terça-feira, setembro 04, 2012

A esquerda caviar


Rodrigo Constantino, O GLOBO

            O Rio é vítima de uma verdadeira praga: a “esquerda caviar”, formada por parte da elite financeira e cultural do país. Seus membros posam de altruístas enquanto louvam ditadores sanguinários como Fidel Castro. Do conforto de seus apartamentos em Paris, porque ninguém é de ferro.
            Roberto Campos fez um diagnóstico preciso da árvore genealógica da turma, ao afirmar que “trata-se de filhos de Marx numa transa adúltera com a Coca-Cola”. Somente isso pode explicar a esquizofrenia de nossos artistas e intelectuais de esquerda, que admiram o socialismo, mas adoram também três coisas que só o capitalismo sabe dar: “Bons cachês em moeda forte, ausência de censura e consumismo burguês”.
            Um cínico poderia dizer que a hipocrisia é útil. Aproximando-se do poder, esses intelectuais conseguem privilégios e mamatas. A Petrobras, por exemplo, destinou a bagatela de R$ 652 milhões para patrocínios culturais entre 2008 e 2011. É uma montanha de dinheiro capaz de testar a integridade até mesmo de um santo!
            Mas não creio ser apenas isso. Acredito que um dos fatores tem ligação com o sentimento de culpa dessa elite. E convenhamos: nada como uma elite culpada tentando expiar seus “pecados”. Com que facilidade ela adere aos discursos mais sensacionalistas e demagógicos. Chega a dar dó. Em um país que culturalmente condena o lucro e enxerga a economia como um jogo de soma zero, onde José, para ficar rico, precisa tirar de João, o sucesso acaba sendo uma “ofensa pessoal”, como disse Tom Jobim. Essa visão é um prato cheio para produzir uma elite culpada e desesperada para pregar aos quatro ventos as “maravilhas” do socialismo.
            Por isso vemos cineastas herdeiros de banco fazendo filmes que enaltecem guerrilheiros comunistas. Por isso vemos filhos de grandes escritores lambendo as botas de tiranetes latino-americanos. Imagem é tudo.
E estas pobres almas acreditam que, ao louvarem a ideologia que quer destruí-los, conquistarão a fama de abnegados e descolados. Como é fácil falar que o capitalismo não presta quando se é milionário!
            Joãozinho Trinta foi no alvo quando disse que os intelectuais é que gostam de miséria, pois os pobres gostam é de luxo. Nada mais natural do que desejar melhorar as condições de vida. E nada melhor para isso do que o trabalho duro em um ambiente de livre mercado. Lucro e trabalho são sócios nesta empreitada. O grande obstáculo é justamente o governo inchado, obeso, que cria burocracia asfixiante e arrecada quase 40% do que é produzido em nome da “justiça social”.
            Quem labuta para criar riqueza e subir na vida não tem tempo para “salvar o planeta” ou construir “um mundo melhor”. Estas são as bandeiras da esquerda festiva, dos artistas que, do conforto de suas mansões, adoram detonar o capitalismo enquanto desfrutam de tudo de bom que só ele pode oferecer.
Sobre a seita ambientalista, aliás, recomendo a leitura do excelente livro “Os Melancias”, de James Delingpole. A máscara dos alarmistas climáticos que fazem ecoterrorismo cai por completo, expondo a verdadeira face vermelha por trás do movimento verde.
Mas divago. Eis o que eu realmente queria dizer: boa parte da elite carioca gosta de defender candidatos socialistas com discursos messiânicos. Entre uma cerveja e outra, essa turma esbraveja contra os ricos capitalistas e repete como sua utopia salvaria a humanidade das garras dos gananciosos e insensíveis. Depois voltam para seu conforto egoísta com a alma lavada. A retórica vale mais que atos concretos. Garçom, mais uma cerveja!
Foi assim que o brizolismo conseguiu prosperar no Rio, com os aplausos de muita gente da zona sul. Foi assim também que Heloísa Helena, do PSOL (o PT de ontem), conseguiu mais votos no Rio do que em qualquer outro lugar. O que esperar de um povo que elegeu Saturnino Braga em vez de Roberto Campos para o Senado? Essa análise toda foi para chegar ao novo queridinho da elite carioca, o personagem de filme de ação, herói que desafia as milícias. Há só um detalhe: seu partido é aquele que prega o socialismo (com um atraso de duas décadas), que pretende escolher até o tema das escolas de samba, que tem deputado que gosta de queimar a bandeira de Israel em praça pública, demonstrando sua intolerância, além de enorme desrespeito ao povo judeu. Leiam “Fascismo de esquerda”, de Jonah Goldberg. Socialismo e liberdade não combinam. Um é o contrário do outro. Todo regime socialista levou à escravidão e à miséria. Até quando os cariocas vão cair na ladainha dos artistas que adoram o socialismo, lá do conforto de Paris?            

Batalhas verbais

João Pereira Coutinho, Folha de SP

No dia em que terminei de escrever a minha tese de doutorado, enviei o manuscrito para um colega. E pedi uma opinião sincera.

Três dias volvidos, ele respondeu: "Você vai ser fuzilado pela banca".
O problema estava na qualidade do texto. A tese estava bem escrita. Pior: bem escrita e totalmente compreensível.
Eu tinha cometido uma heresia nas ciências sociais: escrever uma tese de doutorado com o propósito honesto de ser lido e compreendido. Sugestão dele para evitar o desastre: reescrever o texto e transformar cada parágrafo em paralelepípedo.
Lembro essa história agora por dois motivos. Primeiro, porque Barton Swaim escreve na "Weekly Standard" sobre a qualidade da prosa acadêmica. Qualidade atroz, entenda-se. Por que motivo a fauna universitária faz um esforço tão tortuoso para ser tortuosa?
Swaim arrisca três hipóteses. Para começar, as humanidades vivem o complexo de inferioridade que as atormenta desde o século 18, quando as ciências naturais deram o seu salto cosmológico. A impenetrabilidade dos textos humanísticos é uma forma de simular "profundidade".
Depois, existe o problema das influências. Das más influências. O aluno escreve mal porque o supervisor e os seus pares escrevem pior. E porque as revistas da especialidade só publicam esses horrores.
Por fim, a hipótese mais provável: a obscuridade obscurece. Quando nada temos de relevante para dizer, só há uma forma de esconder o vazio: com a babugem das palavras.
Admito que essas hipóteses sejam válidas. Mas se lembro o meu calvário acadêmico é por outra razão: a Morgan Library de Nova York dedica exposição ao escritor Winston Churchill até 23 de setembro. E foi Churchill quem me infetou com o vírus da clareza e da legibilidade.
Sim, eu sei: quando falamos de Churchill, surge a imagem clichê do velho premiê inglês com o seu charuto. O prêmio Nobel da Literatura que ele recebeu em 1953 é visto apenas como prêmio político, uma homenagem ao herói da 2ª Guerra.
Lamento discordar. Churchill merece o Nobel da Literatura como ninguém. Ele é o único escritor do século 20 que mudou o século com a força das palavras. Basta ler os seus livros e discursos para entender a proeza. Uma proeza que, obviamente, começa por ser o resultado de uma vida inteira de leitura.
Primeira lição: não existem grandes escritores que não sejam grandes leitores também. E Churchill era um grande leitor. Biografias apressadas dirão que o rapaz foi aluno relapso e uma nulidade em francês ou matemática.
Essas biografias esquecem-se de acrescentar o resto: a paixão pela História. Ainda na juventude, e nas primeiras campanhas militares, foram os volumes de Macaulay sobre a história de Inglaterra ou a monumental obra de Edward Gibbon sobre a Roma Antiga que acompanharam e formaram o soldado (e jornalista) Winston.
Ler esses primeiros textos de Churchill é sentir, em cada frase, a cadência e a elegância dos mestres da língua inglesa.
Mas Macaulay ou Gibbon não lhe forneceram só os instrumentos técnicos do "métier". Legaram-lhe, sobretudo, uma visão poderosa e inspiradora sobre a grandeza da civilização ocidental --uma grandeza ancorada na liberdade individual e na dignidade da pessoa humana.
Armado com tais certezas, Churchill teve a oportunidade de as testar. Primeiro, na denúncia solitária da Alemanha nazista na década de 1930. E, depois, no confronto direto com Hitler, fazendo com que os ingleses acreditassem no inacreditável: a possibilidade de resistir --e vencer.
Hoje, quando olhamos para trás, dizemos que a Inglaterra ganhou a guerra com o apoio americano e o incomensurável sacrifício soviético. Verdade.
Mas os ingleses ganharam a guerra porque acreditaram também nas palavras de Churchill. Palavras simples sobre a importância da liberdade, da honra e do sacrifício.
Como disse Isaiah Berlin em retrato magistral, a proeza maior de Churchill não foi política ou militar. Foi ter recrutado a língua e a história inglesas para a frente de combate. Elas foram tão importantes como as armas. Brindo a ele.
E, mais modestamente, brindo a mim, que derrotei a banca sem mudar uma vírgula. Cada um trava as batalhas que merece.

segunda-feira, setembro 03, 2012

Marketing social

Luiz Felipe Pondé, Folha de SP


1. Ser gay está na moda. 2. Ter filha solteira é legal. Mulher não precisa de homem. 3. Não dou valor a dinheiro. 4. Não tenho preconceito. 5. Os homens hoje lidam bem com mulheres que ganham mais do que eles. 6. Minha tia é muito bem resolvida. 7. Vivemos uma crise de valores. Meus valores não são materiais. 8. Existem pessoas que não se vendem. 9. Meu pai me ensinou a ser digno. 10. Não tenho religião, tenho espiritualidade.
Eis alguns exemplos de papo-furado contemporâneo. Trata-se de marketing social. Filho do politicamente correto, grande exercício de lixo cultural.
O marketing social vende mentiras como verdades porque serve a agendas ideológicas de quem as produz. As outras pessoas apenas as repetem para aliviar seus fracassos pessoais ou para vender uma boa imagem social de si mesmas.
Como sempre, a mentira rege o mundo. Não somos mais pecadores, mas continuamos mentirosos. Eliminou-se da agenda moral a consciência do mal como parte de nós mesmos, ficou apenas o hábito contumaz da mentira.
Eis dez teses contra o marketing social:
1. Ser gay não está na moda. A maioria esmagadora do mundo é indiferente ao tema. Isso não significa nada "contra". Se não fosse o fato de grande parte das pessoas que trabalha com cultura (mídia, arte, universidade) ser gay, ninguém daria bola para o assunto. A própria "teoria de gênero" que afirma que você pode ser sexualmente o que quiser é uma invenção de militantes gays e feministas.
Além, é claro, da grana que grande parte da população gay tem por ser constituída de profissionais altamente qualificados que não têm filhos, até "ontem". Agora, ficarão pobres como os héteros.
2. Mãe solteira é péssimo. E, sim, mulher precisa de homem. Sem homem, a maioria revira no vazio da cama. E vice-versa. Mãe solteira é opção para quem não tem mais opção afetiva ou é coisa de gente altamente narcisista. E para a criança é péssimo. Gente que abraça o marketing social, além de mentirosa, é muito egoísta. O mundo inteligentinho está cheio de gente ressentida que prega essa bobagem.
3. Todo mundo dá valor a dinheiro, principalmente quando não tem. Quem mais diz que não dá valor a dinheiro, é justamente quem mais dá. Dizer "não dou valor a dinheiro" prepara o terreno para se pedir dinheiro emprestado ou justificar dívidas não pagas.
4. Todo mundo tem preconceito. Quem diz que não tem, normalmente acha meninas virgens doentes, mulheres que cuidam dos filhos umas idiotas, religiosos burros, os EUA uma nação do mal e Obama um santo. A maioria continua tendo preconceito contra gay, mulher que transa muito e homem chorão. Eu, por exemplo, tenho preconceito contra gente bem resolvida e que diz que não tem preconceito.
5. Nenhum homem lida bem com mulheres que ganham mais do que ele. A menos que ele tenha problema de caráter. É sempre um sofrimento que se enfrenta dia a dia, sonhando com seu fim. Nem as mulheres bem-sucedidas lidam bem com homens fracassados. Muitas "rezam" para que seus maridos fali- dos ganhem mais ou, pelo menos, o mesmo que elas.
6. Ninguém é bem resolvido, somente os mentirosos, principalmente tias solitárias que fingem ser donas de seus afetos.
7. Valores são sempre materiais, ligados a poder, patrimônio, sucesso, reconhecimento. Não existe "crise de valores" porque nunca existiram valores sólidos, a moral pública sempre foi fundada na hipocrisia e na superficialidade de julgamento do comportamento alheio.
8. Todo mundo tem um preço, sempre menor do que se imagina. Às vezes as pessoas se vendem por muito menos do que dinheiro, se vendem por afetos baratos, promessas falsas e deuses vagabundos.
9. Aprende-se muito pouco com os pais, na maior parte do tempo, o que nos define é o temperamento e as circunstâncias da vida. Aristóteles mesmo dizia que ética é uma ciência imprecisa dominada pela contingência. Quem elogia demais os pais, está ocultando suas vergonhas.
10. Esse negócio de "espiritualidade" é religião sem compromisso. Produto de butique. Pessoas "espiritualizadas" são normalmente as piores e mais indiferentes.

sábado, setembro 01, 2012

The Federal Reserve: From Central Bank to Central Planner

Momentous changes are under way in what central banks are and what they do. We are used to thinking that central banks' main task is to guide the economy by setting interest rates. Central banks' main tools used to be "open-market" operations, i.e. purchasing short-term Treasury debt, and short-term lending to banks.
Since the 2008 financial crisis, however, the Federal Reserve has intervened in a wide variety of markets, including commercial paper, mortgages and long-term Treasury debt. At the height of the crisis, the Fed lent directly to teetering nonbank institutions, such as insurance giant AIG, and participated in several shotgun marriages, most notably between Bank of America and Merrill Lynch.
These "nontraditional" interventions are not going away anytime soon. Many Fed officials, including Fed Chairman Ben Bernanke, see "credit constraints" and "segmented markets" throughout the economy, which the Fed's standard tools don't address. Moreover, interest rates near zero have rendered those tools nearly powerless, so the Fed will naturally search for bigger guns. In his speech Friday in Jackson Hole, Wyo., Mr. Bernanke made it clear that "we should not rule out the further use of such [nontraditional] policies if economic conditions warrant."
But the Fed has crossed a bright line. Open-market operations do not have direct fiscal consequences, or directly allocate credit. That was the price of the Fed's independence, allowing it to do one thing—conduct monetary policy—without short-term political pressure. But an agency that allocates credit to specific markets and institutions, or buys assets that expose taxpayers to risks, cannot stay independent of elected, and accountable, officials.
In addition, the Fed is now a gargantuan financial regulator. Its inspectors examine too-big-to-fail banks, come up with creative "stress tests" for them to pass, and haggle over thousands of pages of regulation. When we think of the Fed 10 years from now, on current trends, we're likely to think of it as financial czar first, with monetary policy the boring backwater.
A revealing example of where we are going emerged last spring, admirably documented on the Fed's website. Using its bank-regulation authority, the Fed declared that the banks that had robo-signed foreclosure documents were guilty of "unsafe and unsound processes and practices"—though robo-signing has nothing to do with the banks taking too much risk.
The Fed then commanded that the banks provide $25 billion in "mortgage relief," a simple transfer from bank shareholders to mortgage borrowers—though none of these borrowers was a victim of robo-signing.
The Fed even commanded that the banks give money to "nonprofit housing counseling organizations, approved by the U.S. Department of Housing and Urban Development." Why? Many at the Fed see mortgage write-downs as an effective tool to stimulate the economy. The Fed simply used its regulatory power to help meet that policy goal.
Even if you think it's a good idea (I don't), a forced transfer from shareholders to borrowers in pursuit of economic policy is the province of the executive branch and Congress, subject to reproof from angry voters if it's a bad idea.
The Fed said candidly that it was acting "in conjunction" with the state attorneys general and the Justice Department. So much for an apolitical, independent Fed.
True, $25 billion is couch change in today's Washington. But you can see where we are going: Hey, nice bank you've got there. It would be a shame if the Consumer Financial Protection Bureau decided your credit cards were "abusive," or if tomorrow's "stress test" didn't look so good for you. You know, we've really hoped you would lend more to support construction in the depressed parts of your home state.
Conversely, when the time comes to raise interest rates, how can the Fed not consider that doing so will hurt the profits of the too-big-to-fail banks now under its protection?
This is not a criticism of personalities. It is the inevitable result of investing vast discretionary power in a single institution, expecting it to guide the economy, determine the price level, regulate banks and direct the financial system. Of course it will use its regulatory power to advance policy goals. Of course, propping up the financial system will affect monetary policy. If we don't like this sort of outcome, we have to break up the Fed into smaller agencies with narrowly defined mandates.
The European Central Bank's political power is, paradoxically, even greater. The ECB was set up to do less—price stability is its only mandate, and it is not a financial regulator. But the ECB holds the key to the euro-zone's central fiscal-policy question. It has bought the debts of Greece, Italy, Spain and Portugal, and it is lending hundreds of billions of euros to banks, which in turn buy more of those sovereign debts.
Eventually, the ECB will have to suck up this volcano of euros, by selling back the bonds it has accumulated. If it can't—if the bonds have defaulted, or if selling them will drive up interest rates more than the ECB wishes to accept—then the ECB will need massive funds from German taxpayers to prevent a large euro inflation. It might ask for a gift of German bonds it can sell, as "recapitalization," or it might ask for a bond swap of salable German bonds for unsalable southern bonds. Either way, German taxes end up soaking up excess euros.
Our views of central banks have changed every generation or so for centuries. The idea that central banks are centrally responsible for inflation and macroeconomic stability only dates from Milton Friedman's work in the 1960s. It's happening again, and it would be better to think clearly about what we want central banks to do ahead of time.
Mr. Cochrane is a professor of finance at the University of Chicago Booth School of Business, a senior fellow at the Hoover Institution, and an adjunct scholar at the Cato Institute.

quinta-feira, agosto 30, 2012

Ferreira Gullar bate na trave


Rodrigo Constantino

No domingo passado, o poeta Ferreira Gullar usou sua coluna da Folha para enaltecer o modelo capitalista de propriedade privada com foco no lucro. Notório defensor do regime comunista, Gullar tem demonstrado, de uns tempos para cá, uma mudança de quase 180o em seu pensamento. Antes tarde do que nunca.

Seus argumentos utilizados no artigo são bastante parecidos com aqueles expostos pelos liberais há décadas. O mecanismo de incentivos é totalmente inadequado quando se trata de empresas estatais, pois falta o olhar atento do dono, o escrutínio dos sócios preocupados com a recompensa dos acertos e a punição dos erros.

Além disso, não é preciso contar com a bondade ou a boa intenção dos empresários para o funcionamento eficiente do modelo capitalista. Felizmente, pois seria uma premissa um tanto ingênua, quase tão ingênua quanto assumir que políticos e burocratas são santos preocupados apenas com o bem-geral.

Em busca de seus próprios interesses, esses empresários, em um ambiente de livre concorrência, são guiados como que por uma “mão invisível” a fazer coisas que beneficiam a maioria. Este foi o grande insight de Adam Smith. Foi da ganância de Steve Jobs, por exemplo, que os usuários obtiveram os excelentes aparelhos da Apple, e não de um suposto altruísmo.

Já nas estatais a ganância costuma ser direcionada para interesses políticos, eleitoreiros, ou sindicalistas. Busca-se estabilidade de emprego, não meritocracia. A maioria se torna verdadeiro cabide de empregos. A promoção costuma ocorrer por critérios ideológicos, não pela maior eficiência. Isso sem falar do mar de corrupção que resulta justamente da falta da presença do dono.

O polemista Paulo Francis, que também foi de esquerda por muitos anos, reconheceu este fato: “Se os recursos que o estado brasileiro canalizou para o estatismo tivessem sido postos ao dispor da iniciativa privada, o Brasil hoje seria uma potencia de peso médio e talvez mais”. Ele foi além: “E, quanto mais gananciosos os capitalistas, melhor. Ganância é sinônimo de ambição”.  

Portanto, é alvissareira a mudança radical no discurso de um antigo ícone do comunismo no Brasil. Mas por que ele bateu na trave então? Por que não foi um golaço? Por causa de uma última frase deslocada no artigo, que demonstra a presença do ranço esquerdista do passado. Eis como Gullar termina seu texto: “Uma coisa, porém, é verdade: cabe ao estado trazer a empresa privada em rédea curta”.

Como assim? Se o poeta já compreendeu que o estado não é formado por santos abnegados ou oniscientes, como delegar tanto poder aos políticos e burocratas e esperar bons resultados? Uma escorregada e tanto do poeta. Se o estado detiver esse poder todo, de controlar as empresas indiretamente, a privatização não ocorrerá de fato. As empresas serão reféns dos interesses políticos, o que, na prática, significa quase o mesmo que ter a velha estatal.

Quando o governo petista aumentou sua ingerência na Vale, este risco ficou evidente. Os milhões de acionistas minoritários acusaram o golpe, e suas ações despencaram. Não é o estado que deve trazer a empresa privada em rédea curta; é a sociedade que deve trazer o estado em rédea curta. O preço da liberdade é a eterna vigilância. E o caminho mais rápido da servidão é concentrar poder demais, e arbitrário, nas mãos do estado.

O poeta levou quase meio século para descobrir os horrores do comunismo e defender as vantagens do capitalismo. Espera-se que ele leve menos tempo para perceber que o capitalismo, para funcionar direito, precisa de mais liberdade e menos intervencionismo estatal.

Há esperança!


Rodrigo Constantino, para o Instituto Liberal

“Quebrou-se a certeza da impunidade”. Assim Miriam Leitão começou sua coluna de hoje, resumindo bem o principal efeito da condenação histórica pelo STF do petista João Paulo Cunha. Não se trata de qualquer um, e sim do ex-presidente da Câmara, político influente no PT, bastante próximo de Lula. A ousadia e a certeza da impunidade eram tão fortes que o réu, agora condenado em última instância, teve a cara-de-pau de se candidatar para a prefeitura de Osasco durante o julgamento.

É verdade que ainda faltam muitas coisas. A população quer ver Cunha preso. Ainda resta saber como o “chefe de quadrilha” José Dirceu será julgado. E, acima de tudo, há um réu ausente, como lembra em sua coluna de hoje Demétrio Magnoli. O sociólogo concluiu assim o artigo: “Mas o procurador-geral escolheu traçar um círculo de ferro em torno de um homem que, coberto de motivos para isso, acredita-se inimputável. A opção da acusação, derivada de uma perversa razão política, assombrará o país por um longo tempo”.

Não dá para discordar. O ex-presidente Lula causou estragos que o país vai sentir por muitos anos ainda. Sua blindagem no maior escândalo de corrupção da história deste país representa um tiro de canhão na Justiça. Tudo isso é fato. Ainda assim, não devemos desprezar os avanços. Mesmo com quase todos os ministros do STF apontados pelo PT, sendo dois deles claramente parciais no julgamento, o mensalão está comprovado, apesar da negação insistente de Lula. E um petista graúdo foi considerado culpado de corrupção e poderá ser preso. São ventos alvissareiros de mudança. Há esperança!


quarta-feira, agosto 29, 2012

Bernanke should show some humility


You don’t have to watch the morning financial news or read the newspapers for long before realising that the day’s market activities will once again be driven by a “will they or won’t they” debate over the US Federal Reserve. Almost every day begins and ends with extensive debate on the same questions: what will the Fed do next? Will there be another round of quantitative easing?
This week is yet another example, with global equity and bond markets now not debating macroeconomic fundamentals but instead placing bets on whatBen Bernanke will or won’t say in Jackson Hole on Friday. We are getting to the point where this question, and Mr Bernanke’s Fed itself, are becoming unhealthy distractions from improving our free market system and engaging in fundamental policy debates.
Close Fed-watching by the markets is to be expected on days around policy announcements by the Federal Open Market Committee. And it is a sign of a healthy market when there are movements in bond prices in response to new pieces of economic data, such as unemployment figures or gross domestic product. There is of course nothing unusual about investors adjusting their expectations of interest rates as new information becomes available. But we are faced with a troubling dynamic where bad economic news is good for stocks because it means more cheap money is on the way and good economic news is bad for stocks because it means less money will be printed.
A big part of the problem is that the US Congress has given the Fed an overly broad “dual mandate” of price stability and full employment. In 1978 Congress congratulated itself for “ending unemployment” via its passage of the Humphrey-Hawkins Act, which added full employment to the Federal Reserve’s existing mandate. This approach has not only proved unsound. It undermines the free market system, allows Congress to use the central bank as a scapegoat while avoiding tough policy decisions, and creates Fed addicts in our financial markets.
We are one of the only developed countries in the world that has such a mandate. The European Central Bank, the Bank of England and the Bundesbank, to name but a few examples, all have single mandates.
Over the past 30 years a lot of thought has been given to the question of what role a central bank should play in a developed economy. Since the financial crisis, the focus has returned to the proper role of monetary policy and the notion that central banks should provide utility services such as money clearing and transfers, serve as an emergency lender of last resort at a penalty rate in times of crisis, and maintain a money supply that provides for stable prices while guarding against inflation. The maintenance of full employment in an economy as a completely separate task from price stability is much too complex for the blunt tools of monetary policy. Even members of the Fed have begun to embrace the notion that what the Fed does best is maintain price stability, with James Bullard, the St Louis Fed president, recently saying “it’s OK to go to the single mandate” and that the Fed should focus on “providing stable prices to get the best employment outcomes” possible.
I hope that in the coming years Congress will make the necessary changes to our central bank’s charter. But the blame does not rest solely with Congress. It would be helpful to have a Fed chairman who acted with a greater sense of humility about what monetary policy can achieve. Mr Bernanke’s comfort with managing long-term interest rates and his unwillingness to stand up and say that there are limits to what monetary policy can accomplish is disturbing, to say the least. We need to do better.
Ultimately, Congress should fix the Fed’s flawed dual mandate. In the meantime, though, we should set the following test for the next nominee to be the Fed chairman: do you see limits to monetary policy and will you stop punishing savers?
We need a Federal Reserve that will help, not hinder, our country’s vital transformation to an economy comprised of savers, and not wholly reliant on over-leveraged consumers. We need a Fed that sees the risks of year after year of zero interest rates wherein investors must hunt for yield in asset classes to which they are not suited. We need a Fed that does not empower runaway spending by the federal government. And most importantly, we must demand a Fed that serves as a utility institution in our economy, not an enabler of some perverse financial system addiction.
The writer is a Republican US senator from Tennessee and member of the Senate banking committee

terça-feira, agosto 28, 2012

A desmoralização da política

Marco Antonio Villa, O GLOBO


A luta pela democracia marcou o século XX brasileiro. Somente em oito dos cem anos é que não ocorreu nenhum tipo de eleição, de voto popular, para escolher seus representantes. Foi durante a ditadura do Estado Novo (1937-1945). No regime militar as eleições tiveram relativa regularidade, mas sem a possibilidade de o eleitor escolher o presidente da República e, a partir de 1965, dos governadores e dos prefeitos das capitais e das cidades consideradas de segurança nacional. Nas duas décadas do regime militar (1964-1985), a luta em defesa da eleição direta para o Executivo e da liberdade partidária foram importantes instrumentos de mobilização popular.
Com o estabelecimento pleno das liberdades democráticas, após a promulgação da Constituição de 1988, as eleições passaram a ter uma regularidade de dois anos, entre as eleições municipais e as gerais. Deveria ser uma excelente possibilidade para aprofundar o interesse dos cidadãos pela política, melhorar a qualidade do debate e e abrir caminho para uma gestão mais eficaz nas três esferas do Executivo e, no caso do Legislativo, para uma contínua seleção dos representantes populares.
Para um país que sempre teve um Estado forte e uma sociedade civil muito frágil, a periodicidade das eleições poderia ter aberto o caminho para a formação de uma consciência cidadã, que romperia com este verdadeiro carma nacional marcado pelo autoritarismo, algumas vezes visto até como elemento renovador, reformista, frente à ausência de efetiva participação popular.
Desde 1988, está será a décima terceira eleição consecutiva. Portanto, a cada dois anos temos, entre a escolha dos candidatos e a eleição, cerca de seis meses de campanha. Neste período o noticiário é ocupado pelas articulações políticas, designações de candidatos, alianças partidárias, debates e o horário gratuito de propaganda política. Cartazes são espalhados pelas cidades, carros de som divulgam os candidatos (com os indefectíveis jingles) e é construída uma aparência de participação e interesse populares.
Porém, é inegável que a sucessão das eleições tem levado ao desinteresse e apatia dos cidadãos. A escolha bienal de representantes populares tem se transformado em uma obrigação pesada, desagradável e incômoda. Tudo porque o eleitor está com enfado de um processo postiço, de falsa participação. A legislação partidária permite a criação de dezenas de partidos sem que tenham um efetivo enraizamento na sociedade; são agrupamentos para ganhar dinheiro, vendendo apoio a cada eleição. A ausência de um debate ideológico transformou os partidos e os candidatos em uma coisa só. O excesso de postulantes aos cargos não permite uma efetiva comparação. Há uma banalização do discurso. E o sistema de voto proporcional acaba permitindo o aparecimento dos “candidatos cacarecos”, que empobrecem ainda mais as eleições.
A resposta do eleitor é a completa apatia, com certo grau de morbidez. Vota porque tem de votar. Escolhe o prefeito, como agora, pela simpatia pessoal ou por algo mais prosaico; para vereador, vota em qualquer um, afinal, pensa, todos são iguais e a Câmara Municipal não serve para nada. O mesmo raciocínio é extensivo à esfera estadual e nacional. No fundo, para boa parte dos eleitores, as eleições incomodam, mudam a rotina da televisão, poluem visualmente a cidade com os cartazes e ainda tem de ir votar em um domingo.
Para o político tradicional, este é o melhor dos mundos. Descobriu que a política pode ser uma profissão. E muito rendosa. Repete slogans mecanicamente, pouco sabe dos problemas da sua cidade, estado ou do Brasil, a não ser as frases feitas que são repetidas a cada dois anos. O marqueteiro posa de gênio, de especialista de como ganhar (e lucrar) sem fazer muita força. Hoje é o maior defensor das eleições bienais. Afinal, tem muitos funcionários, tem de pagar os fornecedores, etc, etc. Para ele, a democracia acabou virando um tremendo negócio. E é um devoto entusiástico dos gregos, pois se não fosse eles e sua invenção....
Não é acidental, com a desmoralização da política, que estejamos cercados por medíocres, corruptos e farsantes. O espaço da política virou território perigoso. Perigoso para aqueles que desejam utilizá-lo para discutir os problemas e soluções que infernizam a vida do cidadão.
O político de êxito virou um ator (meio canastrão, é verdade). Representa o papel orquestrado pelo marqueteiro (sempre pautado pelas pesquisas qualitativas). Não pensa, não reflete. Repete mecanicamente o que é ditado pelos seus assessores. Está preocupado com a aparência, com o corte de cabelo, com as roupas e o gestual. Nada nele é verdadeiro. Tudo é produto de uma construção. Ele não é mais ele. Ele é outro. É a persona construída para ganhar a eleição. No limite, nem ele sabe mais quem ele é. Passa a acreditar no que diz, mesmo sabendo que tudo aquilo não passa de um discurso vazio, falso. Fica tão encantado com o personagem que esquece quem ele é (ou era, melhor dizendo).
Difícil crer que toda a heroica luta pelo estabelecimento da democracia, do regime das plenas liberdades, fosse redundar neste beco sem saída. Um bom desafio para os pesquisadores seria o de buscar as explicações que levaram a este cenário desolador, em que os derrotados da velha ordem ditatorial se transformaram em vencedores na nova ordem democrática. Enfim, a política perdeu sentido. Virou até reduto de dançarinos.
Tem para todos os gostos, até para os que adornam a cabeça com guardanapo.

segunda-feira, agosto 27, 2012

Uma aula de Marc Faber


"Elas gostam de apanhar"


Luiz Felipe Pondé, Folha de SP

"Elas gostam de apanhar." Esta é uma das máximas mais famosas de Nelson Rodrigues, nascido no dia 23 de agosto de 1912 no Recife. Esta afirmação ainda choca muita gente. "Reacionário!", "machista!", gritam os inteligentinhos que nada entendem da "vida como ela é".
É comum se dizer que Nelson está assimilado ao cenário cultural, mas não é verdade. A prova é que livros best-sellers como "Fifty Shades of Grey" ("Cinquenta Tons de Cinza"), de E. L. James, ainda causam ira em setores "progressistas" (a esquerda festiva da qual tanto falava Nelson), apesar de as mulheres "normais", que segundo Nelson são as que gostam de apanhar, estarem devorando o livro com imenso prazer.
No livro de James, Anastasia Steele, universitária, se apaixona pelo poderoso Christian Grey, de quem se torna amante, perdida nas delícias de uma relação "sadomasô light" à qual ela se deixa submeter. E gozará maravilhosamente na submissão. No primeiro momento em que ela o encontra, tropeça e cai, anunciando o domínio que Christian terá sobre ela. Na linguagem feminina comum, "ele tem pegada!". E o afeto feminino responde à "pegada".
Não se trata de dizer que Nelson está estimulando surras, mas sim que o desejo feminino passa pelo gozo da submissão ao macho desejado, dentro do jogo da sedução e do sexo. O "elas gostam de apanhar" no Nelson também fala do enlouquecer o homem, como no caso de adultério, e esperar dele uma bofetada acompanhada de "sua vagabunda", revelando o quanto ele ama esta mulher que o traiu. A psicologia rodriguiana parte da sua máxima "a vida é sempre amor e morte".
"A prostituta é vocação, e não a profissão mais antiga." Há uma relação íntima entre sexualidade feminina e a figura da prostituta como eterna promiscuidade temida. A mulher que nunca encenou "sua" prostituta no sexo nunca fez sexo.
"Dinheiro compra até amor verdadeiro." Imaginemos duas situações hipotéticas.
Hipótese 1: alguém convida você para um longo fim de semana na costa amalfitana na Itália. Executiva, hotel charmoso, longas caminhadas por ruas quietas e antigas, sem pressa, vinho (não "bom vinho" porque isso é papo de pobre querendo parecer rico, do tipo que os jovens chamam de "wannabe", gente que queria ser chique, mas não é).
Hipótese 2: alguém te convida para um fim de semana longo na Praia Grande, você pega oito horas de Imigrantes, trânsito infernal, o carro ferve, você fica na estrada esperando o socorro da Ecovias. Chega lá, apartamento apertado, cheiro de churrasco na laje por toda parte. Crianças dos outros gritando em seu ouvido.
Onde você acha que o amor verdadeiro nascerá? Se responder "hipótese 2", é mentiroso ou não sabe nada acerca dos seres humanos, vive num aquário vendo televisão e se olhando no espelho.
Antes de alguém dizer obviedades entediantes como "preconceito" (agora quando alguém fala para mim "preconceito", não levo mais essa pessoa a sério) ou "depende do contexto em que a pessoa nasce", esclareço: é fácil migrar da Praia Grande para a costa amalfitana, mas não o contrário. E quanto ao "preconceito": não se trata de preconceito, trata-se do tipo de verdade que todo mundo sabe, mas é duro reconhecer. Sim, o amor verdadeiro está à venda, e, enquanto você não entender isso, você permanecerá um idiota moral.
O reconhecimento desse fato torna você adulto, não torna você "melhor". E ser adulto é saber que o mundo não é um lugar "bom". Começando por você e eu.
Sábato Magaldi chamava o Nelson de "jansenista brasileiro". Jansenistas eram escritores franceses do século 17 que partilhavam uma visão de natureza humana na qual somos vítimas de desejos incontroláveis (ou pecado, na linguagem da época) e que, por isso, não conseguimos escapar dessa armadilha que é interior, e não "social". A raiz desse pensamento é a concepção de ser humano de santo Agostinho que eles herdaram. Pascal, Racine e La Fontaine foram jansenistas.
Eu acrescentaria que Nelson era um moralista. Moralista em filosofia é um especialista na alma humana. Proponho que ensinem mais Nelson na escola e menos Foucault.