quarta-feira, agosto 01, 2012

Batman Ressurge


Rodrigo Constantino

Fui ver o filme novo do Batman ontem. Gostei muito. Não só pelos efeitos especiais, mas pela mensagem. Sim, não foge àquele padrão americanófilo maniqueísta, de luta entre o bem e o mal. Sim, há algo de pulsão de morte nessa mania de destruir NY (Gotham é claramente NY) nas telas dos cinemas. Sim, há a visão redentora de que sempre se derrota as forças malignas no final.

Mas não é só isso. Batman é um símbolo da boa luta, uma idéia que persiste, apesar dos pesares, do niilismo que se espalha, do medo que o terrorismo produz nas pessoas, da angústia da falta de sentido no mundo e no mal. O Batman usa máscara pois não é um indivíduo, um messias salvador, e sim esta crença de que vale a pena fazer a coisa certa, resistir e lutar, ainda que a luta nunca tenha fim, uma vitória definitiva.

O Batman pode ser um garoto que compra briga com vândalos que espancavam um mendigo desconhecido na rua. Pode ser um homem que se joga nos trilhos de um trem para salvar uma estranha. O Batman é aquele que aceita o fardo de sacrificar alguns prazeres hedonistas se for por uma causa nobre. Batman tem senso de dever cívico. Sim, ele é a esperança. Resta saber quem consegue viver sem ela...

Bane, o novo vilão, é o mal em pessoa, ou seja, a completa ausência de empatia pelo próximo. Quando o caos anárquico se instala em Gothan City, a turba dá vazão a seus instintos mais destrutivos. A pilhagem começa, mostrando o perigo da crença na luta de classes, que jamais serve para construir algo bom, e sim para destruir o que existe. Os tribunais do povo são instaurados, como no Terror de Robespierre, com sentenças sumárias decididas pelo novo ditador. Sem o império da lei, a ordem dá lugar à tirania.

Como um dos heróis diz no filme, não adianta esperar ajuda de fora. É de dentro da cidade que terá de vir a força para resistir e virar o jogo. E não é sempre assim? Aqueles que esperam uma salvação exógena estão fadados ao fracasso. Os americanos conseguiram reconstruir sua cidade, retomar suas vidas, ainda que a “terra da liberdade” esteja com menos liberdade atualmente. Os fundamentalistas islâmicos, os comunistas, os nazistas, os niilistas, todos os antiamericanos continuam com suas metas patológicas de transformar NY em cinzas, mas a cidade resiste.

Há quem veja nas gigantescas torres arquitetônicas o símbolo da arrogância, da hubris americana, um convite ao ataque terrorista. Balela. É como culpar o rico em sua Ferrari pelo assalto que sofre. O sucesso, nos Estados Unidos, sempre foi admirado, em parte porque era fruto da meritocracia, de um modelo de livre concorrência onde um “self-made man” podia ir longe apenas com seu talento e esforço. Isso está mudando, mas não por culpa do sucesso, e sim dos invejosos igualitários, que enxergam no sucesso alheio um alvo a ser destruído.

Parte da explicação é que o modelo deixou de ser livre, e cada vez mais se parece com o capitalismo de compadres do resto do mundo, onde as conexões com o governo valem mais que o mérito pessoal. A saída não é acusar as torres, o sucesso, a riqueza, e sim apontar as falhas do novo modelo e resgatar o antigo. De nada adiantará culpar NY pelo terrorismo de que é alvo. A culpa é dos que não toleram o sucesso e a liberdade dos outros.

Infelizmente, estes sempre existirão, alienados e preparados para colocar em ações suas forças destrutivas. E por isso NY vai sempre precisar de Batman. Não um super-herói que, como um messias salvador, derrota sozinho as forças do mal. E sim como a idéia que persiste, não em todos, claro, ou nem mesmo na maioria; mas em alguns, em uma minoria que aceita o fardo, que abraça a luta porque é a coisa certa a fazer, ainda que isso possa significar enorme sacrifício pessoal. Estes fazem a diferença. Estes mantêm a chama da liberdade acesa.

Como disse Virgílio em Eneida: Tu ne cede malis sed contra audentior ito (não ceda ao mal, mas lute mais bravamente contra ele).

11 comentários:

Nairon De Alencar disse...

Assim como o filme coração valente, v de vingança, menina de ouro, etc. Este é mais um filme que mostra uma boa idéia.
Parabéns Rodrigo,
Espero que tu nunca ceda ao mal assim como eu nunca vou buscar glória inglória por difundir uma idéia ruim.

Anônimo disse...

Quando a mensagem é vaga, cada um vê o que quer.Já o Batman begins, do mesmo diretor, é claramente anti capitalista.O marginal que mata os pais do Batman é uma 'vítima' da sociedade...

Ivan disse...

Ainda não vi o filme. Mas já li críticas dos dois lados: há quem veja em "Batman Ressurge" um herói dos ricos, disposto a combater a massa de descontentes de Gotham guiados por Bane (numa clara alusão ao "Ocupe Wall Street"); já outros entendem o filme como uma crítica ao populismo demagogo e terrorista encarnado por Bane, que não pretende resolver os problemas da população, mas, antes disso, usá-la como massa de manobra.

O fato é que se realmente o último filme de Batman dirigido por Christopher Nolan mostra o "Cavaleiro das Trevas" como um nobre defensor dos "valores americanos", creio que se trata de uma visão deturpada (e até medíocre) do herói. O Batman definitivamente NÃO É O CAPITÃO AMÉRICA ! Quem acompanha as suas histórias nos quadrinhos sabe que ele é, sem dúvida, o herói mais soturno e complexo (do ponto de vista psicológico) que existe. A sua característica é justamente a ambivalência, ou seja, muitas vezes não é fácil distinguir o "bem" do "mal", o "vilão" do "mocinho". Quem já leu o já clássico "A Piada Mortal" sabe bem disso...

Por isso, acho que os dois filmes de Tim Burton, do início da década de 90, tinham captado melhor a "essência" do personagem...

Anônimo disse...

'os dois filmes de Tim Burton, do início da década de 90, tinham captado melhor a "essência" do personagem...'
[2]

Marcelo Lemos disse...

Muito bom, Rodrigo. Que o novo filme da trilogia seja "libertário",quer não, importa que sua analise da inveja dos "igualitários" está muito bem colocada.

Faço parte do movimento federalista, e se você permitir, gostaria de publicar algumas coisas suas no meu blog;

http://piromaniacovirtual.blogspot.com.br/

Abraços!

Anônimo disse...

Primeiro, GothaM City.
Segundo, o Batman não atua em NY e sim, em Gotham City que é uma cidade fictícia da DC.
E terceiro, não se metam em assuntos que não entendem por completo. O Nolan não fez o melhor filme do mundo, o Cavaleiro das Trevas Ressurge, como filme, não é tudo isso. A única conclusão que eu tiro dessa matéria é que se você ficou impressionado com esse filme é porque nunca leu uma história de quadrinhos realmente bem feita com um Batman de verdade e problemas de verdade, e que REALMENTE aborda por completo todas essas questões filosóficas/sociais/psicológicas aqui citadas. Bob Kane tinha muito mais em mente quando criou o que criou.

E, por último,

'os dois filmes de Tim Burton, do início da década de 90, tinham captado melhor a "essência" do personagem...'
[3]

Anônimo disse...

Primeiro, GothaM City.
Segundo, o Batman não atua em NY e sim, em Gotham City que é uma cidade fictícia da DC.
E terceiro, não se metam em assuntos que não entendem por completo. O Nolan não fez o melhor filme do mundo, o Cavaleiro das Trevas Ressurge, como filme, não é tudo isso. A única conclusão que eu tiro dessa matéria é que se você ficou impressionado com esse filme é porque nunca leu uma história de quadrinhos realmente bem feita com um Batman de verdade e problemas de verdade, e que REALMENTE aborda por completo todas essas questões filosóficas/sociais/psicológicas aqui citadas. Bob Kane tinha muito mais em mente quando criou o que criou.

E, por último,

'os dois filmes de Tim Burton, do início da década de 90, tinham captado melhor a "essência" do personagem...'
[3]

Anônimo disse...

Primeiro, GothaM City.
Segundo, o Batman não atua em NY e sim, em Gotham City que é uma cidade fictícia da DC.
E terceiro, não se metam em assuntos que não entendem por completo. O Nolan não fez o melhor filme do mundo, o Cavaleiro das Trevas Ressurge, como filme, não é tudo isso. A única conclusão que eu tiro dessa matéria é que se você ficou impressionado com esse filme é porque nunca leu uma história de quadrinhos realmente bem feita com um Batman de verdade e problemas de verdade, e que REALMENTE aborda por completo todas essas questões filosóficas/sociais/psicológicas aqui citadas. Bob Kane tinha muito mais em mente quando criou o que criou.

E, por último,

'os dois filmes de Tim Burton, do início da década de 90, tinham captado melhor a "essência" do personagem...'
[3]

Rodrigo Constantino disse...

Eu li a série do Cavaleiro das Trevas em revista especial, mas faz muitos anos! Lembro que me marcou o realismo de um herói humano, com issues, com desejo de vingança, com sede por violência. Eu era adolescente e teria que reler para refrescar a memória.

O artigo não é pretensioso. É apenas um desabafo de uma impressão que ficou, da luta contra o niilismo em nome da esperança.

Cíntia disse...

Bem cada um ver o que quer, né? Eu não vi nada disso de uma luta a favor da liberdade capitalista, essa não foi um história sobre uma ideia de capitalismo, e sim sobre um homem, Bruce Wayne, que em vários aspectos é contra essa ideia de mérito e lucro acima de tudo ( ele quase faliu a empresa por causa de um invenção potencialmente perigosa). Parte da culpa do ataque a gotham ( que é uma cidade dos quadrinhos, parecida com Nova York, mas não é uma alusão do novo estado capilista de nova york, ja que foi criada há mais de 70 anos, e sempre teve essa características de criminosos loucos, ataques "terroristas", máfia e criminosos pé de chinelo). Eu tenho uma visão contrária, Gotham cai por causa do medo, e do fato de sua paz está sustentada em uma mentira, e a pobreza é escondida debaixo do tapete. Bruce ao contrário preza ações filantrópicas como financiar orfanatos ( coisa que não faz mais nesse filme por causa da falta de lucro da empresa), criar um símbolo, não baseado num heroi captalista, mas alguém que luta contra a corrupção e pela justiça. Alguém que mesmo sendo bilionário, viu sua vida cair por causa da violência e repressão social. Isso é uma visão bem contraria ao que você falou. E bem Bane tinha as sua motivações, completamente loucas, mas ele fez o que fez por sentimentos, como assim dizer que é um personagem vazio assim, agindo pela inveja? Ele pelo contrário diz querer distruir Gotham por causa da sua "aura" corrupta e podridão e não por que ela era uma exemplo. Ahhh, bem essa é a minha visão, talvez faltou um pouco a leitura de quadrinhos de histórias como ano um, a piada mortal, o homem que ri, o longo dia das bruxa, queda do morcego, terra de ninguém (citei essas pois acredito que sejam inspirações para o filme). Bem, dizer que o batman de Tim Burton, onde o Bruce Wayne é uma figura decorativa e pouco aprofundada, sem grande parte dos traumas e dilemas, e que os pais foram mortos pelo coringa é uma visão mais próxima dos quadrinhos, me digam que quadrinhos vocês leram, pois considerando o que já li, A visão de Burton é aquela ótica sombria dele, é legal, mas a de Nolan pelo contrário é bem próxima dos quadrinhos.

sergio disse...

Além de ter uma boa história, é bem filmado e trabalhado. Pena que falta sexo...