sexta-feira, fevereiro 13, 2009

Nacionalismo Xenófobo



Rodrigo Constantino

"A individualidade sobrepuja em muito a nacionalidade e, num determinado homem, aquela merece mil vezes mais consideração do que esta". (Arthur Schopenhauer)

O caso recente da brasileira supostamente atacada por neonazistas na Suíça reacendeu o debate sobre a xenofobia. Independente de onde está a verdade nas diferentes versões do caso, é sempre importante combater a xenofobia, um sentimento tribal típico. O “tribalismo” é uma forma coletivista de ver o mundo, dividindo os homens em dois grupos: os membros da tribo, e os “de fora”. Em seguida, um ódio contra aqueles fora do grupo é alimentado. Seus membros não seguem princípios isonômicos, mas sim o “vício da amizade” típico das máfias. Indivíduos passam a ser apenas meios sacrificáveis pelo bem do grupo.

O nacionalismo exacerbado, in extremis, é não ter orgulho das conquistas pessoais. Muitos fogem de seus fracassos para se esconder atrás do nacionalismo, tendo orgulho de algo maior que ele, projetando seu sucesso nas conquistas alheias. Se você tem orgulho de sua trajetória, se considera ter vivido de acordo com seus valores racionais, por que deveria ofuscar isso com uma admiração ou vergonha por um grupo de desconhecidos, acidentalmente nascido no mesmo local do mapa?

Generalizações são sempre perigosas e injustas. O que é o brasileiro? Como unificar em alguns poucos adjetivos tanta gente diferente? Tal simplificação não tem como não ser grotesca, e pode levar a conclusões absurdas. Um indivíduo nascido por acaso no Brasil pode ter mais em comum com alguém da Austrália, do outro lado do mundo, do que com seu vizinho. Portanto, não é razoável alguém suprimir sua individualidade em prol de um grupo que pode não guardar nada em comum com seus valores mais básicos.

Gustave Le Bon fez um excelente estudo sobre psicologia das massas, e seu livro The Crowd se tornou um clássico. Nele, Le Bon nos mostra como a lógica não faz parte de formações de massas, e sabemos como a lógica é fundamental para nossa sobrevivência. O intelecto que uma massa assume precisa ser o intelecto do ser mais simples do grupo. Vários crimes foram cometidos através da psicologia de massas, pois o indivíduo adquire a sensação de invencibilidade e perde a razão quando participa de um movimento contagiante desses. As massas "pensam" com a emoção, e o indivíduo pensa através do cérebro. O nacionalismo cego é um grande movimento de massas.

O que é uma nação? Será que somente por uma divisão geográfica, normalmente fruto de algum acordo ou guerra, temos que nos sentir mais próximos deste grupo? Será que alguém do Sul deve se sentir tão próximo de alguém no Acre? Geografia, língua, nada disso deveria ser critério relevante para forte sentimento de grupo. Devemos lutar por nossos valores, e em seguida admirar aqueles que compartilham dos mesmos valores. Tenho muito mais em comum com um indiano que defende a liberdade individual, do que com um vizinho coletivista. Não é olhando no mapa que formo meus valores e escolho minhas amizades. É conhecendo seus valores individuais.

Na prática, o nacionalismo xenófobo sempre foi usado para a defesa de interesses de um grupo. Reservas de mercado foram criadas com o discurso nacionalista, protegendo mamatas de empresários locais, livres da concorrência dos importados. Quem perde é o consumidor, que estaria melhor se pudesse comprar produtos melhores e mais baratos vindos de fora. Em nome do nacionalismo, concentraram poder demais em Brasília, prejudicando o federalismo e ameaçando a liberdade. Criaram as estatais ineficientes em nome do nacionalismo, prejudicando os serviços prestados ao povo. Será que devemos aplaudir uma administração mais ineficiente apenas por ser exercida por brasileiros? “O petróleo é nosso!” é um slogan tipicamente nacionalista e xenófobo. A lei brasileira impede que estrangeiros explorem o setor aéreo, e não permite que eles sejam donos de canais de televisão. Isso não é xenofobia?

O Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), de extrema esquerda, já chegou a fazer campanha contra o Halloween, o famoso Dia das Bruxas nos Estados Unidos, só porque era uma cultura “de fora”. Isso não é xenofobia? Quando a extrema esquerda grita “ianques, go home!”, isso não é xenofobia? Quando atacam o uso de termos em inglês, isso não é xenofobia? Esses exemplos demonstram como a extrema esquerda e a extrema direita, no fundo, podem ser parecidas. Não vamos esquecer que o nazismo é a mistura do nacionalismo com o socialismo. No fundo, são ideologias coletivistas que transformam os indivíduos em meios sacrificáveis.

A nação não deve ser um fim colocado acima dos indivíduos. A melhor forma de combater essa xenofobia, que infelizmente aumenta em tempos de crise econômica, é defender as liberdades individuais, independente da raça, nacionalidade, credo ou renda. Einstein chamou o nacionalismo de “doença infantil da humanidade”. Seria saudável se as pessoas trocassem o nacionalismo xenófobo pelo respeito ao indivíduo. E qualquer ato de agressão gratuita a um indivíduo, seja ele um brasileiro no exterior ou um estrangeiro no Brasil, deve suscitar o mesmo grau de revolta.

4 comentários:

Maristela disse...

Olá, Rodrigo! Não estou com tempo pra me alongar neste comentário mas precisava lhe dizer que concordo plenamente com as reflexões que você faz nesse artigo.
Abs.,
Maristela.

pati_oliv disse...

Caro Rodrigo, creio que seu artigo sobre xenofobia foi só mais uma maneira que você encontrou para criticar a “esquerda”. A proteção a Amazônia contra a exploração estrangeira não está relacionada com a xenofobia, muito pelo contrario, cuidando da Amazônia estamos realizando um ato louvável para todo o mundo. É claro que nós, brasileiros, também contribuímos para o esgotamento de recursos naturais e não só aos da Amazônia, mas devemos defender o pouco do verde que nos resta.
Sabemos que são poucos os estrangeiros que procuram a Amazônia para cuidar dela, a maioria visa o lucro que ela pode oferecer e o lucro fundamental que podemos extrair dela, não está ligado a dinheiro.
Já em relação a luta contra a introdução de outras culturas, principalmente a cultura americana no nosso cotidiano, acho que você não manteve sua coerência. Você apóia o individualismo em vários momentos do seu artigo, porém, eu não imagino como você pode ser individualista, sendo tão dependente de outras culturas.
Quando você fala do nacionalismo como uma fuga para as pessoas que não possuem realizações pessoais, acho que você comete um grande erro. O que seria do Brasil ou de qualquer outro país, se não fosse o nacionalismo? É por causa dele que tivemos vários processos no decorrer da historia e também graças a ele, obtivemos várias conquistas. Afinal, é para isso que de quatro em quatro anos, cumprimos com o nosso dever de cidadãos,escolhendo alguém que represente o interesse da nação como um todo. Um exemplo bobo, porém prático: ”o que seria de uma família se os pais não lutassem por melhores condições em seu lar?”, - o nacionalismo tem muita semelhança com essa situação familiar. No lar, cada integrante defende os interesses familiares porque é ali que ele reside e foi criado. Sem o nacionalismo e esse “instinto tribal”, provavelmente não teríamos o conhecimento que temos hoje. O homem é um ser dependente, prova disso é a própria reprodução, temos necessidade de nos relacionar com outros, tanto para o sentimental quanto para o intelectual, então, resumidos em uma nação, somos mais fortes para enfrentar qualquer problema.
A partir disso, todas as conquistas realizadas por uma nação, devem ser comemoradas por todos, porque se a nação não comemorar, quem celebrará? Um país não é algo com vida própria, é um conjunto, não são as pessoas que dependem do país, pelo contrário ,o país é que depende dos habitantes, afinal, sem população não seria um país.
Em seu vídeo, postado no dia 14 de fevereiro, você começa falando a seguinte frase: “Bom, o assunto de hoje será xenofobia”, mas parece que o seu maior alvo é atingir o lado esquerdo da política, ao invés da xenofobia, querendo criar um monstro. Acho que esse não é o objetivo de ninguém, seja nacionalista ou individualista.


Patricia

Rodrigo Constantino disse...

Patrícia, vc faz muitas confusões.

Defender a pátria onde vive não é nacionalismo. Nacionalismo é colocar os "interesses da Nação" (???) acima dos indivíduos, que se transformam em meios sacrificáveis para esse bem maior. É uma forma tosca de coletivismo.

A Amazônia não é "nossa". Ela é explorada por ALGUNS brasileiros, e de forma irresponsável. Não importa se quem vai cuidar melhor dela é brasileiro, suíço, americano ou africano. O que importa é ela ser melhor cuidada, e o lucro não é pecado. Ele pode justamente ajudar em sua preservação e melhor uso, como para remédios.

Meu ataque é direcionado a TODOS os nacionalistas, de direita e esquerda. Nacionalismo é um câncer ideológico!

Rodrigo

Sérgio Mazzi disse...

Congratulações Rodrigo!!!

Seu artigo é muito pertinente e muito bem focado, fiquei surpreso ao lê-lo

Parabéns e obrigado!