terça-feira, outubro 17, 2006

Caspita!



Rodrigo Constantino

“Eu nunca encontrei um corte de impostos que não tenha gostado.” (Milton Friedman)

Pense num país onde o presidente é comunista, o líder do Parlamento é comunista e nove ministros são comunistas. Não, não se trata da Rússia, China, Brasil ou algum país do Leste Europeu. Esse país é a Itália. O governo de Prodi está cercado de comunistas, reformados ou não. E a cor vermelha da ideologia já aparece nas propostas de governo, para a infelicidade do povo italiano.

Fiscalmente falando, a Itália está em uma crítica situação. A dívida sobre o PIB passa de 100%, e o governo ainda tem um déficit fiscal de quase 5% do PIB por ano. A Itália já encontra-se fora das determinações da Comunidade Européia. Não fosse o euro, provavelmente a moeda italiana independente estaria sofrendo bastante. Diante deste preocupante quadro, qual a solução apresentada pelo governo? Num passe de mágica, o orçamento para 2007 conta com um aumento de 2% do PIB na arrecadação de impostos, mais de 30 bilhões de euros. E como exatamente virá tal aumento? O governo pretende criar 56 novos impostos, e anunciou um aperto brutal na evasão fiscal. Além disso, quem ganha 75 mil euros anuais ou mais será taxado pela alíquota máxima, de 43%. Até agora, esta alíquota incidia sobre quem recebia mais de 100 mil euros anuais.

Em resumo, a resposta do governo italiano para o problema fiscal é aumento de impostos, ataque aos mais ricos e maior intervenção estatal. Como conseqüência disso, em vez de aumento na arrecadação, é bastante provável que o governo italiano veja uma fuga de capitais e talentos para países com impostos menores, assim como uma redução do crescimento econômico, que acaba afetando as receitas tributárias. Empresas e indivíduos têm essa “estranha” mania de migrar para onde são melhor tratados. Mas o governo italiano mostra sua verdadeira cor ideológica. O povo irá pagar o preço da ignorância econômica.

Em contrapartida, o governo americano reduziu impostos recentemente, para o desespero dos leitores do colunista Paul Krugman, que anunciava o caos como resultado desta medida. No entanto, a arrecadação fiscal tem crescido duas vezes e meia o crescimento da economia nos últimos 6 trimestres. Tanto os lucros como os empregos estão indo bem no país. O déficit fiscal, que supostamente permaneceria em torno dos US$ 400 bilhões por ano, deverá ficar abaixo dos US$ 240 bilhões este ano. Neste ritmo, o déficit fiscal americano poderá desaparecer em 3 anos! Ao que parece, uma vez mais, a curva Laffer funciona, e corte de impostos gera aumento nas receitas. Faz sentido, tem lógica. Mas lógica nunca foi o forte de ideologias dogmáticas.

E o Brasil? Além de ter um presidente da Câmara também comunista, e um presidente da República com fortes laços com tal ideologia, sacramentado no Foro de SP, o caminho traçado aqui também se assemelha mais ao italiano que ao americano. O candidato à reeleição repete que não é importante cortar gastos, enquanto o país tem uma dívida em torno de 50% do PIB e um déficit perto de 3% do PIB. Isso para não falar que já arrecada 40% do PIB em impostos, e tem um modelo previdenciário falido, mesmo com uma população jovem. O calcanhar de Aquiles do Brasil tem sido justamente o tamanho dos gastos públicos, mas ninguém fala em cortes ou reformas estruturais sérias, e citar privatização ainda virou xingamento. Fica difícil manter o otimismo no longo prazo. Se o céu de brigadeiro no contexto mundial que o governo Lula desfrutou durante seu governo se transformar num tsunami, veremos que os pilares econômicos brasileiros ainda são de areia.

O caminho do progresso é conhecido. O inchaço estatal é o maior inimigo do crescimento econômico sustentado. Impostos altos nunca deveriam ser celebrados. Imposto é coerção, e dinheiro nas mãos de políticos é risco maior de ineficiência e corrupção. Reduzir os impostos, portanto, é sempre algo desejável. Reduzir os gastos públicos, portanto, é fundamental. Fazer o contrário, aumentando impostos para sanar o déficit, é seguir na contramão do bom senso. Como ainda tem tanta gente que não entendeu essa obviedade é algo espantoso. Tentemos repetir uma vez mais para ver se pega no tranco então: há que se reduzir gastos públicos e impostos, caspita!

7 comentários:

Mateus disse...

Excelente, Rodrigo!
Impressiona como tantos ainda não vêem o óbvio. Ou melhor, ver, eles vêem. Mas se negam a admitir. Isso seria demais para sua "ideologia". Que se dane a população se ele tiver que manter sua ideologia às suas custas!

Parece ser esse, infelizmente, o nosso destino próximo.

Bruno Palandrani disse...

Que tristeza. Eu que pretendo terminar minha graduação por lá fico triste por essas coisas.
Mas não tem jeito, o vermelho é um furacão que passa destruindo tudo. Ele só se dissolve depois de feito o estrago.

Guilherme Barroso disse...

Caro Rodrigo,

O estatismo iguala a mediocridade, no mundo privado que não tem competência não sobrevive, merito é o diferencial, mérito é capaz de romper as barreiras e nos levar a uma sociedade melhor.
Aqui o sucesso é punido ao invés de ser enaltecido.

Toni disse...

Che L'Italia sia in una situazione critica lo sapevamo tutti: è quella lasciataci dalla finanza allegra di Tremonti ,nella quale il debito pubblico era, anche se di poco, più gravoso. Non parliamo poi dell'evasione fiscale, favorita al punto di far rientrare dall' estero capitali esportati abusivamente, perché derivanti da attività illecite,pagando solo il 2,5 %, mentre se fossero rimasti in Itaia avrabbero dovuto pagare il 43 %.Il Governo Italiano avràla vita dura, anche a causa di commentatori politici come lei.

Granvile Alencar disse...

100% correto meu caro Rodrigo. Dá tristeza imaginar o que nos aguarda no Brasil. E esses "perfeitos idiotas latino-americanos" deveriam ir para o paredão depois de causar tantos danos.

Rodrigo Constantino disse...

Toni,

Il capitale tende a migrare dove le condizione sono piú favorevoli a se stesso. L'alto costo della legalitá é il responsabile per l'eccesso di informalitá existente.

“A informalidade é o ar rarefeito que indivíduos e empresas respiram devido à asfixia causada pela hipertrofia estatal.” (Rodrigo Constantino)

Mathias disse...

Rodrigo, lendo as tuas observações sobre o que está acontecendo na Itália, considero importante precisar algumas coisas, complementando aquilo que você já escreveu com outros dados, porque segundo o que você escreveu parece que a culpa da crise italiana seja só do atual governo de centro-esquerda quando muita da responsabilidade é dos governos dos anos oitenta, período em que na Itália governava a Democracia Cristã, um partido que teoricamente não era nem de esquerda nem de direita e que foi praticamente destruído depois dos escândalos dos inquéritos de “mãos limpas” e que deixavam aposentar os funcionários públicos depois de só 15 anos de trabalho. Além disso destaco que a atual coalizão de governo quando perdeu as eleições de 2001 tinha um déficit pouco inferior ao 1%. Quando o atual governo tomou posse (na Itália isto acontece tipicamente em junho) os parâmetros estavam quase aos 5%, além de a relação débito/PIB que sempre caiu desde 94 ter voltado a crescer pela primeira vez no último ano. Passando a falar dos Estados Unidos acho justo lembrar que quando Bush tomou posse ele herdou de Clinton um déficit inexistente já que estava em ativo. Outra correção é a fuga de “cérebros” da Itália, isto que você diz é verdadeiro (infelizmente), mas também é verdade que já vem acontecendo há anos e não só por causa das escolhas do governo mas também pela falta por parte da cultura empresarial italiana no investimento em pesquisa (obviamente nem todas as empresas italianas têm este problema, mas a maioria sim) porque estão acostumadas há anos a usar “atalhos” como a desvalorização da moeda (o que já não pode ser feito com o Euro). Outro motivo para a fuga é sem dúvida a péssima relação entre salários e custo de vida, que faz com que muitos jovens prefiram sair da Itália para procurar emprego. No demais eu concordo plenamente com você, isto é, que deveria ser imperativo para a classe política reduzir os custos do serviço público porque o que desperdiçamos hoje com certeza será nosso problema amanhã e a Itália sabe bem disso...