quinta-feira, junho 10, 2010

Torre de Marfim



Rodrigo Constantino

“Muitos problemas não são resolvidos; eles são substituídos por outras preocupações.” (Thomas Sowell)

Vários intelectuais gostam de criar modelos utópicos desvinculados da complexidade do mundo real. Usa-se a expressão “torre de marfim” para designar esta postura, bastante comum nos comunistas. Infelizmente, isso não é monopólio da esquerda coletivista. Alguns libertários parecem viver justamente neste mesmo local confortável, onde dilemas éticos são freqüentemente ignorados em troca de uma visão bastante simplista das relações humanas e do conceito de justiça.

Para aqueles que vivem nesta torre, tudo parece mais simples. Ocorre uma espécie de monopólio dos fins, onde somente os adeptos de determinada seita defendem a liberdade e a paz. Os demais são todos inimigos, e não é preciso entrar em detalhes sobre os meios mais adequados para se preservar a tal liberdade e a paz. Este é o típico pensamento tribal, de “nós contra eles”, que não aceita concessões nem falhas. Como as religiões, estas ideologias respondem tudo, consolando contra as angústias inevitáveis de uma vida imperfeita. Normalmente, elas conquistam mais pelo regozijo que despertam em seus membros, pela sensação de superioridade moral, do que pelos resultados concretos que entregam. Devido ao excessivo idealismo, costumam conquistar os mais jovens, em busca de uma solução completa para os problemas do mundo.

Para estes libertários utópicos, o estado representa a fonte de todos os males e, portanto, a solução para nossos problemas está na dissolução do estado e na privatização de absolutamente tudo, incluindo leis e segurança. Trata-se de uma visão tentadora, mas, infelizmente, bastante ingênua em relação à natureza humana. Algo análogo aos herdeiros de Rousseau, que viam na propriedade privada a fonte de todos os males, partindo da premissa tola de que antes éramos “bons selvagens”.

Colocar a culpa de todos os males no estado, como se ele fosse algo totalmente à parte da sociedade, significa ignorar que são sempre seres humanos que agem, e todo estado, especialmente aqueles sob democracias, dependem do aval da maioria para sobreviver. Quando Jesus é crucificado e Barrabás é libertado, não é o estado romano que comete tal injustiça apenas, mas sim o próprio povo, cuja pressão levou a esta decisão. Para efeitos retóricos, separar os indivíduos em duas classes – exploradores e explorados – faz sentido, como Marx sabia; mas, na prática, dificilmente será fácil alocar indivíduos de forma tão maniqueísta. A maioria está em algum lugar no meio do caminho, pagando pesados impostos, mas também consumindo muitos bens públicos. O estado tampouco é algo monolítico, uma entidade estanque com um mesmo grupo de gente no comando. Ele sofre a influência de inúmeros grupos de interesse, além da opinião popular. Os libertários devem lembrar que Ron Paul, por exemplo, faz parte do estado americano.

A própria idéia de que existe uma solução para os conflitos humanos é demasiadamente otimista. Como diz Thomas Sowell na frase da epígrafe, a maioria dos problemas é apenas substituída por outros, talvez menores. O que existe no mundo real são trocas (trade-offs), alternativas imperfeitas, onde cedemos algo para preservar outra coisa mais valiosa. Viver em sociedade tem inúmeros benefícios, mas eles cobram seu custo. Imaginar um modelo de sociedade onde há somente trocas voluntárias o tempo todo entre os indivíduos, sendo o homem o que é, parece um belo sonho, porém, irrealista. Como Freud escreveu em O Mal-Estar na Cultura, “as duas aspirações, a de felicidade individual e a de integração humana, têm de lutar entre si em cada indivíduo; é assim que os dois processos de desenvolvimento, o individual e o cultural, têm de se hostilizar mutuamente e disputar o terreno um do outro”.

Uma característica comum aos utópicos é uma ilimitada crença na razão humana. Com base em um princípio, como o da não-iniciação de agressão, todo um sistema de sociedade justa é definido. Se ao menos fosse tão fácil assim! Séculos e mais séculos de intensos debates filosóficos, os mais sábios dos sábios discordando entre si, apresentando visões distintas sobre justiça, e eis que tudo isso está resolvido: basta aplicar sempre o princípio absoluto de não-iniciação de agressão! Infindáveis casos vêm à mente para testar a praticidade deste valor absoluto no mundo real, demonstrando que abaixo da torre de marfim a situação é sempre mais complicada. Como um exemplo, podemos pensar qual seria a reação justa, legítima, de uma sociedade sob o ataque de invasores. Qualquer reação em forma de guerra, uma guerra justa para a maioria, levaria inevitavelmente à morte de inocentes de ambos os lados. Mas como alguém fanaticamente apegado ao princípio absoluto em questão poderia aceitar tal conseqüência? A partir do momento em que vidas inocentes serão claramente perdidas, a reação se torna ilegítima por este prisma: haveria o início de agressão a quem não iniciou agressão alguma. Como reagir então à ameaça nazista de Hitler? O resultado prático deste “pacifismo” seria, no mundo real, o triunfo da barbárie sobre os inocentes. Como diz David Friedman, “se não estamos dispostos a impor custos sobre os outros para defender a nós mesmos, então há uma política externa libertária – a desistência”.

A razão humana é uma ferramenta fantástica, a mais poderosa que temos. Mas ela é limitada, e seu próprio uso serve para reconhecermos humildemente isto. Somos seres falíveis. Por isso tenho tanta desconfiança de qualquer “sistema fechado”, que julga ter encontrado todas as respostas para as complexas relações entre seres humanos. Como disse Robert Winston em Instinto Humano, “é a nossa capacidade de combinar instinto, emoção e razão que nos possibilita feitos impressionantes”. Sabemos que o que falta num psicopata não é lógica nem coerência, mas outra coisa, como a capacidade de empatia. A lógica é crucial para os humanos, mas não é tudo!

Basta pensar nos mais cabeludos tabus, como o incesto ou a pedofilia. Não há nada lógico que diga que relações incestuosas devem ser proibidas com base no princípio de não-iniciação de agressão. Cachorros não ligam para o incesto! Entretanto, acredito que a imensa maioria das pessoas não aceitaria viver numa sociedade em que pais e filhas casassem à vontade. A pedofilia é ainda mais complicada, pois como definir a idade em que indivíduos podem começar a praticar trocas voluntárias? Um homem que oferece um sorvete para uma menina em troca de sexo oral está praticando uma troca voluntária, mas qualquer um com um mínimo de bom senso iria repudiar esta transação e defender sua proibição legal. Com qual idade o princípio absoluto, já não tão absoluto assim, começa a valer? Há como evitar alguma arbitrariedade aqui?

Acredito que o maior receio dos libertários utópicos seja abrir brechas em seu sistema fechado, e entendo o medo. Inimigos da liberdade individual vão tentar usar estas brechas para criar um rombo nos pilares que sustentam o liberalismo. “Se não é possível saber tudo, então não sabemos nada!”, dirão os mais pérfidos. Mas, em nome da honestidade intelectual, creio que devemos correr este risco, e mostrar que há sim bastante conhecimento objetivo – o que não é sinônimo de certeza absoluta. Como disse um velho judeu da Galícia, “quem quer que diga que está 100% certo é um fanático, um criminoso e o pior tipo de crápula”. A postura mais humilde me parece mais inteligente do ponto de vista utilitarista também, pois acho que brechas ainda maiores na doutrina liberal são abertas atacando a postura dogmática e muitas vezes até bizarra de alguns libertários. Certas bandeiras mais radicais fazem eu questionar se estes revolucionários não são os hippies da “direita”.

Mas quais são então as soluções para os dilemas éticos mais complexos? O monopólio das leis nas mãos do estado garante mais eficiência e justiça que um livre mercado de agências privadas concorrendo em busca do lucro para fornecer leis e segurança? Se o leitor acompanhou atentamente o texto até aqui, já compreendeu que eu não tenho a menor pretensão de saber a resposta. Sei apenas que encaro com profunda desconfiança qualquer um que afirma saber, e que ainda por cima considera tudo muito simples. Utilizo uma vez mais as palavras de Freud para concluir: “Assim, perco o ânimo de me fazer de profeta entre os meus semelhantes, e me curvo à censura que me fazem de que não sei trazer nenhum consolo – pois é isso que todos pedem no fundo, os mais selvagens revolucionários não menos apaixonadamente do que os mais bem-comportados beatos”.

20 comentários:

fejuncor disse...

Entra-se em paradigmas como: “Sem capitalismo não há solução, só ilusão?” Eu pessoalmente já decidi: acho que sim. Apesar de todos os seus defeitos e da necessidade contínua de ser reciclado nada supera o mercado desenvolvido como no Primeiro Mundo, tanto que praticamente todos que procuram uma vida melhor tentam migrar para lá. O resto é sonho impossível de sociedade perfeita, equalizada e sem dificuldades ou variantes. O inimigo do "razoável", é o "perfeito". Em tempo, ressalvo que capitalismo é uma coisa. Jogatina que acaba indo pedir dinheiro do tesouro é outra.

Hanover disse...

Brilhante. Esse foi o melhor texto que li até hoje no blog. Parabéns.

Felipe Santos disse...

Acho que esse era o único post que faltava pra silenciar aqueles que dizem que "libertário" é sinônimo de "direitista"!!!

É como dizer que ateísmo é uma religião somente por constar, algumas vezes, em suas fileiras, seguidores tão "fanáticos" quanto suas contrapartes clericais!!!

Se bem que prefiro o termo agnóstico por ser mais preciso, já que tão tolo quanto acreditar sem provas é negar a existência de algo só por falta de evidências... assim vejo o liberalismo... nem tanto o povo (anarquia) nem tanto o Estado (centralização de poder), mas sim a mescla do melhor que ambos podem oferecer...

Leonardo Miranda disse...

“quem quer que diga que está 100% certo é um fanático, um criminoso e o pior tipo de crápula”

Será que o autor estava 100% certo disso? Ou será que nem sempre uma pessoa 100% certa de algo é fanática, criminosa e crápula?

Que coisa...

Outro ponto: "Como reagir então à ameaça nazista de Hitler?"

O princípio da não-iniciação de agressão não te diz como agir (ou reagir), mas como não agir. Ele diz, por exemplo, que não devo te dar 15 tiros nas costas. É errado. Ponto. *É apenas uma condenação moral*. Querer passar isso para o campo jurídico é outra coisa.

Por exemplo, eu condenar um estuprador com base em uma ética é uma coisa. Querer a punição dele com base nessa mesma ética é outra coisa. Consegui ser claro? Acho que há uma confusão constante entre "isso é errado" e "isso é errado, então temos de fazer aquilo".

Hitler agiu errado: conclusão da ética libertária. Hitler agiu errado e merece [complete com sua punição favorita]: já não é uma conclusão possível com a mesma ética.

Ela é negativa, não positiva!

Acho que não estou sendo claro como gostaria, mas, enfim, é isso.

Rodrigo Constantino disse...

"Será que o autor estava 100% certo disso? Ou será que nem sempre uma pessoa 100% certa de algo é fanática, criminosa e crápula?"

Leonardo, nesse caso ela não estaria 100% do tempo certa!

Veja: se vc pular do alto do prédio vai cair e se espatifar! Quanto a ISTO, estou 100% certo. Mas isso quer dizer que eu estarei 100% das vezes certo? Era esse o ponto.

Rodrigo Constantino disse...

Sobre Hitler acho que vc não foi claro. Meu ponto não é o que fazer com Hitler como punição, mas como reagir à ameaça nazista! Entrar em guerra inevitavelmente vai gerar perdas inocentes, de gente que não iniciou agressão. Mas...

ntsr disse...

Essas zonas borradas...como sempre os pais fundadores tinham razão.Isso de muita liberdade/pouco governo só dá certo num povo muito ético onde todas essas zonas borradas não existiriam

'Our Constitution was made only for a moral and religious people. It is wholly inadequate to the government of any other.'
John Adams

Ana Rosa disse...

Rodrigo,
parabens pelo texto, excelente, como sempre.
bjs,

Ana Rosa

Thomás disse...

Brilhante. Esse foi o melhor texto que li até hoje no blog. Parabéns. [2]

Itaguaçú disse...

O obscurantismo é conseqüência de um contexto. Um forte ingrediente deste contexto, além da arrogância, é a ignorância.

♂ ßiah CX ♀ disse...

Então..
A sabedoria, a razão, a ciência..
..responde TUDO ??

ntsr disse...

E esse negócio de governo nenhum... eu to 100% certo de que se ganhasse cem mil reais por mês n ia me incomodar com uma escravidão de dez centavos.

ntsr disse...

'“quem quer que diga que está 100% certo é um fanático, um criminoso e o pior tipo de crápula”

Será que o autor estava 100% certo disso?'

Todo ateniense é mentiroso, disse um ateniense.
Deus onipotente pode criar uma pedra tão pesada que ele mesmo não possa levantar?

'Não é sobre nada, são só palavras.' Richard Bandler.

fejuncor disse...

Claro que não, ♂ ßiah CX.

Ela QUESTIONA tudo.

ABEL AQUINO disse...

Parabens Rodrigo!
Sou um dos muitos leitores de seu blog e há tempo vinha querendo fazer algum comentário exatamente sobre a impssibilidade dos movimentos anti-totalitários deslancharem em nosso país. Este artigo deu parte da resposta que gostaria de ouvir dentro do movimento como um todo. Precisamos disso, com urgencia.
Mais um vez, parabens!

ntsr disse...

@BIA CX:
Um povo emocional que abre mão da razão é o sonho de todo aspirante a ditador.

ntsr disse...

E depois mesmo que uma idéia não responda tudo racionalmente,ainda pode ser um passo na direção certa.Um passo pequeno mas um passo.Darwin sabia que as especies mudavam mas n sabia como, nao sabia nada sobre genes e dna.

Rogério PC disse...

Muito bom esse texto.

Acompanho o seu blog há bastante tempo, embora quase nunca comente. E acho que você se comporta exatamente como os libertários radicais que você critica. Inicialmente essa postura me incomodava muito, mas diante de tantos radicais pró-Estado agora acho importante termos radicais pró-mercado para contrabalançar.

Não defendo um estado tão mínimo quanto você defende (pelo menos o que eu julgo que você defende), mas diante de tantos absurdos que estão ocorrendo atualmente contra as liberdades individuais e de escolha, estou cada vez mais me tornando um radical pró-mercado.

Aprendiz disse...

Rodrigo

Um artigo maduro. Essa questão da insuficiencia da teoria é bem conhecida e bem aceita pelos físicos e engenheiros. Há inúmeros problemas, para os quais não é conhecida solução teórica exata, há inúmeros outros, para os quais a solução teórica não é utilizavel, pela complexidade da sua matemática, e há inúmeros outros para os quais não vale a pena o trabalho de usar a melhor solução teórica. Físicos e engenheiros sempre encararam isso com naturalidade. Em outras áreas do conhecimento (principalmente nas "ciências" humanas), as pessoas rasgam as vestes e vestem cilício, quando descobrem (Óh, que horror!!!)que não encontraram a teoria perfeita. Dá vontade de rir.

Guilherme disse...

Se for possível, dentro de uma situação real identificar quem é o agressor e quem é o agredido, porque ele não deve ser aplicado?