sexta-feira, novembro 23, 2007

O Culto do Multiculturalismo


Rodrigo Constantino

“Uma cultura só tem importância se for boa para os indivíduos”. (Kwame Anthony Appiah)

Uma das maiores ameaças à liberdade individual atualmente encontra-se no culto do multiculturalismo. Vários autores notaram este risco, entre eles Thomas Sowell, da Escola de Chicago. Em sua coletânea de textos Barbarians Inside the Gates, Sowell lembra que o mundo sempre foi multicultural, por séculos antes de o termo ser cunhado. Tratava-se de um multiculturalismo num sentido prático, diretamente oposto ao que o atual culto dos relativistas culturais prega. Como exemplos, Sowell lembra que o papel onde seu livro foi escrito fora inventado na China, as letras vieram da Roma antiga e os números da Índia, através dos árabes. O autor é um descendente da África, que escrevia enquanto escutava música de um compositor russo.

A razão pela qual tantas coisas se disseminam pelo mundo todo está no simples fato de que algumas coisas são consideradas melhores que outras, e as pessoas desejam o melhor para si. Esta obviedade é justamente o contrário do que o credo do multiculturalismo atual defende, alegando que nada é melhor ou pior, mas “apenas diferente”. Na verdade, as pessoas mundo afora não apenas “celebram a diversidade”, elas escolhem aquilo de sua própria cultura que desejam manter e aquilo que preferem abandonar em prol de algo melhor vindo de fora. Quando os índios americanos, por exemplo, viram os cavalos dos europeus, eles não se limitaram a “celebrar a diferença”, eles começaram a montar em vez de ir andando. À contramão do que o culto do multiculturalismo defende, as pessoas não buscam viver “em harmonia com a natureza”, e sim obter o melhor que puderem. Eis o motivo pelo qual, desde automóveis até antibióticos, os bens demandados se espalharam pelo mundo. Não importa o que os filósofos do multiculturalismo dizem, é isso que milhões de pessoas fazem.

Para Sowell, este tipo de multiculturalismo moderno é uma dessas afetações que algumas pessoas podem se dar ao luxo de ter enquanto estão usufruindo de todos os frutos da tecnologia moderna. Normalmente não são pessoas pobres vivendo em países muito atrasados que bradam sobre as “maravilhas” das diferentes culturas. São “intelectuais” de países desenvolvidos que olham com desdém para os processos que tornam possível a produção de todo tipo de conforto que desfrutam.

Uma cultura é, segundo a definição da Enciclopédia Britânica, um padrão integrado de conhecimento humano, crenças e comportamentos que são resultados da capacidade humana de aprendizagem e transmissão de conhecimento para as gerações seguintes. Cultura consiste então em língua, idéias, crenças, costumes, códigos de conduta, instituições, ferramentas, técnicas, rituais, arte, símbolos etc. A cultura de um povo pode evoluir com o tempo. Cultura se aprende. Os relativistas culturais tentam logo acusar de “nazistas” aqueles que conseguem enxergar objetivamente instituições e costumes superiores – ignorando que Hitler falava em superioridade racial dos arianos, algo que seria inato, não aprendido. O conceito de raça humana sequer faz muito sentido. Já estoque de conhecimento, instituições, valores e avanços não só existem e variam muito de cultura para cultura, como uns são bastante superiores a outros. Ou será que alguém realmente acredita que a cultura da Suíça é apenas “diferente” daquela existente no Zimbábue, e não melhor? Será que os costumes de sacrifício infantil praticados pelos incas seriam atualmente vistos como “apenas diferentes” pelos relativistas culturais? Como conciliar isso com a demanda por um código de direitos humanos universais?

Algo inerente aos relativistas culturais, pelo fator contraditório de suas crenças, é o constante uso de dois pesos e duas medidas. Ao mesmo tempo em que relativizam todas as barbaridades provenientes da cultura atrasada que pretendem defender, esquecem o relativismo e partem para a objetividade de julgamento na hora de condenar as culturas que detestam – normalmente as mais avançadas e livres. Assim, cortar o clitóris passa a ser apenas uma “diferença cultural”, como colocar um brinco na filha. Mas o “consumismo” ocidental é algo podre, que deve ser combatido, e não apenas uma “diferença” de valores. Uma cultura que prega a morte de “infiéis” é apenas uma cultura “diferente”, enquanto se um país for se defender dessa ameaça, sua “cultura belicosa” passa a ser repugnante. Os relativistas fingem não perceber que se “tudo vale”, porque nenhuma cultura é superior a outra, então um povo pode alegar ter como valor supremo em sua cultura o extermínio de outras culturas. Com qual critério objetivo um relativista consegue julgar algo, se tudo não passa de “diferenças culturais”?

O filósofo Kwame Anthony Appiah explicou de forma bastante objetiva os riscos da visão coletivista da cultura, em detrimento ao direito de livre escolha individual. O autor, nascido em Gana, é Ph.D. pela Universidade de Cambridge e lecionou em Harvard e Princeton, além de autor do livro Cosmopolitanism, onde defende que a globalização fez bem às culturas regionais. A globalização não uniformiza, diversifica. A reclusão é que exaure a inspiração. Culturas fechadas estão fadadas ao insucesso. Basta comparar a diversidade nos Estados Unidos, com inúmeras culturas diferentes convivendo lado a lado, com a maior homogeneização de uma Coréia do Norte, isolada do mundo.

A população deve ter a liberdade de escolha de quais produtos culturais deseja consumir. Appiah dá o exemplo das camisetas que os africanos usam, deixando de lado suas roupas coloridas tradicionais. Se as camisetas cumprem a função de cobrir o corpo e são mais baratas, que mal há em deixar as vestes tradicionais para ocasiões especiais apenas? Tirar o direito de escolha dos indivíduos em nome da “preservação cultural” beira o desumano, e normalmente quem pensa assim está longe, no conforto justamente de culturas mais liberais. O mesmo vale para o resto dos produtos existentes. Os indivíduos devem ser livres para decidir qual filme desejam assistir, quais músicas querem escutar ou qual comida pretendem comer. Quanto mais liberdade de mercado, com abertura para diferentes países e culturas, maior o número de opções disponíveis. Appiah chama de “preservacionistas culturais” aquelas pessoas com bom padrão de vida em algum país ocidental, normalmente, que olham para as culturas diferentes e exóticas como algo interessante, bonito, que deveriam ser mantidas para sempre da mesma forma. Mas, como Appiah diz, “se o costume é ruim para o bem-estar de uma grande parcela daquela população, o fato de fazer parte da cultura não é motivo para insistir no erro”.

O foco deve ser o indivíduo e sua liberdade de escolha, não a tribo, a nação ou a cultura. A cultura não é um fim em si, mas um meio para a felicidade dos indivíduos. E cada um deve ser livre para escolher como quer buscar sua felicidade. Eis justamente o que o culto do multiculturalismo deseja impedir.

8 comentários:

paulo roberto disse...

Quando penso em multiculturalismo,penso no discurso de Gilberto Gil.

raul disse...

gostei do texto, muito bom

MARCO ANTONIO disse...

Constantino,

Concordo com você. As culturas não são apenas diferentes entre si, há também variações no grau de tolerância, civilidade, mobilidade, prosperidade e liberdade.

Claro que a cultura cristã, que adota a liberdade individual como princípio, é superior às culturas pré-colombianas que praticavam sacrifícios humanos, sem nenhum respeito pela vida humana.

O mesmo podemos dizer do ocidentente ao longo dos séculos, quando o mundo se aboliu a escravidão. Quando abolimos a escravidão da nossa sociedade, evidentemente que ela se tornou superior ao que antes ela representava. Se podemos avaliar a evolução de determinadas culturas, como a nossa, por que então é proibido comparar culturas diferentes?

O politicamente correto pressupõe ser uma falta de respeito fazer comparações. É uma forma de atraso.

Um abraço.

Anônimo disse...

O sofismo dos multiculturalistas ocorreu assim:

1. Durante o tempo do Império Britânico, pensadores ingleses entraram em contato com muitas outras culturas, se interessaram por elas, passaram a estuda-las.
2. Tais pensadores tomaram como premissa, não supor A PRIORI que qualquer cultura fosse inferior à deles mesmos.
3. Posteriormente, gente mal intencionada transformou tal HIPÓTESE de trabalho (igualdade do valor daa culturas) em verdade INCONTESTÁVEL.

O truque é simples, bobo. Mas a atual indigência mental dos nossos estudantes torna-os presas fáceis dessa baboseira.

Desmistificador

r, disse...

excelente texto
porém, quando se fala que cada indivíduo escolhe o que quer usufruir , não podemos esquecer das questoes da possibilidade.pois,muitas vezes a cultura se apresenta de forma excludente não dando acesso aos menos favorecidos. E para mim hoje a cultura e economia formam um produto híbrido. E esse produto reverbera em comportamentos nocivos.

bebeto_maya disse...

Interessante...Fui para uma roda de côco aqui em Recife, ritmo musical típico da região, porém todas as músicas são iguais, a mesma batida e melodias monofônicas repetidas a exaustão.

Para os relativistas culturais, aquilo é tão bom quanto uma nona de Beethoven, eles próprios já chegaram ao ápice de afirmar que odiamos brega, pagode e "bunda-music" porque somos elitistas...

Bom, o coco pode ser bom para aqueles que dele usufruem, mas a tendência dessa gente politicamente correta é vender esse produto como verdade incontestável e aí daquele que ousar questionar a qualidade fina da autêntica música popular. O infeliz será taxado de racista, nazista e reacionário ao extremo.

Para os politicamente corretos, música negra é sempre boa, não importa se é um rap ou um Muddy Waters, é sempre bom. Já participei de fóruns onde os que falaram mal do 50 Cent, foram simplesmente nomeados como racistas. Detalhe: Falaram mal apenas da música e não do rapper. Enfim, a ditadura da esquerda cultural te obriga a gostar de lixo por fim da força.

Anônimo disse...

Caro Rodrigo, sugiro respeitosamente que estude mais acerca do Multiculturalismo antes de se aventurar sobre o tema. Recomendo que não leia somente pequenos trechos de um ou dois autores de sua estante e tire conclusões precipitadas a partir disso.

Thiago disse...

Bacana seu texto: claro, conciso, crítico sem histeria.
Cabe lembrar, entretanto, que há muitas questões aguardando melhores respostas:
1 - o quão 'universais' são nossos parâmetros ao julgarmos uma cultura (ou melhor, aspectos de uma determinada cultura) superior ou inferior? O quão 'universal' é possível ser?
2 - considerando a liberdade do indivíduo em abraçar determinada cultura (ou determinados aspectos de uma cultura), o quanto alguém pode/deve persuadir outro alguém a abraçar/abandonar determinada cultura (ou aspectos da mesma)? Tenho direito, em nome de um 'bem mundial', de impor mudanças a outrem?
3 - Ao 'colega' que falou da suposta superioridade da 'cultura cristã' sobre as pré-colombianas (e a vc, constantino) perguntaria também o quanto de fato uma 'cultura' se espalha por sua alegada superioridade e não por superioridade bélica de quem a pretende disseminar? No caso do declínio dos povos pré-colombianos, por exemplo, não é evidente que determinados aspectos positivos de suas culturas foram suprimidos em prol de interesses muito maiores do que espalhar a 'superioridade do cristianismo'?
Obs.: acho uma bobagem esse discurso de 'cultura cristã' e muito mais ainda o não reconhecimento dos aspectos absolutamente maléficos da mesma (e não só o que se consideraria benéfico).