terça-feira, abril 07, 2009

Um Marxista Coerente



Rodrigo Constantino

“As escolhas que um homem faz são determinadas pelas idéias que ele adota.” (Mises)

O que mais nos diferencia dos demais animais é a capacidade de livre-arbítrio através do uso da razão. Os homens podem escolher diferentes alternativas no modo de conduta para cada estímulo fisiológico. Ele não está fadado a reagir aos impulsos mais instintivos apenas. Isso vai contra qualquer crença fatalista, onde o destino dos homens esteja previamente traçado e eles nada mais representem do que agentes passivos dessas forças exógenas. Uma excelente ilustração de crença fatalista é o marxismo, como mostra Mises em Theory and History.

Para Marx, o socialismo estaria fadado a chegar com a “inexorabilidade de uma lei da natureza”. Haveria um determinismo histórico no qual as idéias e escolhas dos seres humanos não exercem poder algum para mudança de rumo. O capitalismo era uma fase nesse processo, e o último estágio, o paraíso terrestre, ocorreria inevitavelmente com a chegada do socialismo, abolindo as divisões de classes previamente existentes. O marxismo, como toda crença fatalista, vai à contramão da natureza humana, e por isso é tão difícil – para não dizer impossível – se adaptar realmente a estas crenças. As claras contradições de Marx começam quando ele se torna um ativista político. Ora, qual o sentido de praticar ações revolucionárias se os eventos futuros devem inevitavelmente se suceder de acordo com um plano pré-ordenado, independente do que os homens façam?

Se Marx fosse consistente com suas crenças, como lembra Mises, ele não teria embarcado em atividades políticas. Bastava ele ficar quieto no seu canto, aguardando o dia no qual a propriedade privada capitalista iria desaparecer, dando lugar ao socialismo. Nada que os homens fizessem, segundo o próprio Marx, poderia mudar esse destino. Ele era, afinal, algo já determinado pela história. Qual o sentido em lutar tanto por uma causa que independe de nossa luta e que já é certa, pois foi previamente definida? As ações de Karl Marx entram em evidente contradição com suas idéias, justamente provando que ele mesmo depositava, no fundo, enorme importância no poder das idéias nas escolhas dos homens. Estes teriam, portanto, a liberdade de traçar o próprio destino.

Segundo Marx, as “forças materiais produtivas” guiam a humanidade e determinam o curso da história. Apesar de ser este um conceito fundamental na obra de Marx, ele não oferece uma definição mais objetiva sobre o que isso quer realmente dizer. A idéia é que a tecnologia, os “fatores de produção” são considerados o fator essencial dessas forças produtivas, que por sua vez determinam as relações produtivas e toda a “superestrutura”. Logo de cara se nota uma inversão: essa tecnologia, essas invenções são produto de um processo mental, do uso da razão e de novas idéias. Marx inverte essa lógica, e afirma que são as forças materiais que definem as idéias, como se tais forças surgissem num vácuo, caindo do além.

Em segundo lugar, como argumenta Mises, o capital previamente acumulado pela poupança é necessário para implementar essas idéias inovadoras. Mas para poupar é preciso uma estrutura social na qual seja possível poupar e investir. As relações produtivas, portanto, não são o produto das forças materiais produtivas, mas uma condição indispensável para que elas existam. Como então explicar a existência da sociedade através das forças produtivas que são, elas mesmas, resultado de um nexo social previamente existente? Para Marx, antes havia as tais “forças materiais produtivas”, que em seguida compelem os homens a entrar em relações produtivas definitivas que independem de suas escolhas. E depois essas relações produzem a “superestrutura”, assim como as idéias religiosas, artísticas e filosóficas. São todos prisioneiros de sua classe. Esta que irá determinar o pensamento dos indivíduos. Há o pensamento burguês, e o pensamento proletário, dependendo da classe social. Curiosamente, em mais uma incoerência, o burguês Marx era o “profeta” capaz de se livrar essa prisão ideológica e enxergar a verdade, que os próprios proletários não eram capazes de ver com seus próprios olhos.

Partindo deste dogma, e não deixando espaço algum para contestação racional de sua premissa, o marxismo exige que todos os membros de uma mesma classe pensem da mesma maneira. Caso contrário, a teoria toda estaria invalidade logo na largada. Mas como a realidade é totalmente diferente, era preciso uma tática para lidar com a situação: os proletários que discordassem do credo marxista eram todos “traidores”. Como os marxistas enxergavam a coisa, seus adversários eram apenas burgueses idiotas e alienados, ou proletários traidores. Não há espaço para contestação sincera, e tanto Marx como Engels proferiram ataques virulentos contra aqueles que ousavam questionar suas crenças. A difamação e os ataques pessoais substituíram o debate racional no marxismo. E como as divergências não podem ser solucionadas através de debates calcados em argumentos, a guerra civil e a revolução armada passam a ser o único meio para resolver o impasse. É preciso eliminar fisicamente aqueles que discordam dos dogmas marxistas.

Voltando ao aspecto do determinismo histórico do marxismo, o capitalismo é um meio necessário para chegar ao socialismo. Além disso, os capitalistas são alienados sem consciência ou escolha sobre suas ações. Elas foram previamente determinadas, e eles apenas executam as tarefas que devem executar pela lei da natureza. Esses atos, ainda que vistos como uma “exploração” pelos marxistas, também são vistos como inevitáveis, e como um passo necessário para o destino final e esperado. Ora, se Marx fosse consistente, como conclui Mises, ele teria exortado os trabalhadores: “Não culpem os capitalistas; ao ‘explorarem’ vocês, eles fazem o que é melhor para vocês; eles estão pavimentando o caminho para o socialismo”. À luz do próprio marxismo, aquele que luta por legislação trabalhista e aumento de salários é um “pequeno-burguês” reacionário, pois está tentando obstruir o caminho do socialismo. O marxista consistente enaltece o capitalista “explorador”, pois entende que ele é uma etapa necessária para a abolição dos salários no socialismo.

Por fim, resta questionar como o marxismo lida com as constantes mudanças de classe social. Essa mobilidade é especialmente maior onde há mais liberdade econômica. Empregados conseguem capital e criam seus próprios negócios, tornando-se empresários. Por outro lado, capitalistas vão à bancarrota e perdem tudo, tendo que arrumar algum emprego qualquer. O que ocorre com suas idéias durante esse processo de mudança? Já que é a classe social que determina as idéias, um proletário que se torna um capitalista altera automaticamente suas crenças? Um capitalista que vira empregado muda todas as suas idéias? Como ficam aqueles intermediários, administradores de grandes empresas, que não deixam de ser empregados, mas que recebem salários maiores do que o lucro de muito capitalista?

Após colocar de forma resumida os principais argumentos de Mises, que demonstram algumas gritantes contradições do marxismo, pode-se perguntar: Existe algum marxista coerente? Afinal, um marxista coerente deveria simplesmente sentar e esperar o socialismo chegar pelas leis inexoráveis da natureza, se abstendo de ativismo político. Além disso, ele teria que reconhecer a necessidade da “exploração” capitalista como um passo fundamental nessa trajetória rumo ao socialismo. Como fica claro, nenhum marxista é coerente, nem mesmo o próprio Karl Marx.

O motivo disso Mises também observou: as crenças de Marx, apesar do rótulo “científico” que ele tentou dar, eram apenas fruto de fortes emoções. Marx nutria um ódio fanático por empresários e capitalistas, comum na Alemanha de seu tempo, e agravado em seu caso particular, pois sua irresponsabilidade financeira o deixou refém de agiotas com freqüência. Ele encontrou no socialismo a pior punição que poderia infligir aos detestados burgueses. Em contrapartida, ele percebeu que um debate aberto sobre o tema iria expor suas falácias. Por isso as pessoas devem ser induzidas a aceitar o socialismo de forma emocional, sem questionar seus efeitos e sem discutir suas contradições. Quem envereda por este caminho, é ou um burguês idiota prisioneiro de uma alienação de classe, ou um proletário traidor que deve ser exterminado.

11 comentários:

kelvin disse...

“As escolhas que um homem faz são determinadas pelas idéias que ele adota.” (Mises) Faltou completar, e essas idéias são determinadas pelas circunstâncias vividas...

Rodrigo Constantino disse...

Falso, Kevin. As idéias são no máximo INFLUENCIADAS pelo meio, nunca DETERMINADAS. Caso contrário, não haveria tanta gente pensando de forma tão diferente numa mesma cultura, família ou classe.

Rodrigo

kelvin disse...

Bem, obrigado por comentar...rsrs gostaria de poder dialogar mais...mas os textos são grandes e necessitam se respondidos com cautela... você diz influenciadas, também acho, mas seria dificil um humanóide europeu medieval ter um cabelo punk não?! certas escolhas são delimitadas pelo meio sim, pela época que se encontra! Você vestiria todo dia uma roupa como um nobre do século XVII?! Teriamos que ver o termo determinada aqui... na minha concepção determinado para Marx era influenciado e delimitado...socialmente o que achas?! o que seria determinado para você ?! algo sem escolha?! definido inexoravelmente!? Vamos dialogar um pouco?!

kelvin disse...

AH! E um parenteses eu escrevi circunstâncias vividas...não o meio...quero dizer, pelo o que o indivíduo passou empiricamente e tomou como sua sensibilidade sobre o que viveu...erros, descobertas, só podem ser superados e guardados pela atividade do sujeito, da forma como Mises escreve ele é um idealista! E acredito que seja algo mais dublo, ideal e material, se me entende...:o)

Bosco Carvalho disse...

Rodrigo,

no último parágrafo você escreveu a palavra, que para mim, exerce mais influência nas decisões das pessoas que toda sua 'intelectualidade': emoções.
Para mim, o ser humano, apesar de toda sua produção intelectual é bastante irracional pois deixa-se conduzir por seus sentimentos, até mesmo para escolher sua linha de raciocínio.
Ou seja: a casa mental é construída sobre alicerces emocionais.
E o mais engraçado é que quanto mais 'racional' (ou cabeça) uma pessoa é, mais ela tende a querer negar as raízes emocionais de si mesma. Se isto não é cômico, é muito trágico, pois a grande maioria dos intelectuais teima fanaticamente em viver num mundo onde as emoções não existem, ou se existem, nao fazem parte da vida 'consciente' deles e quase sempre isto leva a uma divisão interior que cria verdadeiros incompetentes emocionais letrados.
O que escrevo aqui, serve pra mim também...

Bosco Carvalho
www.revistaecologica.net

Rodrigo Constantino disse...

Bosco, se vc estivesse certo, não haveria DEBATE RACIONAL, pois tudo seria apenas uma questão de "eu sinto assim", e ponto. O debate seria impossível. A sua própria conclusão seria fruto das emoções, não de uma reflexão racional. Percebe o absurdo disso?

O que eu acho que vc pode afirmar é que somos INFLUENCIADOS por emoções, e sem sombra de dúvida, uns bem mais que os outros. Afinal, alguns poucos conseguem controlar tais emoções melhor, colocando-as sob o julgamento da razão, da lógica.

Rodrigo

Bosco Carvalho disse...

Rodrigo,

não existe 'certo' nem 'errado' no que escrevi, os dois co-existem.
A vida é contraditória... felizmente!
O único 'erro' (se é que erros existem) é querer que a vida seja como a compreendemos intelectualmente.
O racionalismo socrático é só uma possibilidade...
A vida e muito mais que o racional e quando 'controlamos' o emocional nossa tendência é a de o colocarmos em um calabouço, cuja chave jogamos em um pântano.
Não sou, nem quero estar 'certo' ou 'errado'.
Só gosto de pintar as paredes com cores diversas...

Bosco Carvalho
www.casatermica.com

Rodrigo Constantino disse...

Bosco,

Se vc não quer estar certo, e nem tem como SABER se está certo, pois pode estar agindo somente calcado em emoções que nem entende, então quem sou eu para discordar de você usando a razão?!?!?!

Prefiro apenas concordar: você NÃO está certo, NÃO está com a razão no que diz, e apenas reage às suas emoções. Concordamos com isso.

Abraços,

Rodrigo

Bosco Carvalho disse...

Rodrigo,

esta é a infelicidade do intelectual.
Ele sempre quer ter 'razão', mesmo quando o outro diz não tê-la.
Cara, a vida é muito mais que o racional, mas você sempre terá razão se for só racional.
Eu prefiro não ser só racional.
E mesmo que você diga, gritando, que estou errado, você só prova que está certo... (agora prove que estou errado!) hahahaha!!!!
A mente é uma arapuca e a maioria não percebe...

Pax Tecum!

Bosco - o contraditório
www.revistaecologica.net

Evandro Sussekind disse...

Não se admira que Ayn Rand pensasse que os subjetivistas fossem o mal da humanidade. Eles se blindam em argumentos patéticos e acusam seus interlocutores de serem incapazes de entende-lo mais a verdade é que o argumento subjetivo permite este tipo de defesa diante de qualquer argumento, não fogem da razão, apenas criam uma tola razão particular que não vai impedir que a verdadeira razão e lógica venha cobrar as contas.

Bosco Carvalho disse...

Kindchen,

"Quando você tiver negado todas as possíveis respostas que a mente pode dar e arquitetar, quando a pergunta permanecer absolutamente irrespondível, um milagre acontece: de repente a pergunta também desaparece. Quando a pergunta também desaparece, então você sabe.

O conhecimento divaga. A sabedoria é uma penetração direta.

Mas no momento em que você penetra
no interior da Existência, você desaparece!"

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