sexta-feira, junho 18, 2010

Seitas Fechadas



Rodrigo Constantino

“A mente é como um para-queda: ela só é boa quando está aberta”. (Richard Driehaus)

Uma das posturas mais comuns entre os homens é a tendência de separar os indivíduos em dois grupos distintos, de forma bastante maniqueísta. Trata-se de um típico traço tribal, que encara o mundo como uma batalha entre clãs, o antigo “nós contra eles”. De um lado ficam os puros, os que enxergaram a Verdade, os que lutam pelo Bem, enquanto do outro lado estão todos os inimigos destes fins nobres, os cegos, os infiéis, os hereges. As seitas religiosas são exemplos claros disto. As ideologias que partem para sistemas fechados também.

Em Mente Cativa, Czeslaw Milosz faz um profundo relato da destruição da mente independente sob o comunismo, que o autor viveu na pele na Polônia. Para ele, o partido comunista aprendeu com a Igreja Católica a sábia lição de que pessoas que freqüentam um “clube” se submetem a um ritmo coletivo e, assim, “começam a sentir que é absurdo pensar diferentemente do coletivo”. A fé nas crenças do grupo seria mais uma questão de sugestão coletiva do que de convicção individual. Eis o que Milosz relata sobre o assunto:

“O coletivo é composto de unidades que duvidam, mas como esses indivíduos pronunciam as frases e cantam as canções ritualísticas, criam uma aura coletiva à qual eles, por sua vez, se rendem. Apesar de seu apelo aparente à razão, a atividade do ‘clube’ surge sob o titulo de mágica coletiva. O racionalismo da doutrina funde-se à feitiçaria e ambos se fortalecem. A discussão livre é, obviamente, eliminada. Se o que a doutrina proclama é tão verdadeiro quanto o fato de dois vezes dois ser igual a quatro, tolerar a opinião de que duas vezes dois é igual a cinco seria indecente”.

O que parece comum a estas seitas é uma sensação de superioridade moral que desperta em seus membros. Somente eles compreenderam o sentido da vida, conhecem o destino da história, e encontraram as respostas para os complexos temas que afligem os homens desde sempre. Somente eles lutam pela liberdade! Cria-se um sentimento de que tudo é compreensível e explicável. Milosz explica: “É como um sistema de pontes construídas sobre precipícios. É proibido olhar para baixo, mas isso, oh, meus Deus, não muda o fato de que existem”.

Além desta típica arrogância, as seitas fechadas costumam apelar para um extremo simplismo também: “Séculos de história humana, com suas milhares e milhares de questões minuciosas, são reduzidos a algumas, a maior parte termos generalizados. Sem dúvida, o indivíduo aproxima-se mais da verdade ao ver a história como a expressão da luta de classes em vez de uma série de questões privadas entre reis e nobres. Contudo, precisamente porque tal análise da história se aproxima mais da verdade, ela é mais perigosa. Dá a ilusão do conhecimento pleno; fornece respostas a todas as perguntas, perguntas que meramente andavam em círculos repetindo poucas fórmulas”.

Outro fator presente será o fanatismo. Qualquer desvio em algumas premissas pode alterar substancialmente os resultados, criando-se uma nova seita. Como diz Milosz: “O inimigo, de forma potencial, sempre estará presente; o único aliado será o homem que aceitar a doutrina 100%. Se ele aceitá-la apenas 99%, necessariamente deverá ser considerado um inimigo, pois do 1% remanescente pode surgir uma nova Igreja”. Isso explica porque Stalin criou a brilhante tática de rotular todas as idéias inconvenientes aos seus objetivos de “fascismo”. Socialistas alinhados a Moscou eram socialistas, enquanto qualquer outro grupo desleal era chamado de “fascista”. Basta lembrar que Leon Trotsky foi marcado para morrer como inimigo do povo, supostamente por organizar um “golpe fascista”.

No Brasil, muitos seguidores da esquerda radical apelam para a mesma tática. Todo aquele que não aceita integralmente as crenças do grupo é chamado de “neoliberal” ou mesmo “fascista”, como se ambas as doutrinas tão contraditórias fossem, no fundo, sinônimo. Basta não aderir a alguns pontos do programa para ser um “deles”. É desta forma que os esquerdistas mais radicais do PT chamam os esquerdistas mais civilizados do PSDB de “neoliberais”, ignorando que o PSDB está longe de ser um partido realmente liberal. Como disse Irving Babbitt, "o sofista e o demagogo florescem numa atmosfera de definições vagas e imprecisas”.

Infelizmente, isto não é monopólio da esquerda. Alguns libertários mais radicais, como certos anarco-capitalistas, gostam de abusar da mesma tática. Para estes, somente seu “clube” defende de verdade a liberdade, enquanto todos os demais são chamados de “socialistas” ou “fascistas”. Se alguém defende a proibição de fumar em locais públicos, por exemplo, é logo tachado de “fascista” por estes libertários “puros”. Mas ao fazer isso, eles estão tornando o termo desprovido de sentido real. Juntar no mesmo saco os seguidores de Mussolini e alguém que simplesmente defende a proibição do cigarro em locais públicos é desprezar o horror fascista. Da mesma forma, chamar tanto Marx como Hayek de “socialistas” é acabar com qualquer valor que tal conceito possa ter.

Rótulos e conceitos são perigosos. Eles servem para simplificar e facilitar a nossa compreensão, mas como toda simplificação, apresentam riscos de deturpar mais do que clarear os debates. Para um conceito fazer sentido, ele deve ser capaz de unir as semelhanças relevantes, mas também separar as diferenças importantes. Chamar qualquer um que não seja um anarquista de “socialista” é apenas confundir a mente das pessoas. As inúmeras diferenças das ideologias não cabem nesta divisão simplista e maniqueísta, típica de uma seita fechada.

Por isso existem socialistas, comunistas, social-democratas, conservadores, liberais, libertários, anarquistas coletivistas, anarquistas individualistas, etc. E mesmo assim, tais rótulos são bastante imprecisos e limitados, pois poderiam ser desmembrados e ficar mais específicos ainda, de acordo com importantes diferenças dentro de cada grupo. A complexidade do mundo real não se encaixa nas definições rudimentares destas seitas. É preciso abrir a mente como se ela fosse um para-queda. Afinal, o sistema fechado pode estar construído sobre o precipício, e a qualquer momento alguém pode cair.

14 comentários:

Petrucchio disse...

Sou um libertário puro e chamo a lei anti-fumo de fascismo.

O uso do conceito fascista neste caso é em relação ao conluio corporativista entre uns poucos privados e o poder público como conhecemos. Reger atitudes individuais e civilizadas por meio de leis é autoritarismo.

Tal lei inibe a ordem espontânea. Põe todos os indivíduos em eterna vigilância e sentimento de estar ilegal, sendo que o ato de fumar ou não pode surgir de um simples acordo pontual.

Pessoas de boa vontade e desarmadas fazem acordos voluntários. E quando alguém tem a arma apontada?

Rodrigo Constantino disse...

Petrucchio,

Vc pode até afirmar que a lei é fascista, mas isso é diferente de acusar alguém que defende esta lei de fascista. São coisas diferentes.

fejuncor disse...

Tanto ideologias políticas como religião, tento me defender destas duas doenças. Mas não é fácil. Todo vigarista é sempre religioso e se dá muito bem na política. É um perigo, ou melhor, são dois perigos que andam juntos.

E quem defende regimes como do Kim Jong-Il, que vetou seu povo de ver o jogo com Brasil, RODRIGO, pois o time "dele" perdeu...

Alguma tribo pertencem pq haja lavagem cerebral viu.

ntsr disse...

É isso aí, a realidade é maior do que qualquer teoria.

brunoborborema disse...

Caro Rodrigo, com todo respeito, o texto me soa contraditório. Critica as rotulações, mas a única coisa que tem a dizer sobre Saramago, no dia posterior à sua morte, é que ele era "Socialista"...E suas obras, algumas delas inegavelmente geniais?

Rodrigo Constantino disse...

Mas Bruno, eu não comentei nada das obras de Saramago pois não era essa a questão! Não falei bem nem mal, pois confesso que nunca li nada dele. Falei do homem, amigo de ditadores, de suas idéias políticas. E, no final das contas, essas coisas acabam mais reverenciadas pela imprensa que sua obra. Vide hoje os jornais repletos de comentários sobre sua grande luta social. Luta social??? Um cara que defendeu o socialismo, Cuba, pode por acaso ser um ícone de luta pelo social???

ntsr disse...

brunoborborema, pelo que eu entendi n tem contradição nenhuma, os rótulos são incompletos pra ALGUNS casos particulares dentro deles,é o caso dos anarcos, minarcos etc
Já não é a mesma coisa com o saramago pq ele era um comunista típico, talvez até o estereótipo perfeito de comunista.

Anônimo disse...

artigo bom, li no site do millenium.

Comunidades acadêmicas tem este perfil, especialmente economistas e físicos teóricos, sendo a matemática abstrata parte da mistificação e senso de identidade tribal, do nós ("gênios")contra eles ("meros mortais").
Alguns são fanáticos perigosos, ególatras, que afirmam que a realidade está errada e suas teorias certas, quando ambas divergem. :)

João

Itaguaçú disse...

Poupando para os capitalistas
BNDES aprova empréstimo bilionário para a OI

14h - 18 de novembro de 2009

O BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), uma das maiores poupanças dos capitalistas em crise, aprovou mais um empréstimo bilionário.

O banco informou nesta quarta, dia 18, o empréstimo de R$ 4,4 bilhões para o grupo de telefonia Oi. As verbas públicas serão destinadas aos planos de investimento das quatro empresas do grupo Brasil Telecom Fixa, Brasil Telecom Móvel, Oi Fixa e Oi Móvel.

Nos últimos 11 anos, o banco que é uma verdadeira fonte de financiamento para os capitalistas, liberou R$ 29,4 bilhões para empresas de telecomunicação, que detiveram o mercado após o processo de privatização que entregou o sistema de telecomunicações do País para empresas estrangeiras que sugam a classe trabalhadora através das exorbitantes tarifas cobrada pelas empresas.

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PT vai apoiar reeleição de Roseana Sarney no Maranhão

09h - 11 de junho de 2010

O Diretório Nacional do PT decidiu apoiar a candidatura de reeleição de Roseana Sarney (PMDB), filha de José Sarney, para o governo do Maranhão. O Diretório Nacional do PT de Maranhão de apoiar o PCdoB. “ O palanque mais sólido para Dilma Rousseff, no Maranhão, é o de Roseana Sarney”, afirmou André Vargas,secretário de comunicação do PT.

http://www.pco.org.br/conoticias/ler_materia.php?mat=18272

ntsr disse...

Individualismo é bom, mas tb não é natural que surjam grupos quando as pessoas se sentem bem junto de quem tem uma cabeça parecida?Ou alguém aqui vai pro orkut pra entrar em comunidades tipo COMUNISMO NÃO MORREU
?
Se n for forçado,qual o problema

Vergilio disse...

Como colaborar não é espontâneo, sempre precisaremos sistematizar ( ou cercar o pasto) para que não ocorra a tragédia dos comuns, ou seja, um explorar o outro através da priorização do ganho individual. Se você tiver uma empresa, deixe os seus “colaboradores” à vontade (sem estabelecer processos e sistemas) para ver se eles trabalham e produzem espontaneamente. Infelizmente, isso faz parte da natureza humana.

stampana disse...

A propósito, grejas precisam comprovar a origem do dinheiro que alegam arrecadar?

Corrruptocracia: Roubar é poder! disse...

Não. Os depósitos bancários são justificados apenas como "Doação de Fiéis". É quase como um acordo entre o governo e as igrejas, com o governo dizendo: "Vocês mantém esses manés bem carneirinhos, e a gente não faz perguntas, não investiga e nem cobra impostos.

ntsr disse...

Estou aceitando doações para a recém fundada igreja do evangelho quadrangular do triângulo redondo