quarta-feira, abril 12, 2006

Falsa Dicotomia



Rodrigo Constantino

Muito se fala sobre um necessário trade-off entre inflação e desemprego. Uma das curvas mais famosas em economia é a de Phillips, que trata justamente desta relação: menos desemprego, mais inflação. Alban Phillips realizou um estudo empírico em 1958, cujos resultados logo foram abraçados pelos neo-keynesianos, felizes em argumentar que o governo poderia então controlar o nível de emprego com suas políticas. A princípio, Phillips tratava da relação entre aumento de salários e desemprego, mas as conclusões foram extrapoladas para a inflação e o desemprego. Esta mentalidade perdura até hoje, quando muitos economistas apresentam esta suposta dicotomia, exigindo uma escolha entre menos desemprego ou menos inflação. Mas será que tal relação é realmente válida?

Na década de 70, muitos países experimentaram uma estagflação, mistura de elevada inflação com elevado desemprego. Isso colocou a curva de Phillips em xeque. O nobel de Chicago, Milton Friedman, foi um dos que melhor explicou o fenômeno, lembrando que a inflação é basicamente um problema monetário, de excesso de circulação de moeda. Ele chamou a curva Phillips de uma ilusão. A escola austríaca também demonstrou, com sólido embasamento, que o desemprego era fruto de restrições criadas pelo próprio governo, não permitindo o livre funcionamento do mercado de trabalho. Murray Rothbard chegou a afirmar que a relação proposta pela curva Phillips era inversa, na verdade. Mas os adeptos de Keynes não desistiriam facilmente.

A curva foi adaptada, e o conceito de NAIRU (non-acelerating inflation rate of unemployment) foi criado, dando a entender que a partir de um certo nível de desemprego é que a inflação seria detonada. Tamanha é a influência do NAIRU que até mesmo o Fed, banco central americano, utiliza bastante seu conceito. Entretanto, a crença nesta teoria seria duramente abalada com os dados americanos, com cada vez menos desemprego sem correspondente aceleração da inflação. Para muitos, o nível do NAIRU seria em torno de 5,5% de desemprego. A taxa atual já está em 4,7% e nada da inflação explodir. Muitos economistas, perplexos, buscam novas explicações para o acontecimento “bizarro”.

Não pretendo me alongar no debate teórico sobre a relação entre inflação e desemprego. O tema é polêmico e há muita controvérsia ainda. Mas considero útil trazer o debate à tona, assim como dados empíricos recentes, já que não são poucos os economistas que condenam as rígidas metas de inflação no Brasil, como se um pouco mais de inflação fosse desejável para reduzirmos o desemprego. Erram o alvo. Os “desenvolvimentistas” são os principais proponentes desta dicotomia, a qual considero falsa. Podemos crescer de forma acelerada, reduzindo drasticamente o desemprego, sem que a inflação incomode. Afrouxar as metas de inflação não é o caminho. Reduzir os gastos públicos, aprovar reformas estruturais, atacar a burocracia e abrir mais o nosso comércio sim. Vários países seguiram esta trajetória e colheram os frutos, crescendo aceleradamente, sem inflação. Enquanto isso, outros mantiveram as armadilhas criadas pelo excesso de Estado e buscaram um crescimento calcado na maior tolerância com a inflação. O resultado foi infinitamente pior. Em alguns casos, catastrófico até.

Levantei dados de 40 países desde 1995 até 2004, usando a The Economist como fonte. A taxa média de desemprego no mundo neste período foi de 6,9%. A inflação média nos últimos 5 anos ficou em 3,8%. Não há praticamente correlação alguma entre a taxa média de desemprego e a inflação no período analisado. O Brasil apresentou desemprego médio de 8,3% para uma inflação de 8,7% desde 1999. Vários países tiveram taxas de desemprego menores, com inflação também menor. O Chile, nosso vizinho mais responsável, mostrou taxa média de desemprego de 7% para inflação média de apenas 2,7%. Tanto Inglaterra como Estados Unidos tiveram taxa de desemprego média de 6,2% enquanto a inflação permaneceu dentro do controle, perto de 2,5% ao ano. A Nova Zelândia, que realizou reformas liberais e reduziu o déficit público, apresentou desemprego de 6,1% durante o período, com inflação de apenas 2,4% ao ano. Tanto Taiwan como Cingapura praticamente não possuem desemprego, com taxas abaixo de 4%, ao mesmo tempo que a inflação média não chega a 1% por ano. Por outro lado, a Venezuela viveu com inflação bem maior, acima de 20% anual. Nem por isso foi capaz de levar sua taxa de desemprego média para baixo de 12%. Argentina e Rússia são outros casos de maior inflação com mais desemprego também.

Os exemplos são inúmeros. A relação entre a inflação e o desemprego é mais complexa do que parece. A curva de Phillips está longe de ser uma verdade irrefutável. Mais parece um mito. O NAIRU ainda necessita de mais fé que qualquer coisa para ser aceito. Os argumentos dos monetaristas balançam certas teorias convencionais. As teorias austríacas praticamente sepultam de vez as crenças dos keynesianos. E os dados empíricos recentes corroboram com a visão de que a dicotomia apresentada entre inflação e desemprego mais parece, na verdade, uma falsa dicotomia.

4 comentários:

Sergio Oliveira disse...

Precisamos privatizar o Governo. Mandar metade dos políticos embora, aumentar o poder do executivo, para que o governo não seja sempre apenas um mero jogo político de disputa de interesses (dos políticos e não do Brasil). Só assim se conseguirá fazer alguma coisa. Enquanto isso não acontecer, enquanto existir deputado, senador, vereador, e essas coisas inúteis, nada será possível para o Brasil. Não adianta nem debater. Enxugar gelo é o nosso destino enquanto essa realidade política permanecer como está.

Quem não quer ser político no Brasil ? Vida manda, salário alta, diversões na CPI, prostitutas em Brasília, 3 meses de férias por ano, trabalho de terça a quinta, cabide de empregos, etc.

Os políticos são o grande problema do Brasil. Apesar de um ou outro estarem bem intencionados, o conjunto da obra é podre.

O país hoje não é governado por uma pessoa só, mas sim por 1000 pessoas que ficam batendo cabeça tentando fazer alguma coisa. Quando se tem 1000 pessoas no poder, pelo menos 100 vão meter a mão na grana. Isso infelizmente é uma estatística da condição humana. Quando se tem apenas um, se tivermos um pouquinho só de sorte, andamos pra frente. Vide o caso de Getúlio Vargas, Jucelino, etc.

Ditadura militar não existe, estado novo talvez.

Sergio Oliveira disse...

Explicando melhor:

Ditadura militar é péssimo.

Estado Novo talvez não.

Anônimo disse...

Teoricamente o executivo deveria administrar o país segundo as leis aprovadas pelo legislativo.
O judiciário deveria exigir a aplicação das leis aprovadas e até julgar a coerência entre elas. Embora, curioso seja, que para criar leis seja exigido apenas, e por enquanto, que se saiba assinar o nome como prova de alfabetização, enquanto para exigir a aplicação destas leis seja necessário um grande estudo de filosofia e até argumentação. ...tudo bem, ...vá lá.

O fato é que se os políticos e autoridades sabem-se imunes às leis que criam e "interpretam", não têm grande apreço pela verdade e coerência destas. Porém, se os legisladores apenas pudessem se eleger UMA ÚNICA VEZ, e depois serem cidadãos sujeitos às leis, iguais a quaisquer outros pagadores de impostos (e não recebedores perpétuos de impostos e privilégios legais e oficiosos), certamente que tenderiam a serem justos nas leis que aprovariam. Pois a elas estariam sujeitos.
Mas as leis não são iguais para todos, e é a própria leoi que assim estabeece ...hehehe!
Uma aberração que passa despercebida. Fala-se que "todos devem ser iguais perante a lei", mas a própria lei estabelece regalias e diferenciação dos indivíduos ...hehehe!
A única solução seria que os legisladores se elegessem uma única vez, e não houvessem cargos vitalícios, nem recebedores de impostos vitalícios (que houvesse um prazo máximo para recebedores de impostos assim viverem).

Abraços
C. Mouro

Anônimo disse...

Me impressiona a leviandade dos economistas, ainda mais dos neo-liberais. Nos teus dados não figuram renda média da população, poder de compra, estratificação da renda pelos 20% mais pobres e ricos etc. Esses dados imprecisos traçados por economistas 'analistas' de mercado não conseguiram prever a crise do méxico, dos tigres asiáticos e se formos mais adiante nem a crise de 29. Os economistas não têm mais qualquer respaldo para falar sobre previsões econômicas e quando fazem se aproximam dos pais de santo - só que com calculadoras e computadores - a chance de sucesso das 'previsões científicas' no entanto são iguais. Estado mínimo? suas teorias não explicam a China e tampouco conseguem entender a espiral descendente que entraram os EUA. Os economistas precisam de mais história e menos números ...
Fernando Horta - Historiador