa quarta fase de elevada inflação americana, na década de 1970. Após medidas keynesianas adotadas pelo governo, a inflação medida pelo índice de preço ao consumidor (CPI) subiu mais de 8% ao ano na década, fazendo com que o dólar perdesse metade de seu valor no período entre 1969 e 1979.

Quando os economistas “austríacos” são acusados de “fetiche” em relação à “relíquia bárbara”, por defenderem o padrão-ouro, Rothbard responde que eles apenas observam a história e notam que o ouro é sempre o escolhido como moeda pelo mercado. É com a introdução do papel-moeda sem lastro pelos governos que o perigo inflacionário surge. A origem do dinheiro está no livre mercado. A origem da inflação está no governo.

3 comentários:

joe blowe disse...

WRT the current monetary policy although I obviously have a limited understanding of the finer points of economic science, I believe the following to be true… (P>0.85)

GDP world - $ 55 trillion
GDP USA - $ 13.7 trillion
Taxes coll. US - $ 3.7 trillion
Gov expenses - $ 4.2 trillion deficit annual ( for the last few years….) ~$500 billion

Debt (sept 08) $ 10.3 trillion (accumulated till sep 08)
Chinese ‘held’ debt - $ 1.2 trillion (only)
Other countries - $ 3.1 trillion
FED ‘holds’ debt - $ 6.4 trillion - This is ‘held ‘ in Bonds that were never sold – i.e. thin air…

Since sept 08, we have added:
TARP - $ 0.7 trillion
Univ Med - $ 0.48 trillion
Stimulus - $ 0.7 trillion (good name for a roman emperor !)
For Banks - $ 1.0 trillion
Adding to another - $ 3.0 trillion , also made up from fresh air.
So now the DEBT sits at about $ 13 trillion - $ 13E12 on my calculator.

OF WHICH 10 TRILLION IS MADE UP OF THIN AIR…
(some say more, some say less….)

About 3 weeks ago, the US, the UK and Germany held an auction to sell their ‘BONDS’… nobody bought.

I would love to have someone explain to me how this is going to get paid up. They obviously cannot collect more in taxes, even if they slash Medicare and Medicaid, they still will be in no position to pay.
The inflationary pressure exerted by all this ‘monopoly’ money creation is amazing. Some economists have talked about 20 cents on the dollar…

Add to this:
Government takeover of businesses.
Support to unionization – ‘card check’ legislation.
The amazing invitation to wholesale fraud that all these ‘impossible-to-control-or-manage’ moneys create.
Cap & Trade.
Green technologies subsidies.
Credit card defaults, as the unemployment grows – the Debt in Credit Cards is of the order of $ 12 trillion.
The mortgage defaults – the CRA promoted mortgages and ‘NINJA’ loans of the order of $ 1.7 trillion.
The ‘promised’ Social Security support for the boomers, most of which have already lost 40 % of their retirement investments – another $ 20 trillion…

We’re in for a bumpy ride !

As a side issue, I often wondered how the Chinese and others would guarantee their loans. My investigation led me to ‘foreign ownership’ of the USA. Real State, Corporations, Casinos in Vegas, Beach houses, etc. These added up until Jan 2007 to 48%. A staggering ratio of foreign ownership – the Americans have been selling their country to sustain a huge population of non-producers. (in my estimation could be about ~ 100 million souls.) Some here would go on and blame the working American for a lavish undeserved lifestyle, I have a somewhat different take on it as you see.

fejuncor disse...

Mas haverão aqueles a seguir afirmando que inflção não tem causa Estatal, mas no mercado (coisas como produtividade privada, burocratoparastismo, o decurso histórico das crises relutarão em discutir) ou outras ainda mais estranhas à lógica tal "ganância", "consumismo" e congêneres.

jose disse...

it is obvious to me that the only way to mantain the development of the human culture in this world, is to finish with the money. Might seem crazy, but the most i think in this possibility, the most i believe it is the better solution for this point where we are now