quarta-feira, setembro 10, 2008

A Morte do Neoliberalismo



Rodrigo Constantino

“Não olhe para onde você caiu, mas sim onde você escorregou.” (Provérbio Africano)

Com o anúncio de que o governo americano irá salvar, através da injeção de capital, as duas gigantes do setor imobiliário, várias viúvas do intervencionismo aproveitaram para decretar a morte do “neoliberalismo”, demonstrando grande regozijo com a desgraça alheia. No entanto, há muita ignorância – ou então má fé – por parte dessa gente, uma vez que boa parte dos problemas com a Fannie Mae e a Freddie Mac vem justamente do intervencionismo estatal. A tentativa de culpar o livre mercado por uma crise séria não é algo novo, e os riscos desse julgamento inadequado são enormes, como vimos depois da crise de 1929, com um aumento assustador dos poderes do governo*. Por isso é tão importante tentar desfazer essa desinformação acerca do tema.

Em primeiro lugar, devemos lembrar que os Estados Unidos não são o ideal liberal. Em uma resenha antiga que escrevi sobre o livro A Obsessão Antiamericana, de Jean François-Revel, expliquei logo no começo esse ponto, fazendo o seguinte alerta: “Lá, o Leviatã é um monstrengo também, que extorque quase 30% da riqueza privada em nome do bem-estar social. Mas atualmente, é o que temos mais próximo do liberalismo, justamente a causa de seu sucesso relativo”. Logo, a tentativa de encarar o modelo americano como o ícone perfeito do capitalismo liberal não faz sentido. Os liberais têm muitas críticas ao excesso de intervenção estatal na economia americana. Quem tem dúvida disso, basta navegar pelos sites do Cato Institute ou do Mises Institute para ter uma boa idéia dos duros ataques que o governo americano sofre por parte dos liberais. Um alvo desses ataques sempre foi justamente a existência dessas Government Sponsored Enterprises (GSE), empresas criadas e garantidas pelo governo para atuar no mercado de hipotecas.

Como exemplo, temos um artigo escrito pelo presidente do Mises Institute, Lew Rockwell, onde ele explica as origens dessas duas empresas em crise:

“A Fannie Mae (Federal National Mortgage Association) foi criada em 1938 por Franklin Delano Roosevelt, durante o New Deal. Sua função era fornecer liquidez ao mercado hipotecário. Durante os 30 anos seguintes, ela desfrutou do monopólio do mercado secundário de hipotecas nos EUA. Tornou-se uma corporação privada em 1968, para conter o déficit orçamentário do governo. A Freddie Mac (Federal Home Loan Mortgage Company) foi criada em 1970, no governo Nixon, para expandir o mercado secundário de hipotecas e, assim como a Fannie Mae, tem a função de fazer empréstimos e dar garantias a empréstimos. Tanto a Freddie Mac como a Fannie Mae, junto com outras empresas, compram (dos bancos) hipotecas no mercado secundário e as revendem para investidores no mercado aberto como títulos lastreados em hipotecas. Ambas são empresas de capital aberto.

A Fannie Mae e a Freddie Mac são conhecidas como ‘empresas apadrinhadas pelo governo’, o que significa que elas são empresas privadas, mas com propósitos públicos. Esse tipo de empresa tem o apoio implícito do governo americano, conquanto não tenha obrigações diretas para com ele. Por causa desse apadrinhamento que elas recebem do governo, essas duas empresas conseguem financiamentos a taxas vantajosas – os credores imaginam que, em caso de insolvência, o governo ajudará essas empresas. E, devido a esses financiamentos facilitados, elas acabaram por sobre-estimular o mercado imobiliário, inflando-o a alturas inimagináveis, ao comprar hipotecas que foram securitizadas por bancos de todo o país.”


A conclusão do autor é inequívoca: “Essas duas empresas não deveriam existir”. A Fannie Mae foi criada pelo governo mais intervencionista que os Estados Unidos já tiveram, criador do New Deal, um programa que plantou as sementes da estagflação que destroçou a economia americana em décadas posteriores. A “herança maldita” de Keynes não poderia ter um exemplo prático melhor do que essa política expansionista dos gastos públicos e dos seus tentáculos burocráticos. Muita gente, por falta de conhecimento ou viés ideológico, atribui o oposto ao New Deal: um prêmio por salvar a economia americana. Nada mais falso. Ora, crescer artificialmente por algum período até um país socialista consegue. O problema vem depois, quando a conta precisa ser paga. Uma analogia boa é alguém ficar eufórico por conta de bebida alcoólica, ignorando que depois terá que enfrentar uma ressaca. Se esta for postergada com mais bebida ainda, tudo que ele irá conseguir é uma cirrose. Os keynesianos acreditam que o rabo é que balança o cachorro, acham que o consumo é que gera crescimento, e não a poupança e o investimento. Eles acreditam que é possível alguém se suspender puxando os próprios suspensórios! A realidade cobra a fatura do sonho depois, com juros e correção monetária. “No longo prazo estaremos todos mortos”, afirmou o pai da criatura, ignorando que com suas idéias o longo prazo chega antes.

Voltando à crise das gigantes imobiliárias, elas jamais teriam acumulado tanto passivo se não fosse a garantia do governo. Essas empresas possuem dívidas totais superiores a US$ 5 trilhões! Isso representa mais da metade da dívida nacional americana. Lew Rockwell comenta: “Empresas apadrinhadas pelo governo não estão sujeitas às disciplinas do mercado, como as empresas do setor privado. Seus títulos são listados como títulos do governo, o que faz com que seus prêmios de risco não sejam ditados pelo livre mercado”. O grau de alavancagem dessas empresas foi ampliado exponencialmente pela garantia estatal. Rockwell lembra qual regime possui essa mistura entre governo e gestão privada: “A origem de ambas essas organizações está na legislação federal. Elas não são entidades de mercado. Elas há muito são garantidas pelo contribuinte. Não, elas também não são entidades socialistas, pois são gerenciadas privadamente. Portanto, elas ocupam um terceiro status, para o qual há um nome: fascismo”.

Como fica claro, aqueles que logo aproveitaram para atacar o livre mercado foram muito precipitados. Deveriam pesquisar antes os fatos. Acabaram errando feio o alvo, talvez de forma deliberada. Parasitas precisam sempre defender mais intervenção estatal, pois vivem disso. Talvez esse seja um dos motivos por trás da acusação infundada de muitos. Outro fator é o ideológico. Por questões patológicas, o triste fato é que muita gente ainda condena o capitalismo liberal pelos males do mundo, não obstante tanta evidência contrária. O importante disso tudo é não deixar essa poluição – deliberada ou não – ofuscar a verdade. Uma vez mais tentam jogar nas costas do liberalismo a culpa de algo que foi causado pelo próprio governo. Se fosse apenas uma questão de justiça com os fatos, poderíamos ignorar o uníssono das viúvas de Fidel, pois a honestidade nunca foi o forte dessa turma. O problema mais grave é que idéias têm conseqüências, e muitas vezes nefastas. Se o diagnóstico da doença for errado, o remédio poderá ser fatal. Em outras palavras, se o livre mercado sair como grande vilão dessa crise, e se a intervenção estatal for vista como solução, pode-se preparar o atestado de óbito. O longo prazo de Keynes estará logo ali...

* Quem tiver interesse no tema da crise de 1929, recomendo o livro America’s Great Depression, de Murray Rothbard, onde os fatos são resgatados, mostrando que a hiperatividade do governo foi a principal causa da depressão que assolou a América.

19 comentários:

tandor disse...

Traduzindo:

O liberalismo nunca existiu como os economistas liberais querem, mas eles juram que dá certo ...

Isso parece a falácia dos vermelhos, que o verdadeiro socialismo nunca existiu ...

DAYRELL disse...

O real está sempre aquém do ideal.

O liberalismo clássico encontrou incompatibilidades com a realidade, e isso é fato. Outro fato é o de que para sobreviver no mundo fático e não somente no mundo dos idealismos platônicos, o liberalismo precisou dar concessões do ideal para o real. Os EUA são um exemplo dessa concessão à realidade. As vontades populares por lá são essas aí mesmo:

_“Mais intervencionismo e paternalismo”. _Dirá boa parte do eleitorado americano.

Não subestimem a mentalidade coletivista e populista da América cucaracha. É ela a América de amanhã.

tandor disse...

A parte engraçada é tentar entender o que acontece quando se respeita a liberdade e a vontade individual, mas a maioria livremente clama por intervencionismo...

Quer dizer, todos são livres, mas são livres para querer intervenção do estado ?

Paradoxo ?

O mouro só posta anônimo ?

Rafael disse...

"Outro fator é o ideológico. Por questões patológicas, o triste fato é que muita gente ainda condena o capitalismo liberal pelos males do mundo, não obstante tanta evidência contrária. O importante disso tudo é não deixar essa poluição – deliberada ou não – ofuscar a verdade."

Vejo as coisa muito diferentes meu caro. Verdade? Verdade é que um quarto do mundo passa fome enquanto os seus idolatrados brincam de pseudo-liberais e jogam a conta de seu "livre mercado" nas costas do resto do mundo. Esta é a verdade. E isto não é ideologia.

Rodrigo Constantino disse...

Rafael, justamente as pessoas que estão mais LONGE do livre comércio, do capitalismo. Ou seja, africanos, alguns asiáticos, e claro, os tupiniquins da América Latina, que ainda pensam como vc e idolatram o governo.

Rodrigo

Mauricio disse...

Alguma explicação para justo os paises dito liberais não praticarem o que pregam em relação ao comércio com os demais países ?

Rodrigo Constantino disse...

Maurício, vc está tentando afirmar que os Estados Unidos são MAIS protecionistas que o Brasil, por exemplo?

Procure fazer uma pesquisa na OMC, ou no Heritage, e verá como os países mais ricos são MAIS ABERTOS comercialmente. Sim, ainda há algum protecionismo, e os liberais condenam isso. Os países ricos são ricos A DESPEITO disso, não por causa disso. Mas o FATO é que eles são BEM mais livres do que o restante. Ou vc pretende negar esta obviedade ululante?

Grato,

Rodrigo

Georges disse...

Rodrigo, vc habilitou o RSS no seu blog?

fix disse...

“A parte engraçada é tentar entender o que acontece quando se respeita a liberdade e a vontade individual, mas a maioria livremente clama por intervencionismo...”
Existe uma contradição nesse pensamento, se é que o entendi completamente. Imaginemos um experimento hipotético, aonde 10 pessoas são consultadas para decidirem sobre a condição de liberdade do grupo. Decidam, através do expediente democrático, se desejam ou não tornarem-se escravos de um coronel sertanejo. O Coronel lhes dará segurança para uma infinidade de problemas, e em troca serão escravizados. 7 votam que aceitam o arranjo. O Grupo todo é escravizado.
Nesse caso, observamos como de fato, o arranjo democrático permitiu que a maioria determinasse uma política que influenciará o todo. Resultando na perda de liberdades, não apenas nos que aceitam o arranjo, mas também dos que rejeitam a proposta. A história esta repleta de casos onde a ditadura foi parida pela via dita: democrática. Estudemos a ascensão de Hitler para dar apenas um exemplo ruidoso.
No final, não existe respeito pela vontade individual, se um determinado arranjo político resulta na imposição na vontade de B e C sobre A.
Quanto à morte do Neo Liberalismo, trata-se da velha e boa conversa mole esquerdista contra a liberdade econômica e contra a cultura do trabalho livre. Odeiam o capitalismo quando praticado por qualquer um que não sejam seus comparsas, querem o capitalismo do compadrio.
O Mais curioso é que enquanto esses “Ex” comunistas (E.G. Dilma) decretam o fim do “Neo Liberalismo”, buscam leis para beneficiar um grupo específico de empresários na criação de uma “grande empresa nacional de telecomunicações“. É de rolar de rir!
“Vejo as coisa muito diferentes meu caro. Verdade? Verdade é que um quarto do mundo passa fome enquanto os seus idolatrados brincam de pseudo-liberais e jogam a conta de seu "livre mercado" nas costas do resto do mundo. Esta é a verdade. E isto não é ideologia.”
Hahahaha! Como não?! Esse parágrafo é pura ideologia. Basta observarmos ONDE estão passando fome essas pessoas e é claro, ajustemos os números para a realidade. Ainda devemos considerar quais países e culturas mais contribuíram para difundir e inventar novos métodos e técnicas de produção de alimentos, e deveríamos obviamente constatar que o problema da fome é de fato um problema de pobreza. E aí fica a pergunta: Qual sorte de arranjo social mais contribui para enriquecer os indivíduos de uma determinada sociedade?
Se formos observar, o “Neo Liberalismo” esta morto desde o New Deal, na América. Basta analisar os dados pra descobrir se a tutela do estado está funcionando.

Mauricio Ferrão disse...

Georges, se quiser assinar esse blog no RSS é só adicionar esse endereço:

http://www.rodrigoconstantino.blogspot.com/feeds/posts/default

Rafael disse...

"justamente as pessoas que estão mais LONGE do livre comércio, do capitalismo. Ou seja, africanos, alguns asiáticos, e claro, os tupiniquins da América Latina, que ainda pensam como vc e idolatram o governo"

Rodrigo, já passou pela sua cabeça que as regiões supracitadas foram alvo da cobiça e ganância daqueles aos quais chama de evolídos economicamente!? Já passou pela sua cabeça que é justamente pelo fato de terem sido usurpados e explorados que os fazem deles, aliás, de nós, sub terceiro-mundista? Será que não teria sido, aliás, tem sido, essa exploração e ingerência política e econômica que faz dessas regiões celeiro de pobreza no mundo? São só algumas perguntas que coloco diante de fatos inegáveis da História.
Ah, uma última pergunta: você tem algo contra asiáticos, africanos ou latino-americanos? Eu não, aliás, convivo muito bem com as minhas origens, entendendo o desenrolar da História e torcendo para que o mundo, aquele da maioria, mude, e para melhor. E para isso vejo outros caminhos diferentes dos seus.
Estou totalmente aberto para que me mostre o contrário para então eu mudar minhas idéias sem desqualificar opniões contrárias como se minhas verdades fossem as que regem o mundo. Não tenho essa pretenção.
Obrigado.

Rodrigo Constantino disse...

"Já passou pela sua cabeça que é justamente pelo fato de terem sido usurpados e explorados que os fazem deles, aliás, de nós, sub terceiro-mundista?"

hehehe

Rafael, favor ler meu artigo "A Culpa do Ocidente", onde refuto essas falácias típicas do Fórum Social Mundial. Vc, sem saber, segue literalmente o "manual do perfeito idiota latino-americano". Afirmar que os americanos são ricos porque exploram os pobres do Zimbábue é uma das coisas mais estúpidas que alguém poderia dizer! No entanto, é o que esquerdistas fazem...

Rodrigo

Rafael disse...

Amigo, a hegemonia e riquesa norte-americana advém, ao contrário de seus pares europeus, de duas grandes guerras, onde não foram afetados diretamente.
Não há como negar que suas ingerência em TODA a América Latina se deu em favor de manter seus dividendos, ou não? Ou você também acha que se mantiveram neutros nessa história toda?
Ah, o Zimbábue está na situação em que está devido à política colonialista inglesa, e não norte-americana. A norte-americana é diferente, em tempo, em atos e fins.
É a História, lutarás contra ela?
Não estou procurando culpados,(até porque já escolhi os meus)apenas me indigno com o fato de haver tamanha desiguladade no mundo. Você não? Ou seria também parte do caráter dito "liberal" não se importar com algumas dezenas de mortos de fome pelo mundo?

Dr. Ned Kelly disse...

Indignado my ass...
O que, exatamente, voce, RAFAEL, faz para reverter tamanha desigualdade, fora espalhar este besteirol que voce aprendeu dos seus professores esquerdistas recalques do primario ?
"Não estou procurando culpados,(até porque já escolhi os meus)apenas me indigno com o fato de haver tamanha desiguladade no mundo." nem a Miss Potosi conseguiu dizer uma frase mais ordinaria que essa quando chegou em oitavo lugar no concurso Miss Bolivia....such a bullshit....

DAYRELL disse...

"...a hegemonia e riquesa norte-americana advém, ao contrário de seus pares europeus, de duas grandes guerras, onde não foram afetados diretamente".

Erro Crasso ! Os EUA já eram um país rico nas décadas anteriores à primeira grande guerra. Não era hegemônico no mundo, mas já ocupavam posição de destaque na economia mundial, e especialmente no continente americano.

Quanto ao Zimbábue, o país continua na @*&^%$#! apesar de há muito tempo não ter o que você chama de "política colonialista inglesa". Sabe que este seu argumento é semelhante ao do ditadorzinho lá do Zimbábue. Aquele que desapropriou as terras altamente produtivas dos poucos homens eurodescendentes (brancos), simplesmente por serem brancos, e também por isso, a antiga Rodésia tem rodado na fome. Pilantragem, ressentimento, desrespeito à propriedade privada e visão eternamente voltada para o passado, são os sintomas característicos da política na maior parte dos países africanos. E isso, convenhamos, não é culpa exclusiva da "opressão".

"...indigno com o fato de haver tamanha desiguladade no mundo"

Se queres tanto viver em um mundo onde prevaleça a igualdade, aconselho que você se junte aos cupins e formigas. A perfeição social... (risos).

Lonely disse...

http://www.overstream.net/view.php?oid=svsbiurpuqlh

Xiiii

Mauricio disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mauricio disse...

Maurício, vc está tentando afirmar que os Estados Unidos são MAIS protecionistas que o Brasil, por exemplo?



Na verdade eu perguntei por que eles falam mais nos outro países abaixarem as tarifas de importação, que das suas próprias...

Mauricio disse...

Alias, um banco lá já rodou essa semana ...