segunda-feira, abril 27, 2009

A Bomba-Relógio do Welfare State



Rodrigo Constantino

Como se não bastassem todas as mazelas que a economia americana enfrenta – déficit fiscal crescente, dívida federal acima de US$ 10 trilhões, recessão, etc. – há uma verdadeira bomba-relógio armada, que começa a pressionar cada vez mais as finanças públicas. Trata-se do aparato de welfare state criado no passado, basicamente os gastos com a Previdência Social, o Medicare e o Medicaid. Durante a crise atual, essa questão acabou em segundo plano. Mas isso não quer dizer que sua importância seja secundária. Ao contrário, isso apenas joga mais lenha na fogueira, conforme mostra um relatório do 13D Research.

Os gastos com os três grandes programas sociais já representam 40% do orçamento de US$ 3 trilhões do governo federal. Com a aposentadoria iminente dos quase 80 milhões de “baby boomers”, esses programas podem praticamente dobrar em relação ao PIB até 2030. A demografia começa a trabalhar contra as benesses do welfare state americano. Em 1935, quando a Previdência Social foi criada, apenas 6% dos americanos tinham 65 anos ou mais. Atualmente, esse percentual dobrou, e até 2030 deverá ter triplicado. Adding insult to injury, o povo não só está mais velho, como vive bem mais hoje em dia. A expectativa de vida vem aumentando rapidamente, o que é uma grande conquista do capitalismo, mas que custa caro aos programas sociais.

Em 1945, para cada beneficiário da Previdência Social, existiam mais de 40 trabalhadores pagando a conta. Em 2002, eram apenas pouco mais de três trabalhadores para cada aposentado. Em 2030, pelas tendências atuais, serão pouco mais de dois trabalhadores para cada beneficiário. Como o sistema de Previdência Social não passa de um grande esquema Ponzi de pirâmide, onde os novos adeptos bancam os aposentados, a demografia é crucial para manter o programa funcionando. A conta está ficando cada vez mais pesada para os ombros dos trabalhadores.

O Congressional Budget Office (CBO) espera que o gasto com os benefícios da Previdência Social ultrapasse os impostos sobre salários já em 2009. Desde 1984, será a primeira vez que isso acontece. Na última vez que isso aconteceu, em 1983, o Congresso aprovou uma série de reformas, incluindo o aumento nos impostos sobre os salários e na idade de aposentadoria. Graças a estas medidas, foi possível ganhar tempo e operar com superávit durante esses anos. Mas a hora de novos ajustes dolorosos voltou. Medidas cada vez mais drásticas serão necessárias para fechar a conta. O CBO esperava um superávit de US$ 80 bilhões para este ano, e as novas estimativas apontam apenas US$ 16 bilhões de saldo positivo, contando com o imposto de renda. Para o ano que vem, a expectativa é de apenas US$ 3 bilhões. O governo ainda aumentou os benefícios em quase 6% para compensar o aumento no custo de vida. Foi o maior aumento desde 1982.

Em 1968, o presidente Johnson incluiu a Previdência Social e outros gastos num orçamento unificado. Com isso, os ativos da Previdência deixaram de ser separados dos demais gastos do governo. A arrecadação previdenciária, então bastante superavitária, passou a representar uma montanha de dinheiro que o governo poderia utilizar para financiar outros gastos. De fato, desde 1986, os saldos positivos da Previdência Social subsidiaram o resto dos gastos do governo em mais de US$ 2,3 trilhões. Assim, o déficit fiscal do governo podia ser reportado abaixo do real, pois o buraco era tampado pelo saldo previdenciário. Muito em breve, isso vai mudar. Em vez de a Previdência Social subsidiar o restante do orçamento, o restante do orçamento terá que cobrir o rombo da Previdência.

No epicentro do problema, sempre esteve a própria natureza do programa. Os políticos não gostam de adotar medidas impopulares, pois dependem dos votos para continuar no poder. E como o rombo previdenciário sempre foi algo distante, cada governo ia jogando a conta para o próximo. Apenas quando a situação parece realmente insustentável alguma medida mais dura é tomada. Estamos num desses momentos. E justamente no meio de uma crise onde os gastos do governo americano já parecem explosivos. Até quando será possível o governo americano conseguir financiamento para tantos gastos sem puxar a taxa de juros para cima, afetando negativamente a economia? Se a opção for pela saída mais fácil – imprimir dinheiro através do Fed – qual será o destino do dólar? São tempos difíceis, sem dúvida. E há ainda uma bomba-relógio criada pelo welfare state, fazendo tic tac tic tac...

9 comentários:

Kelvin disse...

"A expectativa de vida vem aumentando rapidamente, o que é uma grande conquista do capitalismo, mas que custa caro aos programas sociais." Realmente, não há o que contestar aqui! Mas qual seria a solução para a previdência?!

Tiago disse...

A "solução" seria o mais natural: cada indivíduo cuidar da sua própria aposentadoria, poupando ao longo da vida ativa - ou contar com a bondade dos filhos se escolher não fazer poupança.

Isso não só é o mais ético e mais eficaz em termos de aposentadoria, como permite um grande acumulo de poupança, que pode ser usado em investimentos, acelerando a prosperidade.

fejuncor disse...

Poderia falar um pouco sobre nossa "bomba" interna tmb Constantino. O Brasil, por exemplo, é um dos pouquíssimos países em que não existe idade mínima para a aposentadoria (isso ao menos no caso do INSS). Imagine uma pessoa que comece a trabalhar aos 20 anos, aposente-se aos 50 e que viva até os 85 __ algo a cada dia mais comum no país. Essa pessoa terá passado mais tempo recebendo a aposentadoria do que salário. Em outras palavras, ela terá contribuído muito menos do que receberá depois de ter parado de trabalhar. Sistema nenhum do mundo agüenta a esse desequilíbrio. Terra das bondades eleitoreiras. Creio que com seu vasto conhecimento poderia fazer um ponte ainda entre isto e a tal cultura patriomonialista, entranhada, e bem representada pela mais recente farra das passagens aéreas. Da pano para boas análises.

Johnny disse...

Pois é, essa bomba aqui no Brasil já vem sendo apontada a décadas e ninguém faz nada a respeito ...

kelvin disse...

Tiago, acho que esta solução não é eficiente, nossa sociedade é desigual. Veja uma explicação por absurdo: um filho de um grande empresário pode se "aposentar" se quizer quando tiver 18 anos, se o pai assim o quizer, simplesmente pagando uma no banco. Agora um pai assalariado com 420 reais não pode nem pensar em guardar nada para aposentaria, quanto mais para seus filhos! Quem trabalha mais o grande empresário ou o assalariado?! Acho q nenhum dos dois, ou o empresário trabalha mais que o assalariado?! a diferença aqui não é o quanto se trabalha, mas a possibilidade de usufruir um bonus no fim da vida! Se não for uma previdência pública, e considerando esses dois exemplos podemos concluir que existe uma contradição em nossa sociedade, qm tem mais condição pode se aposentar melhor d q qm não tem, mesmo sendo considerados que trabalhem igualmente... uns nem terão condições de se aposentar! o que acontecerá com estes?! morreram à mingua na velhice?! já que não tem como guardar dinheiro?! E ai?! Isso é natural entao!?

Kelvin disse...

errata eu disse morreram, leia-se morrerão...:o9

vinicius_falcão disse...

Kelvin: em todas as sociedades haverá desiguladades, o ser humano é "desigual por natureza", pois existe uma coisa chamada liberdade de escolhas, por isso mesmo somos mais diferentes que semelhantes, embora exista um "império da igualdade" por aí... A igualdade pretendida é a de ser tratado da mesma forma independente de qualquer diferença pessoal: rico ou pobre, negro ou branco, patrão ou trabalhador, etc. Não é justo (muito menos sustentável) que eu trabalhe para pagar a aposentadoria de outras pessoas e que as pessoas usufuram sem trabalhar de um "numerário" por mais tempo - e com um valor total maior - do que contribuiram. Eu penso que, se fosse pra existir um sistema privado de aposentadoria, o sujeito deveria receber o valor total que contribuiu acrescido de juros de mercado. Só isso. Por exemplo: eu vou me aposentar e, ao longo do tempo de contribuição, foi arrecadado 1 milhão de reais meus, daí fazem as contas, acrescentam os juros e me pagam 1 milhão de reais. Porém, esse sistema é deveras arriscado, como parece... Por isso penso que seja melhor deixar que planos privados controlem isso e que as pessoas tenham a liberdade de contribuir com a previdência, o regime seria optativo, portanto (o governo poderia continuar com um sistema previdenciário, mas seria mais um dentre tantos e não seria obrigatório).

Kelvin disse...

Caro Vinicius,

Eu não falei desigualdade, eu falei contradição. Vc está considerando uma coisa que é social (existência de ricos e pobres) como "natural")?! Não é justo mesmo que você trabalhe para pagar nada pros outros?! Então não é justo nenhum imposto...Pois é com eles que se constroem escolas, estradas, saneamento (quando os impostos não são desviados, claro). Não disse eu também que não deveria existir previdência privada... Só disse da necessidade de uma pública como paleativo de solução para esta contradição da nossa sociedade, já, que talvez não tenha levado em conta, um assalariado de 420,00 não pode poupar 1.000.000,00 de reais durante sua vida. E quando estiver velho com que dinheiro ele vai viver?! (vai trabalhar a vida toda sem direito a descanço?!) Infelizmente nossa sociedade possui contradições que levam a soluções paleativas... se não houvesse essa contradição, não haveria necessidade de uma previdência pública...

Anônimo disse...

Prezado Rodrigo, bom dia! Tive a satisfação de assistir a um video seu no YOUTUBE (se não me engano) com o titulo Lula e Dilma, manual de destruição do Brasil. Parabens pelas suas colocações! Por favor, gostaria de saber se vc poderia por uma gentileza especial enviar-me a sequencia de "slide-show" que vc montou para fazer a apresentação (acho que em Power Point - *.pps) considerando que ela não é mto visivel no video e mais, que eu gostaria muitissimo de poder estudar os graficos que vc apresentou na palestra. Por favor, se posssivel nao deixe de atender a esta minha solicitação enviando-me um email para o endereço a seguir. Muito obrigado! Lorival ( engsalviati@gmail.com )