sexta-feira, maio 25, 2007

A Ordem Espontânea


Rodrigo Constantino

"Quanto mais o Estado ‘planeja’ mais difícil se torna o planejar para o indivíduo." (Hayek)

O químico húngaro Michael Polanyi, tal como seu colega Hayek, acreditava numa ordem espontânea, tanto para a ciência como para a economia. Ele deixa isso claro em seu livro A Lógica da Liberdade, quando diz: "Minha argumentação pela liberdade da ciência guarda semelhança próxima com a doutrina clássica do individualismo econômico". A percepção que Adam Smith tivera a respeito dos homens de negócios foi na mesma linha, e Polanyi reconhece isso. Os esforços de cada um, se valendo do mesmo mercado de recursos produtivos com o objetivo de satisfazer diferentes partes do mesmo sistema de demanda, seriam coordenados por uma "mão invisível", levando a mais efetiva utilização dos recursos disponíveis.

Polanyi compara esta ordem espontânea com outros exemplos que seguem os mesmos princípios. Um desses exemplos seria um jarro no qual a água se acomoda, preenchendo perfeitamente o espaço do recipiente com densidade uniforme. Ele explica: "As partículas ficam assim livres para obedecer às forças internas que agem entre elas, e a ordem resultante representa o equilíbrio entre todas as forças internas e externas". A própria evolução das espécies seria outro exemplo, parecendo ter resultado de "um processo continuado de equilíbrio interno da matéria viva, sob diversificadas circunstâncias externas".

Transportando isso para a sociedade, temos que o sistema de ordem espontânea seria obtido quando os seres humanos pudessem interagir uns com os outros por iniciativa própria, sujeitos apenas às leis que se aplicam uniformemente a todos eles. Nesse caso, "os esforços desses indivíduos são coordenados pelo exercício da iniciativa de cada um", e essa autocoordenação "justifica sua liberdade em termos públicos". Cada indivíduo estaria sob uma obrigação impessoal e geral, ou seja, todos seriam iguais perante as mesmas regras. Polanyi cita como o mais sólido exemplo de uma ordem espontânea na sociedade a vida econômica com base num agregado de indivíduos em competição. Eis como ele coloca isso: "As aquisições consecutivas dos compradores, cada uma das quais é ajustada às condições de mercado criadas pelas compras anteriores, tendem a produzir uma condição na qual os consumidores recebam – sujeita às condições em vigor das receitas – a máxima satisfação para suas preferências entre os bens e serviços disponíveis".

O jornalista James Surowiecki, em seu livro The Wisdom of Crowds, focou bastante nesse aspecto da ordem espontânea, citando inúmeros casos diferentes. Em um deles, ele usa o bando de pássaros starlings, que atravessa o céu africano numa forma e velocidade que parece artificialmente criada. Quando algum predador se aproxima, cada pássaro foge para um lado diferente, mas assim que o perigo passa, eles se juntam novamente, mantendo a formação. De fora, os movimentos dos pássaros parecem ser fruto de uma mente que guia o bando. Mas a verdade é que cada pássaro age por conta própria, seguindo basicamente quatro regras: manter-se tão próximo do meio quanto possível; manter-se um pouco distante do vizinho; não bater em nenhum outro pássaro do bando; e se um predador se aproximar, bater em retirada. Não é preciso um comando para manter o bando unido e organizado. Seguindo apenas essas regras, o bando resiste aos predadores e se mantém agrupado.

O bando de pássaros é um excelente exemplo da organização social que alcança seus objetivos e soluciona problemas de baixo para cima, sem líderes ou sem a necessidade de seguir complexos modelos e regras. Surowiecki considera o caso um ótimo exemplo para aquilo que Hayek, e também Polanyi, chamavam de "ordem espontânea". Uma espontaneidade programada geneticamente, ou internamente, sem que nenhum plano precise ser feito. Seria a "mão invisível" em vez do planejamento central. E o livre mercado seria justamente isso: um mecanismo designado a resolver um problema de coordenação, o mais importante de todos, que é alocar os recursos certos nos lugares certos pelos custos certos.

Se o mercado funciona bem, os produtos e serviços vão das pessoas ou firmas que podem produzi-los com o menor custo e melhor qualidade para aqueles que mais desejam tais bens. Ninguém precisa perceber o quadro geral do que o mercado está fazendo, assim como ninguém tem como saber adiantado aquilo que será a melhor resposta para o problema da coordenação. O conhecimento está disperso entre os bilhões de indivíduos interagindo livremente, e não existe de forma alguma integrado em uma entidade única. Hayek dizia que é justamente porque cada indivíduo sabe tão pouco e, em particular, porque raramente sabemos qual de nós sabe melhor, que confiamos nos esforços independentes e competitivos de muitos para levar ao surgimento daquilo que poderemos desejar quando olharmos. Tentar coordenar essas ações através de uma autoridade central qualquer, como foi feito no modelo soviético, acaba destruindo a eficiência do funcionamento da economia, muitas vezes paralisando-o por completo. O "milagre" da eficiência econômica é resultado de uma "mão invisível", ou então, para usar o termo que Polanyi escolheu, de uma "ordem espontânea".

6 comentários:

augusto disse...

Eh vero. Sempre que falam "O Capitalismo..." eu digo que ele é um sistema natural, não houve um ideólogo, um criador, como tiveram o socialismo e o comunismo.

Como já foi dito por Llosa e cia "O capitalismo com seu individualismo é a maior criação coletiva da Humanidade"

Se algum dia houver um sistema melhor do que ele (o que acho difícil nesse plano de vida) ele o substituirá como uma evolução natural. Mas nunca como uma imposição armada ou autoritária como querem os esquerdinhas da vida.

C. Mouro disse...

Sr. Augusto,

seu comentário foi absolutamente magnífico, fantástico em seu brilhante resumo.

Perfeito...
...não há palavras que possam dar a exata grandeza de seu cometário.

Clap! clap! clap!

Forte abraço
C. Mouro

Eduardo Silva disse...

C. Mouro e Augusto são a mesma pessoa?
Rodrigo seus textos ainda estão bons, porém estão repetitivos, todas essas idéias já foram trabalhadas com a mesma minúncia nos textos anteriores... Seria bom escrever algo novo, supreendente e que cause polêmica, que tenha muitos coments, como eram os mais antigos. O colunista da Veja, Stefen Kanitz diz que o texto não pode ficar na imparcialidade, tem que convencer alguém de algo, e contundentemente...
Essa é só uma opinião de um leitor assíduo do seu blog, se quiser acatá-la, ótimo, senão ótimo também.

C. Mouro disse...

ih?????????

....hehehe!

que pobre diabo!
O que o Augusto é elogiavel, pena que poucos escrevem coisas elogiaveis.

...lhes resta a inveja e a intriga!

...hehehe!

Abraços
C. Mouro

augusto disse...

Obrigado C. Mouro

Na verdade os elogios são em primeiro lugar pro Constantino que está facilitando as informações e divulgando as idéias.

Eduardo, eu e o C. Mouro não somos a mesmoa pessoa. Vc me acharia com mais facilidade em algumas comunidades do Orkut tempos atrás.

E já q vc falou pro Constantino escrever sobre alguns outros assuntos eu tb vou pedir pra ele um assunto: mês q vem é aniversário de falecimento de Ronald Reagan. Acho q o Reagan merece um texto, assim como Roberto Campos e outros já foram muito bem lembrados por ele.

Mario disse...

Ei Rodrigo Clipboard Constantino!!! Continua copiando/colando texto alheio para receber parabéns de seus lambe-sacos, ein?