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sexta-feira, julho 12, 2013

Que fase!

Rodrigo Constantino

Nelson Motta, em seu artigo de hoje no GLOBO, capturou em um parágrafo o momento bizarro que vivemos:

Estamos vivendo dias de espanto, com Renan Calheiros se tornando o paladino das forças do bem, ávidas para atender prontamente as reivindicações populares, mesmo cortando na carne do Senado, e com o apoio de Sarney! Estamos dependendo da independência, da grandeza, da integridade e do espírito público do PMDB de Henrique Alves e Eduardo Cunha para evitar desastres armados pelos estrategistas do Planalto e apoiados pelo PT e o PCdoB, como o plebiscito de araque. Que fase!

Eu tenho argumentado que o PMDB, com todos os seus inúmeros defeitos fisiológicos, que impedem que o Brasil avance mais rápido, também impede que ele vire uma grande Argentina. Depender dos políticos do PMDB como freio às investidas autoritárias do PT é realmente espantoso. Mas é o jeito. Que fase!

Volto a Nelson Motta para encerrar:

Quando 81% dos brasileiros avaliam os políticos como “corruptos ou muito corruptos”, para conter sua voracidade, associada a empresários inescrupulosos e funcionários venais, são criados incontáveis mecanismos de controle, e de controle do controle, aumentando o poder da burocracia e atrasando os projetos e investimentos públicos. Criando mais dificuldades para vender novas facilidades, aumentam a corrupção. São mais mãos a serem molhadas, mas o custo é sempre repassado aos consumidores finais: nós.

Mas o presidente do PT atribui as dificuldades do governo a falhas de comunicação, como se o governo não gastasse mais de um bilhão de reais por ano em triunfais campanhas publicitárias de João Santana vendendo o Brasil Maravilha de Lula e Dilma. Pelo contrário, o governo é vítima de seu excesso de comunicação, contrastado fragorosamente pela realidade das ruas.

sexta-feira, janeiro 04, 2013

Aprendendo a debater


Rodrigo Constantino, para o Instituto Liberal

Nelson Motta, em sua coluna do jornal O Globo de hoje, começa colocando o dedo na ferida: "A maneira mais estúpida, autoritária e desonesta de responder a alguma crítica é tentar desqualificar quem critica, porque revela a incapacidade de rebatê-la com argumentos e fatos, ideias e inteligência". Ou seja, muitos trocam argumentos por “coices e relinchos”, título de seu excelente artigo sobre a reação de muitos esquerdistas às críticas de Ferreira Gullar ao “mito” Lula.

Foi-me impossível ler tais palavras e não pensar automaticamente na mensagem que havia recebido ontem de noite de um leitor crítico. As críticas são sempre bem-vindas, pois, como sabia o outro Nelson, o Rodrigues, “os admiradores corrompem”. O problema é quando o crítico não quer realmente debater, pois prefere se cercar de suas “certezas” obtidas não pelo raciocínio, mas pelas emoções.

E esse foi justamente o caso. O leitor inicia sua mensagem comparando meu currículo e minha idade com a sua experiência profissional. Nada mais patético do que começar fazendo um apelo à autoridade. Em seguida, ele liga uma metralhadora giratória de slogans e clichês esquerdistas, alegando que a Petrobras é um “orgulho nacional”, que eu devo ser um tucano, um “vendilhão da Pátria”, um lacaio do império americano, e devo receber dinheiro das multinacionais para defender a privatização da estatal.

Tudo isso entre um “prezado” e um “cordialmente”. Ou seja, ele pensa que educação está somente na forma, e não no conteúdo do que é dito. Deve ser influência da TV Senado, com aqueles xingamentos chulos entre um “vossa excelência” e outro.

Mas isso é o de menos. O mais triste mesmo é o sujeito demonstrar, na largada, que não quer debater de verdade, focando em argumentos. Infelizmente, essa é a regra por aqui: sobram coices e relinchos, e faltam bons argumentos!  

Coices e relinchos

Nelson Motta, O GLOBO

A maneira mais estúpida, autoritária e desonesta de responder a alguma crítica é tentar desqualificar quem critica, porque revela a incapacidade de rebatê-la com argumentos e fatos, ideias e inteligência. A prática dos coices e relinchos verbais serve para esconder sentimentos de inferioridade e mascarar erros e intenções, mas é uma das mais populares e nefastas na atual discussão politica no Brasil.

A outra é responder acusando o adversário de já ter feito o mesmo, ou pior, e ter ficado impune. São formas primitivas e grosseiras de expressão na luta pelo poder, nivelando pela baixaria, e vai perder tempo quem tentar impor alguma racionalidade e educação ao debate digital.

Nem nos mais passionais bate-bocas sobre futebol alguém apela para a desqualificação pessoal, por inutilidade. Ser conservador ou liberal, gay ou hetero, honesto ou ladrão, preto ou branco, petista ou tucano, não vai fazer o gol não ser em impedimento, ser ou não ser pênalti. Numa metáfora de sabor lulístico, a politica é que está virando um Fla x Flu movido pelos instintos mais primitivos.

Na semana passada, Ferreira Gullar, considerado quase unanimemente o maior poeta vivo do Brasil, publicou na “Folha de S.Paulo” uma crônica criticando o mito Lula com dureza e argumentos, mas sem ofensas nem mentiras. Reproduzida em um “site progressista”, com o habitual patrocínio estatal, a crônica foi escoiceada pela militância digital.

Ler os cento e poucos comentários, a maioria das mesmas pessoas, escondidas sob nomes diferentes, exigiria uma máscara contra gases e adicional de insalubridade, mas uma pequena parte basta para revelar o todo. Acusavam Gullar, ex-comunista, de ter se vendido, porque alguém só pode mudar de ideia se levar dinheiro, relinchavam sobre a sua idade, sua saúde, sua virilidade, sua aparência, sua inteligencia, e até a sua poesia. E ninguém respondia a um só de seus argumentos.

Mas quem os lê? Só eles mesmos e seus companheiros de seita. E eu, em missão de pesquisa antropológica. Coitados, esses pobres diabos vão morrer sem ter lido um só verso de Gullar, sem saber o que perderam.

sexta-feira, setembro 09, 2011

O guerreiro do povo

NELSON MOTTA, O GLOBO

O grito de guerra dos militantes ainda ecoa no Planalto Central. "Dirceu guerreiro! Do povo brasileiro!", o refrão estremece o salão, como um canto de torcida organizada no estádio ou o coro de um funk carioca num bailão.
Mas Dirceu é guerreiro modesto e discreto, nunca falou sobre as suas ações revolucionárias, seus confrontos com as forças da repressão, suas batalhas de arma na mão pelo povo brasileiro. Talvez para não humilhar companheiros que não tiveram tanta bravura como ele na luta contra a ditadura, ou cometeram erros estratégicos que levaram à prisão e à morte de companheiros. Ou talvez porque nunca tenham acontecido. Quando lhe perguntam se matou alguém em combate, dá um sorrisinho maroto e faz cara de mistério.
O guerreiro chama a presidente Dilma de "companheira de armas", mas, embora ela tenha pago na própria carne pela sua coragem revolucionária, não há qualquer noticia, documento ou testemunha da presença de Dirceu, ou de "Daniel", seu nome de guerra, em nenhuma ação armada durante a ditadura. Talvez a Comissão da Verdade faça justiça à sua combatividade, ou desmascare o guerreiro que foi sem nunca ter sido. Talvez algum dia reapareçam os disquetes com a sua biografia escrita por Fernando Morais, em que ele dizia ter contado tudo sobre a sua vida guerreira, mas foram misteriosamente roubados da sua trincheira.
Na Câmara, ele foi um incansável guerreiro, se recusando a assinar a Constituição democrática de 88, batalhando pela rejeição da Lei de Responsabilidade Fiscal e denunciando o Plano Real como uma farsa eleitoreira da direita. Perdeu essas batalhas, mas não a sua guerra.
Notável estrategista, ele começou como um dos líderes estudantis que, em 1968, convocaram um congresso "secreto" da UNE em uma fazenda em Ibiúna, onde os 500 congressistas foram facilmente cercados pela polícia e o Exército e presos, aniquilando o movimento estudantil. Em entrevista recente, Dirceu disse que, mesmo cercado por centenas de policiais e soldados armados, "queria resistir", mas foi voto vencido. Com um guerreiro desses, o povo brasileiro não precisa de inimigos.