sexta-feira, setembro 18, 2009

Sinuca de Bico



Rodrigo Constantino, para o Instituto Liberal

O governo sueco, junto com a fabricante Saab, apresentou uma oferta que promete ter a metade do preço dos concorrentes franceses e americanos para a compra de caças pelo governo brasileiro. Além disso, os suecos garantiram o compartilhamento de tecnologia para que o Brasil possa fabricar e até exportar os caças Grippen NG. A brasileira Embraer e a Saab integrariam sistemas, e o Brasil teria capacidade de decidir modificar e atualizar o avião no futuro.

A Aeronáutica não comentou ainda a proposta sueca, que será oficialmente apresentada na próxima semana. Resta saber qual será a postura do presidente Lula, que, apressado, declarou vitória francesa antes do tempo. O presidente anunciou, antes dos pareceres técnicos, a opção pela compra dos caças franceses Rafale, e transformou a visita do presidente Sarkozy num evento midiático. Agora, o governo tenta recuar, alegando que as negociações não foram concluídas. Mas o fato é que foi o próprio presidente quem declarou antecipadamente a vitória francesa. Como diz o jornal O Globo, “o presidente, a cada dia, tem menos compromisso com o que fala”.

Não sei dizer se a proposta sueca é melhor ou não que a francesa ou americana, pois não sou especialista no assunto. O problema é que o presidente Lula tampouco o é. Ao atropelar as análises técnicas, o presidente deu apenas mais um sinal de como os seus interesses pessoais políticos dominam toda a agenda do governo, misturando de forma irresponsável governo e Estado. Além disso, expôs a doença do centralismo de poder no país, onde o poder do presidente deixaria com inveja os ditadores militares do passado.

Agora o presidente se encontra numa verdadeira sinuca de bico: se fechar com os franceses, vai precisar de uma boa explicação técnica para recusar esta tentadora oferta sueca; se voltar atrás e fechar com os suecos, o presidente vai dar mais uma demonstração de que não é um homem de palavra, e que ninguém deve levar a sério o que ele diz. A questão é: alguém ainda leva a sério o que a “metamorfose ambulante” diz?

28 comentários:

Al Machado disse...
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Al Machado disse...

Sendo prático, acho que o melhor cenário é aquele em a assessoria do Presidente terá que fazer malabarismos verbais pra tentar mostrar que na verdade não foi bem isso que ele quis dizer... Ele fingirá que engana, de novo nós fingiremos que acreditamos, mas pelo menos será feita uma compra mais adequada.

Sei que é díficil, mas é oq espero.

Luiz Mário Brotherhood disse...

Pra ser bem dramático:

"Quem controla o passado, controla o futuro; quem controla o presente, controla o passado."

Rodrigo Kumpera disse...

Ele vai alegar que não sabia da proposta Sueca.

sicário disse...

Rodrigo,

não sou expert em armas, mas me parece que o avião frances não tendo ganho nenhuma concorrência e sendo o Grippen mais caro que o Hornet, já deveriam ser descartados.
Duvido da proposta sueca por ser um verdadeiro negócio da China! Para mim é noticia plantada. Não consigo vislumbrar que uma empresa dê tantas vantagens só para vender 36 exemplares de seu produto, e ainda transferir tecnologia! É claro que é um valor alto a ser recebido (parcelado) e não se vende aviões caça assim todos os dias; mas pelos valores expostos sendo o caça sueco, como escrevi anteriormente,mais caro, isso me intriga.
Se o avião custa algo em torno de 80 milhões de dólares, qual a vantagem real em desvalorizar esse produto a ponto dele ser competitivo em valores com um caça que só voa no espaço aéreo francês e o super hornet, com eficiência comprovada em combate?
Algo de podre há, no reino da corruPTalha.

Deus, pátria, família e liberdade!

Antonio disse...

É claro q essa decisão é puramente política, um acordo militar dessa envergadura não tem como não ser.
O avião que será adquirido, o preço, a tecnologia a ser transferida, o fato do Presidente ter deixado vazar uma informação (que era óbvia), isso tudo são detalhes, são bobagens.
O alinhamento político e estratégico que está sendo feito com a França é algo inédito no 3º mundo. Se vai ser bom ou não isso só o tempo dirá. Eu gosto de pensar que vai ser.

strafrechtswissenschaft disse...

Já deram uma lida nas asneiras que o Delfim Netto fala no globo de hohe (domingo)?

André Barros Leal disse...

A sinuca e bico está bem definida. Mas o aspecto principal nesta concorrencia é o técnico, contrariando a ideia do Supremo-Mor Lula ao dizer que a decisão é puramente política.

Pela lógica estratégica, a compra deve se apoiar em um simples argumento técnico: quem é o mais provável agressor para o país e que tipo de equipamento este país conta.

A resposta para esse embate é simples: apenas um país na america latina tem "investido" em aparatos militares e este país se chama Venezuela. Visto que as compras do Chavez se basearam puramente numa guerra fria que já não existe a 20 anos, os caças escolhidos foram os russos Sukoi.

Assim o aspecto de seleção é mais claro. pega-se os 3 modelos da concorrencia e coloca-os em comparação com os sukoi. Sem ver o resultado, eu optaria de cara para o F18, afinal ele tem aspectos pesados ao seu favor como sendo o único com testes efetivos em combates reais e assim como o F15, nunca foram abatidos*.

*O F15 foi abatido apenas uma vez... no filme "Atras das Linhas Inimigas", fora a ficção, o caça é praticamente imbatível.

Everardo disse...

Rodrigo, a sinuca de bico seria para o Lula, que obteria uma enorme vantagem para o seu país, ou para o presidente francês? Imagine se Lula tivesse anunciado a VENDA de aviões à França e depois a França desmentisse. Por que o nosso preconceito sempre se mostra assim?

Guilherme Scalzilli disse...

Por que mentir sobre o acordo militar?

As novas bases militares colombianas expandiram a esfera de influência estadunidense para uma ampla região da Amazônia brasileira. Elas completam as posições da IV Frota Naval dos EUA, no Oceano Atlântico. Não há coincidência na simultaneidade dessa mobilização armada com a divulgação dos imensos potenciais das reservas do pré-sal.
Há anos o Brasil pleiteia uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU. A absurda ausência do país tem o histórico patrocínio dos EUA, que não querem dividir esferas de influência na América Latina. A pretensa necessidade da tutela de Washington nasce da insuficiência material de nossas Forças Armadas.
Elas são realmente obsoletas e virtualmente inúteis. Os oficiais vomitam elogios à ditadura, enquanto o ministério da Defesa responde com afagos modernizadores. É necessário rever a impunidade dos torturadores e assassinos do regime militar, mas também fornecer condições materiais para que as Armas cumpram seu papel na manutenção do Estado de Direito.
Por menos democrático que pareça, nenhum governo do planeta divulga as minúcias de negociações militares. A transferência de tecnologia é imprescindível para compras da proporção que o país necessita. Ela sempre foi recusada pelas empresas norte-americanas, que só agora acenam com um recuo, ainda assim parcial e condicionado.
O poder de persuasão dos lobbies da indústria bélica é inimaginável, e vai muito além das simples (e já por si irrecusáveis) ofertas financeiras. Deve-se acompanhar com muito zelo a participação de jornalistas, “especialistas” e políticos nesse debate.
Por que de repente surgiram tantos defensores da Boeing e da Lockheed na imprensa nacional? Por que as análises insistem em evitar discutir os tais “méritos” da opção pela concorrente francesa? Por que, afinal, uma discussão de tamanha complexidade tem sido tão flagrantemente manipulada pelo noticiário?

Thiago Nogueira disse...

Rodrigo,

É por essas e outras que defendo a moderação de comentários em blogs. É claro, sempre haverão aqueles que dirão: "isto não é uma atitude digna de um liberal", mas isso não chega a ser um problema, pois já estamos carecas de saber que o blog é propriedade do seu autor. Problema é ter que lidar com um lunático como o Guilherme Scalzilli!

Espero que receba a minha crítica com bons olhos, pois o intuito é evitar que pessoas menos informadas venham até aqui e comprem as bobagens ditas por pseudo-liberais.

Abraços

Rodrigo Constantino disse...

Thiago, sem dúvida a liberação dos comentários não tem ligação com algum receio de ser acusado de censura. O blog é propriedade privada.

Mas eu resolvi liberar, mesmo sabendo que haveria poluição, porque acho que o resultado líquido é positivo. Veja: os curiosos poderão comparar argumentos, e para quem importa, ficará claro com quem está a razão.

Deixemos as bobagens de lado! E vamos continuar apresentando os bons argumentos em prol da liberdade individual.

Rodrigo

André Barros Leal disse...

Caramba... o Gulherme esqueceu de mencionar que os EUA já se consideram donos da amazonia (hehehe).

São essas palhaçadas que se espalham todos os dias pela rede que poluem tudo!

Thiago Nogueira disse...

Rodrigo,

Muito obrigado pela consideração dispensada. De fato, a intromissão de pessoas que não estão minimamente comprometidas com o liberalismo não é de todo mal. Os leitores mais interessados, saberão comparar as estultices ditas pela turma que prega uma participação ainda maior do governo na vida em sociedade com os argumentos dos liberais que estão verdadeiramente interessados em reduzir os gastos públicos e aumentar a liberdade individual.

Abraços

vinicius_falcão disse...

Na verdade, essa compra nem deveria ser feita e as forças armadas deveriam ser extintas.

É um bando de come e dorme que são sustentados com o nosso suado dinheiro.

Eu sei que chegarão aqui os defensores do "deus-governo" dizendo que vão invadir a amazônia e etc... Simples, treinem a polícia federal que ela pode defender a amazônia (fazendo os devidos reparos legais), ou então peçam tropas para governos de outros países para tanto.

Thiago Nogueira disse...

Vinicius,

Para todo e qualquer problema, existem pelo menos duas soluções: a solução ideal e a solução real.

O ideal seria que não tivessemos um governo e, last to least, forças armadas empenhadas em nossa proteção. Mas, infelizmente, estamos bem longe de um cenário como esse.

Sendo assim, só nos resta pensar na solução real: exigir uma negociação tranparente, que tenha como primeiro e último interesse o bem-estar dos cidadãos desse país.

A bem da verdade, nós - os contribuintes - somos os reais compradores dessas aeronaves e, por mais incrível que pareça, somos a única parte que não será ouvida durante as negociações.

É como se eu lhe delegasse a tarefa de comprar uma televisão para a minha casa e você decidisse que é melhor comprar um projetor, pois certamente você sabe o que fazer com o meu dinheiro muito melhor do que eu.

Antonio disse...

Poluição é dizer que uma nação não precisa de Forças Armadas.
Isso sim é poluição, e da grossa.

Thiago Nogueira disse...

Antonio,

Você se incomodaria de nos explicar porque dizer que não precisamos das Forças Armadas é poluição, e das grossas?

Imagino que para afirmar algo com tamanha convicção você tenha ótimos argumentos. Ou será que você apenas "gosta de pensar que é assim"?

Everardo disse...

Para o Estado, Thiago, qual a diferença entre as FA e a Polícia Federal? Se tem que ter um órgão com função defensiva, pouco importa o apelido. A sua atuação é necessária, e você admite quando opta por fazer auto defesa através da PF e não das FA.

Thiago Nogueira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Thiago Nogueira disse...

Everardo,

Caso você não tenha reparado, quem sugeriu que a PF fizesse as vezes das FA foi o Vinicius.

Eu me limitei a dizer que "o ideal seria que não tivessemos um governo e, last to least, forças armadas empenhadas em nossa proteção".

Se estiver interessado em saber um pouco mais sobre o meu ponto de vista, basta ler os textos do Leeson sobre este assunto, pois eu concordo com ele em gênero, número e grau.

Abraços

Ps.: Você vai encontrar os textos dele em http://www.peterleeson.com/Papers.html

Everardo disse...

Vinicius Falcão, a efetividade dos direitos nas relações interncionais, infelizmente, ainda dependem da existência de Forças Armadas. Internamente, também, não foi ainda resolvida essa questão. Um juíz faz jutiça com a caneta, mas a efetivação da sua sentença depende da existência de outro sistema: o da força, a polícia, os presídios, as armas. E uma FA de um pais pacífico deve, sim, ser bem remunerada, bem treinada e, de preferência, não utilizada. Isso é sinal de uma boa diplomacia.

André Barros Leal disse...

Por acaso, um dos unicos papais morais do governo é a defesa da nação contra agressões de outros países. Logicamente, a melhor ideia é que nenhum país possuisse forças armadas, mas isso infelizmente não é possivel.

No momento que o mundo estava todo caminhando para um futuro com menos guerras, babacas como o Chavez ficam comprando equipamentos militares e gerando medo por aqui.

O ideal era nao comprar nada, mas como temos um babaca se armando ao norte, temos que comprar caças.

Mas submarinos, aí já é demais...

Thiago Nogueira disse...

Everardo,

Em “Power and Market: Government and the Economy”, Murray Rothbard aborda esse assunto e diz que “uma oferta de serviços de defesa no livre-mercado significaria manter o axioma da sociedade livre, a saber, o de que não há uso de força física exceto em defesa contra aqueles usando a força para agredir as pessoas ou propriedades. Isso implicaria a completa ausência de um aparato estatal ou governamental; pois o Estado, ao contrário de todas as outras pessoas e instituições na sociedade, adquire seus recursos não através de trocas livremente acordadas, mas por um sistema de coerção unilateral chamado de ‘taxação’. A defesa numa sociedade livre (inclusive os serviços de defesa à pessoa e à propriedade como a proteção policial e cortes judiciais) teriam, portanto, que ser fornecida por pessoas ou firmas que (a) conseguissem seus recursos voluntariamente e não via coerção e (b) que não — como o Estado — se arrogassem de um monopólio compulsório de polícia e compulsão judicial. Somente essa provisão libertária de serviços de defesa seria consonante com um livre-mercado e com uma sociedade livre. Assim, as firmas de defesa teriam que ser tão livremente competitivas e não-coercitivas em relação a não-invasores como são todos os outros ofertantes de bens e serviços no livre-mercado. Serviços de defesa, como todos os outros serviços, estariam disponíveis no mercado e somente no mercado”.

Eu não entendo porque vocês continuam argumentando que serviços de defesa não podem ser fornecidos pelo mercado e que a proteção da propriedade privada e da soberania nacional deve ser feita pela ação coercitiva do governo.

Aliás, em “Power and Market”, Rothbard aponta o absurdo desse argumento: “Ao argumentar dessa forma [dizendo que o mercaod não pode suprir os serviços de defesa], eles são capturados numa insolúvel contradição, pois sancionam e advogam uma massiva invasão de propriedade pela própria agência [governo] que deveria defender as pessoas contra invasão! Pois um governo laissez-faire necessariamente teria que conseguir seus recursos pela invasão de propriedade chamada de taxação e arrogaria para si um monopólio compulsório dos serviços de defesa sobre alguma área territorial arbitrariamente designada. Os teóricos dos laissez-faire tentam redimir suas posições dessa flagrante contradição asseverando que um mercado puramente livre não poderia existir e que, portanto, aqueles que valoram altamente uma defesa forçosa contra violência devem defender o Estado [a despeito de sua negra história como a grande máquina de violência invasiva] como um mal necessário para a proteção das pessoas e propriedades”.

Antonio disse...

Thiago,

Conforme foi dito aqui, o ideal seria que nenhuma nação possuísse forças armadas, pois não tenho dúvidas que todos aqui querem a paz. Mas infelizmente não é assim.
As Grandes questões econômicas da era contemporânea é que levaram a humanidade aos campos de batalha (exemplos clássicos são a 1º Guerra Mundial e a Guerra Fria, onde nesse último não houve confronto, mas foram investidos recursos na indústria bélica de maneira nunca vista anteriormente). É só olhar a história.

O Brasil deve se armar sim! Mas para a defesa.

Essa é a minha opinião.

Everardo disse...

Thiago, não precisamos recorrer a esse tipo de pregação. Ela é clara. A questão não é a existência ou não do estado. Para esses "teóricos" as funções do estado devem ser preservadas e exercidas, mas pela iniciativa privada. Pense no que é um estado de direito, a quem todos se subordinam, que ainda tem falhas, e pense num estado em que juízes são nomeados pelo mercado.

Thiago Nogueira disse...

Everardo,

Em primeiro lugar: aderir ao jusnaturalismo e ao anarco-capitalismo não significa abolir o Estado de Direito. Sugiro que leia mais sobre ambos para não voltar a repetir essa bobagem.

Em segundo lugar: eu já refleti sobre os prejuízos e benefícios de ter uma justiça privada e posso listar - com facilidade até - os motivos que me levaram a crer que viver em um Estado onde os juízes sejam nomeados pelo mercado e o governo não tenha o monopólio da força seria indubitávelmente melhor.

E você? Pode listar os motivos que lhe levaram a crer que um Estado de Direito baseado na doutrina positivista - como o que temos hoje - e com o monopólio da força, é melhor e mais desejável?

Everardo disse...

Thiago, não se trata de dizer bobagem. Trata-se de não concordar com o seu pensamento. O fato de você já haver refletido sobre a viabilidade do jus naturalismo e do anarco-capitalismo não dá a segurança para que o mundo o adote. E ler mais não significa compreender melhor. Há pessoas que precisam ler mais ou repetidas vezes mais para entender o que outras compreendem muito bem de forma muito mais rápida.
Eu, confesso, tenho muitas limitações intelectuais. Um exemplo, é não compreender como se pode, ao mesmo tempo, aderir ao jus naturalismo sem abolir o estado de direito.
Quando você diz que temos um estado baseado na doutrina positivista, imagino que você resume o iluminismo a uma cartilha que poderia ser ou não adotada, e que pode hoje ser simplesmente rejeitada. E isso não dá para discutir aquí. Mas, suspeito que você não está confundindo positivismo filosófico com positivismo da norma jurídica.