sábado, agosto 25, 2012

O homem que lutava pela liberdade

João Luiz Mauad, O GLOBO


Se vivo fosse, Milton Friedman teria completado 100 anos no último dia 31 de julho.  Este franzino economista foi reconhecidamente, inclusive por seus oponentes, um grande pensador e acadêmico, além de conselheiro de dois presidentes americanos.

Porém, seu mais importante legado foi a desmistificação da ciência econômica, cujos princípios ele ensinou de forma magistral não só aos privilegiados alunos da Universidade de Chicago mas, principalmente, ao cidadão comum que, a exemplo deste escriba, teve a oportunidade de travar algum contato com seus livros, artigos, entrevistas e programas de TV.

A economia para Friedman não era uma ciência obscura, mas uma poderosa ferramenta analítica da ação humana, que ele utilizava com extrema perícia.  Falava com simplicidade, clareza e objetividade.  Jamais se escondeu atrás de títulos acadêmicos nem precisou utilizar jargões ou linguagem hermética para explicar teorias e conceitos econômicos intrincados e muitas vezes contra intuitivos.

Seus argumentos em defesa da liberdade em geral e do livre mercado em particular não eram apenas intelectualmente poderosos, eram externados com perspicácia, fina ironia e acima de tudo respeito aos interlocutores.  Embora fosse um obstinado guerreiro da liberdade, Friedman era um modelo de cordialidade, dotado de uma nobreza tal que, não raro, deixava sem palavras os seus adversários.

Defender o capitalismo de livre mercado não é tarefa simples.  É fácil olhar para uma família pobre do interior do Nordeste e afirmar, baseado no forte apelo emocional que tal imagem induz, que aquela família deve ser ajudada por programas governamentais.  Muito mais difícil e complexo é explicar que para financiar tais programas muitos impostos precisarão ser arrecadados, e que o dinheiro destinado ao pagamento desses impostos deixará de irrigar investimentos importantes, que criariam milhares de empregos.

É complicado também entender (e explicar) que programas assistencialistas costumam criar incentivos perversos, além desencadear consequências não intencionais que podem acabar por prejudicar exatamente aqueles a quem se pretendia ajudar.  A principal virtude de Friedman talvez tenha sido saber explicar, usando apenas poucas palavras, coisas que, para a maioria dos mortais, demandariam extensos livros.

Ao contrário do que afirmam seus adversários, a liberdade defendida por Friedman não visava o benefício dos ricos, mas da sociedade em geral.   O sistema de vouchers para a educação que idealizou, por exemplo, tinha por objeto dar aos pobres a mesma liberdade e alternativas de que dispõem os ricos na escolha das escolas para seus filhos.  Do mesmo modo, quando se opunha às leis de salário mínimo, ele tinha em mente justamente aqueles indivíduos que, devido à baixa qualificação e produtividade, são marginalizados do mercado formal de trabalho.

Em 1975, convidado por uma instituição privada, Friedman viajou ao Chile, onde teve um encontro de uma hora com Pinochet.  Aquele rápido encontro gerou diversas interpretações falsas sobre uma eventual consultoria econômica prestada à ditadura militar chilena.  Questionado a respeito daquela reunião, Friedman disse ter dado ao general os mesmos conselhos que costumava dar a todos os governantes com os quais se encontrou – alguns inclusive de esquerda, embora sobre esses ninguém jamais tenha mostrado qualquer preocupação ou indignação.  Na verdade, Friedman nunca trabalhou para a ditadura Pinochet, cuja economia ficou a cargo de economistas chilenos oriundos da Universidade de Chicago.  “O verdadeiro milagre chileno não foi o sucesso econômico alcançado, mas o fato de o governo ter ido contra suas crenças [autoritárias, centralizadoras e intervencionistas] e optado por um sistema desenhado e gerenciado por gente comprometida com os princípios do livre mercado”, disse ele tempos depois.

Liberal (no sentido clássico do termo), Friedman patrocinava de forma vigorosa não apenas a liberdade econômica, mas também a liberdade de expressão, de associação e de crença.   Para desgosto dos conservadores mais empedernidos, Friedman defendia a descriminação do consumo de drogas.   Segundo ele, “o governo tem tanto direito de dizer o que pode entrar em minha boca, quanto o que pode dela sair.”

O que diferencia os grandes homens é a coragem de defender suas convicções, a sabedoria para transmiti-las, além de energia e habilidade para trabalhar em prol daquilo em que acreditam.  Milton Friedman era genuinamente um desses homens.

12 comentários:

Nairon De Alencar disse...

Friedman não foi um verdadeiro defensor da liberdade, se o fosse jamais diria que "o governo tem direito de decidir sobre o que entra e sai de sua boca". Milton foi um defensor do banco central, estado minimo mas com estado. Governo nenhum tem o direito de decidir sobre a vida das pessoas, ele nunca saberá as verdadeiras demandas de cada indivíduo, por ai já da pra perceber porque milton friedman estava errado. Sinto muito, friedman trabalhou bastante, mas pro governo.

Victor disse...

Esta ideia, de que liberalismo vai beneficiar ricos, é furada.

Vamos comparar como que os pobres das ex-colônias Britânicas que seguiram um modelo liberal(ou próximo disto), vivem, com os das ex-colônicas, com um estado gigante. Alguém acha que um pobre nos EUA vive pior que um na Índia?

São os pobres e pequenos e médios produtores, que ganham com o liberalismo. O pobre que mal tem o que comer, não teria que pagar 35% de impostos na sexta básica, teria melhores empregos, pois mais empresas surgiriam e cresceriam, aumentando a demanda por mão de obra, que teria melhores serviços e produtos, por menor preço, devido a concorrência, etc.

Os ricos e grandes empresários, podem pagar lobistas, um departamento jurídico, etc; e usar o estado como garantia de monopólio. Um pequeno e médio produtor não pode fazer isto, aliais, tem que despender boa parte dos recursos, que poderiam ser usados para o crescimento da empresa, pagamento de dívidas, etc; para se adequar a regulamentos idiotas e pagar impostos escandinavos, para ter em "troca", serviços africanos.

Infelizmente, neste país, se você desvia dinheiro público, você tem tantos recursos, que dificilmente é preso, mas se você tenta produzir algum eletrônico, aparece um "exército", de sindicatos, conselhos regionais, órgãos reguladores, burocratas, etc; tentando te fazer não produzir. Por isto, muita gente que quer enriquecer, entra para a política e pouca gente tenta atender uma demanda.

Agora, Nairon De Alencar, não vejo problemas do Friedman defender um estado mínimo. Se você for estudar a formação das Máfias na Sicília, verá que não da para deixar 100% da justiça e segurança nas mãos da "iniciativa privada", como os anarco capitalistas defendem.

Anônimo disse...

“o governo tem tanto direito de dizer o que pode entrar em minha boca, quanto o que pode dela sair.”


O comentarista acima não entendeu o espírito da frase e a interpretou às avessas. Ele quis dizer, comentarista, que assim como o governo não tem o direito de dizer o que pode sair de sua boca, ou seja, de interferir na sua liberdade de expressão, também não teria o de determinar o que o indivíduo põe na própria boca, no caso, a droga (discordo dele neste caso, pois a droga causa problemas de segurança para terceiros e não se restringe ao próprio usuário, como ele dá a entender).

Você interpretou literalmente a construção do autor, não atentando para seu espírito ou sentido, comentarista.

Quando digo que a interpretação de texto (e contexto) neste país é caótica, não estou mentindo.

Servidor público liberal.

Anônimo disse...

Vejo que grande parte dos leitores que comentam não conseguem captar um ironia. Sinal dos tempos!!

Servidor público liberal

felipe d disse...

esses ancaps me cansam.

Anônimo disse...

Liberar as drogas seria como deixar buracos profundos pelo chão, onde alguns gostam de pular e podem sair, ao contrário de muitos outros. Existem formas mais sadias e humanas de liberdade, e os que costumam defender as outras, ou nunca pularam, ou nunca estiveram lá, no fundo do poço.

Lourival Marques disse...

Outro sinal dos tempos é alguém escrever "sexta básica" em vez de "cesta básica". Essa doeu!

Anônimo disse...

Um dia eu passava por uma rua e vi uma grande casa com a inscrição ANCAPS acima da porta, que estava aberta. Dei uma olhada para dentro e notei que havia uma outra placa onde estava escrito "Viver sem Estado" e alguns pais com crianças conversando. Curioso, perguntei a um dos pais: o que se faz aqui? Ao que esse pai respondeu: você não conhece o ANCAPS? É o jardim de infância liberal. Quando as crianças estiverem mais crescidas, passarão para o 1º ano do Estado Mínimo e assim sucessivamente, até o último ano de Estado Mínimo, quando saberão que o Estado é um mal necessário. Por enquanto, é bom que exercitem a fantasia da ausência de Estado.

Servidor público liberal

Lourival Marques disse...

Únicas atribuições legítimas do Estado, a meu ver: polícia, justiça, defesa militar, emissão de moeda e diplomacia. Mais nada...

samuel disse...

The best phrase: As Milton Friedman understood, an economy cannot spend or tax itself into prosperity

Victor disse...

"Outro sinal dos tempos é alguém escrever "sexta básica" em vez de "cesta básica". Essa doeu!"

R : Obrigado por me corrigir. Eu escrevi meu comentário, muito rápido e nem percebi o erro.

Pablo Moron disse...

Sexta básica é aquela sexta-feira que o pobre toma uma cervejinha com petiscos depois do trabalho para relaxar, o absurdo dos impostos sobre esses produtos é tão grande, que o pobre só tem condição de fazer duas sextas básicas por mês, esse anonimo não sabe de nada Victor, liga não!!!