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quarta-feira, maio 15, 2013

Por uma direita unida

ATENÇÃO! Esse é o vídeo mais importante que gravei esse ano, quiçá nos últimos anos todos. E isso é porque considero o momento atual do Brasil realmente delicado! Sei que muitos, já sem esperanças, pensam que não tem jeito e querem jogar a toalha. Não! Nós vamos lutar, e vamos vencer!!! Para isso, precisamos de uma direita unida.



terça-feira, setembro 11, 2012

Ultraconservadores


Rodrigo Constantino, para a revista Voto

A imprensa brasileira sempre se refere aos Republicanos americanos como “ultraconservadores”. Quando Paul Ryan foi escolhido como vice na chapa de Mitt Romney, o destaque em nossa mídia foi o mesmo em todo lugar: um “ultraconservador” fora apontado para satisfazer os anseios da direita radical do “Tea Party”. Os membros deste movimento chegaram a ser chamados de “fascistas” pelo colunista Arnaldo Jabor em artigo recente.

Faz sentido usar este rótulo? O que defende, via de regra, o Partido Republicano? Quais são as ideias de Paul Ryan? Há alguma semelhança entre tais ideias e o fascismo, cujo ícone máximo foi Mussolini?

Antes de entrar na questão, vale dizer que não nutro muita simpatia pelos conservadores americanos. Considero-me um liberal, não no sentido americano, cuja esquerda “progressista” usurpou até mesmo o termo, que em seu conceito clássico quer dizer mais liberdade individual (entendida como ausência de coerção estatal). E os liberais clássicos possuem importantes divergências com os neoconservadores americanos, que ignoram em boa parte a tradição conservadora inglesa, que data de Edmund Burke.

Dito isso, quais são as principais bandeiras conservadoras nos Estados Unidos hoje? Se dependesse de nossa imprensa, a imagem pintada seria a de um neandertal. Nossos colunistas e jornalistas olham para a direita americana como se esta fosse formada basicamente por fundamentalistas religiosos, saudosistas da era medieval, que adorariam puxar suas mulheres pelo cabelo e manter escravos negros.

Naturalmente, uma pequena parcela da ala mais reacionária pode até se encaixar neste estereótipo, mas não faz nenhum sentido generalizar desta forma. Seria como dizer que todos os Democratas são comunistas que sonham com o modelo soviético, porque eles sem dúvida existem no partido.

Portanto, quando nossos “especialistas” pintam este quadro medonho, de criacionistas que abominam a ciência e de individualistas insensíveis que não ligam para os pobres, podemos estar certos de que se trata de uma caricatura absurda e injusta, feita deliberadamente ou por ignorância. Ao colocarem todos no mesmo saco, pretendem contaminar uma direita legítima com os excessos de um extremo numericamente insignificante.

E o que prega a direita então? Podemos usar até mesmo os radicais do “Tea Party” como exemplo. Sim, há gente extremista ali, manipulada por populistas de plantão. Mas, na essência, a mensagem libertária do movimento não guarda absolutamente nenhuma similaridade com aquilo que poderia ser chamado de “ultraconservador”, muito menos “fascista”. Na verdade, trata-se da antítese do fascismo!

Ora, o “Tea Party” defende muito menos estado, até mesmo um estado mínimo, que interfere muito pouco na vida dos indivíduos. O que há em comum com o fascismo, onde tudo é dentro do estado, para o estado? A visão autoritária, que trata cidadãos como súditos incapazes que necessitam da tutela estatal, está justamente representada pela esquerda democrata americana, cada vez mais intervencionista, a ponto de alguns falarem em “fascismo de esquerda”. Lembremos que o próprio Mussolini foi socialista.

Tentando resumir as principais bandeiras da direita americana, sabendo que vou pecar pelo simplismo, elas seriam: maior autonomia individual, sem tanto controle paternalista estatal; livre mercado, sem tantos resgates e subsídios por parte do governo; uma visão de papel predominante dos Estados Unidos como nação que lidera o mundo pelo exemplo (e pela força, quando necessário); o resgate de valores familiares tradicionais.

O resumo acima é muito reducionista e não abrange a complexidade da política americana. Mas acredito ter abordado os principais pontos, e justamente aqueles que tanto incomodam a nossa esquerda. Você é contra a tentativa de Obama de criar o SUS americano? Você acha que o estado não deve ser empresário nem arrecadar quase a metade do que é produzido pela iniciativa privada em nome da “justiça social”? Você rejeita o aborto e não acha legal ter um filho gay, ainda que respeite as escolhas no âmbito individual? Você não abraça o multiculturalismo sem restrições, por considerar que os valores da civilização Ocidental são superiores ao do Islã? Você é contra a legalização de todas as drogas?

Então parabéns: você é um “ultraconservador” pela ótica de nossa imprensa. Claro que é possível discordar de parte dessas crenças conservadoras sem ser um socialista. Eu mesmo tenho discordâncias com algumas posturas da direita americana, como já disse. Mas isso é bem diferente de rotular alguém de “ultraconservador” só porque não aderiu ao credo politicamente correto dos “progressistas”, defensores de altos impostos, tutela paternalista do estado e total relativismo moral.

Temo o dia em que uma pessoa que discorda da ideia “progressista” de que manter um harém de meninas, meninos e até cabras, ou de tirar à força 75% do ganho dos mais ricos, seja tachado por nossa mídia de “ultraconservador”. O termo perdeu totalmente seu sentido.

quarta-feira, junho 27, 2012

Ceticismo saudável

Rodrigo Constantino, para a revista Banco de Ideias do IL 

Rótulos como “direita” e “esquerda” são sempre limitados e perigosos. Não é possível enquadrar todo o arcabouço de idéias políticas, sociais e econômicas em um único termo. Feita esta ressalva, há uma direita que eu considero digna de todo meu apreço e respeito. Ela está (muito bem) representada por pensadores como João Pereira Coutinho, Luiz Felipe Pondé e Denis Rosenfield.

Por isso recomendo a leitura do novo livro que os três lançaram em conjunto, explicando em curtos ensaios porque viraram à direita. A marca característica desta direita seria o ceticismo diante de toda utopia racionalista, de todo projeto revolucionário que oferece “um mundo melhor”, um sistema “justo” e acabado. Ser conservador, para eles, significa adotar postura cautelosa frente a esta arrogância.

Rousseau seria o pai do totalitarismo moderno de esquerda, ao adotar postura canalha e sentimentalista que falsifica a realidade. Incapaz de amar o próximo, incluindo seus filhos que foram abandonados, Rousseau se declarou um amante da Humanidade, abstração que não nos obriga a encarar as imperfeições e desencontros em qualquer relacionamento com outro ser humano de carne e osso. Com base nesta farsa, Rousseau passou a pregar um estado totalitário, retirando a responsabilidade dos indivíduos.

Coutinho lembra que há direitas e direitas, ou seja, uma ala da dita direita pretende igualmente desqualificar o presente imperfeito em prol de um passado idealizado. Conservador, para ele, não pode ser o mesmo que reacionário. Se este quer fugir da realidade, aquele aceita o mundo como ele é, de forma realista frente a toda complexidade que o define. Mentalidades radicais, de direita ou esquerda, preferem modelos simplistas e dogmáticos como rota de fuga.

A linhagem de céticos vem de longa data, com pensadores como Edmund Burke, David Hume, Michael Oakeshott, Isaiah Berlin, entre outros. O principal alerta deles seria contra modelos que pretendem redesenhar o mundo de uma hora para outra. Normalmente paridos em torres de marfim acadêmicas, tais modelos ignoram toda a complexidade da realidade, mascaram a natureza humana e depositam fé onipotente na razão.

Já os conservadores preferiam o caminho da cautela, do respeito às tradições sobreviventes por tentativa e erro em um processo muito maior do que cada um de nós pode compreender com sua limitada inteligência. Criticar os hábitos e costumes dos antigos que chegaram até nós, sim, mas com humildade, com ímpeto reformista e não revolucionário.

A vida em sociedade pressupõe limites, um convívio civilizado com pessoas que possuem valores diferentes dos nossos, muitas vezes incomensuráveis. Há que se ter o cuidado de não cair no extremo oposto, qual seja, o relativismo moral e cultural exacerbado, incapaz de julgar com qualquer objetividade os costumes de um povo. A esquerda que faz vista grossa aos atos bárbaros de regimes totalitários islâmicos cai nesta armadilha, por exemplo.

Mas adotar postura de tolerância diante da pluralidade de valores, eis uma bandeira conservadora respeitável. O ser humano é frágil perante um mundo muitas vezes sem sentido, e esta visão trágica da vida, presente em Pondé, por exemplo, faz com que devamos ficar alertas contra utopias que nada mais são do que máscaras para nossa vaidade e nosso orgulho.

Denis Rosenfield resgata sua experiência com o PT em Porto Alegre, para nos lembrar como estes impulsos totalitários podem vir embalados por nomes nobres e mentirosos. Quando o estado se torna o ente que vai realizar a busca desta perfeição terrena, o indivíduo sempre acaba sacrificado no altar da causa impossível.

O livrinho, que tem 110 páginas apenas, merece ser lido por todos. O investimento de alguns minutos será altamente recompensado.

sábado, junho 02, 2012

A direita admirável

Meus comentários sobre o excelente livro "Por que virei à direita", de João Pereira Coutinho, Luiz Felipe Pondé e Denis Rosenfield. Mostro que o ceticismo contra utopias racionalistas é a marca característica dessa direita que tem todo o meu respeito e admiração.

PS: As marteladas que começam no meio do vídeo podem ser vistas metaforicamente como a esquerda tentando impedir o debate calcado em argumentos sólidos, "martelando" seus slogans e expressões vazias.


sexta-feira, abril 27, 2012

Ainda o caso do aborto

Rodrigo Constantino

Como já disse várias vezes, considero o tema do aborto um dos mais cabeludos de todos. A maior convicção que tenho é que devemos rejeitar ambos os extremos, quais sejam: os que alegam ser o feto um "parasita" no corpo da mãe e que, portanto, seu direito de propriedade é total (ela poderia retirar o feto já em fase adiantada da gestação); e os que assumem que no segundo da concepção já temos uma vida humana e, portanto, tomar a pílula do dia seguinte seria assassinato tal como uma mãe que estrangula seu bebê. Parecem posturas bem bizarras. Para quem tiver mais interesse em meus argumentos, gravei um vídeo sobre o assunto.

Mas o que eu queria focar agora é no grau de atraso do debate e das leis no Brasil, e também aproveitar para mostrar como nossa direita mais religiosa e fanática pode ser reacionária. Esta direita adota a segunda postura citada acima. Para eles, o feto no milésimo de segundo após a concepção já é um ser humano, e até a pílula do dia seguinte seria então crime hediondo, análogo a dar um tiro na nuca do bebezinho. Os membros desta direita acusam qualquer um que aceita a legalização do aborto, ainda que só para casos de estupro ou anencefalia, de "nazistas". Segundo eles ainda, uma pessoa não pode se dizer defensora das liberdades se tolera tais casos de aborto, pois estaria delegando ao estado o poder de dizer quem é ou não um ser humano.

Vamos, então, fazer uma rápida busca pela Wikipedia mesmo, para verificar um pouco da história do aborto. Aos que repetem tanto a questão dos tais valores "judaico-cristãos" e se sustentam na visão da Igreja Católica como bastião sobre o assunto, alguns trechos são bem interessantes. Por exemplo:

Os hebreus penalizavam somente os abortos causados por violência. Os antigos hebreus acreditavam que o feto não tinha existência humana antes do seu nascimento, e que o aborto em qualquer época da gravidez era completamente permissível, se se fazia em favor da vida e da saúde da grávida.


Aristóteles defendia que o feto se convertia em “humano” aos 40 dias da sua concepção se fosse masculino, e aos 90 se fosse feminino. Aristóteles recomendava o aborto para limitar o tamanho da família e na sua obra “Política” reservava esse direito à mãe.


Nem Santo Agostinho nem São Tomás de Aquino consideravam homicídio o aborto com início de termo (o segundo com base cm que o embrião não parece humano). Este ponto de vista foi adoptado pela Igreja no Concílio de Viena, em 1312, e nunca foi repudiado. A primeira colectânea de direito canónico, em vigor durante muito tempo (segundo o principal historiador da doutrina da Igreja sobre o aborto, John Connery, S. J.), defendia que o aborto só era homicídio depois de o feto já estar "formado" — mais ou menos no fim do 1." trimestre.


O Código Penal francês de 1791, em plena Revolução Francesa, determinava que todos os cúmplices de aborto fossem flagelados e condenados a 20 anos de prisão. O Código Penal francês de 1810, promulgado por Napoleão Bonaparte, previa a pena de morte para o aborto e o infanticídio. Depois, a pena de morte foi substituída pela prisão perpétua. 


O que podemos notar de interessante é que tanto os hebreus, como os gregos e os dois principais nomes da Igreja Católica medieval, Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, tinham uma visão do aborto bem mais moderada que a dos atuais conservadores radicais. É verdade que eles todos não contavam ainda com a ajuda da ciência microscópica, e que a Igreja determinou a excomunhão pela prática do aborto em 1869. É o avanço da ciência mudando as crenças religiosas. Por outro lado, é curioso notar que os revolucionários franceses e depois Napoleão Bonaparte, que se arrogavam o monopólio racionalista, condenaram com veemência o aborto em todos os casos.

A direita atual fica do lado dos jacobinos, e não de Aristóteles, Santo Agostinho ou Tomás de Aquino. No mínimo irônico, especialmente quando os liberais que aceitam a legalização do aborto com ressalvas são acusados por esta mesma direita de "jacobinos" (ou marxistas), de fazer o jogo da esquerda em prol da revolução cultural que irá destruir os valores da liberdade. 

Falando nisso, resta então verificar um pouco as legislações sobre aborto nos diferentes países. Será que esta direita está certa em sua paranóia, e que a legalização parcial do aborto é o começo do fim das liberdades, pela total relativização da vida "humana"? Será que permitir o aborto em certos casos leva ao nazismo? Vejamos:

Em 1935,o aborto foi legalizado na Islândia, na Dinamarca em 1937, e na Suécia em 1938.

O aborto não é restringido pela lei canadense. Desde 1969 que a lei permite a prática de aborto em situações de risco à saúde, e, a partir de 1973, a interrupção voluntária da gravidez deixou de ser ilegal.

O aborto é legal, desde os anos 70, na esmagadora maioria dos estados [americanos], só não é legal no Dakota do Sul. É também legal quando a mulher invoca factores socioeconómicos.

Alemanha: O aborto é permitido até às doze semanas a pedido da mulher após aconselhamento médico, ou em consequência de violação ou outro crime sexual. É também permitido após as doze semanas por razões médicas que possui, segundo a lei alemã, uma definição lata, incluindo saúde mental e condições sociais adversas.

Áustria: O aborto é permitido até as doze semanas a pedido da mulher (lei de 1975). Permitida após as doze semanas em caso de perigo de vida, risco de malformação do feto, mulher menor de 14 anos.

Bélgica: O aborto é permitido até as doze semanas quando a gravidez coloca em risco a mulher, razões sociais ou económicas. Permitida após as doze semanas em caso de sério risco para a saúde.

Itália: O aborto é permitido até aos noventa dias (entre as doze e treze semanas) por razões sociais (incluindo as condições familiares e/ou as circunstâncias em que se realizou a concepção), médicas ou económicas: de facto, a pedido da mulher. Permitida em qualquer momento em caso de risco de morte ou saúde física ou mental da mulher, risco de malformação do feto, violação ou crime sexual.


O aborto na França é permitido até as doze semanas a pedido da mulher caso não tenha razões para ser mãe; razões sociais ou económias. É exigido o aconselhamento da mulher. Permitida após as 12 semanas em caso de risco de morte ou saúde física da mulher, risco de malformação do feto. É necessária a certificação de dois médicos da situação.


O aborto na Espanha é permitido até a 14ª semana de gestação e, até a 22ª, desde que a gestação possa comprometer a vida ou a saúde da gestante ou constatada malformação no feto, se certificada por dois médicos. Após esse período, o aborto fica condicionado, a partir de laudos de um painel de médicos, à anomalia fetal que signifique risco à vida ou quando o feto sofrer de doença grave e incurável.

O aborto é permitido em Portugal até às dez semanas de gestação a pedido da grávida. 

O aborto é legal na Inglaterra, Escócia e País de Gales desde 1967.

Austrália: O aborto é permitido, desde 1977, até as vinte semanas de gravidez, e depois das vinte semanas, se prejudicar a saúde da mulher. A regulamentação requer que o aborto após as doze semanas de gestação têm que ser realizadas em “instituições licenciadas”, que são normalmente hospitais.

Como fica claro acima, a imensa maioria dos países ditos civilizados, desenvolvidos e com maior liberdade individual aceita o aborto em diversos casos. E em muitos casos há décadas! Isso apenas ilustra como o debate em nosso país é atrasado em vários aspectos, especialmente quando a religião se mete em demasia na vida dos outros. Ninguém vai virar ditadura comunista só porque aceitou que a mulher possa decidir manter ou não sua gestação, especialmente em casos delicados.

sexta-feira, abril 13, 2012

Pensamento binário


Rodrigo Constantino

O homem tem mania de rotular. O rótulo atende a algumas funções importantes, como facilitar a compreensão de certas características de forma mais rápida. Por exemplo, quando alguém diz que Fulano é um hippie, automaticamente formamos um esteriótipo do sujeito, com inúmeras características de seu estilo de vida e mentalidade.

Mas os rótulos também são perigosos, justamente porque simplificam demais. Nem sempre (ou quase nunca) será possível enquadrar alguém, com todas as suas crenças, em um único rótulo. Infelizmente, o brasileiro tem a mania de fazer isso, e vai um passo adiante: raciocina de forma binária. Enxerga tudo como se fosse preto ou branco.

O exemplo mais evidente desta prática é a disputa entre PT e PSDB na política. Quando você ataca o petismo, você é logo tachado de “tucano”. Mas muitos, como a quase totalidade dos liberais, condenam tanto o petismo como o tucanato. Este pode até ser visto como mais light, mas nem por isso merece elogios dos liberais. Reduzir o debate político nacional a um duelo entre PT e PSDB é limitar ao extremo as opções, excluindo na largada a alternativa liberal, a melhor de todas e que nenhum partido hoje defende como bandeira.

Só que não é apenas aí que a coisa complica. Mesmo entre a tal “direita” (na falta de termo melhor), há tanta divergência que seria impossível compilar crenças tão díspares em um único rótulo. Liberais e conservadores, para começo de conversa, advogam coisas bem diferentes, com algumas interseções. Mas mesmo entre conservadores existem tipos tão diferentes que seria injusto aplicar o mesmo termo para defini-los.

Os que chamo de conservadores de boa estirpe, por exemplo, merecem total respeito dos liberais. São os seguidores de Edmund Burke, Oakshott, Ortega y Gasset, entre outros. Indivíduos que valorizam a tradição, a família, o gradualismo na evolução dos costumes, pois são céticos com utopias racionalistas, com revoluções. Colocar no mesmo saco estes conservadores e aqueles que, no fundo, idealizam a Idade Média e adorariam resgatar uma teocracia católica autoritária parece absurdo e injusto.

O típico pensamento binário dos brasileiros se mostra evidente no debate de certos temas polêmicos. Quando liberais pregam a legalização das drogas, por compreenderem que tanto do ponto de vista dos direitos individuais como dos resultados catastróficos da guerra contra as drogas isso é o certo a se fazer, esses conservadores medievalistas os acusam de “esquerdistas”, de inocentes úteis da revolução cultural gramsciana. Nada mais falso. É totalmente viável condenar a fracassada guerra anti-drogas e ainda assim valorizar a família, as boas tradições (até porque a guerra contra as drogas não é tão antiga, e começou com Nixon apenas).

Da mesma forma, é evidente que nem todo critico da Igreja Católica aplaude o suposto racionalismo da Revolução Francesa. O mundo não se resume a uma disputa entre catolicismo e iluminismo, até porque existiram mais de um iluminismo. O escocês, por exemplo, não tem nada a ver com o francês, este sim vítima do que Hayek chamou de “arrogância fatal” dos racionalistas. Logo, os liberais têm todo direito de criticar o legado negativo do catolicismo, que é bem grande, sem precisar aplaudir Rousseau e companhia.

Esta abertura do mundo das idéias em mais do que duas dimensões simplistas não interessa aos conservadores religiosos mais radicais. Para estes, é interessante se apresentar como única alternativa aos petistas no poder, ou ao fanatismo islâmico em nível global. Desta forma, todos aqueles insatisfeitos com esta agenda petista ou preocupados com a ameaça muçulmana teriam que se curvar diante desses que defendem uma espécie de resgate da era medieval, com todo seu ranço misógino, sua homofobia, seu moralismo exacerbado, a censura e a união entre Igreja e Estado novamente, cuja separação foi conquistada a duras penas e muito sangue.

Os liberais não têm que evitar críticas a esses moralistas medievais para poder atacar a esquerda em geral e o PT em particular, ou para repudiar o atraso cultural em muitos países com predominância islâmica. O mundo não se divide apenas em fundamentalistas religiosos de um lado e socialistas materialistas do outro, ou em uma teocracia contra outra. A direita tacanha ocidental é tão condenável quanto a esquerda revolucionária. E o mundo, felizmente, não é binário.