João Pereira Coutinho, Folha de SP
Estou sentado num café no centro de Lisboa. Sobre a mesa, os jornais do dia. Então um cavalheiro aproxima-se da minha mesa, olha para os jornais e pergunta: "São da casa?".
Eu sorrio, digo que não, que são meus, mas disponibilizo a prosa na mesma. O homem agradece, escolhe um deles, afasta-se e começa a leitura matinal. Então eu penso: isto é a Europa.
Penso eu e pensa George Steiner, em pequeno ensaio que recomendo. Intitula-se "A Ideia de Europa", foi uma conferência célebre proferida por Steiner no Instituto Nexus, da Holanda, e a ambição do autor era a de encontrar o patrimônio cultural que une os europeus.
Steiner é magistral, na forma e no conteúdo: não, aquilo que une os europeus não é a União Europeia, o euro e outras construções burocráticas presentemente em crise.
A ligação fundamental encontra-se, antes, na cultura, no pensamento e, enfim, numa certa forma de estar e de viver que, embora possa ser exportada para outras latitudes, tem um berço reconhecível.
Os cafés são um bom exemplo. As ilhas britânicas podem ter os seus pubs. As cidades americanas podem ter um bar em cada esquina. Mas os pubs e os bares não são os cafés de Lisboa, frequentados por Fernando Pessoa. Nem os cafés de Odessa, povoados pelos gângsteres de Isaac Babel.
Para Steiner, os cafés da Europa são lugares de encontro, ociosidade, debate e até produção intelectual. Como escreve o autor, podemos imaginar tudo num pub ou num bar. Não imaginamos a produção de uma obra filosófica; um debate político intenso; o nascimento de um novo movimento artístico; ou até, como agora, a simples partilha anônima dos jornais do dia para acompanhar o café da manhã.
A Europa são os seus cafés. E seria possível escrever uma história cultural do continente atribuindo a Karl Kraus, a Carnap ou a Musil o seu café particular, escreve Steiner.
Mas a ideia de Europa não se limita aos cafés. Nessa ideia, está também a dimensão humana e histórica dos lugares. A Europa não é percorrida por uma selva amazônica ou por um deserto do Saara. As suas distâncias não são geológicas ou continentais.
A Europa, desde sempre, foi um território pedestre, no sentido literal do termo: algo para ser descoberto a pé. As distâncias são humanamente modestas. E, em cada rua ou praça, não temos a classificação impessoal e numérica das grandes cidades americanas: Quinta Avenida, Sexta, Sétima, e por aí afora.
Temos marcas literárias, políticas, artísticas, de um continente saturado de passado. Steiner cita exemplos: rue Lafontaine, place Victor Hugo, Pont Henri IV. Os europeus convivem diariamente -melhor: caminham diariamente- pela evidência material e imaterial do que ficou para trás.
Por fim, não interessa se você nasceu em Lisboa, Paris ou Berlim. O europeu é sobretudo herdeiro de Atenas e Jerusalém: da cidade terrestre e da cidade celeste; da tensão permanente entre a razão e a fé; entre o espírito científico e as "intimações" da transcendência.
Foi desse diálogo, e até desse confronto, que nasceu o melhor das artes e das letras. Um patrimônio que sobrevive até hoje.
Claro que Steiner, o último grande humanista do nosso tempo, também sabe que a ideia de Europa não se limita a páginas nobres: a Europa foi igualmente o espaço de ódios viscerais e barbaridades sem perdão.
Como Steiner repetidamente escreve em várias das suas obras, o continente europeu foi aquele onde era possível escutar Schubert ao jantar e, na manhã seguinte, gasear judeus de consciência limpa.
Mas mesmo essa experiência negra conferiu aos europeus um "sentido de finitude" apurado. É essa consciência assombrada que distingue o homem europeu do otimismo fundacional que impera no Novo Mundo.
Moral da história?
Todos os dias, o leitor é confrontado com notícias apocalípticas sobre o futuro da União Europeia. E é possível que, lendo essas notícias, o leitor cometa o erro mais comum sobre a matéria: confundir a União Europeia com a Europa e os burocratas de Bruxelas com os europeus.
Nada mais falso. Ler George Steiner é reaprender que a ideia de Europa é anterior à União Europeia. E que, aconteça o que acontecer, essa ideia irá sobreviver a ela.
Idéias de um livre pensador sem medo da polêmica ou da patrulha dos "politicamente corretos".
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terça-feira, novembro 27, 2012
quarta-feira, setembro 26, 2012
A morte da Europa que amo
Janer Cristaldo, Folha de SP
Ao não cortar relações diplomáticas com o Irã, em 1989, quando o aiatolá Khomeini decretou uma fatwa condenando Salman Rushdie à morte pela publicação de "Versos Satânicos", os países europeus perderam uma oportunidade única de evitar os conflitos hoje provocados pelos muçulmanos na Ásia, Oriente Médio e Ocidente.
Do alto de seus minaretes, o aiatolá condenou um estrangeiro, residente em país estrangeiro, por um ato cometido no estrangeiro e que no estrangeiro não constitui crime. Khomeini legislou urbi et orbi e o islã pegou gosto pela abrangência de sua jurisdição.
Se migrantes de todos os quadrantes normalmente se adaptam à cultura europeia, há um imigrante particular que não só causa problemas na Europa como quer dominá-la culturalmente. São muçulmanos, que querem instituir no continente suas práticas, muitas vezes tipificadas como crime nas legislações nacionais.
Uma é a excisão do clitóris e infibulação da vagina. Médicos europeus chegaram a propor um pequeno corte simbólico no clitóris, para aplacar a misoginia islâmica. Outra é o véu. Na Itália, migrantes árabes pretenderam que mulheres tirassem documentos de identidade... veladas.
Muçulmanos têm grande dificuldade para aceitar as leis dos países que os acolhem. Em plena Espanha, há tribunais islâmicos clandestinos. A primeira corte ilegal, descoberta na Catalunha, operava como em um país muçulmano, com a aplicação do rigor da sharia. O tribunal foi revelado em dezembro de 2009, quando a Justiça da região de Tarragona indiciou dez imigrantes por liderar uma corte que teria sentenciado à morte uma mulher muçulmana.
Na Grã-Bretanha, a sharia começa a ser usada para resolver disputas familiares e pequenas causas. O primeiro tribunal foi identificado em 2008, mas opera desde 2007. Na Escandinávia, um muçulmano, junto com seus filhos, executou uma filha porque esta tinha relações antes do casamento com um sueco. Não foi preciso tribunal algum. A família se erigiu em tribunal. Há muitos outros casos pela Europa.
A Europa é leniente. Em 2007, a juíza Christa Datz-Winter, de Frankfurt, negou o pedido de divórcio feito por uma mulher muçulmana que se queixava da violência do marido. A juíza declarou que os dois vieram de um "ambiente cultural marroquino em que não é incomum um homem exercer um direito de castigo corporal sobre sua esposa". Quando a mulher protestou, Datz-Winter citou uma passagem do Corão: porque "os homens são encarregados das mulheres".
Na Finlândia, imigrantes somalis protestam por seus filhos estarem sendo educados por professoras. Porque um jovem macho somali não dirige a palavra a uma mulher.
Na Suécia, que nos anos 1970 gozou a fama de paraíso do amor livre, o atual número de estupros per capita coloca o país apenas abaixo do Lesotho, na África. De lá para cá, o país foi invadido por muçulmanos. Segundo Ann-Christine Hjelm, advogada que investiga crimes na Suprema Corte sueca, 85% dos estupradores condenados no tribunal nasceram em solo estrangeiro ou são filhos de pais estrangeiros.
Em 2004, os jornais nórdicos noticiaram que um mufti chamado Shahid Mehdi declarou em Copenhague que mulheres que não portam véus estão "pedindo para serem estupradas". Para estes senhores, uma mulher sueca independente é apenas uma "puta sueca".
Mas, claro, não se pode estuprar uma árabe. Entrevistado pelo "Dagens Nyheter", principal periódico sueco, Hamid, membro de uma gangue de violadores, justificou: "A sueca recebe um monte de ajuda depois, além disso ela já transou antes. Mas a árabe tem problemas com sua família. Para ela, é uma grande vergonha ser violentada. Para ela, é importante ser virgem ao casar".
No Reino Unido, França e Espanha, muçulmanos lutam contra a presença de cães nas cidades. Porque o profeta não gostava de cães.
Os atuais distúrbios em função de um filmeco americano sobre Maomé, que não fere lei alguma no Ocidente, refletem a leniência com que a Europa tem tratado os muçulmanos. O islã quer determinar que tipo de arte o Ocidente pode produzir. Já condenaram Rushdie à morte. O tradutor de "Versos Satânicos" para japonês foi assassinado. Sobreviveram os tradutores ao italiano, esfaqueado, ao norueguês, baleado, e o editor turco, que se hospedou em um hotel que foi incendiado.
Em 2004, o cineasta Theo Van Gogh foi assassinado em Amsterdã por ter dirigido "Submissão", filme sobre a situação da mulher nas sociedades islâmicas.
Como boi que ruma ao matadouro, a Europa está se rendendo às aiatolices de fanáticos que ainda vivem na Idade Média. Já se fala em uma "Eurábia" daqui a 50 anos. Ainda bem que não estarei lá para testemunhar a morte de uma cultura que tanto amo.
JANER CRISTALDO, 65, doutor em letras francesas e comparadas pela Universidade de Sorbonne Nouvelle (Paris 3), é tradutor e jornalista
terça-feira, setembro 20, 2011
What Comes After 'Europe'?
By BRET STEPHENS, WSJ
The riots of Athens will become those of Milan, Madrid and Marseilles. Border checkpoints will return. Currencies will be resurrected, then devalued.
When the history of the rise and fall of postwar Western Europe is someday written, it will come in three volumes. Title them "Hard Facts," "Convenient Fictions" and—the volume still being written—"Fraud."
The hardest fact on which postwar Europe was founded was military necessity, crisply summed up by Lord Ismay's famous line that NATO's mission was "to keep the Russians out, the Americans in, and the Germans down." The next hard fact was hard money, the gift of Ludwig Erhard, author of the economic reforms that created the Deutsche mark, abolished price controls, and put inflation in check for generations. The third hard fact was the creation of Jean Monnet's common market that gave Europe a shared economic—not political—identity.
The result was the Wirtschaftswunder in Germany, Les Trente Glorieuses in France and il miracolo economico in Italy. It could have lasted into the present day. It didn't.
In 1965, government spending as a percentage of GDP averaged 28% in Western Europe. Today it hovers just under 50%. In 1965, the fertility rate in Germany was a healthy 2.5 children per mother. Today it is a catastrophic 1.35. During the postwar years, annual GDP growth in Europe averaged 5.5%. After 1973, it rarely exceeded 2.3%. In 1973, Europeans worked 102 hours for every 100 worked by an American. By 2004 they worked just 82 hours for every 100 American ones.
There was, for starters, the convenient fiction that if you just added up the GDP of the European Union's expanding list of member states, you had an economy whose size exceeded that of the United States. Didn't this make "Europe" an economic superpower? There was the convenient fiction that Europe didn't need robust military capabilities when it could exert global influence through diplomacy and soft power. There was the convenient fiction that Europeans shared identical values and could thus be subject to uniform regulations governing crime and punishment. There was the convenient fiction that Continentals weren't lagging in productivity but were simply making an enlightened choice of leisure over labor.
And there was, finally, the whopping fiction that Europe had its own "model," distinct and superior to the American one, that immunized it from broader international currents: globalization, Islamism, demography. Europeans love their holidays and thought they were entitled to a long holiday from history as well.
All this did wonders, for a while, to mask European failures and puff up European pride. But there is always a danger in substituting grandiosity for achievement, mistaking pronouncements for facts, or, more generally, believing in your own nonsense.
Here is where Europe slipped from convenient fiction to outright fraud.
There was the fraud of Greece's entry into the euro, a double-edged affair since Athens lied about its budgetary figures and Brussels chose to accept the lie. There was the fraud of the so-called Maastricht criteria—the fiscal rules that were supposed to govern the euro only to be quickly flouted by France and Germany and then junked altogether in the current crisis. There was the fraud of the European Constitution, overwhelmingly rejected wherever a vote on it was permitted, only to be revised and imposed by parliamentary fiat.
What is now happening in Europe isn't so much a crisis as it is an exposure: a Madoff-type event rather than a Lehman one. The shock is that it's a shock. Greece was never going to be bailed out and will, sooner or later, default. The banks holding Greek debt will, sooner or later, be recapitalized. The recapitalization will be borne by German taxpayers, and it will bring them—sooner rather than later—to the outer limit of their forbearance. The Chinese will not ride to the rescue: They know not to throw good money after bad.
And then Italy will go Greek. Europe's crisis will lap on U.S. shores, and America's economic woes will lap on Europe's—a two-way tsunami.
America will survive this because America is a state. But as Bismarck once remarked, "Whoever speaks of Europe is wrong. Europe is a geographical expression." The "fiscal union" that's being mooted will never come to pass: German voters won't stand for it, and neither will any other country that wants to retain fiscal independence—which is to say, the core attribute of democratic sovereignty.
What comes next is the explosion of the European project. Given what European leaders have made of that project over the past 30-odd years, it's not an altogether bad thing. But it will come at a massive cost. The riots of Athens will become those of Milan, Madrid and Marseilles. Parties of the fringe will gain greater sway. Border checkpoints will return. Currencies will be resurrected, then devalued. Countries will choose decay over reform. It's a long, likely parade of horribles.
Where is the Europe of Ismay, Erhard and Monnet? It's there in memory, if anyone cares to recover it. Give it another 50 years, and maybe someone will.
The riots of Athens will become those of Milan, Madrid and Marseilles. Border checkpoints will return. Currencies will be resurrected, then devalued.
When the history of the rise and fall of postwar Western Europe is someday written, it will come in three volumes. Title them "Hard Facts," "Convenient Fictions" and—the volume still being written—"Fraud."
The hardest fact on which postwar Europe was founded was military necessity, crisply summed up by Lord Ismay's famous line that NATO's mission was "to keep the Russians out, the Americans in, and the Germans down." The next hard fact was hard money, the gift of Ludwig Erhard, author of the economic reforms that created the Deutsche mark, abolished price controls, and put inflation in check for generations. The third hard fact was the creation of Jean Monnet's common market that gave Europe a shared economic—not political—identity.
The result was the Wirtschaftswunder in Germany, Les Trente Glorieuses in France and il miracolo economico in Italy. It could have lasted into the present day. It didn't.
In 1965, government spending as a percentage of GDP averaged 28% in Western Europe. Today it hovers just under 50%. In 1965, the fertility rate in Germany was a healthy 2.5 children per mother. Today it is a catastrophic 1.35. During the postwar years, annual GDP growth in Europe averaged 5.5%. After 1973, it rarely exceeded 2.3%. In 1973, Europeans worked 102 hours for every 100 worked by an American. By 2004 they worked just 82 hours for every 100 American ones.
There was, for starters, the convenient fiction that if you just added up the GDP of the European Union's expanding list of member states, you had an economy whose size exceeded that of the United States. Didn't this make "Europe" an economic superpower? There was the convenient fiction that Europe didn't need robust military capabilities when it could exert global influence through diplomacy and soft power. There was the convenient fiction that Europeans shared identical values and could thus be subject to uniform regulations governing crime and punishment. There was the convenient fiction that Continentals weren't lagging in productivity but were simply making an enlightened choice of leisure over labor.
And there was, finally, the whopping fiction that Europe had its own "model," distinct and superior to the American one, that immunized it from broader international currents: globalization, Islamism, demography. Europeans love their holidays and thought they were entitled to a long holiday from history as well.
All this did wonders, for a while, to mask European failures and puff up European pride. But there is always a danger in substituting grandiosity for achievement, mistaking pronouncements for facts, or, more generally, believing in your own nonsense.
Here is where Europe slipped from convenient fiction to outright fraud.
There was the fraud of Greece's entry into the euro, a double-edged affair since Athens lied about its budgetary figures and Brussels chose to accept the lie. There was the fraud of the so-called Maastricht criteria—the fiscal rules that were supposed to govern the euro only to be quickly flouted by France and Germany and then junked altogether in the current crisis. There was the fraud of the European Constitution, overwhelmingly rejected wherever a vote on it was permitted, only to be revised and imposed by parliamentary fiat.
What is now happening in Europe isn't so much a crisis as it is an exposure: a Madoff-type event rather than a Lehman one. The shock is that it's a shock. Greece was never going to be bailed out and will, sooner or later, default. The banks holding Greek debt will, sooner or later, be recapitalized. The recapitalization will be borne by German taxpayers, and it will bring them—sooner rather than later—to the outer limit of their forbearance. The Chinese will not ride to the rescue: They know not to throw good money after bad.
And then Italy will go Greek. Europe's crisis will lap on U.S. shores, and America's economic woes will lap on Europe's—a two-way tsunami.
America will survive this because America is a state. But as Bismarck once remarked, "Whoever speaks of Europe is wrong. Europe is a geographical expression." The "fiscal union" that's being mooted will never come to pass: German voters won't stand for it, and neither will any other country that wants to retain fiscal independence—which is to say, the core attribute of democratic sovereignty.
What comes next is the explosion of the European project. Given what European leaders have made of that project over the past 30-odd years, it's not an altogether bad thing. But it will come at a massive cost. The riots of Athens will become those of Milan, Madrid and Marseilles. Parties of the fringe will gain greater sway. Border checkpoints will return. Currencies will be resurrected, then devalued. Countries will choose decay over reform. It's a long, likely parade of horribles.
Where is the Europe of Ismay, Erhard and Monnet? It's there in memory, if anyone cares to recover it. Give it another 50 years, and maybe someone will.
terça-feira, agosto 30, 2011
Economistas céticos com a mexida no superávit
Matéria no Hoje em Dia, jornal mineiro
"De geração mais recente que a de Raul Velloso, ligado ao setor financeiro e conselheiro do Instituto Federalista e do Instituto Mises Brasil, o economista Rodrigo Constantino segue linha mais pessimista e aponta debilitação coletiva dos governos para atacar a crise. "Acho que o risco (de recaída longa) aumentou muito e os governos e bancos centrais estão com menos munição para estimular as economias em uma reação. E não está havendo reação das economia. Os investidores estão receosos, os consumidores estão receosos. A economia (global) está embicando e se vai, de vez, mergulhar (na segunda perna) no 'W' (conceito para ilustrar previsões de crises), não sei. Mas a possibilidade aumentou muito. Ainda é um 'L', com 'japonização" da situação na Europa e nos Estados Unidos (crise que se alonga)", dissertou Constantino.
[...]
De olho na China
Para Constatinto, os problemas de agora afetam também os setores de serviços e commodities . Estes dois funcionaram como âncoras de sustentação em 2008. "Se as commodities baixam (nas cotações) é porque a China desacelerou. Até a política de crescimento depende disso", observa.
Neste item lembra da decisão da China, de reduzir em 80 milhões a produção de aço neste ano, que fez a cotação da tonelada do minério de ferro cair para US$ 170.
Na palestra, Raul Velloso coincidiu também em que o Brasil perdeu sua chance em 2008. "Tivemos uma tolerância (chance), em 2008. E o Brasil pode se dar ao luxo de não adotar medidas importantes. Mas hoje, a situação é outra. E o país terá que fazer alguma coisa (medida drástica)", previu.
Bancos
Constantino aponta uma "postura errada" dos governos da Europa, em 2008, nas relações com os bancos e que funcionou como parte da causa desta recaída da economia mundial. "Eles maquiaram a realidade de seus bancos. Banco tem que quebrar também. As negociações (em 2008) criaram bancos 'zumbis'. O risco da sustentação deles é previsível, E, agora, a única saída é a nacionalização, que vai castigar o contribuinte", criticou."
"De geração mais recente que a de Raul Velloso, ligado ao setor financeiro e conselheiro do Instituto Federalista e do Instituto Mises Brasil, o economista Rodrigo Constantino segue linha mais pessimista e aponta debilitação coletiva dos governos para atacar a crise. "Acho que o risco (de recaída longa) aumentou muito e os governos e bancos centrais estão com menos munição para estimular as economias em uma reação. E não está havendo reação das economia. Os investidores estão receosos, os consumidores estão receosos. A economia (global) está embicando e se vai, de vez, mergulhar (na segunda perna) no 'W' (conceito para ilustrar previsões de crises), não sei. Mas a possibilidade aumentou muito. Ainda é um 'L', com 'japonização" da situação na Europa e nos Estados Unidos (crise que se alonga)", dissertou Constantino.
[...]
De olho na China
Para Constatinto, os problemas de agora afetam também os setores de serviços e commodities . Estes dois funcionaram como âncoras de sustentação em 2008. "Se as commodities baixam (nas cotações) é porque a China desacelerou. Até a política de crescimento depende disso", observa.
Neste item lembra da decisão da China, de reduzir em 80 milhões a produção de aço neste ano, que fez a cotação da tonelada do minério de ferro cair para US$ 170.
Na palestra, Raul Velloso coincidiu também em que o Brasil perdeu sua chance em 2008. "Tivemos uma tolerância (chance), em 2008. E o Brasil pode se dar ao luxo de não adotar medidas importantes. Mas hoje, a situação é outra. E o país terá que fazer alguma coisa (medida drástica)", previu.
Bancos
Constantino aponta uma "postura errada" dos governos da Europa, em 2008, nas relações com os bancos e que funcionou como parte da causa desta recaída da economia mundial. "Eles maquiaram a realidade de seus bancos. Banco tem que quebrar também. As negociações (em 2008) criaram bancos 'zumbis'. O risco da sustentação deles é previsível, E, agora, a única saída é a nacionalização, que vai castigar o contribuinte", criticou."
sábado, julho 23, 2011
A falência do Estado social
Rodrigo Constantino, para a revista VOTO
O que a crise européia demonstra é a falência de um modelo de sociedade, qual seja, aquele calcado na demasiada concentração de poder no governo. O sonho igualitário vem de longa data. A “justiça social” seria a façanha de um governo contra as injustiças criadas pelo livre mercado. Todos devem ter “direito” a uma vida digna, e o Estado é o instrumento desta conquista.
Não há nada novo aqui. A República platônica já esboçava os primeiros desenhos desta mentalidade. A desconfiança com o mercado vem de longa data. Intelectuais que jamais compreenderam o poder desta “ordem espontânea” sempre desprezaram o lucro e a competição, preferindo criar modelos “justos” em suas abstrações filosóficas. O papel aceita qualquer coisa. A realidade não.
Os experimentos modernos desta sanha igualitária levaram aos regimes comunistas totalitários, deixando um rastro enorme de sangue, terror e miséria. As “viúvas de Stalin“ se viram desamparadas após a queda do Muro de Berlim e do império soviético. Muitos buscaram refúgio na seita ambientalista que, apelando ao eco-terrorismo, criava a oportunidade para ataques contínuos ao capitalismo. Seu grande defeito agora era criar riqueza demais e ameaçar o planeta. Outros encontraram no Estado social europeu uma “terceira via” para preservar seus devaneios igualitários.
Este modelo encontra-se próximo do esgotamento. A principal causa está nos mecanismos perversos de incentivo. O Estado se tornou, nas palavras de Bastiat, “a grande ficção pela qual todos tentam viver à custa de todos”. Em verdadeiros leilões de promessas irrealistas, governo atrás de governo foi ofertando privilégios e benesses. Enquanto a demografia ajudava e os choques de produtividade permitiam algum crescimento econômico, a ciranda da felicidade seguiu seu rumo. Até bater no muro da realidade.
As contas públicas explodiram. Os governos acumularam dívidas quase do tamanho de sua produção nacional, e em alguns casos extremos o endividamento público ultrapassa o PIB. Os trabalhadores conseguiram inúmeras regalias, engessando o mercado de trabalho e retirando competitividade de suas economias. Os salários deixaram de ser atrelados à produtividade, como se fosse possível criar riqueza por decretos estatais. A fome insaciável do governo por recursos levou a uma arrecadação tributária insana, superando a metade do PIB em alguns casos.
Enquanto o próprio povo demandava mais do “deus” governo, não percebia que o poder de dar tudo também é o poder de tirar tudo. Os cidadãos se tornaram súditos, labutando metade do ano apenas para contribuir com o bolo total a ser distribuído com critérios claramente clientelistas e eleitoreiros. Uma casta se formou dos mais privilegiados, os funcionários públicos, os sindicalistas e os empresários próximos ao governo. E este poderia sempre emitir mais dívida ou arrecadar mais para sustentar o modelo.
Mas há um limite. Quando o governo controla a emissão de moeda, o limite costuma se dar pela hiperinflação, que destrói o sistema monetário e derruba o governo. Só que na Europa a coisa não é tão simples. O Banco Central Europeu mantém certa independência, e traz consigo tradição ortodoxa do Bundesbank, o banco central alemão que, por já ter vivido a hiperinflação, não costumava brincar com fogo. Sem contar com a saída fácil da impressora de moeda, os governos tiveram que apelar para o endividamento excessivo mesmo. Até acender todos os alertas dos credores.
O que permitiu que esta farra durasse tanto tempo foi, em parte, a criação do euro. O projeto do euro foi essencialmente político, para tentar acalmar uma região acostumada com guerras ininterruptas. Mas o euro trouxe muitos desequilíbrios econômicos. Ele possibilitou uma convergência nas taxas de juros de países com fundamentos muito distintos. A Grécia podia captar recursos pagando quase o mesmo que a Alemanha. A eficiência de um criava um “almoço grátis” para o outro. Não havia muito incentivo para as formigas, se as cigarras podiam desfrutar de uma dolce vita sem pagar a fatura.
Durante a fase de excesso de liquidez nos mercados mundiais, os pilares podres do modelo foram ignorados. Mas quando a maré baixou, aqueles que nadavam nus ficaram expostos. Eis a situação atual. A crise já se alastrou pela Europa. Com fundamentos frágeis, com as finanças públicas fora de controle, com cargas tributárias abusivas, com regulamentação em demasia, sem dinamismo de crescimento, a Europa enfrenta um árduo desafio. A própria sobrevivência do euro está em xeque. Calotes serão inevitáveis. Haverá muito sofrimento e, partindo de um elevado desemprego, as tensões sociais serão preocupantes.
A monarquia francesa tentou se perpetuar no poder comprando o apoio da nobreza. Não percebeu que o golpe fatal viria de baixo, de um povo desesperado e cansado de tanto abuso. Hoje, os governos do Estado social tentam sobreviver fazendo basicamente o mesmo, distribuindo mais dinheiro para a nomenklatura incrustada no poder. Até quando conseguirão fazer isso sem despertar a fúria incontrolável da turma do andar de baixo?
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