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domingo, julho 21, 2013

Hierarquia estética

Rodrigo Constantino

Postei no Facebook no sábado pela manhã um trecho da ária da Rainha da Noite, de A Flauta Mágica, de Mozart, com o seguinte comentário: Mas há quem prefira funk... questão de gosto, de preferência subjetiva? Sim, sem dúvida. Assim como é questão de gosto quem prefere comer esterco em vez de caviar...

Alguns acharam que o comentário foi elitista, esnobe. Não! É apenas a tentativa de resgatar o fundamental direito de julgar, de respeitar certa hierarquia estética nesse mundo relativista, onde tudo tem que ser "igual" pois as diferenças ofendem. Quando "tudo" é arte, nada é arte!

Um dos que têm combatido esse relativismo estético - que, não se enganem, tem forte ligação com o ético - é Ferreira Gullar. Ele volta e meia utiliza sua coluna aos domingos na Ilustrada da Folha para bater nessa tecla, com razão. Voltou ao tema hoje, com um importante artigo defendendo que a beleza ainda põe mesa. Diz o poeta na abertura:

Arte sempre teve a ver com beleza, mesmo quando, aparentemente, mostra o feio, o horrível, o abjeto.

Não é fácil explicar o que acabo de afirmar. Para dizer a verdade, não sei ainda como explicá-lo, mas sei que o que disse é certo: a arte sempre teve (e tem) a ver com a beleza, porque, do contrário, não nos daria prazer. E não venham agora me dizer que arte não é para dar prazer. E seria para que, então? Para nos fazer sofrer é que não é, porque sofrimento já há demais na vida e ninguém gosta de sofrer, a não ser os masoquistas, que são doentes.

Inventei uma frase que o pessoal aí adotou e repete: "A arte existe porque a vida não basta". E é verdade. Não pretendo com isso dizer que a vida é só chatice e sofrimento. Não, a vida tem muita coisa boa e bela, mas, por mais que tenha, não nos basta. É que nós, seres humanos, sempre queremos mais. Mais alegria, mais felicidade, mais beleza.


O ser humano deseja o belo, e a beleza é fundamental. Infelizmente, vivemos em uma época de revolta contra tudo que é melhor, mais belo, mais refinado. É como se os medíocres tivessem descoberto seu poder numérico e desejassem destruir os melhores. O relativismo moral, ético e estético é exatamente isso. 

Suspender o julgamento porque todos são "iguais" em suas diferenças, e ninguém é melhor do que ninguém, significa a vitória do pior sobre o melhor, do feio sobre o belo. Pergunto: a quem isso interessa? Quando Mozart e Beethoven são jogados no mesmo saco que Valesca Popozuda e Tati Quebra-Barraco, quem sai perdendo e quem sai ganhando? Quando um linguajar chulo é equiparado a um texto clássico, quem ganha? Quando "nós pega os peixe" e Shakespeare são "apenas diferentes", quem perde? Gullar conclui:

O acaso é, sem dúvida, um fator presente na realização de qualquer obra de arte mas, a partir da Renascença, quando os pintores buscaram a execução cada vez mais perfeita, esse fator foi sendo quase anulado. Na época moderna, chegou-se ao extremo oposto mas, num caso como noutro, o que se buscava era a beleza.

Isso é diferente de certo tipo de manifestação artística contemporânea, em que não há qualquer preocupação com o apuro da linguagem utilizada. Em alguns casos, pelo contrário, o autor parece buscar o primarismo e o mau gosto, como a nos dizer que arte e beleza são coisas velhas, ultrapassadas.

Pelo bem da humanidade, espero que não sejam coisas velhas, ultrapassadas. A guerra é cultural, e os defensores da hierarquia estética estão perdendo batalha atrás de batalha. Que não seja tarde demais para virar o jogo. 

terça-feira, março 05, 2013

A Rede da demagogia

Rodrigo Constantino, O GLOBO

Há mais um partido na praça. Trata-se da Rede, de Marina Silva, candidata que recebeu 20 milhões de votos nas últimas eleições presidenciais. Tem muita gente cansada da dicotomia entre PT e PSDB, em busca de alguma alternativa. Será que a Rede é a solução? 

Confesso ao leitor que ela não me convence. Para começo de conversa, o partido fez como o fisiológico PSD, de Kassab, e alegou não ser de esquerda nem de direita, pró-governo nem oposição. Contudo, quando vamos verificar quem são as pessoas por trás dele, só encontramos gente de esquerda, inclusive da ala mais radical, aquela que ainda sonha com o fracassado socialismo cubano. 

Um de seus gurus intelectuais é Leonardo Boff, da Teologia da Libertação, uma mistura tosca entre cristianismo e marxismo. Marina veste literalmente o boné dos invasores de terra do MST. Vários membros do PSOL pretendem migrar para a Rede. E por aí vai. 

Alguns ali abraçam a cruzada ecológica, mas tampouco me enganam. São "melancias": verdes por fora, mas vermelhos por dentro. Seu discurso transforma o meio ambiente em religião antiprogresso, e dá para notar claramente o viés anticapitalista. O planeta será salvo pelo resgate do "bom selvagem", de uma vida comunitária idealizada, como no filme "Avatar". Estou fora dessa seita romântica! 

Resta a importante questão ética. Uma vez mais, eu não fico tão convencido. Em primeiro lugar, é preciso lembrar que Marina teve quase três décadas de filiação ao PT. E não é novidade alguma o uso de práticas imorais do partido em sua busca implacável pelo poder. Elas chegaram ao auge do absurdo com o mensalão, mas não foram iniciadas ali. Relações com o jogo do bicho, parceria com ditadores comunistas, até mesmo afinidade e aproximação com os guerrilheiros das FARC representam o histórico do PT desde muito tempo. A bandeira da ética sempre foi hipócrita, e está totalmente esgarçada pelas traças do poder. 

Esse rompimento tardio de Marina, que foi ministra de Lula, remete ao caso do escritor Saramago, que rompeu com Fidel Castro após uma nova perseguição a três intelectuais cubanos, ignorando os milhares de cadáveres acumulados na mais longa ditadura da América Latina. 

Marina Silva resolveu sair do PT apenas quando seu espaço político estava prejudicado. Mas ela fez parte do governo, ainda que não tenha praticado atos ilegais. Quando abandonou o PT, disse que foi preciso coragem para sair de sua "casa política", à qual ainda nutria profundo respeito. Quem respeita tanto assim o PT perde o meu respeito. 

A Rede fez muito barulho com a bandeira ética, tal como o PT de ontem. Mas começou mal, ao recusar dinheiro de empresas de tabaco e cerveja, mas aceitar o de empreiteiras (eu inverteria). Aceitou ainda gente do PSOL envolvida no escândalo do bicheiro Cachoeira. Será que Marina concorda com José Dirceu, para quem a Lei da Ficha Limpa é absurda? Caiu na Rede é peixe? 

Em suma, por trás daquela fala mansa e da mensagem messiânica (o próprio Alfredo Sirkis afirmou que se trata mais de um "estado de espírito" do que de prática política), jaz o embrião de mais um partido populista e demagógico, uma espécie de PT revigorado e embalado em alface orgânico. Um projeto personalista da "salvadora da pátria". 

O Brasil, infelizmente, continua com uma hegemonia de esquerda na vida política. Todos os partidos relevantes rezam o mesmo credo socialista envergonhado: intervencionista na economia, coletivista e paternalista no social. Nenhum fala abertamente em privatização, em redução do papel do governo na economia e em nossas vidas. Todos querem assumir o papel de "pai do povo" e controlar 40% do PIB nacional. 

O grande nome "novo" é Eduardo Campos, neto de Miguel Arraes e líder de um partido que ainda se diz socialista. Do lado dos tucanos, temos Aécio Neves, que parece o melhor da turma. Mas algo ali não cheira bem. Falta disposição para assumir uma postura efetiva de oposição. 

Os milhões de brasileiros cansados da completa falta de ética na política, do viés estatizante de todos esses partidos, continuam órfãos políticos, sem representação partidária. Sei que há partidos demais (legendas, na verdade), mas precisamos de uma alternativa verdadeira, sem medo de assumir sua posição de direita liberal, a favor do livre mercado, da família e da propriedade. 

Um partido que não venda ilusões e milagres por meio da pesada mão do Estado, mas sim reformas que devolvam o poder a cada um de nós. Um partido que diga "Basta!" a todos esses privilégios e subsídios estatais. Precisamos de algo realmente NOVO!

quinta-feira, novembro 29, 2012

Decisões morais


Contardo Calligaris, Folha de SP

É uma da tarde, e você dirige uma caminhonete pelas ruas de São Paulo. De repente, você esbarra num carro parado; ao lado dele, dois motoqueiros; um dos dois enfia seu braço armado pelo vidro do motorista do carro; o assaltante ameaça e grita, ele pode atirar a qualquer momento, quer seja porque não estão lhe entregando o que ele pediu, quer seja porque não gostou do que lhe foi entregue, quer seja porque, simplesmente, ele está nervoso e a fim de matar.
Atrás de você e da cena do assalto, só buzinam os mais afastados, que não enxergam o que está acontecendo. Os mais próximos ficam paralisados, divididos entre o medo e a vergonha por não reagirem e por serem cidadãos de um lugar onde isso é possível e corriqueiro.
Você está na posição ideal para pisar fundo e atropelar os dois meliantes, antes que atirem ou que fujam, ganhando, mais uma vez, dos assaltados e de todos nós.
Você não vai acelerar. É por medo de que o assaltante evite seu carro e acerte você com um tiro? É por preguiça de se envolver com polícia e investigação? Ou receia que cúmplices e familiares dos criminosos se vinguem?
Tudo bem, imaginemos que seja noite funda: não há ninguém, só os assaltantes, os assaltados e você. Ninguém verá nada. Ainda assim, você não vai acelerar?
Talvez prevaleça em você a inibição que paralisa a muitos na hora de machucar um semelhante, mesmo odioso. Ou talvez você queira agir "segundo a lei". Mas você sabe que a lei contempla e admite a "legítima defesa de terceiro"? Tudo bem, sua única obrigação jurídica é acionar a autoridade competente: fique no seu carro e ligue para a PM, uma viatura chegará a tempo para interromper o assalto e proteger os assaltados -não é verdade?
Ok, você hesitou demais, um dos assaltados acaba de ser baleado. Juridicamente, você não tem responsabilidade por não ter agido. A lei não exige de ninguém que seja herói. Mas será que isso é verdade também da moral? Você vai dormir tranquilo?
Outro dilema. Agora, imagine que, exatamente na mesma cena, você seja o assaltado. A caminhonete do dilema anterior apareceu, atropelou os assaltantes e sumiu. O bandido para quem você entregou sua bolsa está no asfalto, numa poça de sangue. Você faz o quê? Chama uma ambulância e espera para dar depoimento? Ou recupera o que lhe foi roubado e vai embora?
Já escrevi aqui mais de uma vez: admiro a teoria dos estágios do pensamento moral, de Lawrence Kohlberg. Resumindo, com nosso exemplo: é inútil querer decidir se é mais moral jogar a caminhonete para cima dos ladrões ou se esconder atrás do volante.
O que importa é a razão de nossa escolha. Se decidirmos por medo da punição, por conformidade ou mesmo por respeito à lei, nossa conduta será moralmente medíocre. Se decidirmos segundo o que nos parece certo, em nosso foro íntimo, nossa conduta -seja ela qual for- será de uma qualidade moral superior.
Mais uma coisa: Kohlberg também mostrou que a gente não melhora moralmente à força de memorizar valores ou exemplos a seguir, mas destrinchando dilemas e ponderando como e por que agiríamos de uma maneira ou de outra.
Os dois dilemas que acabo de expor são extraídos de um filme excelente, que não me sai da cabeça, "Disparos", de Juliana Reis, em cartaz desde sexta passada.
"Disparos" acontece no Rio, embora seu roteiro seja, hoje, mais paulistano do que carioca. De qualquer forma, não perca o filme e não fuja do debate íntimo sobre o que você faria numa situação parecida (até porque as chances de viver uma situação parecida aumentam a cada dia).
O Senado acaba de incluir disciplinas de ética no currículo do ensino fundamental e médio. Espero que se evite a monumental estupidez de ensinar ética normativa, ou seja, de querer enfiar valores em nossas crianças -goela abaixo, como se fossem partículas consagradas.
Para crianças como para adultos, "aprender" ética significa aprimorar a disposição a pensar moralmente, ou seja, a capacidade de debater, em nosso foro íntimo, os enigmas complexos (e, muitas vezes, insolúveis) que a realidade nos apresenta. Como disse, essa disposição só melhora à força de encarar dilemas.
Sem esperar o mais que provável desastre do novo curso, podemos ir (e levar nossos adolescentes) ao cinema. "Disparos" é um filme perfeito para pesar a complexidade da vida urbana no Brasil, ou seja, para pensar o que significa sermos morais hoje, aqui, no lugar em que estamos vivendo.

terça-feira, novembro 06, 2012

A ética petista


Rodrigo Constantino

            Será que devemos condenar todo o Partido dos Trabalhadores pelos erros de alguns de seus membros? Não resta dúvida de que muita gente aderiu ao PT com a melhor das intenções. Mas confesso não entender quem ainda insiste no erro.
            A bandeira da ética não foi rasgada hoje pelo PT. No fundo, o partido nunca teve muito apreço por ela. O que ele fazia era monopolizar o discurso da ética. Ao se colocar como seu único bastião, o PT enganou muitas pessoas ingênuas; mas seu objetivo sempre foi o poder pelo poder.
            O discurso petista é sensacionalista e demagógico. Ele usa a velha tática de dividir para conquistar. Negros contra brancos, mulheres contra homens, pobres contra ricos, empregados contra empresários: o PT sempre soube chacoalhar as árvores para colher os frutos; o que nunca soube fazer foi plantar boas sementes.
            Enquanto oposição, o PT sempre adotou postura destrutiva, contra os interesses nacionais. Foi contra Tancredo, não quis aprovar a Constituinte, lutou contra o Plano Real que derrotou a inflação, fez campanha contra as privatizações que modernizaram a economia, sempre de olho apenas no poder.
            A estratégia de marketing do PT em 2002 mostrava a bandeira brasileira sendo comida por ratos, e o texto dizia: “Ou a gente acaba com eles ou eles acabam com o Brasil”. A realidade se mostrou diferente. O próprio PT era uma ratazana disfarçada de caça-roedores.
            O caso envolvendo Waldomiro Diniz já era um alerta e tanto. Afinal, tratava-se de um homem da confiança de José Dirceu, que foi pego em gravação cobrando propina do bicheiro Carlinhos Cachoeira. O esquema contava com a participação dos bingos, e o PT fez de tudo para sepultar a “CPI dos Bingos” na época, como fez agora no caso da Delta, a principal construtora do Programa de Aceleração do Crescimento do governo Dilma (que não cresce).
A ligação do partido com o jogo do bicho vinha de longa data. O ex-governador Olívio Dutra esteve sob a mira de investigações por denúncias de ligações com o jogo ilegal. Uma fita gravada pelo ex-tesoureiro do partido, Jairo Carneiro, relatava o financiamento da campanha petista pelos contraventores.
Um dos casos mais escabrosos diz respeito ao assassinato do ex-prefeito de Santo André, Celso Daniel. O irmão da vítima, que teve de sair do país para se proteger, garante ter ouvido de Gilberto Carvalho a afirmação de que ele próprio entregava dinheiro das propinas a José Dirceu. Várias testemunhas do caso também morreram. A família nunca aceitou a versão de crime comum.
Existem outros escândalos, mas o leitor já entendeu o ponto: o PT jamais abraçou a ética de verdade. Da mesma forma que a própria democracia nunca foi vista com muita simpatia pelo partido. Tanto que ele sempre flertou com regimes autoritários, como a ditadura cubana, até hoje reverenciada por muitos, e o modelo socialista de Chávez.
Forçando um pouco a barra, podemos engolir a tese de que milhares de membros do partido ignoravam o que se passava por baixo dos panos. Não sabiam dos detalhes sórdidos, ainda que divulgados pela imprensa. A alienação permitia a manutenção da ilusão.
Mas como usar a ignorância como escusa agora, depois que o STF condenou parte da cúpula do PT por corrupção e formação de quadrilha? Os “delinqüentes”, termo usado pelo decano do STF, tentaram dar um golpe em nossa democracia. E não estamos falando de peixe pequeno, mas sim dos mais graúdos dentro do PT.
Para adicionar insulto à injúria, qual a reação dos lideres do partido, incluindo o maior deles, o ex-presidente Lula? Revolta contra os culpados que esgarçaram totalmente a bandeira ética do PT? Nada disso! O partido decide passar a mão na cabeça dos culpados e atacar o próprio STF, que tem a maioria dos ministros apontada pelo próprio PT, assim como a imprensa livre do país. Eles adorariam que o Brasil fosse Cuba.
A melhor defesa que um petista tem hoje é a de que seu partido é “apenas” tão ruim quanto os demais. Isso, por si só, já seria patético para quem sempre tentou monopolizar as virtudes. Mas há um detalhe: é mentira. O PT é muito pior! Justamente por se colocar acima de todos, ele sempre adotou a máxima de que seus fins “nobres” justificam os mais nefastos meios. A reação ao julgamento do STF comprova que o PT em nada mudou.
Com isso em mente, será que quem permanece filiado ao PT, de certa forma, não é cúmplice de uma quadrilha? É possível ter vergonha na cara e permanecer no partido? Alguns podem considerar isso muito radical. Mas não seria mais radical continuar petista depois de tudo que o PT aprontou?     

sábado, março 24, 2012

Ética de mercado


Rodrigo Constantino, revista VOTO

Uma reportagem do “Fantástico” na Rede Globo gerou indignação em muitos brasileiros, cansados das cenas constantes de corrupção que vem à tona sem surtir o efeito desejado. Nas imagens chocantes, ainda que o fato em si seja de conhecimento geral, representantes de empresas privadas fornecedoras de produtos para um hospital público conversavam tranquilamente sobre as propinas envolvidas no negócio.

A certa altura, um dos envolvidos repete que esta é a “ética de mercado”, querendo dizer que este tipo de esquema é o normal. A deixa foi aproveitada pelos governantes. O foco voltou-se totalmente para os corruptores. Falou-se em CPI, em investigação das empresas privadas envolvidas, em cancelar os contratos. Ou seja, ataca-se os sintomas do problema, preservando intactas as verdadeiras causas da enorme corrupção que campeia no país.

E quais seriam então estas causas? Em primeiro lugar, no topo da lista, a impunidade. Não basta mostrar imagens que embrulham o estômago dos brasileiros decentes, se estes sabem que nada de concreto vai acontecer com os culpados. Após tantos escândalos de corrupção e nenhum peixe graúdo atrás das grades, fica difícil manter a confiança na justiça. Vale lembrar que nem o “mensalão” foi julgado ainda. Um país com tanta impunidade destroça seu tecido social, as pessoas perdem a esperança e o incentivo para serem corretas. O jeitinho compensa, a honestidade é punida.

Mas acabar com a impunidade, ainda que necessário, não é suficiente. Mesmo um país com severas punições vai se ver diante de diversos casos de corrupção quando o governo concentra poder e recurso em demasia. A explicação é simples: o dinheiro é da “viúva”, e faz parte da gestão pública um desleixo maior na administração dos recursos. É da natureza humana cuidar melhor daquilo que se tem a propriedade.

Ninguém apresenta o mesmo esmero ao cuidar de um carro alugado em comparação aos cuidados com o próprio carro. E funcionários públicos administram fortunas de titularidade alheia. Um convite e tanto à corrupção. O sujeito negocia contratos bilionários, sem o escrutínio de sócios privados preocupados com o uso de seus recursos, e sem um mecanismo adequado de incentivos à sua eficiência. Ou seja, ele não é premiado por competência como ocorre no setor privado, tampouco é punido da mesma forma quando se mostra pouco produtivo.

No setor público, de forma geral, há um estímulo às trocas de “favores”, não de produtos e serviços eficientes em busca de maior lucratividade. Depender somente do altruísmo e da honestidade do funcionário que concentra tanto poder é um risco enorme. Qualquer um minimamente informado tem consciência disso, bastando pensar nos esquemas de licitação para obras públicas. Uma maior transparência pode ajudar, mas não resolve. As somas envolvidas e a natureza do governo fazem com que a corrupção seja tentadora demais.

Por isso o desvio do foco para o corruptor é um erro, que agrada justamente àqueles interessados em manter o status quo. Não que o corruptor deva ser poupado. Ao contrário: é preciso puni-lo com rigor, mas ciente de que isso não vai resolver o problema, não vai atacar suas raízes. As empresas X, Y e Z sairão de cena, apenas para dar lugar às empresas A, B e C. E a propina continuará existindo, assim como o superfaturamento das obras e outras formas de se desviar recursos públicos.

A ética do mercado, portanto, não tem nada a ver com o escândalo mostrado pelo “Fantástico”. É justamente o oposto: a verdadeira ética do mercado é premiar a meritocracia, a competência, fazendo com que os melhores e mais eficientes no atendimento da demanda fiquem com os lucros justos, as recompensas legítimas das trocas voluntárias entre consumidores e produtores.

A fortuna que Steve Jobs criou ao oferecer ao mundo os desejados produtos da Apple, eis um bom exemplo da “ética de mercado”. A livre concorrência garantindo que os mais aptos a satisfazer as demandas possam enriquecer de maneira honesta. Quando entendemos isso, fica claro que empresas subornando funcionários públicos para furar a livre concorrência não apresentam semelhança alguma com esta ética descrita acima, uma ética capitalista ou de mercado, na falta de termo melhor.

Enquanto o governo for o dono de um cartão de débito que lhe dá o direito de gastar 40% de tudo aquilo que é produzido no país, corruptores vão voar em torno dos funcionários públicos como moscas em volta de mel. A hipertrofia do governo é um convite irresistível aos parasitas de plantão, que disputam as infindáveis tetas estatais não por meio da ética de mercado, mas sim através das tentadoras propinas.

Resumindo, enquanto os brasileiros não voltarem sua atenção e energia para o cerne da questão, cenas abjetas como aquelas mostradas na TV serão parte de nosso cotidiano. A impunidade deve ser o primeiro alvo, sem dúvida. Tolerância zero com corruptos e corruptores. Mas é preciso mais. É preciso reduzir o poder e a quantidade de recursos que trafega pelo governo.

segunda-feira, outubro 10, 2011

O princípio absoluto

Meu artigo de hoje no OrdemLivre.org sobre o arriscado uso de um princípio absoluto para formular todo um sistema fechado de ética. Utilizo o exemplo de Rothbard em "The Ethics of Liberty".