segunda-feira, abril 10, 2006

Habilidade de Resposta

Rodrigo Constantino

“Anytime we think the problem is out there, that thought is the problem; we empower what's out there to control us.” (Stephen Covey)

Um dos grandes divisores entre o grupo de indivíduos que cresce na vida e o grupo que apenas existe, como um animal instintivo, é a coragem de assumir erros. De um lado, aquelas pessoas virtuosas que admitem seus próprios defeitos, sempre na busca sincera pela excelência, para melhorar. Do outro, aqueles fracos que necessitam de bodes expiatórios o tempo todo, que culpam o mundo ao redor pelos seus males, que se colocam como vítimas. Uns são agentes ativos na vida, os outros são passivos diante de tudo. A distinção entre ambos os grupos é gritante.

As ações humanas, por mais influenciadas que possam ser por fatores exógenos, são sempre individuais. Indivíduos agem. A responsabilidade, portanto, deve ser individual. Lembro que responsabilidade vem de habilidade de resposta, fazendo responsável pelo ato aquele que o praticou. Eximir um indivíduo da responsabilidade de seu ato é o caminho certo da desgraça. Pessoas fracassadas costumam sempre depositar a culpa dos seus erros nos outros, de preferência algo bem vago como sociedade, miséria, deus etc. Essas pessoas seriam apenas marionetes, executando ações sem qualquer livre arbítrio. Autômatos guiados por uma força oculta qualquer. Compram assim a tranqüilidade de espírito, jogando para outros a culpa dos próprios erros. Jamais saem da completa mediocridade, no entanto.

Penso nessas coisas quando vejo que o julgamento da assassina dos próprios pais irá começar. A garota logo transfere para o ex-namorado a culpa do seu ato bárbaro. Usa a maconha como bode expiatório também. Ela não cometeu o frio e violento ato, segundo sua perspectiva. Foi “levada” a isso. E onde fica a responsabilidade individual?

Extrapolando essa característica para nações inteiras, vemos que os países miseráveis costumam sempre culpar bodes expiatórios externos pela sua desgraça. São sempre vítimas, transferindo a responsabilidade para outros agentes. A receita certa para se perpetuar a miséria.

O filósofo Schopenhauer já aconselhava nesse sentido: “Não devemos procurar desculpas, atenuar ou diminuir erros que foram manifestamente cometidos por nós, mas confessá-los e trazê-los, na sua grandeza, nitidamente diante dos olhos, a fim de poder tomar a decisão firme de evitá-los no futuro”. Um dos “pais fundadores” dos Estados Unidos, Benjamin Franklin, dizia que “os sábios aprendem com os erros dos outros e os ignorantes não aprendem nem com os próprios”. Esse foi um homem que buscou ser melhor a cada dia, sempre trazendo à tona seus próprios erros do passado, para com eles aprender.

O judeu Viktor Frankl, preso pelos nazistas, concluiu que “entre o estímulo e a resposta, o homem tem a liberdade de escolha”. Ele decidiu reagir da melhor forma possível diante daquela terrível situação. Não escolhemos tudo que se passa ao nosso redor, mas escolhemos como reagir a tais estímulos. E o nosso fracasso deve ser sempre uma lição. “Para os vencedores, os fracassos são uma inspiração; para os perdedores, o fracasso é uma derrota”, lembra Robert Kiyosaki. Uns ficam paralisados diante dos próprios erros, e logo partem para as tradicionais desculpas, jogando o problema para fora de si. Outros assumem a rédea da própria vida, entendendo que os erros devem ser enfrentados, assimilados e transformados em valiosas lições, para jamais serem repetidos.

Afinal, as ações são individuais. A habilidade de responder por elas também. Liberdade individual só pode andar junto com responsabilidade individual. Quem foge desta, se afasta daquela. Só é livre quem assume a responsabilidade pelos seus atos, sem a busca constante por culpados exógenos.

11 comentários:

Sergio Oliveira disse...

Excelente !!! Perfeito !!! Recomendo a todos o livro "Os 7 Hábitos das pessoas muito eficazes" do Stephen Covey. Eu já li 143 livros de auto-ajuda e todos são um lixo, com exceção desse !!! Consigo separar minha vida claramente entre antes desse livro e depois dele.

Quanto ao assunto tratado pelo Rodrigo, realmente as pessoas que se colocam de vítima para justificar sua própria incompetência ou estupidez são realmente insuportáveis. Mais insuportáveis ainda são aqueles que culpam o Brasil pela sua condição estagnada. E ainda mais insuportáveis são os orgulhosos que não possuem a grandeza de falar sorrindo: "Fiz merda. Pisei na bola. Errei!" Muitos se consideram infalíveis e procuram passar isso para a sociedade e os amigos, mas quando tentam dormir precisam de calmantes.

Não seria mais bonito e até uma melhor estratégia da defesa da assassina-pobrezinha se ela falasse: "Fiz merda. Quero pagar pelo o que eu fiz!" Talvez assim conseguisse uma pena menor...

Vin disse...

Essa coisa de culpar terceiros pelo fracasso pessoal, é bem típica dos comunistas.

Estes, por preguiça e incompetência, adoram viver num mundo de fantasia onde se busca apenas e tão somente o privilegio coletivo à custa dos esforços individuais.

Esta é lógica dos fracassados, dos inúteis, que, vira e mexe, responde com seu clichê pueril: "é culpa do sistema".

Ótimo texto, Rodrigo. E, para finalizar, lembro-me de Nietzsche: a verdade não é para todos...

Morgana disse...

Ótima abordagem.Usar os outros para acobertar os próprios erros e perpetuar esquemas de poder é uma técnica política sobejamente usada nos estados totalitários subdesenvolvidos.Herança da ocupação Luso Ibérica,quando não havia o primeiro mundo,mas usavam a palavra de Deus,e culpavam o diabo,mantendo sempre o seu domínio sobre a maioria,mais incauta no seu conhecimento.

Rodrigo Constantino disse...

Obrigado pelos elogios. De fato, o artigo é praticamente uma resenha dos "7 Hábitos", um dos poucos livros de "auto-ajuda" decentes. Essa coisa de se colocar como vítima e transferir a responsabilidade das coisas para terceiros é grave, e infelizmente comum. Espero ter contribuído para uma reflexão daqueles que costumam se colocar nessa posição passiva.

Francisco disse...

Rodrigo, posso usar este texto para tentar convencer um pessoal exatamente disto que tu mencionas?

Obrigado

Rodrigo Constantino disse...

Meus textos podem ser repassados citando o autor, sem problemas.

Francisco disse...

Beleza, muito obrigado.

giovanni torres disse...

Cadê os novos artigos? Tem uns cinquenta novos que você não pôs aqui ainda.

Anônimo disse...

Quando você fala de Deus, você usa letra minuscula por que ?

Anônimo disse...

Creio que o texto está bem estruturado e bem fundamentado, mas, ao meu ver, sem muita incidência na realidade.
Talvez se basearmo-nos em um humanismo exacerbado, to texto seria de grande proveito, onde o indivíduo é o grande responsável por tudo o que acontece em sua vida. Mas, acabamos por retirar toda e qualquer influência da rede de saberes de e de poderes que o rodeia.
Mesmo sabendo dessa possível liberdade humana, existem atos que simplesmente estão alheios ao indivíduo e que devem ser levados em conta. Falar que simplesmente todos devem "ser iguais" aracando com a responsabilidade de suas atitudes é muito vago e me parece um comentário de quem não tem conhecimento do que se passa nos diversos âmbitos sociais.
Cada pensamento é filho de sua época e do seu meio e o sujeito não possui traços de inovações tão relevantes assim de sua época. Ou seja, o discurso do indivíduo é concernente à sua época, e por conseguinte, suas atitides.
Vê-se na sociedade uma política pública deficitária e que não condiz com a necessidade das diversas camadas sociais. Assim, quem nasce na favela, terá sempre a mesma perspectiva de vida que toda a favela. E as frases "pre-conceituosas" sempre são ouvidas: "São todos vagabundos!" Ou então: "Cuidado com eles porque são maladros!"
Bem, meu ensejo aqui não é retirar qualquer responsabilidade de cada indivíduo, mas dar essa responsabilidade dentro dos moldes em que este indivíduo foi criado. Seria fora da lógica, por exemplo, querer que uma pessoa que nasce vendo os pais e seus amigos falando de sexo e fazendo-o, seja um ferrenho defensor da castidade. Ou então, esperar que alguém que nasce vendo os pais colocando o dinheiro acima de tudo na vida, ser um São Francisco de Assis e vai doar seus bens aos pobres! (E aliás, só existiu São Francisco de Assis porque seu meio permitiu!)
Enfim, somos filhos de nosso tempo e de nosso berço. Querer equiparar pensamentos e responsabilidades com um padrão geral, seria, no mínimo, injusto.

Anônimo disse...

Meu nome é Lucas e fui eu que postei o comentário acima. Foi como anônimo porque não soube colocar o nome!
Qualquer comentário ou crítica pode ser direcionado ao meu e-mail: lcregis@bol.com.br
Obrigado!