Paulo Guedes, O GLOBO
Nossos escândalos políticos têm sólidos fundamentos. Refletem uma transição inacabada do Antigo Regime para a Grande Sociedade Aberta. Suas raízes penetraram fundo nos três poderes. Foram ampliadas a hipertrofia do Estado e sua excessiva centralização administrativa, herdadas do regime militar. As práticas políticas degeneradas, funcionais para a tomada e a manutenção do poder, são também atribuíveis à omissão do Legislativo.
É inaceitável que a única forma de conduzir as atividades políticas, desde o financiamento de campanhas até a obtenção de maiorias parlamentares, seja uma prática sistemática de escândalos a céu aberto. Os políticos brasileiros nos devem a iniciativa de uma reforma para o exercício adequado de suas atividades que os tornem novamente nossos representantes. E a reincidência dos malfeitos reflete também a impunidade prevalente, filha bastarda do corporativismo no Congresso e da omissão do Poder Judiciário em suas diversas instâncias.
Serão temas recorrentes na mídia nos próximos meses a CPI do Cachoeira e o julgamento do Mensalão. Poucas vezes a degradação moral do Estado brasileiro esteve tão exposta. Tráfico de influência, desvio de recursos públicos, compra de votos de parlamentares. Mas, em vez de alimentar uma sensação derrotista diante de novos episódios de corrupção, prefiro destacar mais uma oportunidade para a reconstrução do Estado brasileiro.
O aperfeiçoamento do regime democrático à luz de uma mídia atuante exige que tanto o Legislativo (Cachoeira) quanto o Judiciário (Mensalão) façam a sua parte. A corrupção e a impunidade são sintomas de um quadro institucional de baixa qualidade. Além desse imprescindível aperfeiçoamento institucional, há outros temas importantes a serem debatidos neste ano eleitoral.
O novo pacto federativo, com a redistribuição de recursos e atribuições hoje concentrados na União. A Constituição de 1988 exige a redefinição dos parâmetros para a distribuição de recursos orçamentários, sob pena de extinção dos Fundos de Participação dos Estados e dos Municípios. Outro tema associado será a distribuição dos royalties do petróleo. A presidente teria maciço apoio parlamentar para a descentralização operacional do Estado brasileiro. Apoio também para uma reforma administrativa que reduza o número de ministérios. O dinheiro tem de ir aonde o povo está. Longe de Brasília.
Idéias de um livre pensador sem medo da polêmica ou da patrulha dos "politicamente corretos".
Mostrando postagens com marcador reformas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador reformas. Mostrar todas as postagens
terça-feira, maio 01, 2012
terça-feira, abril 10, 2012
Admirável Brasil Novo
Raul Velloso, O Globo
O alarde sobre a perda de espaço da indústria de transformação no PIB brasileiro existe exatamente porque ninguém gosta de incorrer em perdas.
A indústria de transformação está perdendo participação, mas não tanto quanto a estatística sugere. Sabe-se que os preços da indústria têm caído em relação aos demais, especialmente ao setor de serviços – onde a escassez de oferta produz forte subida de preços. Assim, se deflacionássemos os valores originais pelos índices setoriais de preço, a queda de participação física seria menor.
Não se trata, portanto, de dizer que a indústria acabou, mas que o Brasil, a exemplo de outros países, está passando por uma transformação estrutural em favor dos demais setores. Esse é o ponto. O paradigma em vigor no passado já mudou ou está em processo de mudança. É de se esperar que, diante da perda, os representantes da indústria tendam a mostrar indignação, especialmente contra o tsunami cambial – um inimigo externo recente -, e que o governo se sinta premido a implementar medidas de alívio.
A indústria made in Brazil perde espaço basicamente por quatro motivos. Primeiro, porque poupamos pouco (especialmente no setor público), ou seja, mesmo arrecadando muito, adotamos um modelo de forte expansão dos gastos correntes. Por isso, o setor público investe pouco, criando gargalos e altos custos na infraestrutura de transportes. Há o fato de que o governo desaprendeu a planejar e gerir inversões, e também um viés ideológico anti-investimento privado de qualidade na infraestrutura. O Custo Brasil é gigantesco, tanto por isso, como porque há burocracia excessiva, corrupção e outras mazelas. Com margens apertadas, a indústria sofre mais.
Em segundo, porque os preços das nossas commodities de exportação dispararam, beneficiando diretamente um setor que não é a indústria. Em breve, com o pré-sal, seremos campeões também em petróleo de alta profundidade, e exportadores dessa commodity tecnologicamente sofisticada.
Em terceiro, porque a China, esbanjando poupança, vem implementando há trinta anos – ou mais – um modelo econômico baseado na inundação de produtos industrializados baratos no mundo ocidental. E, por último, porque o Brasil se tornou mais atrativo aos capitais externos por seus méritos (controle da dívida pública e estabilidade política), por seus deméritos (uma das maiores taxas de juros reais do mundo), e pelo demérito dos outros (crise mundial).
Vê-se que, enquanto a indústria perde, outros setores ganham. Basta lembrar o sucesso do pré-sal. Agora, não se trata mais do petróleo de águas rasas, mas do óleo extraído de águas profundas com sofisticada tecnologia made in Brazil.
Além do mais, a indústria brasileira padece do pecado de ter sido montada especialmente para atender ao mercado interno, na ideia de que o sistema original de proteção duraria para sempre. Só que o mundo resolveu reduzir as barreiras, e o Brasil não teve escolha: integrou-se mais aos mercados mundiais, desvendando uma pletora de “carroças”.
Tudo isso empurra o Brasil para a apreciação real da taxa de câmbio, o que vem ocorrendo há muito, e só não se dá em maior intensidade porque o Banco Central compra todos os dólares que consegue, ainda que essa compra seja financiada internamente a juros estratosféricos.
Sem preparo para enfrentar essa avalanche de mudanças, a indústria trava uma guerra inglória contra as forças naturais dos mercados e o modelo de crescimento dos gastos correntes. Nesse sentido, o governo vive uma difícil contradição. Quer ajudar a indústria, para o que lança medidas pontuais, mas gostaria de poder viabilizar maior crescimento global do PIB, o que exige maior volume de poupança de fora, a fim de complementar a reduzida geração de poupança interna que o seu modelo ocasiona.
O conflito está em que não há como trazer essa poupança sem ter um déficit de igual valor na conta corrente do Balanço de Pagamentos, o que requer maior apreciação cambial, maiores importações e, no fim, maiores déficits externos.
Não é por outro motivo que, nos governos Lula (até 2008), a taxa de investimento aumentou cerca de cinco pontos de porcentagem do PIB, enquanto o déficit externo (poupança externa) aumentava na mesma magnitude. Com o país impedido de importar serviços, e sendo campeão de competitividade em commodities, a indústria acaba sendo o primo pobre que precisa não crescer para tudo o mais funcionar. Estamos – ou não – num admirável mundo novo?
Com tantos desafios, é fundamental criar condições para a indústria se tornar mais competitiva de forma sustentável. Sem uma estratégia semelhante à que colocou a Embraer no brilhante patamar em que está, e dada a oferta mundial excedente de produtos industrializados do momento, é de se tentar outros caminhos. Nesse contexto, o principal andaime que dará sustentação à indústria é a concentração de investimentos em infraestrutura, especialmente de transportes, onde a carência é maior. Assim, estaremos pavimentando de forma mais sólida o caminho para o novo mundo que se ergue.
O alarde sobre a perda de espaço da indústria de transformação no PIB brasileiro existe exatamente porque ninguém gosta de incorrer em perdas.
A indústria de transformação está perdendo participação, mas não tanto quanto a estatística sugere. Sabe-se que os preços da indústria têm caído em relação aos demais, especialmente ao setor de serviços – onde a escassez de oferta produz forte subida de preços. Assim, se deflacionássemos os valores originais pelos índices setoriais de preço, a queda de participação física seria menor.
Não se trata, portanto, de dizer que a indústria acabou, mas que o Brasil, a exemplo de outros países, está passando por uma transformação estrutural em favor dos demais setores. Esse é o ponto. O paradigma em vigor no passado já mudou ou está em processo de mudança. É de se esperar que, diante da perda, os representantes da indústria tendam a mostrar indignação, especialmente contra o tsunami cambial – um inimigo externo recente -, e que o governo se sinta premido a implementar medidas de alívio.
A indústria made in Brazil perde espaço basicamente por quatro motivos. Primeiro, porque poupamos pouco (especialmente no setor público), ou seja, mesmo arrecadando muito, adotamos um modelo de forte expansão dos gastos correntes. Por isso, o setor público investe pouco, criando gargalos e altos custos na infraestrutura de transportes. Há o fato de que o governo desaprendeu a planejar e gerir inversões, e também um viés ideológico anti-investimento privado de qualidade na infraestrutura. O Custo Brasil é gigantesco, tanto por isso, como porque há burocracia excessiva, corrupção e outras mazelas. Com margens apertadas, a indústria sofre mais.
Em segundo, porque os preços das nossas commodities de exportação dispararam, beneficiando diretamente um setor que não é a indústria. Em breve, com o pré-sal, seremos campeões também em petróleo de alta profundidade, e exportadores dessa commodity tecnologicamente sofisticada.
Em terceiro, porque a China, esbanjando poupança, vem implementando há trinta anos – ou mais – um modelo econômico baseado na inundação de produtos industrializados baratos no mundo ocidental. E, por último, porque o Brasil se tornou mais atrativo aos capitais externos por seus méritos (controle da dívida pública e estabilidade política), por seus deméritos (uma das maiores taxas de juros reais do mundo), e pelo demérito dos outros (crise mundial).
Vê-se que, enquanto a indústria perde, outros setores ganham. Basta lembrar o sucesso do pré-sal. Agora, não se trata mais do petróleo de águas rasas, mas do óleo extraído de águas profundas com sofisticada tecnologia made in Brazil.
Além do mais, a indústria brasileira padece do pecado de ter sido montada especialmente para atender ao mercado interno, na ideia de que o sistema original de proteção duraria para sempre. Só que o mundo resolveu reduzir as barreiras, e o Brasil não teve escolha: integrou-se mais aos mercados mundiais, desvendando uma pletora de “carroças”.
Tudo isso empurra o Brasil para a apreciação real da taxa de câmbio, o que vem ocorrendo há muito, e só não se dá em maior intensidade porque o Banco Central compra todos os dólares que consegue, ainda que essa compra seja financiada internamente a juros estratosféricos.
Sem preparo para enfrentar essa avalanche de mudanças, a indústria trava uma guerra inglória contra as forças naturais dos mercados e o modelo de crescimento dos gastos correntes. Nesse sentido, o governo vive uma difícil contradição. Quer ajudar a indústria, para o que lança medidas pontuais, mas gostaria de poder viabilizar maior crescimento global do PIB, o que exige maior volume de poupança de fora, a fim de complementar a reduzida geração de poupança interna que o seu modelo ocasiona.
O conflito está em que não há como trazer essa poupança sem ter um déficit de igual valor na conta corrente do Balanço de Pagamentos, o que requer maior apreciação cambial, maiores importações e, no fim, maiores déficits externos.
Não é por outro motivo que, nos governos Lula (até 2008), a taxa de investimento aumentou cerca de cinco pontos de porcentagem do PIB, enquanto o déficit externo (poupança externa) aumentava na mesma magnitude. Com o país impedido de importar serviços, e sendo campeão de competitividade em commodities, a indústria acaba sendo o primo pobre que precisa não crescer para tudo o mais funcionar. Estamos – ou não – num admirável mundo novo?
Com tantos desafios, é fundamental criar condições para a indústria se tornar mais competitiva de forma sustentável. Sem uma estratégia semelhante à que colocou a Embraer no brilhante patamar em que está, e dada a oferta mundial excedente de produtos industrializados do momento, é de se tentar outros caminhos. Nesse contexto, o principal andaime que dará sustentação à indústria é a concentração de investimentos em infraestrutura, especialmente de transportes, onde a carência é maior. Assim, estaremos pavimentando de forma mais sólida o caminho para o novo mundo que se ergue.
quarta-feira, abril 04, 2012
Chega de pacotes!
Rodrigo Constantino
O governo Lula-Dilma anunciou seu oitavo pacote desde 2008, com o intuito de estimular a indústria nacional. Trata-se uma vez mais de medidas paliativas, pontuais, que partem da premissa de que o governo é capaz de selecionar, de cima para baixo, quais são os vencedores e os perdedores na economia. Alguns setores vão receber verdadeiros presentes, enquanto outros terão impostos aumentados para pagar parte da conta.
O BNDES terá aporte de mais R$ 45 bilhões, e deve reduzir a taxa de juros cobrada. Dependendo do setor, o prazo do financiamento será estendido para 120 meses, com taxa de apenas 5%. Ou seja, taxa de juros reais NEGATIVA! Eu também quero pegar dinheiro emprestado pagando juros abaixo da inflação! Eu e a torcida do Flamengo. Mas claro que apenas uma meia dúzia de grandes empresários terá acesso a esta molezinha. É sempre assim no capitalismo de compadres.
O que ameaça de fato nossa indústria? Qualquer economista sabe a resposta. São os velhos e conhecidos gargalos de nossa economia. O país possui mão de obra com baixa qualificação e produtividade. A infraestrutura é caótica. A carga tributária é absurda e complexa, fazendo com que uma média de 2.600 horas sejam necessárias apenas para pagar os impostos. As leis trabalhistas são anacrônicas, datam da Era Vargas com inspiração fascista, concedem privilégios demais e engessam o mercado de trabalho. E, last but not least, o custo do capital ainda é alto em relação ao resto do mundo.
Aqui é preciso dedicar algumas linhas. Por que o custo do capital é alto? Por que banqueiros são gananciosos? Ora, eles são gananciosos no mundo todo! Nossa taxa de juros é alta (e já nem é tão alta assim quando descontada a inflação) porque o governo gasta demais. Nosso Leviatã torra quase 40% do PIB, não deixando muito espaço para a poupança privada. Com estoque menor de capital poupado, claro que o preço deste capital tende a subir. Além disso, o BNDES empresta mais de R$ 150 bilhões por ano a taxas subsidiadas, fazendo com que a taxa de juros do restante da economia tenha que ser maior, para não gerar ainda mais inflação. Em suma, o custo do capital é elevado por culpa do próprio governo!
Mas pergunta se a presidente Dilma pretende fazer alguma reforma estrutural. Pergunta se este governo vai cortar gastos públicos de forma séria. Claro que não! Logo, resta apelar para "pacotes" inúteis, que beneficiam alguns "amigos do rei" enquanto afetam o restante de forma negativa. O governo não cria recursos do além. Para ele conceder privilégios, ele antes precisa tirar de alguém. Alguma dúvida de onde sairá o dinheiro? Basta olhar para seu próprio bolso, leitor.
Este é um governo protecionista, desenvolvimentista, que abraçou com vontade o modelo de capitalismo de estado, que concentra poder excessivo no governo central. A turma que está no poder parece realmente acreditar que pode selecionar vencedores e perdedores por decreto, de forma eficiente. Não pode! Todo modelo capitalista de estado fracassou, e não será diferente desta vez. Ele está sempre fadado ao fracasso. O planejamento central não funciona. A economia de mercado sim! E este governo petista está matando o que resta de livre mercado no Brasil.
A imagem que vem à cabeça com estes pacotes frequentes é daqueles desenhos animados antigos, em que o sujeito tentava estancar um vazamento com a mão direita, depois outro vazamento com a mão esquerda, depois com o pé direito, o pé esquerdo, até faltar membro para impedir o estouro geral do duto. É um governo medíocre, incapaz de compreender o funcionamento adequado da economia. É um governo arrogante, que tem a pretensão de controlar a economia de cima para baixo. Mas, como o cobertor é curto e as reformas não são feitas, quando o governo ajuda um companheiro industrial, ele tira de outro lugar, prejudicando o país como um todo.
Se o governo Dilma quer mesmo ajudar, então chega de tantos pacotes!
sexta-feira, março 23, 2012
Política do puxadinho
Rodrigo Constantino, para o Instituto Liberal
A presidente Dilma se reuniu com vários empresários e banqueiros nesta quinta-feira, para cobrar mais investimentos na economia. Influenciada pelas teorias keynesianas, Dilma acredita que basta despertar o “espírito animal” dos investidores para aquecer a economia e produzir crescimento maior. Além da retórica, o governo acenou com algumas medidas pontuais e paliativas para aliviar um pouco o setor industrial, pressionado pela concorrência externa.
A presidente, que possui em seu currículo de empreendedora basicamente a falência de uma loja que vendia objetos simples por R$ 1,99, parece não compreender muito como funciona a economia real. Os investidores dependem de muitos fatores concretos, que não costumam se alterar com base no “espírito animal”. O primeiro deles é a existência de um estoque razoável de poupança, necessário para financiar de forma sustentável os investimentos (a alternativa é por crédito sem lastro ou inflação, ambos insustentáveis).
Como sabemos, a poupança é limitada no país justamente porque o governo gasta demais. Com arrecadação tributária de quase 40%, sendo que quase tudo vai para gastos correntes, sobra muito pouco para investimentos produtivos. Para elevar a poupança doméstica para 25% do PIB, patamar que muitos analistas consideram adequado para garantir crescimento sustentável, o governo terá de reduzir os gastos públicos de forma substancial. Isso o governo não quer.
Além disso, todos estão cansados de saber sobre o custo Brasil, ou seja, os gargalos que impedem um ambiente favorável aos investimentos. Entre suas causas, temos uma burocracia asfixiante, uma mão de obra com baixa qualificação e produtividade, uma infraestrutura capenga, uma carga tributária absurda e complexa, uma lei trabalhista anacrônica com encargos muito elevados, entre outras coisas.
Portanto, chega a ser patética a tentativa do governo de pressionar os grandes empresários por maiores investimentos, uma vez que nenhum destes obstáculos criados pelo próprio governo serão retirados do caminho dos investidores. Essa “política de puxadinho” não pode substituir as necessárias reformas estruturais. Acreditar no contrário é aderir ao “espírito animal”, aquele com orelhas compridas que costuma ser usado como transporte de carga.
PS: Atribui-se a expressão "laissez faire" ao comerciante francês Legendre, que teria respondido desta maneira ao poderoso Colbert, quando este mercantilista perguntou o que mais o governo poderia fazer para ajudar os empresários. Que falta fez um Legendre na reunião com a presidente Dilma!
segunda-feira, março 12, 2012
Em busca do tempo perdido
Pedro Malan, Estadão
A sempre inteligente revista britânica The Economist, que já existia
havia quase 30 anos quando Marcel Proust nasceu, acaba de criar,
exatos 90 anos após a morte do grande escritor, um "índice Proust",
que procura medir o "tempo perdido", ou melhor, a extensão do
retrocesso (em anos) causado pela grave crise econômica, financeira e
fiscal que há quase meia década assola o mundo desenvolvido.
A medida até agora mais simples desse retrocesso já era preocupante:
dos 34 países mais "desenvolvidos", 28 não haviam alcançado, em 2011,
o nível de produto per capita que tinham em 2007. A revista The
Economist utiliza mais seis indicadores, além do produto interno bruto
(PIB): consumo privado, desemprego, salário real, preços de ativos
financeiros, preços de habitação e riqueza familiar. Uma média de
retrocessos - tempo perdido em anos - em cada uma das três categorias
em que estão agrupados esses indicadores produz o "índice Proust".
Alguns dos resultados: para a Grécia o relógio teria sido atrasado 12
anos. Irlanda, Itália, Portugal e Espanha teriam "perdido" sete anos
ou mais. A Inglaterra, oito. Os Estados Unidos, epicentro do abalo
sísmico que afetou a economia mundial, estariam, na média dos
indicadores acima, com um atraso de dez anos. A revista não apresenta
índices de Proust para países "em desenvolvimento". Mas é sabido que,
dentre os 150 membros desse grupo, cerca de 33 teriam, em 2011, renda
per capita inferior à que tinham em 2007.
Isso não significa, de forma alguma, nenhuma projeção para os anos à
frente que seriam necessários para recuperar os anos "perdidos". É
sabido que médias desse tipo podem encobrir tanto (ou mais) do que
revelam. E que alguns dos indicadores do índice acima podem mudar
muito mais rapidamente que outros, como, por exemplo, preços de
ativos, após longos períodos de declínio. O fato é que, em definitivo,
não era uma "marolinha", como se disse por aqui.
Os países de alta renda, cujas dificuldades têm consequências de ordem
sistêmica, em seu conjunto, deverão crescer menos de 2% entre 2007 e
2012, enquanto no mesmo período a China, a Índia e o Brasil deverão
crescer - e por motivos distintos - cerca de, respectivamente, 56%,
43% e 21%. Fica cada vez mais claro que esta crise está levando a uma
mudança estrutural na composição da demanda e da oferta globais. E
exigindo, de todos os países, respostas adequadas em termos de
políticas domésticas - para além da área econômica.
Não é apenas o mundo desenvolvido que precisa lançar-se numa
proustiana busca do tempo perdido para "recuperá-lo" - por meio de uma
melhor memória de seu passado, base para uma visão de seu futuro.
Permito-me ilustrar o ponto acima reproduzindo um texto recente: "Os
principais obstáculos do rápido desenvolvimento econômico são
internos, e não externos. Entre as restrições óbvias estão falhas de
governança, gastos desnecessários com subsídios (...), um histórico
terrível em termos de educação e saúde para a maioria da população,
leis trabalhistas rígidas, infraestrutura inadequada e restrições ao
uso eficiente da terra".
Como diria o grande Ancelmo Gois, "deve ser duro viver em um país
assim". Apesar de soar muito familiar, a observação vem de um livro
recém-lançado, com o título A Índia após a Crise Mundial, de Shankar
Acharya, ex-assessor econômico do chefe de Governo indiano. O que
sugere que, mesmo para um país que deve crescer mais que o dobro do
Brasil entre 2007 e 2012, existe uma enorme necessidade de "buscar o
tempo perdido". Até porque as deficiências mencionadas acima
constituem oportunidades de investimento e apontam para a necessidade
de continuidade no processo de reformas que permitiram o enorme
progresso daquele país.
A grande lição não deveria passar despercebida por nós, brasileiros. E
talvez não esteja. Em meu artigo neste espaço no segundo domingo do
mês passado (Vivendo e aprendendo), mencionei que os leilões de
concessão ao setor privado dos aeroportos de Guarulhos, Viracopos e
Brasília vinham com um atraso de muitos anos, mas representavam,
afinal, uma vitória do pragmatismo sobre a ideologia. Uma busca do
tempo perdido para recuperá-lo - pensando no futuro.
Pois bem, nas últimas semanas tivemos outro exemplo: com 14 anos de
atraso (tempo perdido) os fatos e os argumentos acabaram prevalecendo
sobre a ideologia e o corporativismo. O governo Dilma Rousseff, afinal
convencido de que o regime de previdência dos servidores públicos era
absolutamente insustentável no médio e no longo prazos, decidiu
mobilizar-se para mudá-lo, mostrando um entendimento que faltou ao
governo Lula.
Existem muitos outros avanços possíveis e necessários exatamente agora
que fica cada vez mais claro que o crescimento econômico sustentado a
taxas superiores a 4% ao ano exige uma taxa de investimento privado
mais elevada, especialmente em infraestrutura. Há que ampliar o regime
de concessões (já que o lulopetismo não pode ouvir falar em
privatizações) nessas áreas. E isso é urgente.
A ideia de que o problema fundamental do crescimento brasileiro é
reduzir juros e desvalorizar o câmbio ainda é muito arraigada entre
nós - assim como a suposição equivocada de que o governo pode colocar
as taxas reais de juros e câmbio onde quiser. Menos arraigada entre
nós é a necessidade de entender por que certos países foram e outros
estão sendo bem-sucedidos no presente, como os asiáticos. Estes
construíram um complexo e eficiente sistema educacional e uma
invejável estrutura logística de transportes, cadeias de suprimentos e
mecanismos pragmáticos de cooperação regional, sem perder de vista a
sua integração com o resto do mundo.
É muito importante extrair dessas experiências - nada ideológicas - as
lições corretas para o nosso futuro.
A sempre inteligente revista britânica The Economist, que já existia
havia quase 30 anos quando Marcel Proust nasceu, acaba de criar,
exatos 90 anos após a morte do grande escritor, um "índice Proust",
que procura medir o "tempo perdido", ou melhor, a extensão do
retrocesso (em anos) causado pela grave crise econômica, financeira e
fiscal que há quase meia década assola o mundo desenvolvido.
A medida até agora mais simples desse retrocesso já era preocupante:
dos 34 países mais "desenvolvidos", 28 não haviam alcançado, em 2011,
o nível de produto per capita que tinham em 2007. A revista The
Economist utiliza mais seis indicadores, além do produto interno bruto
(PIB): consumo privado, desemprego, salário real, preços de ativos
financeiros, preços de habitação e riqueza familiar. Uma média de
retrocessos - tempo perdido em anos - em cada uma das três categorias
em que estão agrupados esses indicadores produz o "índice Proust".
Alguns dos resultados: para a Grécia o relógio teria sido atrasado 12
anos. Irlanda, Itália, Portugal e Espanha teriam "perdido" sete anos
ou mais. A Inglaterra, oito. Os Estados Unidos, epicentro do abalo
sísmico que afetou a economia mundial, estariam, na média dos
indicadores acima, com um atraso de dez anos. A revista não apresenta
índices de Proust para países "em desenvolvimento". Mas é sabido que,
dentre os 150 membros desse grupo, cerca de 33 teriam, em 2011, renda
per capita inferior à que tinham em 2007.
Isso não significa, de forma alguma, nenhuma projeção para os anos à
frente que seriam necessários para recuperar os anos "perdidos". É
sabido que médias desse tipo podem encobrir tanto (ou mais) do que
revelam. E que alguns dos indicadores do índice acima podem mudar
muito mais rapidamente que outros, como, por exemplo, preços de
ativos, após longos períodos de declínio. O fato é que, em definitivo,
não era uma "marolinha", como se disse por aqui.
Os países de alta renda, cujas dificuldades têm consequências de ordem
sistêmica, em seu conjunto, deverão crescer menos de 2% entre 2007 e
2012, enquanto no mesmo período a China, a Índia e o Brasil deverão
crescer - e por motivos distintos - cerca de, respectivamente, 56%,
43% e 21%. Fica cada vez mais claro que esta crise está levando a uma
mudança estrutural na composição da demanda e da oferta globais. E
exigindo, de todos os países, respostas adequadas em termos de
políticas domésticas - para além da área econômica.
Não é apenas o mundo desenvolvido que precisa lançar-se numa
proustiana busca do tempo perdido para "recuperá-lo" - por meio de uma
melhor memória de seu passado, base para uma visão de seu futuro.
Permito-me ilustrar o ponto acima reproduzindo um texto recente: "Os
principais obstáculos do rápido desenvolvimento econômico são
internos, e não externos. Entre as restrições óbvias estão falhas de
governança, gastos desnecessários com subsídios (...), um histórico
terrível em termos de educação e saúde para a maioria da população,
leis trabalhistas rígidas, infraestrutura inadequada e restrições ao
uso eficiente da terra".
Como diria o grande Ancelmo Gois, "deve ser duro viver em um país
assim". Apesar de soar muito familiar, a observação vem de um livro
recém-lançado, com o título A Índia após a Crise Mundial, de Shankar
Acharya, ex-assessor econômico do chefe de Governo indiano. O que
sugere que, mesmo para um país que deve crescer mais que o dobro do
Brasil entre 2007 e 2012, existe uma enorme necessidade de "buscar o
tempo perdido". Até porque as deficiências mencionadas acima
constituem oportunidades de investimento e apontam para a necessidade
de continuidade no processo de reformas que permitiram o enorme
progresso daquele país.
A grande lição não deveria passar despercebida por nós, brasileiros. E
talvez não esteja. Em meu artigo neste espaço no segundo domingo do
mês passado (Vivendo e aprendendo), mencionei que os leilões de
concessão ao setor privado dos aeroportos de Guarulhos, Viracopos e
Brasília vinham com um atraso de muitos anos, mas representavam,
afinal, uma vitória do pragmatismo sobre a ideologia. Uma busca do
tempo perdido para recuperá-lo - pensando no futuro.
Pois bem, nas últimas semanas tivemos outro exemplo: com 14 anos de
atraso (tempo perdido) os fatos e os argumentos acabaram prevalecendo
sobre a ideologia e o corporativismo. O governo Dilma Rousseff, afinal
convencido de que o regime de previdência dos servidores públicos era
absolutamente insustentável no médio e no longo prazos, decidiu
mobilizar-se para mudá-lo, mostrando um entendimento que faltou ao
governo Lula.
Existem muitos outros avanços possíveis e necessários exatamente agora
que fica cada vez mais claro que o crescimento econômico sustentado a
taxas superiores a 4% ao ano exige uma taxa de investimento privado
mais elevada, especialmente em infraestrutura. Há que ampliar o regime
de concessões (já que o lulopetismo não pode ouvir falar em
privatizações) nessas áreas. E isso é urgente.
A ideia de que o problema fundamental do crescimento brasileiro é
reduzir juros e desvalorizar o câmbio ainda é muito arraigada entre
nós - assim como a suposição equivocada de que o governo pode colocar
as taxas reais de juros e câmbio onde quiser. Menos arraigada entre
nós é a necessidade de entender por que certos países foram e outros
estão sendo bem-sucedidos no presente, como os asiáticos. Estes
construíram um complexo e eficiente sistema educacional e uma
invejável estrutura logística de transportes, cadeias de suprimentos e
mecanismos pragmáticos de cooperação regional, sem perder de vista a
sua integração com o resto do mundo.
É muito importante extrair dessas experiências - nada ideológicas - as
lições corretas para o nosso futuro.
terça-feira, dezembro 27, 2011
Um começo medíocre
Rodrigo Constantino, O GLOBO
O governo Dilma completa seu primeiro ano. O que pode ser dito sobre sua gestão até aqui? De forma resumida, o governo não parece à altura dos desafios que o país enfrenta. A sensação que fica é que a presidente deseja empurrar os problemas com a barriga, na expectativa de que cheguemos logo em 2014.
Durante as eleições, foi vendida a imagem de que Dilma era uma eficiente gestora que atuava nos bastidores. Deve ser uma atuação muito discreta mesmo, pois os resultados custam a aparecer. O que vimos foi uma série de atrasos em importantes obras públicas, além do corte nos investimentos como meio para atingir as metas fiscais, já que o governo foi incapaz de reduzir os gastos correntes. A privatização dos caóticos aeroportos nem saiu ainda!
A economia perdeu força e chega ao fim do ano com crescimento pífio. O Ibovespa cai quase 20%. A inflação deve romper o topo da já elevada meta, com o setor de serviços subindo mais de 9%. Trata-se do resultado dos estímulos estatais do modelo “desenvolvimentista”, que olha apenas o curto prazo. O BNDES, com seu “orçamento paralelo”, tenta compensar a ausência das reformas que dariam maior dinamismo à economia.
O país vive em um verdadeiro manicômio tributário, não apenas pela magnitude dos impostos, como por sua enorme complexidade. O que o governo fez? Tentou resgatar a CPMF. A receita tributária sobe sem parar, fruto da gula insaciável do governo. Para piorar, há sinais de incrível retrocesso protecionista, como na elevação do IPI para carros importados.
Nossas leis trabalhistas são ultrapassadas, distribuindo privilégios demais aos que possuem carteira assinada à custa daqueles na informalidade. As máfias sindicais vivem do indecente “imposto sindical”. O que fez o governo para reverter este quadro?
A demografia brasileira ainda permite algum tempo para reformar o sistema previdenciário antes de uma catástrofe nos moldes da Europa, lembrando que lá os países ao menos ficaram ricos antes de envelhecerem. Mas o Brasil, mesmo com população jovem, apresenta um rombo previdenciário insustentável. Onde está a reforma?
A educação pública no Brasil continua de péssima qualidade, e a presidente resolveu manter Fernando Haddad no ministério mesmo depois de seguidos tropeços. O MEC está cada vez mais ideologizado. Nada de concreto foi feito para enfrentar o corporativismo no setor e impor maior meritocracia.
Alguns podem argumentar que existe “vontade política”, mas a necessidade de preservar a “governabilidade” não permite grandes mudanças. Ora, foi o próprio PT quem buscou este modelo de poder! O presidente Lula teve oito anos para lutar por uma reforma política, mas o “mensalão” pareceu um atalho mais atraente. O governo ficou refém de uma colcha de retalhos sem nenhuma afinidade programática. Tudo se resume à partilha do butim da coisa pública.
O resultado está aí: “nunca antes na história deste país” tivemos tantos escândalos de corrupção em apenas um ano de governo. Seis ministros já caíram por conta disso, e outro está na corda bamba. E aqui surge o grande paradoxo: a popularidade da presidente segue em patamar elevado. A classe média parece ter acreditado na imagem de “faxineira” intolerante com os “malfeitos”. Se a gestora eficiente não convence mais em uma economia em franca desaceleração, então ao menos se tem a bandeira ética como refúgio.
Mas esta não resiste a um minuto de reflexão. Todos os escândalos foram apontados pela imprensa, e a reação do governo sempre foi a de ganhar tempo ou proteger os acusados. O caso mais recente, do ministro Fernando Pimentel, que prestou “consultorias” milionárias entre um cargo público e outro, derruba de vez a máscara da “faxina”. O caso se assemelha bastante ao de Palocci, e a própria presidente Dilma declarou que este só saiu porque quis.
Não há intolerância alguma com “malfeitos”. Ao contrário, este é um governo envolto em escândalos, cuja responsabilidade é, em última instância, sempre da própria presidente, que escolhe seus ministros. É questão de tempo até a maioria perceber que esta “faxina ética” não passa de um engodo.
O governo Dilma, em seu primeiro ano, não soube aproveitar o capital político fruto da popularidade elevada: não apresentou nenhuma reforma relevante; não cortou gastos públicos; reduziu os investimentos; ressuscitou fantasmas ideológicos como o protecionismo; não debelou a ameaça inflacionária; e entregou fraco crescimento. Isso tudo além dos infindáveis escândalos de corrupção. Um começo medíocre, sendo bastante obsequioso.
O governo Dilma completa seu primeiro ano. O que pode ser dito sobre sua gestão até aqui? De forma resumida, o governo não parece à altura dos desafios que o país enfrenta. A sensação que fica é que a presidente deseja empurrar os problemas com a barriga, na expectativa de que cheguemos logo em 2014.
Durante as eleições, foi vendida a imagem de que Dilma era uma eficiente gestora que atuava nos bastidores. Deve ser uma atuação muito discreta mesmo, pois os resultados custam a aparecer. O que vimos foi uma série de atrasos em importantes obras públicas, além do corte nos investimentos como meio para atingir as metas fiscais, já que o governo foi incapaz de reduzir os gastos correntes. A privatização dos caóticos aeroportos nem saiu ainda!
A economia perdeu força e chega ao fim do ano com crescimento pífio. O Ibovespa cai quase 20%. A inflação deve romper o topo da já elevada meta, com o setor de serviços subindo mais de 9%. Trata-se do resultado dos estímulos estatais do modelo “desenvolvimentista”, que olha apenas o curto prazo. O BNDES, com seu “orçamento paralelo”, tenta compensar a ausência das reformas que dariam maior dinamismo à economia.
O país vive em um verdadeiro manicômio tributário, não apenas pela magnitude dos impostos, como por sua enorme complexidade. O que o governo fez? Tentou resgatar a CPMF. A receita tributária sobe sem parar, fruto da gula insaciável do governo. Para piorar, há sinais de incrível retrocesso protecionista, como na elevação do IPI para carros importados.
Nossas leis trabalhistas são ultrapassadas, distribuindo privilégios demais aos que possuem carteira assinada à custa daqueles na informalidade. As máfias sindicais vivem do indecente “imposto sindical”. O que fez o governo para reverter este quadro?
A demografia brasileira ainda permite algum tempo para reformar o sistema previdenciário antes de uma catástrofe nos moldes da Europa, lembrando que lá os países ao menos ficaram ricos antes de envelhecerem. Mas o Brasil, mesmo com população jovem, apresenta um rombo previdenciário insustentável. Onde está a reforma?
A educação pública no Brasil continua de péssima qualidade, e a presidente resolveu manter Fernando Haddad no ministério mesmo depois de seguidos tropeços. O MEC está cada vez mais ideologizado. Nada de concreto foi feito para enfrentar o corporativismo no setor e impor maior meritocracia.
Alguns podem argumentar que existe “vontade política”, mas a necessidade de preservar a “governabilidade” não permite grandes mudanças. Ora, foi o próprio PT quem buscou este modelo de poder! O presidente Lula teve oito anos para lutar por uma reforma política, mas o “mensalão” pareceu um atalho mais atraente. O governo ficou refém de uma colcha de retalhos sem nenhuma afinidade programática. Tudo se resume à partilha do butim da coisa pública.
O resultado está aí: “nunca antes na história deste país” tivemos tantos escândalos de corrupção em apenas um ano de governo. Seis ministros já caíram por conta disso, e outro está na corda bamba. E aqui surge o grande paradoxo: a popularidade da presidente segue em patamar elevado. A classe média parece ter acreditado na imagem de “faxineira” intolerante com os “malfeitos”. Se a gestora eficiente não convence mais em uma economia em franca desaceleração, então ao menos se tem a bandeira ética como refúgio.
Mas esta não resiste a um minuto de reflexão. Todos os escândalos foram apontados pela imprensa, e a reação do governo sempre foi a de ganhar tempo ou proteger os acusados. O caso mais recente, do ministro Fernando Pimentel, que prestou “consultorias” milionárias entre um cargo público e outro, derruba de vez a máscara da “faxina”. O caso se assemelha bastante ao de Palocci, e a própria presidente Dilma declarou que este só saiu porque quis.
Não há intolerância alguma com “malfeitos”. Ao contrário, este é um governo envolto em escândalos, cuja responsabilidade é, em última instância, sempre da própria presidente, que escolhe seus ministros. É questão de tempo até a maioria perceber que esta “faxina ética” não passa de um engodo.
O governo Dilma, em seu primeiro ano, não soube aproveitar o capital político fruto da popularidade elevada: não apresentou nenhuma reforma relevante; não cortou gastos públicos; reduziu os investimentos; ressuscitou fantasmas ideológicos como o protecionismo; não debelou a ameaça inflacionária; e entregou fraco crescimento. Isso tudo além dos infindáveis escândalos de corrupção. Um começo medíocre, sendo bastante obsequioso.
Assinar:
Postagens (Atom)
