quinta-feira, junho 07, 2007

Profetas do Apocalipse


Rodrigo Constantino

“O que aprendemos com a história é que as pessoas não aprendem com a história.” (Warren Buffett)

Desde os tempos do Antigo Testamento que pregar o caos iminente conquista muitos seguidores. As pessoas, ignorantes acerca de um futuro desconhecido e muitas vezes até imprevisível, ficam facilmente impressionadas com as previsões catastróficas de certos “especialistas”. Creio que isso explica muito da fama de um Nostradamus, por exemplo. Entre os ambientalistas, vemos muitos alarmistas desse tipo atualmente. No mercado financeiro não é diferente, e muitos são os estrategistas que conquistam a atenção do público – e seu dinheiro – pela insistente previsão de uma grande crise iminente. Ora, é preciso lembrar que até mesmo um relógio quebrado irá acertar as horas duas vezes por dia. Esses “profetas do apocalipse” devem ter previsto umas mil crises das últimas dez que ocorreram! É basicamente para apresentar contra-argumentos a estes “profetas” atuais que a equipe do GaveKal Research escreveu seu novo livro, The End is Not Nigh, no qual defende que os fundamentos por trás da bonança econômica atual são sustentáveis. Veremos de forma simplificada os principais pontos abordados no livro.

Com a crise asiática no final dos anos 90, os governos locais aprenderam uma lição: uma moeda sobrevalorizada, reservas caindo, déficit na conta corrente crescendo e o FMI por perto são coisas que devem ser evitadas a todo custo. Uma vez mordido por uma cobra, a visão de uma simples corda gera pânico. Com isso em mente, os governos asiáticos tentam hoje manipular suas taxas de câmbio, fazendo com que elas não se apreciem muito, apesar dos sólidos fundamentos. Com as moedas artificialmente desvalorizadas, a produção na Ásia está sendo subsidiada em detrimento ao consumo, e o consumo fora da Ásia, especialmente nos Estados Unidos e Europa, está sendo subsidiado em detrimento à produção fora da Ásia. O que todos observam como resultado disso é a pujança dos consumidores americanos, apontada como um excesso insustentável. O que poucos enxergam, em contrapartida, é o crescimento dos gastos governamentais da Europa, infinitamente menos sustentáveis. Se, por um lado, esse subsídio vai parar no setor privado nos Estados Unidos, ele acaba no setor público na Europa, sempre mais ineficiente.

Analisando apenas o crescente déficit comercial americano não é possível entender o quadro real da economia. À primeira vista, fica parecendo que os americanos estão promovendo uma grande festa com dinheiro emprestado de fora. Mas olhando mais de perto, verifica-se que o déficit, medido pelas vendas, não captura corretamente a verdadeira parcela de ganhos das empresas. Quando a Dell vende um computador de US$ 500 nos Estados Unidos, contabilizado como importação da China, as empresas americanas ficam com cerca de US$ 200 de lucro, enquanto as indústrias chinesas, com sorte, ficam com US$ 50. O valor agregado vem das empresas americanas, e o déficit comercial não mede isso direito. A China quer empregos, as empresas americanas querem o lucro. Uma troca mutuamente benéfica ocorre, sendo muitas vezes ignorada pelas estatísticas oficiais.

Além disso, muito da riqueza criada no mundo emergente retorna para os Estados Unidos, pois este país oferece muito mais segurança aos poupadores, através do império das leis e da previsibilidade maior. O mundo emergente pode ser selvagem para credores, como todo brasileiro bem sabe. Os investidores aceitam um retorno menor pela maior segurança. Assim, os Estados Unidos apresentam dívida líquida de US$ 2,5 trilhões, mas um ganho líquido próximo de US$ 30 bilhões por ano. Ou seja, recebem mais do que pagam pelo que devem, mesmo que a dívida seja maior que o crédito. Os Estados Unidos estão funcionando como uma espécie de banco comercial, pegando dinheiro de quem está preocupado com a segurança e investindo esse montante em ativos mais rentáveis, ficando com a diferença. Por fim, comparar o déficit comercial com o PIB pode ser enganador. Os ativos totais líquidos do setor privado americano chegam a US$ 52 trilhões, logo, o déficit comercial é cerca de 1,2% dos ativos. Em outras palavras, o fluxo negativo anual é pequeno se comparado ao estoque de riqueza dos americanos. E ainda mais importante: esse estoque é dinâmico, não estático, e vem crescendo ano após ano a taxas elevadas. Isso explica porque o déficit comercial, usado como grande bode expiatório pelos “profetas do apocalipse” vem crescendo nos últimos 20 anos, sempre denunciado como insustentável. É preciso confiar muito na teoria para ignorar duas décadas de fatos contraditórios!

No mercado financeiro, uma das expressões mais perigosas que existe é “dessa vez é diferente”. Pois é exatamente o que o GaveKal Research defende tanto no livro novo, como no antigo, Our Brave New World, no qual expõe a teoria das “empresas plataformas”. A revolução tecnológica está multiplicando a força intelectual dos homens, assim como a revolução industrial multiplicou a força física. A diferença é que informação pode ser dividida instantaneamente por muitos, e praticamente sem custo! A revolução financeira está colocando capital ao alcance de um número cada vez maior de potenciais empreendedores. O mundo está mais plano, para usar a expressão de Thomas Friedman. O fim do comunismo acrescentou cerca de três bilhões de novos produtores e consumidores ao mundo capitalista. No mundo desenvolvido, as economias caminham cada vez mais da fase industrial para a era dos serviços. Como resultado disso tudo, que são mudanças estruturais que vieram para ficar, ocorreu uma queda drástica na volatilidade econômica. Com menor volatilidade nos ciclos, há maior previsibilidade, e isso exige menor prêmio de risco. O trabalhador, mais seguro com seu emprego, pode aumentar sua alavancagem. No meio rural, o clima pode fazer toda a diferença, e poupar para os dias ruins é questão de sobrevivência. No mundo moderno, com o setor de serviços responsável por quase 80% do PIB americano, a necessidade dessa poupança de emergência é menor.

A quantidade de pessoas que passa a trabalhar por conta própria ou em pequenas empresas aumenta, e a poupança dessa gente se dá através do investimento no próprio negócio. Este tipo de poupança não é computado pelas contas nacionais, passando a impressão errada de que os americanos não poupam nada. Muito da queda nos últimos anos da taxa de poupança americana se deve ao fato de os americanos estarem deixando de ser empregados para se tornarem empresários. A quantidade de pequenas e médias empresas cresce em parar nos Estados Unidos. Os gastos individuais levam em conta quanto dinheiro se ganha, o valor dos ativos e a performance recente desses ativos. Um economista não deve considerar a poupança apenas em relação aos salários e bônus. Os ganhos de capital, ainda mais no mundo moderno, são tão ou mais importantes para o consumo. Levando esse efeito riqueza em conta, o fato de a China poupar mais que os Estados Unidos em relação ao PIB pode significar apenas que metade de sua população ainda trabalha no campo, não há rede de proteção nem uma indústria desenvolvida de seguros, e a estrutura demográfica é bem diferente. Países mais jovens poupam menos normalmente.

Juntando muito do que foi dito acima, verificamos que a taxa de lucratividade das empresas americanas está crescendo há anos. Muitos “profetas do apocalipse” garantem que isso não é sustentável, e que uma regressão à média é questão de pouco tempo. Ocorre que a média é crescente também! Não há porque a parcela de lucro sobre o PIB retornar a algum patamar histórico, já que as condições são bem diferentes hoje. Desde os cortes de imposto da era Reagan, o governo toma menos dinheiro das empresas, e isso deixa mais no bolso dos acionistas. Com a queda da inflação e por conseqüência dos juros, as empresas gastam menos no serviço da dívida, o que também deixa mais no bolso dos sócios. As empresas estão migrando do setor industrial para o setor de serviços, com maiores margens. Produzir idéias pode ser altamente rentável. E por fim, a globalização é uma ferramenta fantástica para as empresas competitivas. Transferindo a parcela mais volátil e de menor margem para o mundo em desenvolvimento, ávido para gerar empregos e com mão-de-obra mais barata e farta, as empresas americanas focam no maior valor agregado, obtendo margens maiores. Nada disso para ser insustentável. As elevadas margens de lucro das empresas americanas não devem despencar para algum patamar histórico, ao que tudo indica.

O economista austríaco Schumpeter cunhou o termo “destruição criativa”, para explicar o fenômeno do dinamismo capitalista, onde inovações estão sempre colocando fora do negócio competidores obsoletos. Países que permitem esse tipo de dinâmica apresentam melhores resultados. Para tanto, é preciso barrar o protecionismo estatal, aceitar que disparidades de renda serão uma realidade, respeitar a propriedade intelectual etc. Hong Kong é um bom exemplo de um lugar que abraçou essas características e prosperou. Países que não aceitam esses fundamentos liberais acabam prejudicados. O mundo atual está colocando em xeque o modelo de welfare state. O capital está mais eficiente, buscando locais mais amigáveis, com menores impostos. Basta verificar os grandes compradores de ações nas bolsas mundiais, provenientes dos tradicionais paraísos fiscais. A própria sede das grandes empresas pode ser mais facilmente transferida para países com mais segurança e menores impostos. A globalização vai acabar matando o welfare state. Isso, claro, se os governos forem se adaptando à nova realidade e deixando o mercado agir. Mas sempre há o risco de tomarem o rumo errado e partirem para o protecionismo. Nesse caso, terão o total ostracismo que merecem, relegados à insignificância global.

Justamente nesse ponto é que o livro trata daquilo que é considerado o “elo fraco” do sistema atual: os governos europeus. Se algo parece insustentável no cenário atual, é justamente o crescente endividamento dos governos da Europa. Os investidores têm comprado títulos europeus e o Euro recentemente, em parte pelo diferencial de juros – que praticamente não existe mais, pela diversificação de moedas nas reservas – especialmente pelos produtores de petróleo, e pelo receio do déficit comercial americano. Nos últimos 10 anos, a dívida pública francesa saiu de 35% do PIB, em francos, para 67% do PIB, em euros. O governo tem conquistado uma parcela crescente da economia francesa, uma trajetória que poderá facilmente levar a uma crise política séria. Muitos franceses – especialmente os empreendedores, estão saindo do país para lugares menos hostis ao empreendimento privado. Já passa de um milhão a quantidade de franceses morando fora. A situação da Itália é ainda mais dramática, com uma dívida de 105% do PIB, claramente insustentável sem reformas estruturais, que dificilmente o governo esquerdista terá coragem de fazer. Junte-se a isso o envelhecimento da população européia, com um modelo de previdência irrealista, e não é difícil perceber que existe uma bomba-relógio pronta para explodir.

Contrário a “sabedoria convencional”, portanto, o foco dos investidores deveria estar no problema europeu, mascarado em parte pelo bom desempenho de sua moeda. O consumo “excessivo” dos americanos ou o déficit comercial dos Estados Unidos são coisas bem menos preocupantes que o crescente endividamento dos governos europeus. Não obstante, o GaveKal Research acredita na continuidade do momento fantástico que a economia global está vivendo, sustentando esta visão com os argumentos expostos acima de maneira simplificada. Há anos que os “profetas do apocalipse” pregam um grande crash da economia mundial e dos principais ativos financeiros. A alta nos preços, por si só, gera mesmo vertigem. Mas nada aponta para uma inflexão próxima, ainda que correções sejam absolutamente naturais numa tendência de longo prazo. Ainda assim, muitos vivem de pregar a derrocada americana sempre iminente. Um dia esses “profetas” acertam, não resta dúvida. Entretanto, não deverá ser tão cedo. Apostar contra a força do touro não tem sido bom negócio. O fim não está próximo ainda!

7 comentários:

Anônimo disse...

o fim estah logo ali. a complacencia nao tem limite, os riscos sao mal calculados, o Bono Vox tem um fundo de private equity, e os fundos de private equity estao "going public"!!

nao, dessa vez nao eh diferente. nunca eh diferente, a historia sempre se repete - com algumas pequenas modificacoes, mas no fundo eh sempre a mesma coisa.
o mercado financeiro, a economia real, o comercio entre paises dependem do ser humano, e o comportamento humano nao mudou e nao mudarah.

o fim estah proximo, mas nao serah na proxima semana, nem no proximo mes. talvez ateh o final do ano. soh o tempo dirah.

Right Wing disse...

Olhem a Patricia M aí!!!!!

Anônimo disse...

"Nada debilita mais a inteligência racional do que a ostentação de racionalismo. Erigida em símbolo de autoridade, a razão perde toda eficácia cognitiva e se torna um mero fetiche hipnótico. O opinador ignorante, infectado de progressismo “científico” e decidido a não ler, ouvir ou compreender nada que possa abalar as suas crenças, é, na escala humana, a encarnação mais perfeita da invencibilidade absoluta. Nada pode demovê-lo da convicção de que seu apego fanático a chavões iluministas faz dele a personificação triunfante do conhecimento e das luzes, um herói libertador em luta contra o obscurantismo fundamentalista."

Olavo de Carvalho, Jornal do Brasil, 3 de maio de 2007

Mario disse...
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Rodrigo Constantino disse...

Dureza...

Anderson Mahler disse...

Excelente texto.
Penso de forma muito parecida em relação a vários outros setores da sociedade. Profetas milenaristas, fanáticos religiosos, entusiastas extra-terrestres torcem com fervor para que o mundo se exploda e reine finalemnte a "nova-era".
Ano passado estive em alto-paraiso, uma pequena cidade de Goiás, para visitar algumas das inúmeras cachoeiras do cerado. Cenário paradisíaco cercdo por vuma vegatação que abrange 33% da biodiversadide do Brasil.
Juntamente com tudo isto está um grande número de igrejas e seitas apocalípticas voltadas para a construção de estações para os seres "iluminaodos" sobreviverem ao fim que está cada vez mais próximo.
Desatres naturais, crash financeiro mundial, aparecimente de naves alienígenas entre outros fazem parte das preces diárias de muitos habitantes dessa pequena e pacata cidade. A única coisa que não consegui ver é onde haviam instalado um relógio-como aquele dos 500 anos do descobrimento do Brasil- porém contando decrescivamente os dias para o fim do mundo. Era só o que faltava.

Abraços
Anderson Mahler

Anônimo disse...

sustentável em?
O fim dos tempos esta mais perto doque nunca.
"Chegai a Deus que ELE chegará a ti."
Fica com Deus ;)