sexta-feira, maio 11, 2007

Da Superstição e do Entusiasmo


Rodrigo Constantino

"A coisa mais rara de se encontrar é o fato de existir quem alie a razão ao entusiasmo." (Voltaire)

Um dos maiores filósofos do Iluminismo foi o escocês David Hume, quem seu amigo Adam Smith considerava "alguém muito próximo do ideal de um homem sábio e virtuoso". Hume foi um profundo observador da natureza humana, e costuma ser visto como um filósofo cético e defensor do empirismo. Lutou sempre pela liberdade dos homens, compreendendo que o comércio poderia ser um importante meio para o desenvolvimento e a paz de um povo. Condenou os impostos arbitrários, tal como seu colega Adam Smith. Atacou o fanatismo religioso, assunto que será aprofundado a seguir.

Para Hume, a superstição e o entusiasmo são "formas corrompidas da verdadeira religião". Os homens receiam uma infinidade de males desconhecidos, e sem objetos reais de terror, inventam objetos imaginários, "aos quais atribui um poder e uma maldade sem limites". Sendo tais inimigos invisíveis e desconhecidos, os métodos empregados para combatê-los são também incompreensíveis, constituindo em "rituais, proibições, mortificações, sacrifícios, oferendas e outras práticas". Por mais absurdas e frívolas que possam parecer, tendem a ser sugeridas pela "loucura ou pela patifaria que se aproveita de uma credulidade cega e aterrorizada". Em resumo, Hume diz: "A fraqueza, o medo e a melancolia são, portanto, ao lado da ignorância, as verdadeiras fontes da superstição".

Do outro lado, existem aqueles que se deixam levar pela imaginação grandiosa, pelas fantasias que melhor correspondem a seu gosto e disposição momentâneos. Eles irão rejeitar a razão humana como guia, e o fanático irá se entregar cegamente às supostas inspirações do espírito. São seres tomados por uma confiança e presunção acima do normal. David Hume conclui: "A esperança, o orgulho, a presunção, uma imaginação cálida, ao lado da ignorância, são, portanto, as verdadeiras fontes do entusiasmo".

Grosso modo, assim estaria dividido o mundo pela ótica de Hume: de um lado, supersticiosos, e do outro, entusiastas fanáticos. Ambos igualmente ignorantes, que desprezam a razão humana. Sendo a superstição fundada no medo e na depressão do espírito, ela faz com que o homem recorra naturalmente a qualquer outra pessoa, considerada mais capaz que ele. O supersticioso confia a esta pessoa suas devoções. Ele necessita de algum intermediário entre seu medo e sua crença, nunca confiando em si mesmo. Hume explica através disso a origem da figura dos padres, e afirma de maneira direta que "quanto mais forte for a mistura de superstição, mais alta será a autoridade do sacerdócio".

Já os entusiastas demonstram grande independência em sua devoção, com desprezo pelos rituais, pelas cerimônias e pelas tradições. Como diz Hume, "o fanático consagra-se a si mesmo, atribuindo à sua fanática pessoa um caráter sagrado muito superior ao que os rituais e instituições cerimoniais podem conferir a qualquer outra". Para o filósofo, as religiões que partilham do entusiasmo são, desde sua origem, mais furiosas e violentas do que aquelas que partilham da superstição. Mas em pouco tempo se tornam mais suaves e moderadas, com o declínio do entusiasmo inicial. Já a superstição insinua-se de uma forma gradual e imperceptível, tornando os homens mansos e submissos. Por parecer inofensiva para o povo, ela acaba permitindo o crescimento de autoridade nas mãos dos líderes, que podem se transformar em tiranos através de perseguições e guerras religiosas.

O exemplo citado por Hume é o da própria Igreja Romana, que avançou suavemente em sua conquista do poder, mas que atirou toda a Europa em "lúgubres convulsões" a fim de conservar esse poder. Para Hume, "uma das características essenciais da religião católica romana é que ela precisa inspirar um ódio violento por todas as outras crenças, concebendo todos os pagãos, maometanos e hereges como objetos da cólera e da vingança divinas". Uma vez com o poder nas mãos, os líderes dos supersticiosos não aceitam muita concorrência.

De forma simplificada, a superstição seria uma grande inimiga da liberdade civil, pois torna os homens mansos e submissos, mais predispostos à escravidão. O antídoto seria um desenvolvido autocontrole, uma grande moderação em todas as paixões, um temperamento equilibrado, justamente como o próprio David Hume era descrito por amigos próximos. Ele mesmo afirmara que "para ser feliz, a paixão não deve ser nem demasiado violenta nem demasiado omissa". No primeiro caso, o espírito vive em constante agitação; no segundo, ele mergulha numa desagradável letargia. Hume diz: "Para ser feliz, a paixão deve ser alegre e jovial, não sombria e melancólica".

Para finalizar, as palavras do filósofo uma vez mais: "Quando o temperamento dos homens é suavizado e o seu conhecimento aprimorado, essa humanidade parece ainda mais conspícua e é a principal característica que distingue uma época civilizada de períodos de barbárie e ignorância".

4 comentários:

eduardo disse...

O homem é sequioso de sentido, sempre quer saber o porquê das circunstâncias da vida. Quando uma mãe perde seu filho e pergunta: por que meu Deus?, isso não a torna mais feliz, porém satifaz sua sede de sentido. O homem é assim, mesmo com a secularização promovida pela Revolução Burguesa, a religião perdurou, pois responde os grandes enigmas da vida humana...A religião nada mais é do que essa vontade de obter respostas para tudo, e talvez nem tudo tenha respostas...

Carlos Esperança disse...

O embusteiro da fé, ditador residente no Vaticano, anda em viagem de negócios pelo Brasil.

O empedernido celibatário tornou-se arauto da cruzada contra o aborto e um defensor da família, ele que nunca a constituiu, a proíbe aos empregados e que renegou o amor matrimonial.

O impostor apoiou a ameaça de excomunhão dos bispos mexicanos contra os membros da Assembleia Legislativa e o governador da cidade do México por terem despenalizado o aborto na capital.

A hipocrisia do tartufo revela-se na duplicidade. Por que não excomunga os deputados portugueses do PS, PCP, BE e PSD que o despenalizaram? Porque tem dois pesos e duas medidas. Porque é um talibã onde pode e uma pomba onde o desprezam.

Na deslocação, o caixeiro-viajante da fé foi explorar a superstição do povo brasileiro. Fez do cadáver de Frei Galvão o santo que a padralhada e os beatos reclamavam, deixando para mais tarde o padre Cícero Romão Baptista quando se reunirem as verbas necessárias à canonização, que o Vaticano não trabalha de borla.

Frei Galvão era ubíquo e levitava - dizem as testemunhas do costume -, números que os circos reservam para os ilusionistas, mas foi na cura de grávidas que o taumaturgo se iniciou, como se a gravidez fosse uma doença.

Os milagres eram feitos através de papelinhos onde o frade escrevia: «Depois do parto, ó Virgem, permaneceste intacta: Mãe de Deus, intercedei por nós». A ingestão dos papelinhos com tinta era o remédio que aliviava os vómitos, dilatava o útero e conduziu o frade à santidade.

E há quem leve a sério estes farsantes!

Eleitor disse...

Sr. Carlos Esperança:

Deus vai te fulminar seu herege! Como ousas levantar a sua voz contra aquela santa figura Papal. Aquele bom homem carismático que todos nós adoramos na mais profunda e sincera dúvida. Como se atreve a duvidar da santidade de nosso boníssimo frei Galvão que, ao que tudo indica, receitava papeizinhos em detrimento dos remédios numa evidente metáfora de que podemos prescindir dos remédios, tomando a bula. Santo homem! Eu acredito sim e vou pedir a ele que faça o milagre de me livrar do vício de ficar horas na Internet lendo os malucos blogs de direita, de Religiosos lunáticos e ateus militantes que perderam a fé e toda a sorte de malucos que poluem o espaço virtual. Amem!

C. Mouro disse...

Essa que se segue foi absolutamente GENIAL:

"Sendo tais inimigos invisíveis e desconhecidos, os métodos empregados para combatê-los são também incompreensíveis, constituindo em "rituais, proibições, mortificações, sacrifícios, oferendas e outras práticas""

Show de bola.

Abraços
C. Mouro