Idéias de um livre pensador sem medo da polêmica ou da patrulha dos "politicamente corretos".
terça-feira, agosto 10, 2010
Cenário econômico mundial
Vídeo onde comento o cenário da economia mundial, com foco maior na americana. O Fed afirmou que deve manter a taxa de juros extremamente baixa por longo período de tempo; seria a "era do gelo" americana, como ocorreu com o Japão após o estouro de sua bolha? Quais os efeitos disso para o Brasil?
Dilma no Jornal Nacional
Rodrigo Constantino, para o Instituto Liberal
A entrevista de Dilma no Jornal Nacional não foi das piores, sob o ponto de vista dos petistas. O casal de entrevistadores foi duro e apertou a candidata, cobrando respostas para questões mais delicadas, e ela até que desviou bem: não respondeu nada. Os petistas celebram o avanço de Dilma na “arte da embromação”, que vem com mais naturalidade para ela agora, após treinamento intensivo. Entretanto, como o jornalista Merval Pereira comentou na coluna de hoje, Dilma faltou com a verdade, eufemismo para mentir.
Merval apontou a escorregada: “Por exemplo, quando afirmou que os investimentos em saneamento na favela da Rocinha, dentro do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) representam uma mudança de comportamento do governo federal. Simplesmente, na Rocinha, não há nenhum investimento do PAC relativo a saneamento”. O PAC, como todos já sabem, não passa de um engodo, que abriga investimentos antigos e outros inacabados. O governo gasta uma fortuna com a máquina estatal, mas não investe quase nada. A “mãe do PAC” teve um filho bastardo!
Além disso, Dilma não soube explicar direito os motivos pelos quais a economia brasileira cresceu menos que as economias emergentes durante o governo Lula. Esse é o calcanhar de Aquiles da campanha petista, que conta com a ignorância dos eleitores a seu favor. Se os dados do crescimento de outros países em desenvolvimento forem esfregados na cara dos petistas, então todo o discurso de elevado crescimento brasileiro, locomotiva da popularidade de Lula, vai por água abaixo! É uma pena que os brasileiros sejam tão míopes e pensem que o mérito do crescimento pertence ao governo.
Os piores trechos foram quando Dilma defendeu as alianças nefastas do PT com os velhos caciques da política, alegando que o partido amadureceu, e quando ela insistiu na tese furada de “herança maldita” da era FHC. Os poucos acertos do governo Lula foram justamente na macroeconomia, ao manter as políticas do governo anterior. Mas, reconhecer isso seria afundar de vez a única coisa razoável da era Lula.
Por fim, estão todos convidados para uma visita à Baixada Santista aqui no Rio de Janeiro. Lá, assim como no país das maravilhas de Alice, talvez o PT seja um partido honesto...
A Bajulação Corrompe
Rodrigo Constantino, O Globo
“A grande vaia é mil vezes mais forte, mais poderosa, mais nobre do que a grande apoteose; os admiradores corrompem.” (Nelson Rodrigues)
Os principais observadores da natureza humana sempre tiveram receio do estrago que a vaidade excessiva pode causar. Gostamos de elogios, enquanto criamos mecanismos de defesa contra as críticas. O autoengano pode ser uma estratégia útil para a sobrevivência, como diz Eduardo Giannetti em seu livro sobre o tema: “O enganador autoenganado, convencido sinceramente do seu próprio engano, é uma máquina de enganar mais habilidosa e competente em sua arte do que o enganador frio e calculista”. O enganador embarca em suas próprias mentiras, e passa a acreditar nelas com veemência. Fica mais fácil convencer os demais assim.
Justamente por isso a adulação popular ajuda a criar monstros perigosos. As piores tiranias foram aquelas com amplo apoio do povo, como Hitler e Mussolini atestam. Aqueles que passam a se cercar somente de bajuladores, enquanto concentram poder e conquistam as massas, acabam blindados contra todo tipo de crítica. Os conselheiros mais sábios ficam impotentes diante da reverência das massas e fazem alertas em vão. De tanto escutar que é uma espécie de “messias salvador”, o demagogo pode acabar acreditando. Aí reside o maior risco para a sociedade.
Em “Teoria dos Sentimentos Morais”, Adam Smith alertou que nas cortes de príncipes, onde sucesso e privilégios dependem, não da estima de inteligentes e bem informados, mas do favor de superiores presunçosos e arrogantes, a adulação e falsidade prevalecem sobre mérito e habilidades. “Em tais círculos sociais”, conclui ele, “as habilidades em agradar são mais consideradas do que as habilidades em servir”. Quando o mais importante é agradar o poderoso governante, a primeira coisa a ser sacrificada será a sinceridade.
Infelizmente, esta é a realidade brasileira. A popularidade do presidente Lula está nas alturas. Boa parte da imprensa – com honrosas exceções – parece filtrar todas as notícias através de uma lente benigna em prol dele, os intelectuais o tratam com incrível condescendência, e até mesmo um filme foi feito para o “filho do Brasil”. Há uma espécie de salvo-conduto que lhe permite abusar das contradições e arroubos demagógicos. O presidente adquiriu uma imunidade que nenhum cidadão teria em seu lugar. Qualquer outro seria julgado de forma severa por aquilo que o presidente Lula diz sorrindo. Um “efeito Teflon” protege o presidente, já que nenhuma sujeira gruda em sua pessoa.
O problema é que essa bajulação ajuda a despertar a megalomania do presidente, alimentando sua vaidade de forma incrível. O poder corrompe, e o excesso de poder concentrado em alguém vaidoso e sem escrúpulos corrompe ainda mais. Nunca antes na história deste país um presidente contou com tanta indulgência dos críticos. Lula está perdoado por qualquer pecado antes mesmo de ele ocorrer.
Ele pode se aliar aos mais antigos caciques da política nacional, beijar a mão deles, e tudo é perdoado pelo povo. Ele pode aderir às piores práticas políticas, passar a mão na cabeça dos réus de formação de quadrilha do seu partido, que poucos terão coragem de subir o tom das críticas. Ele pode abraçar os piores ditadores, chamá-los de “camaradas”, que poucos ousarão atacá-lo com firmeza. Quando se trata do presidente Lula, então tudo faz parte do “jogo democrático”. Até Jesus Cristo teria que se aliar a Judas para governar o Brasil, não é mesmo?
“O mal de quase todos nós é que preferimos ser arruinados pelo elogio a ser salvos pela crítica”, disse Norman Vincent. Quando um povo perde sua capacidade de indignação, o caminho da servidão está aberto. A postura mais crítica é fundamental para se evitar abusos do poder. Quando as pessoas se deixam levar pelas emoções – ou pelo bolso –, a decadência moral da sociedade está iminente.
Se os brasileiros desejam construir uma nação mais próspera, justa e livre, então se faz necessário respeitar princípios éticos básicos. O país precisa de um governo de leis isonômicas, incompatível com a carta branca concedida aos governantes carismáticos. A má-conduta deve ser punida, independente de seu autor. Ninguém está acima da lei, e os fins não justificam os meios. O cinismo não é uma virtude. A ética não pode ser jogada no lixo, em troca de migalhas.
Precisamos resgatar certos valores que parecem cada vez mais abandonados, antes que seja tarde demais. Devemos enaltecer o espírito crítico. Quem tem boca vaia Roma – e Brasília também.
“A grande vaia é mil vezes mais forte, mais poderosa, mais nobre do que a grande apoteose; os admiradores corrompem.” (Nelson Rodrigues)
Os principais observadores da natureza humana sempre tiveram receio do estrago que a vaidade excessiva pode causar. Gostamos de elogios, enquanto criamos mecanismos de defesa contra as críticas. O autoengano pode ser uma estratégia útil para a sobrevivência, como diz Eduardo Giannetti em seu livro sobre o tema: “O enganador autoenganado, convencido sinceramente do seu próprio engano, é uma máquina de enganar mais habilidosa e competente em sua arte do que o enganador frio e calculista”. O enganador embarca em suas próprias mentiras, e passa a acreditar nelas com veemência. Fica mais fácil convencer os demais assim.
Justamente por isso a adulação popular ajuda a criar monstros perigosos. As piores tiranias foram aquelas com amplo apoio do povo, como Hitler e Mussolini atestam. Aqueles que passam a se cercar somente de bajuladores, enquanto concentram poder e conquistam as massas, acabam blindados contra todo tipo de crítica. Os conselheiros mais sábios ficam impotentes diante da reverência das massas e fazem alertas em vão. De tanto escutar que é uma espécie de “messias salvador”, o demagogo pode acabar acreditando. Aí reside o maior risco para a sociedade.
Em “Teoria dos Sentimentos Morais”, Adam Smith alertou que nas cortes de príncipes, onde sucesso e privilégios dependem, não da estima de inteligentes e bem informados, mas do favor de superiores presunçosos e arrogantes, a adulação e falsidade prevalecem sobre mérito e habilidades. “Em tais círculos sociais”, conclui ele, “as habilidades em agradar são mais consideradas do que as habilidades em servir”. Quando o mais importante é agradar o poderoso governante, a primeira coisa a ser sacrificada será a sinceridade.
Infelizmente, esta é a realidade brasileira. A popularidade do presidente Lula está nas alturas. Boa parte da imprensa – com honrosas exceções – parece filtrar todas as notícias através de uma lente benigna em prol dele, os intelectuais o tratam com incrível condescendência, e até mesmo um filme foi feito para o “filho do Brasil”. Há uma espécie de salvo-conduto que lhe permite abusar das contradições e arroubos demagógicos. O presidente adquiriu uma imunidade que nenhum cidadão teria em seu lugar. Qualquer outro seria julgado de forma severa por aquilo que o presidente Lula diz sorrindo. Um “efeito Teflon” protege o presidente, já que nenhuma sujeira gruda em sua pessoa.
O problema é que essa bajulação ajuda a despertar a megalomania do presidente, alimentando sua vaidade de forma incrível. O poder corrompe, e o excesso de poder concentrado em alguém vaidoso e sem escrúpulos corrompe ainda mais. Nunca antes na história deste país um presidente contou com tanta indulgência dos críticos. Lula está perdoado por qualquer pecado antes mesmo de ele ocorrer.
Ele pode se aliar aos mais antigos caciques da política nacional, beijar a mão deles, e tudo é perdoado pelo povo. Ele pode aderir às piores práticas políticas, passar a mão na cabeça dos réus de formação de quadrilha do seu partido, que poucos terão coragem de subir o tom das críticas. Ele pode abraçar os piores ditadores, chamá-los de “camaradas”, que poucos ousarão atacá-lo com firmeza. Quando se trata do presidente Lula, então tudo faz parte do “jogo democrático”. Até Jesus Cristo teria que se aliar a Judas para governar o Brasil, não é mesmo?
“O mal de quase todos nós é que preferimos ser arruinados pelo elogio a ser salvos pela crítica”, disse Norman Vincent. Quando um povo perde sua capacidade de indignação, o caminho da servidão está aberto. A postura mais crítica é fundamental para se evitar abusos do poder. Quando as pessoas se deixam levar pelas emoções – ou pelo bolso –, a decadência moral da sociedade está iminente.
Se os brasileiros desejam construir uma nação mais próspera, justa e livre, então se faz necessário respeitar princípios éticos básicos. O país precisa de um governo de leis isonômicas, incompatível com a carta branca concedida aos governantes carismáticos. A má-conduta deve ser punida, independente de seu autor. Ninguém está acima da lei, e os fins não justificam os meios. O cinismo não é uma virtude. A ética não pode ser jogada no lixo, em troca de migalhas.
Precisamos resgatar certos valores que parecem cada vez mais abandonados, antes que seja tarde demais. Devemos enaltecer o espírito crítico. Quem tem boca vaia Roma – e Brasília também.
segunda-feira, agosto 09, 2010
A Filantropia dos Ricos
Rodrigo Constantino, para a Revista Voto
Os bilionários Bill Gates e Warren Buffett entraram numa campanha para que outros ricaços doassem no mínimo metade de suas fortunas a instituições de caridade. Pelo menos quarenta bilionários já aderiram à campanha. A atitude levanta algumas reflexões interessantes, e expõe também as diferenças culturais entre Estados Unidos e Brasil. O senso de caridade parece mais enraizado lá, sem dúvida. Mas, a despeito da maioria considerar tal ato louvável, faz-se necessário evitar algumas conclusões precipitadas.
São vários os motivadores que podem levar alguém a doar boa parte de seu patrimônio. O altruísmo pode sim ser um fator, quando o rico acredita que tem como ajudar mais ainda a sociedade por meio da filantropia. A vaidade exerce seu papel, pois a caridade não deixa de ser uma forma de se “imortalizar”. A preocupação com a educação dos filhos pode ter alguma influência, pois não deve ser fácil passar valores e princípios sólidos quando o jovem sabe ser herdeiro de bilhões. E, por fim, o fator tributário também tem sua parcela nas motivações, pois ninguém gosta de morrer e deixar boa parte da fortuna que construiu para os burocratas do governo, cuja ineficiência nos gastos é praticamente certa – para não falar dos enormes riscos de corrupção.
O grande problema que vejo em tais atos de generosidade é quando os próprios doadores justificam seus gestos com argumentos falaciosos. Infelizmente, é esse o caso de muitos deles. David Rockfeller, por exemplo, disse que os ricos têm uma responsabilidade com a sociedade, e devem retribuir aquilo que ela lhes deu. Há uma desinformação perigosa nessa argumentação.
A sociedade não deu nada por caridade aos empreendedores ricos. Ao contrário, eles ficaram ricos justamente por atender a várias demandas da sociedade, dos consumidores. E fizeram isso gerando riqueza, empregos e bem-estar social. A fortuna dos ricos, quando obtida por mérito no livre mercado, já representa uma retribuição da própria sociedade. Ter carros melhores, computadores rápidos, navegadores de internet, remédios e uma infinidade de outros bens e serviços é o que permitiu que os ricos empresários ficassem ricos. Nada mais justo!
Ao falar da necessidade de “devolver” para a sociedade aquilo que ela os deu, esses filantropos ajudam a disseminar a mentalidade marxista de que o lucro não é legítimo, mas fruto de uma exploração. É uma espécie de sentimento de culpa da elite financeira por ser rica. Mas, se esta riqueza for resultado de esforço e mérito próprio, por meio de trocas voluntárias com os consumidores, então não há razão para tal sentimento de culpa. Muito pelo contrário: todo rico honesto deveria sentir orgulho de sua riqueza. Foi na fase de construção dela que ele mais beneficiou a sociedade.
Além disso, deve-se ter em mente o alerta que o economista francês Bastiat, do século XIX, fez, ao falar daquilo que se vê e daquilo que não se vê. A filantropia é celebrada pois o impacto dos gastos com caridade são visíveis de imediato. Mas não devemos ignorar o que não se vê no curto prazo. O que a poupança investida no setor produtivo pode oferecer para a sociedade é muito mais do que a caridade momentânea. Bastiat usa a comparação entre dois irmãos, Mondor e Aristo, para explicar melhor seu ponto. Após repartirem a herança do pai, cada um deles parte para um estilo de vida totalmente distinto. Um pratica a filantropia, e outro resolve poupar e investir o dinheiro.
Os felizes fornecedores dos luxos de Mondor, o filantropo, representam aquilo que se vê. Não é tão fácil de se perceber, do ponto de vista do interesse dos trabalhadores, o que se tornam os rendimentos de Aristo, o poupador. Mas todos esses rendimentos, até o último centavo, servem para dar emprego aos operários tanto quanto certamente os rendimentos de Mondor. Mas há uma diferença importante: “Os gastos loucos de Mondor estão condenados a diminuir sempre e a chegar a um fim necessário. A sábia despesa de Aristo vai engordando de ano para ano”. A poupança de Aristo pode ser canalizada para investimentos produtivos. Os gastos de Aristo, feitos em parte por terceiros à distância, representam aquilo que não se vê.
Ao final de dez anos, é provável que os gastos com filantropia de Mondor estejam se esgotando. Bastiat conclui: “Ao final dos mesmos dez anos, Aristo continua não somente a pôr o seu dinheiro em circulação, mas continua aumentando seus rendimentos de ano para ano. Ele contribui para fazer crescer o capital nacional, ou seja, o fundo que alimenta os salários. E, como a demanda de trabalho depende da extensão desse fundo, ele concorre para o aumento progressivo da remuneração da classe operária. Se ele vier a morrer, deixa os filhos preparados para substituí-lo nessa obra de progresso e de civilização. Do ponto de vista moral, a superioridade da poupança sobre o luxo é incontestável. É consolador poder-se pensar que o mesmo se dá do ponto de vista econômico, para quem quer que, não se fixando nos efeitos imediatos das coisas, saiba levar suas investigações até os seus últimos efeitos”.
O presidente Lula já chegou a afirmar que dar dinheiro aos pobres, mesmo que para a compra de cachaça, era melhor para a economia do que deixar o dinheiro com o rico, aplicado no banco. Segundo Lula, isso faria a roda da economia girar, estimulando o comércio e a criação de empregos. O presidente cometeu esta falácia apontada por Bastiat, ao enxergar os efeitos econômicos com uma visão míope. A caridade tem efeito imediato, mas está fadada a se esgotar. Quando é “caridade” estatal é pior ainda, pois o governo antes precisa tirar recursos dos outros, justamente recursos que poderiam ser investidos de forma mais produtiva. Muito melhor para a sociedade, especialmente para os mais pobres, seria deixar os ricos investirem suas poupanças. Desta forma o progresso pode acelerar, beneficiando a todos.
Em suma, cada um faz com seu patrimônio aquilo que lhe apraz, e já é um absurdo o estado taxar a herança, um direito legítimo não apenas do herdeiro, mas principalmente do proprietário da fortuna, que deve ser livre para dar o destino que quiser a ela. Se esta escolha for pela filantropia, então ótimo. Mas acredito que a escolha de investir ainda mais nos negócios, nas empresas, no empreendedorismo, merece mais aplausos. O resultado costuma ser bem melhor do que a filantropia.
sábado, agosto 07, 2010
Intelectualismo como fuga da vida
Rodrigo Constantino
O homem mesmo se denominou homo sapiens, de forma um tanto arrogante. Sim, está claro que somente os humanos desfrutam da potente capacidade racional da mente, por meio de sua autoconsciência e raciocínio lógico-dedutivo. E que ferramenta fantástica! A razão é sem dúvida aquilo que mais nos diferencia dos demais animais. Mas, e quanto aquilo que nos aproxima deles? Por que evitar ou jogar no lixo? Por que achar que são menos humanos os “instintos” animais responsáveis por nossas paixões? Será que faz sentido cortar o homem em duas partes, mente e corpo, e ainda por cima alçar uma ao pedestal de deusa, atirando a outra no fogo?
Em seu magnífico livro Contraponto, Aldous Huxley fala, por meio do personagem Rampion, sobre esse assunto, de forma bastante apaixonada – como não poderia deixar de ser. Para Rampion, a “alma consciente quer mal às atividades da parte inconsciente, física e instintiva do ser total”. Ele continua: “A vida de uma é a morte de outra e vice-versa. Mas o homem são de espírito pelo menos procura guardar o equilíbrio. Os cristãos, que não eram sãos de espírito, disseram às gentes que elas deviam lançar uma metade de si mesmas na lata do lixo. E agora os cientistas e os homens de negócio vieram para nos dizer que devemos jogar fora a metade que os cristãos nos deixaram. Prefiro ficar vivo, inteiramente vivo. É tempo de fazer uma revolta a favor da vida e da plenitude”.
Escrito em 1928, o livro captura bem a essência das diferenças entre a vida de um Rampion e de um típico “intelectual puro”, Philip Quarles. O interessante é que o próprio Quarles tinha noção disso, e relata em seu caderno de notas: “A companhia de Rampion me deprime um pouco; porque ele me faz ver quão grande é o abismo cavado entre o conhecimento da evidência e o simples fato de vivê-la realmente. Ah! Que dificuldades há para transpor esse abismo! Percebo agora que o verdadeiro encanto da vida intelectual – da vida consagrada à erudição, à pesquisa científica, à filosofia, à estética, à crítica – é a sua facilidade. É a substituição de simples esquemas intelectuais em lugar das complicações da realidade; da morte silenciosa e rígida em lugar dos movimentos desconcertantes da vida”.
Quarles descobre então que o “intelectualismo” não passa de uma fuga também, como tantas outras que os homens inventam para o desespero de uma vida sem muito sentido lógico: “A corrida para os livros e para as universidades lembra a corrida para as tavernas. Essa gente necessita afogar a consciência das dificuldades que há em viver decentemente neste grotesco mundo contemporâneo; têm necessidade de esquecer a sua deplorável insuficiência como cultivadores da arte de viver. Uns afogam suas tristezas no álcool, mas outros, ainda mais numerosos, as afogam nos livros e no diletantismo artístico; uns procuram achar o esquecimento de si mesmos na libertinagem, na dança, no cinema, no rádio; outros nas conferências e nas ocupações científicas”. Ele passa a ver a “procura pela verdade” não mais como a tarefa nobre dos homens, mas simplesmente como um “divertimento, uma distração como todas as outras”.
As revelações pessoais vão além na mente de Quarles: “Percebi igualmente que a busca da verdade não passa de um nome polido para designar o passatempo favorito dos intelectuais, que consiste em substituir por abstrações simples, e por conseguinte falsas, as complexidades vivas da realidade”. E, para concluir sua descoberta, faz uma pergunta retórica, cuja resposta ele já sabe antes: “Terei algum dia bastante força de espírito para me livrar desses hábitos indolentes de intelectualismo e para consagrar minha energia à tarefa mais séria e mais difícil de viver integralmente?”
O personagem de Philip Quarles era desapegado de fortes emoções, um novelista frio, que analisava o mundo de forma sempre impessoal e abstrata, para o desespero de sua esposa, que desejava ardentemente uma prova de vida, de paixão do seu marido (ainda que fosse com outra!). Entretanto, o curioso era sua própria consciência disso tudo, inclusive da demanda de sua mulher, que ele não conseguia atender, sabendo da artificialidade que seria seu ato “apaixonado” consciente. Em suas reflexões, ele mesmo escreve: “Por esta supressão das relações emotivas e da piedade natural, parece-lhe (ao intelectualista) ter atingido a liberdade – a liberdade com relação à sentimentalidade, ao irracional, à paixão, ao impulso, à emotividade”. E dispara: “Sua razão permaneceu livre – mas para se ocupar somente com uma pequena fração dos fatos da experiência”. Essa vida simplesmente intelectual era mais fácil, pois evita os outros seres humanos.
Rampion, que não tinha papas na língua, jogava a realidade crua com violência na cara do amigo: “Nossa verdade, a verdade humana que nos interessa, é uma coisa que se descobre vivendo, vivendo completamente, com a totalidade do nosso ser. Os resultados dos divertimentos de vocês, Philip, todas essas famosas teorias sobre o cosmo e todas as suas aplicações práticas não têm absolutamente nada que ver com a única verdade que nos importa. E a verdade inumana não é meramente alheia a nós; é perigosa. Ela distrai a atenção de cada um da importante verdade humana. Ela os faz falsificar a sua própria experiência, a fim de que a realidade vivida possa ajustar-se à teoria abstrata”.
Na tentativa de criar algo mais que humano, acabamos menos que humanos, era a conclusão de Rampion. A cabeça até pode voar pelas nuvens, com a condição dos pés ficarem firmes no chão. É quando as pessoas se empenham em voar o tempo todo que vem a destruição. “Têm a ambição de ser anjos; mas o mais que conseguem ser são cucos e gansos, por um lado, ou então abutres repugnantes e corvos carniceiros, por outro”. Para Rampion, o homem não é anjo nem diabo, mas homem, um ser que “anda sobre uma corda esticada, que caminha sobre ela delicada, equilibradamente, tendo, numa das extremidades da vara que lhe dá estabilidade, o espírito, a consciência, a alma, e na outra extremidade o instinto e tudo o que é inconsciente, tudo o que é terreno e misterioso”.
Do ponto de vista puramente lógico, isso pode ser um contra-senso. Mas para Rampion, eis justamente o ponto fundamental: “a lógica é um simples contra-senso também à luz da verdade viva”. Para ele, pode-se escolher a que se quiser – a lógica ou a vida. “É questão de gosto. Algumas pessoas preferem ser cadáveres”. Entre bestas e anjos, o segredo estaria em buscar o equilíbrio. O intelectualismo puro seria apenas mais uma forma de fuga da vida humana.
sexta-feira, agosto 06, 2010
Liberais, Uni-vos!
Rodrigo Constantino
O Brasil não possui um partido liberal. Eis o primeiro fato que deve ser constatado. O que fazer para resolver este problema, para criar uma alternativa viável ao monopólio esquerdista que temos hoje? Aqui já nascem as primeiras divergências entre os liberais. Cada um acredita num meio diferente para o mesmo fim: viver num país com muito mais liberdade individual, sem tanta intervenção estatal em nossas vidas. Mas, como?
Alguns preferem um partido mais moderado, que prega a descentralização do poder de forma bem pragmática; é o caso dos federalistas. Outros acham que uma postura mais ideológica se faz necessária; é o caso dos libertários. Existem, ainda, aqueles que não confiam na via política para mudanças, preferindo atuar apenas por meio de “think tanks”. Eu dou meio apoio a todos eles! A luta é tão desigual, e estamos tão longe do liberalismo, que todo esforço nesse sentido é louvável e deve ser incentivado.
Infelizmente, os liberais sabem ser muito desorganizados algumas vezes, e até segregados demais. Isso pode dificultar os trabalhos. Por outro lado, acreditamos na divisão de trabalho, nas vantagens comparativas e na livre concorrência. Logo, não há razão para pensar que os liberais deveriam criar algo monolítico, que reunisse todos numa única agregação. A competição entre os diferentes meios é absolutamente saudável. O que não é nada saudável é ficar arrumando motivo bobo para criar brigas desnecessárias internas. Já somos tão poucos nesse país!
Mas foi justamente o que aconteceu recentemente com os libertários, principalmente anarco-capitalistas de um lado e minarquistas do outro. Faço mea culpa, por reconhecer que o recado que tentei levar aos libertários, que vai em seguida, não foi passado da melhor forma possível. Faltou, talvez, mais paciência ou sabedoria de minha parte, para lidar com os problemas que vi – e vejo – em alguns libertários. E qual seria esse recado? Basicamente, que a postura de alguns tem que mudar, para o bem da causa liberal. E qual postura seria essa? A postura dogmática de alguns, intolerante com quaisquer divergências, arrogante ao extremo, e até mesmo infantil.
Conforme escrevi no meu artigo sobre o assunto, esta não é a postura adequada para quem deseja realmente criar uma alternativa viável para o liberalismo. Ela simplesmente afasta as pessoas mais sérias. Escrevi alguns artigos tentando expor meus pontos, todos batendo mais ou menos nessa mesma tecla. Falei do simplismo de alguns, do excesso de romantismo juvenil e do radicalismo típico das seitas fechadas. Diogo Costa, do OrdemLivre, também escreveu um artigo apontando as falhas que ele enxerga na postura de alguns libertários. As críticas são construtivas, e merecem reflexão. Sem que o Diogo soubesse, eu tinha usado a mesma fonte para analisar o fenômeno: o “narcisismo das pequenas diferenças” freudiano.
Um funcionário de classe média tende a ficar mais ressentido com a promoção do colega ao lado do que com o bônus milionário do CEO da empresa. O vizinho se incomoda mais com o carro um pouco mais novo ao lado do que com a Ferrari distante do chefe. Os católicos brigam mais com os protestantes do que com os budistas. Os trotskistas e os marxistas digladiam-se entre si mais do que com adversários como os liberais. Enfim, parece briga de território às vezes. Disputam as mesmas almas. Os anarco-capitalistas e os minarquistas lutam para conquistar o mesmo tipo de seguidor, aqueles que detestam o excesso de governo, o coletivismo, o dirigismo estatal.
Acabam, muitas vezes, se bicando por detalhes abstratos e insignificantes, extremamente distantes da nossa realidade. Falta um pouco mais de bom senso, talvez, de união contra os verdadeiros inimigos comuns, que estão vencendo o jogo com facilidade. Enquanto alguns anarco-capitalistas atacam o fato de os minarquistas aceitarem poucas funções básicas para o estado, este se torna cada vez mais um Leviatã assustador, que toma metade de nossa renda e controla nossas vidas nos mínimos detalhes. Falta senso de proporção nesse combate pela liberdade, ou então os resultados concretos não interessam, mas sim uma sensação particular de regozijo por abraçar uma cruzada moral, como o único defensor verdadeiro da liberdade.
Se os liberais de todos os tipos desejam realmente viver num país com mais liberdade, então será preciso deixar essas pequenas diferenças de lado, vencer o narcisismo, e mergulhar nos pontos de convergência, respeitando as diferenças. Liberais do país inteiro, uni-vos!
PS: Gostaria apenas de destacar novamente que minha grande decepção nesta novela toda não foi com o partido Liber em si, mas com alguns membros que vi na comunidade do Orkut, que nem pertence ao partido. Passei a conhecer melhor alguns membros importantes dentro do Liber, e pude notar que a postura deles é bem diferente, bem mais madura e moderada. Infelizmente, a comunidade do Orkut, sob o comando das pessoas erradas, acaba servindo como vitrine do partido, e muitos saem com o mesmo tipo de decepção que eu saí (na verdade, fui expulso). Ainda tenho esperanças no Liber como um dos meios importantes nessa luta pela liberdade. Será preciso “domar as feras” internamente, e manter o respeito à pluralidade.
O Debate da Band

Rodrigo Constantino, para o Instituto Liberal
O primeiro comentário que vem à mente após o debate da Band entre os candidatos para presidente é curto e grosso: estamos perdidos! Após o “choque” inicial – não tão inesperado assim, vamos filtrando um pouco, eliminando as maiores bizarrices, até restar o “menos pior” deles. Mas é uma tarefa hercúlea diante da péssima qualidade das alternativas disponíveis. Que falta faz um partido liberal decente neste país!
A candidata Dilma se saiu muito mal, mesmo após seu “extreme makeover” no visual e o “treinamento com treinadores”. Não adianta: por mais que você tente ensinar uma mula a cantar, ela jamais será uma boa cantora. A natureza de Dilma não é ser carismática, e lhe falta o mínimo de traquejo. Trata-se de um robô programado. Sempre que vejo entrevistas ou debates com ela, fica mais fácil entender o desespero do presidente Lula ao afirmar que Dilma será apenas outro nome para “Lula” na urna. Se ela tiver que andar com as próprias pernas, não sai do lugar. Dilma gagueja o tempo todo, mostra insegurança, nervosismo, resultado de sua falta de preparo e do fato de jamais ter ganhado uma única eleição na vida. Além disso, ela abusa do hábito tradicional dos políticos, de enrolar nas respostas.
O tucano Serra foi muito fraco, burocrata demais, mas em termos relativos pode ser considerado até razoável. Seu discurso é o social-democrata padrão, mas lhe falta o mínimo de coragem para defender os acertos do governo FHC. Além disso, ele perde boas oportunidades de apertar mais a candidata petista, expondo a face mais radical do PT. Os eleitores têm o direito de saber quem é o PT na verdade, e o debate nacional é uma excelente chance de tocar nessas questões delicadas para Dilma. A estratégia de Serra está errada, em minha opinião. Em resumo, Serra foi pusilânime demais no debate.
Por fim, para não ignorar os outros dois: Plínio é uma figura de ópera bufa, com uma postura patética de quem sabe não ter chances, e um conteúdo socialista saído de um museu; e Marina não engana como “terceira via”, impregnada demais com o ranço petista. Além disso, verdade seja dita, ninguém pode “vencer” um debate com uma voz tão irritante.
quarta-feira, agosto 04, 2010
PT Mafioso
Novo vídeo onde comento as atitudes mafiosas do PT, que finalmente estão sendo atacas pelo que são por alguns opositores.
Brincadeira de criança ou partido de verdade?
Rodrigo Constantino
Os brasileiros com viés liberal são órfãos na política nacional. Como a própria revista britânica The Economist já reconheceu, não existe um único partido que defenda de forma decente os principais valores liberais, tais como livre mercado, igualdade perante as leis, propriedade privada e escopo altamente limitado do estado. Predomina no país uma mentalidade esquerdista, coletivista, que enxerga o governo como a grande locomotiva para o progresso e a “justiça social”.
É neste contexto que cheguei a celebrar publicamente, em artigo, a iniciativa de alguns jovens de tentar criar um novo partido, chamado Liber. Já conhecia alguns membros-fundadores do partido, e dei meu apoio informal, além de começar a acompanhar um pouco mais de perto seus passos. O principal instrumento que usei como amostra do tipo de gente que estava sendo atraída para o partido foi o Orkut, que não é dos melhores, reconheço. Mas, com o passar do tempo, certo incômodo começou a tomar conta de mim. O que vi ali foi uma grande decepção.
O principal ponto de desilusão foi a postura de alguns membros. Não pude evitar a conclusão de que, para estes, o projeto não passa muito de um grito de revolta, de uma rebeldia juvenil, até mesmo de uma brincadeira de criança. Se o objetivo é criar um partido sério que poderá fazer alguma diferença num futuro próximo, então a postura dessas pessoas vai à contramão da meta almejada. O simplismo na defesa de certos pontos extremamente radicais é gritante, a arrogância com que temas complexos são tratados é assustadora, e a intolerância com discordâncias é dogmática.
O modus operandi deles funciona mais ou menos assim: se você não é um anarco-capitalista, então ou não leu os livros certos, ou não entendeu o que leu, ou então entendeu, mas odeia a liberdade. Em suma, ou você é ignorante ou desonesto e autoritário. E o mais espantoso de tudo é que tal postura se dá entre libertários! Basta discordar de uma vírgula, e você logo passa a ser um “socialista”. Fica a nítida impressão de que essas pessoas, na maioria dos casos jovens demais, querem apenas embarcar numa cruzada moral, onde se colocam como os únicos defensores verdadeiros da liberdade. Não há respeito genuíno por aqueles que conhecem os principais argumentos, mas discordam de alguns deles. Esta postura é típica de seitas fechadas e fanáticas.
Naturalmente, não estou dizendo que todos do Liber são assim. Devemos evitar generalizações deste tipo. Pelo contrário, acredito que a maioria não é, e conheci alguns com postura diametralmente oposta dentro do partido. Tampouco estou afirmando que todos os anarco-capitalistas são iguais. Claro que não! A defesa de tal ideologia é legítima, e eu mesmo flertei com ela no passado, e ainda tenho alguma simpatia pelos seus ideais – apesar de compreender que se trata de um sonho com viés um tanto utópico. O problema maior não é com o anarco-capitalismo em si, mas com a postura de alguns “libertários”, que chega a ser contraproducente ao extremo para a causa da liberdade.
Apenas a titulo de ilustração, alguns exemplos merecem ser destacados, para mostrar até onde pode ir a “tirania da visão” quando falta o mínimo de bom senso. Se há estado, então há escravidão. A liberdade significa ausência de estado. Logo, os suíços são apenas escravos, e os somalis vivem livremente, pois o estado foi abolido. Se o governo americano tem bombas atômicas, então por que a teocracia iraniana não pode ter também? O PT e o PSDB são ambos socialistas, logo, não há diferença alguma entre ambos, e não passa de “paranóia de direita” falar em golpismo autoritário dos petistas. O estado é ilegítimo, logo, atacar um policial que tenta evitar que você ande armado nas ruas é legítima defesa. Toda troca voluntária deve ser aplaudida (não apenas tolerada), logo, o vendedor de crack é praticamente um herói. Tudo que vem do estado é fruto do roubo, logo, o calote da dívida pública seria uma medida louvável. E o grau de bizarrices só aumenta.
O que eu notei nesta amostra é que alguns jovens são tão revolucionários, com um ímpeto tão destrutivo contra “tudo e todos” que estão por aí, que a diferença entre eles e os comunistas parece imperceptível a olho nu. Talvez o MST pudesse ser uma alternativa para eles. Isso sem falar da contradição na largada, uma vez que não parece fazer muito sentido para um anarquista, que considera o estado sempre ilegítimo e a democracia um lixo, criar um partido político! Seria pragmatismo demais até para meu gosto; imagina para o gosto deles, que dizem abominar o pragmatismo, para manter o “purismo” de suas bandeiras! Não faz sentido para mim.
Confesso que escrevo este artigo com certa tristeza, pois acho que os liberais são tão poucos no país, que deveriam estar mais unidos. Digo mais: não apenas os liberais, mas qualquer um com um viés um pouco mais liberalizante, contra esse excesso de estado que temos atualmente, deveria unir forças para impedir o gigantismo crescente do nosso governo, que acelerou o processo sob a gestão petista. Conservadores, liberais, libertários, social-democratas mais civilizados (sim, eles existem), todos deveriam estar combatendo o projeto petista de poder. Mas, infelizmente, sinto-me na necessidade de desabafar, e também de alertar, para tentar contribuir de alguma maneira com o projeto do Liber.
Enquanto a vitrine do partido no Orkut for dominada por uma postura infantil como a que eu vi, e a imagem do Liber depender de certos membros-fundadores que não amadureceram ainda, o partido não será levado a sério, e os liberais continuarão órfãos na política nacional, o que seria uma pena. Ainda não perdi minhas esperanças. Mas para evitar que o Liber seja apenas uma brincadeira de Orkut de adolescentes rebeldes, certas posturas terão que ser contidas. Caso contrário, nem mesmo o PSTU do “lado de cá” ele vai ser. Estará mais para PCO, e olhe lá! Torço para que o destino seja outro, e com este artigo tento colaborar à minha maneira. E boa sorte a todos! Com esses aliados, ela será mais que necessária...
Os brasileiros com viés liberal são órfãos na política nacional. Como a própria revista britânica The Economist já reconheceu, não existe um único partido que defenda de forma decente os principais valores liberais, tais como livre mercado, igualdade perante as leis, propriedade privada e escopo altamente limitado do estado. Predomina no país uma mentalidade esquerdista, coletivista, que enxerga o governo como a grande locomotiva para o progresso e a “justiça social”.
É neste contexto que cheguei a celebrar publicamente, em artigo, a iniciativa de alguns jovens de tentar criar um novo partido, chamado Liber. Já conhecia alguns membros-fundadores do partido, e dei meu apoio informal, além de começar a acompanhar um pouco mais de perto seus passos. O principal instrumento que usei como amostra do tipo de gente que estava sendo atraída para o partido foi o Orkut, que não é dos melhores, reconheço. Mas, com o passar do tempo, certo incômodo começou a tomar conta de mim. O que vi ali foi uma grande decepção.
O principal ponto de desilusão foi a postura de alguns membros. Não pude evitar a conclusão de que, para estes, o projeto não passa muito de um grito de revolta, de uma rebeldia juvenil, até mesmo de uma brincadeira de criança. Se o objetivo é criar um partido sério que poderá fazer alguma diferença num futuro próximo, então a postura dessas pessoas vai à contramão da meta almejada. O simplismo na defesa de certos pontos extremamente radicais é gritante, a arrogância com que temas complexos são tratados é assustadora, e a intolerância com discordâncias é dogmática.
O modus operandi deles funciona mais ou menos assim: se você não é um anarco-capitalista, então ou não leu os livros certos, ou não entendeu o que leu, ou então entendeu, mas odeia a liberdade. Em suma, ou você é ignorante ou desonesto e autoritário. E o mais espantoso de tudo é que tal postura se dá entre libertários! Basta discordar de uma vírgula, e você logo passa a ser um “socialista”. Fica a nítida impressão de que essas pessoas, na maioria dos casos jovens demais, querem apenas embarcar numa cruzada moral, onde se colocam como os únicos defensores verdadeiros da liberdade. Não há respeito genuíno por aqueles que conhecem os principais argumentos, mas discordam de alguns deles. Esta postura é típica de seitas fechadas e fanáticas.
Naturalmente, não estou dizendo que todos do Liber são assim. Devemos evitar generalizações deste tipo. Pelo contrário, acredito que a maioria não é, e conheci alguns com postura diametralmente oposta dentro do partido. Tampouco estou afirmando que todos os anarco-capitalistas são iguais. Claro que não! A defesa de tal ideologia é legítima, e eu mesmo flertei com ela no passado, e ainda tenho alguma simpatia pelos seus ideais – apesar de compreender que se trata de um sonho com viés um tanto utópico. O problema maior não é com o anarco-capitalismo em si, mas com a postura de alguns “libertários”, que chega a ser contraproducente ao extremo para a causa da liberdade.
Apenas a titulo de ilustração, alguns exemplos merecem ser destacados, para mostrar até onde pode ir a “tirania da visão” quando falta o mínimo de bom senso. Se há estado, então há escravidão. A liberdade significa ausência de estado. Logo, os suíços são apenas escravos, e os somalis vivem livremente, pois o estado foi abolido. Se o governo americano tem bombas atômicas, então por que a teocracia iraniana não pode ter também? O PT e o PSDB são ambos socialistas, logo, não há diferença alguma entre ambos, e não passa de “paranóia de direita” falar em golpismo autoritário dos petistas. O estado é ilegítimo, logo, atacar um policial que tenta evitar que você ande armado nas ruas é legítima defesa. Toda troca voluntária deve ser aplaudida (não apenas tolerada), logo, o vendedor de crack é praticamente um herói. Tudo que vem do estado é fruto do roubo, logo, o calote da dívida pública seria uma medida louvável. E o grau de bizarrices só aumenta.
O que eu notei nesta amostra é que alguns jovens são tão revolucionários, com um ímpeto tão destrutivo contra “tudo e todos” que estão por aí, que a diferença entre eles e os comunistas parece imperceptível a olho nu. Talvez o MST pudesse ser uma alternativa para eles. Isso sem falar da contradição na largada, uma vez que não parece fazer muito sentido para um anarquista, que considera o estado sempre ilegítimo e a democracia um lixo, criar um partido político! Seria pragmatismo demais até para meu gosto; imagina para o gosto deles, que dizem abominar o pragmatismo, para manter o “purismo” de suas bandeiras! Não faz sentido para mim.
Confesso que escrevo este artigo com certa tristeza, pois acho que os liberais são tão poucos no país, que deveriam estar mais unidos. Digo mais: não apenas os liberais, mas qualquer um com um viés um pouco mais liberalizante, contra esse excesso de estado que temos atualmente, deveria unir forças para impedir o gigantismo crescente do nosso governo, que acelerou o processo sob a gestão petista. Conservadores, liberais, libertários, social-democratas mais civilizados (sim, eles existem), todos deveriam estar combatendo o projeto petista de poder. Mas, infelizmente, sinto-me na necessidade de desabafar, e também de alertar, para tentar contribuir de alguma maneira com o projeto do Liber.
Enquanto a vitrine do partido no Orkut for dominada por uma postura infantil como a que eu vi, e a imagem do Liber depender de certos membros-fundadores que não amadureceram ainda, o partido não será levado a sério, e os liberais continuarão órfãos na política nacional, o que seria uma pena. Ainda não perdi minhas esperanças. Mas para evitar que o Liber seja apenas uma brincadeira de Orkut de adolescentes rebeldes, certas posturas terão que ser contidas. Caso contrário, nem mesmo o PSTU do “lado de cá” ele vai ser. Estará mais para PCO, e olhe lá! Torço para que o destino seja outro, e com este artigo tento colaborar à minha maneira. E boa sorte a todos! Com esses aliados, ela será mais que necessária...
terça-feira, agosto 03, 2010
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