terça-feira, junho 23, 2009

A Burca



Rodrigo Constantino

"Egoísmo não é viver como quiser; é pedir aos outros que vivam como alguém quiser que vivam." (Oscar Wilde)

Em recente discurso, Sarkozy disse que o uso da burca "reduz a mulher à servidão e ameaça a sua dignidade". Segundo ele, a burca "não é um sinal de religião, mas de subserviência" e não é "bem-vinda" na França. O líder francês ainda demonstrou apoio à criação de uma comissão parlamentar para analisar a proibição do uso da burca em lugares públicos no país. "Não podemos aceitar que tenhamos em nosso país mulheres presas atrás de redes, eliminadas da vida social, desprovidas de identidade", afirmou.

Eu concordo com Sarkozy no que diz respeito ao significado da burca: ela representa, de fato, uma cultura em que as mulheres são submissas. Não deixa de ser espantoso ver a quantidade de “relativistas culturais” que tentam amenizar as atrocidades ainda praticadas nos principais países islâmicos – onde o uso da burca não é nada grave comparado ao resto, em nome da “diversidade”. Já passou da hora de julgarmos de forma mais objetiva o que se passa nesses países, ainda muito atrasados em relação às principais conquistas da liberdade individual. Além disso, entendo a preocupação de Sarkozy com o crescimento da população islâmica na Europa em geral e na França em particular. Num modelo democrático, onde a liberdade pode ser solapada pela tirania da maioria, esse crescimento é sem dúvida um risco.

Não obstante, parece absurdo reagir a este perigo justamente atacando as liberdades individuais. E quando o governo resolve regular até mesmo as vestimentas das mulheres, isso significa que a intervenção estatal está num grau assustador. O governo não tem o direito de se meter nas escolhas pessoais sobre roupa. Não é crime usar a burca, não agride a liberdade de ninguém. Cada indivíduo é livre para escolher o que vestir. Hoje, o inimigo é a burca, mas nada garante que amanhã não seja o quipá dos judeus, o hábito das freiras ou uma camisa do Mises Institute condenando a opressão estatal. Sem um critério objetivo e isonômico, ficamos ao sabor das arbitrariedades momentâneas da maioria. Isso não é liberdade, mas ditadura da maioria.

Em For a New Liberty, o libertário Rothbard defende os direitos naturais de todos os indivíduos, mostrando que não há crime onde não há agressão a estes direitos. Que crime uma mulher está cometendo apenas ao usar uma burca? No livro, Rothbard ataca a visão utilitarista de que a “sociedade” tem direito de decidir algo com base no critério de benefício para o maior número de pessoas. Ele ilustra o absurdo disso através de um exemplo com redheads, supondo que esta minoria fosse vista como agentes do demônio por uma maioria. O extermínio desses redheads talvez trouxesse um benefício “social”, já que eles representam um grupo estatisticamente insignificante, e são detestados pela grande maioria. No entanto, seria claramente injusto eliminá-los com base neste critério utilitarista. Afinal, eles não cometeram crime algum, não agrediram a liberdade alheia. Somente os libertários calcados nos direitos naturais apresentam um critério universal de proteção a estas minorias.

Esses valores de liberdade individual encontraram maior eco justamente nos países ocidentais, após o Iluminismo. Seria uma infelicidade acabar com estes valores em nome da luta contra o atraso cultural islâmico. Os professores Ian Buruma e Avishai Margalit escreveram um livro no qual cunharam o termo “ocidentalismo”, explicado como o retrato desumano do Ocidente pintado por seus inimigos. Nele, os autores tentam explicar os motivos do ódio que leva alguns grupos a declarar guerra ao estilo de vida ocidental e tudo que ele representa. No livro, os autores defendem a idéia de que o combate a este “ocidentalismo”, que prega a destruição dos valores seculares ocidentais, não está no uso do mesmo veneno dos inimigos da sociedade aberta, mas sim nos próprios valores que fizeram do Ocidente uma civilização mais rica e livre. Eles dizem: “Não podemos permitir o fechamento de nossas sociedades como uma forma de defesa contra aquelas que se fecharam; do contrário, seríamos todos ocidentalistas e não haveria nada mais a defender”.

Os países ocidentais precisam defender seus valores liberais, dando o exemplo e contribuindo assim para o avanço nos países islâmicos. Não é proibindo as mulheres de usar burca que a França irá preservar seus valores. Não é atacando a liberdade individual que vamos preservar a liberdade. As muçulmanas devem abandonar suas burcas se assim desejarem. Não cabe ao governo impor isso a elas.

14 comentários:

Sergio Oliveira Jr. disse...

Verdade. Confesso que num primeiro momento eu simpatizei com a idéia da proibição, mas acho que vc tem razão.

Resumindo: O que deve ser proibido é alguém ser obrigado a usar a burca. O problema é que nessa religião irracional do islamismo, os próprios pais e familiares obrigam as mulheres a usarem a burca, desde de criancinha. Serão poucos que se rebelarão contra isso, mas eles existirão, ou seja, quem optar por não utilizar a burca, mesmo indo contra os seus familiares e a sua religião, deve ter garantido o seu direito individual de escolha.

Complicado. Tudo que é referente ao Islã é complicado e difícil de entender e opinar.

FightBadIdeas disse...

Não é só que a burca seja sinal de submissão, a própria palavra Islã quer dizer isto mesmo!

Eu acrescentaria o seguinte: se é para fazer alguma lei para ajudar os oprimidos pelo Islã, acho que deveria ser obrigatório que as meninas de famílias islâmicas passassem por exames médicos com uma certa regularidade (uma vez a cada ano, ou dois, até atingirem a maioridade, p. ex.) para ver se não foram "circuncidadas". Acho que neste caso os pais deveriam ser responsabilizados pela lesão corporal e estar sujeitos a perder a guarda da criança, no mínimo; isto é, caso tenham sido apenas negligentes o suficiente para deixarem alguém fazer isto com a própria filha sem o seu consentimento. No entanto, se eles tiverem sido os perpetradores da mutilação, então acho que deveriam responder também criminalmente por isto. Digo, isto é apenas um caso de maus-tratos com desculpa religiosa, sem falar de que é um crime de fato, e não uma escolha de mau gosto da vestimenta.

Quem eu li a respeito desta questão na Holanda foi a Hirsi Ali e, até a publicação do seu livro, The Caged Virgin, uma lei que tratasse deste problema ainda não havia sido passada. Isso sim é uma vergonha para a Europa!

Parabéns pelo texto!

fejuncor disse...

Como o debate sobre o criacionismo em sala de aula. Escolas públicas num Estado laico não podem ser confessionais pq o sendo e privilegiando uma religião em detrimento doutras ou daqueles que não crêem, fazem discriminação incabível numa sociedade de fato livre. Na democracia religião não desaparece, fica circunscrita ao âmbito privado, fora das instituições de uso geral – nem impostas nem proibidas, apenas circunscritas. Quer proibir? Funde um colégio ateu e proíba. De resto, cada um cuide de seu, se eu não quero uma mulher coberto numa burca aqui, tenho direito de pedir para que tire ou se retire pq o estabelecimento é meu. Da porta pra fora, insistir nisso, já é intolerância religiosa.

Collovini disse...

Na frança o negócio é mais complicado. O país está tomado, a cada fim de semana são mais carros incendiados, sempre por grupos de árabes. Esse assunto chegou a provocar declarações do Sarkozy devido a casos de muçulmanas que se recusavam a tirar a burca até mesmo para tirar fotos para documentos, o que é ridículo. Dito isto, o governo NÃO tem o direito de exigir que alguém vista ou não vista qualquer coisa. Mas os muçulmanos não tem o direito de ter sua "cultura" respeitada sem ressalva nenhuma.

livemusic disse...

Concordo totalmente com seu ponto de vista, Rodrigo. Parabéns pelo texto!

ricardo disse...

Os galicanos formam a nação que parturiu tristes contradições libertárias, salvo honrosas exeções[ [Montesquieu, Tocqueville, Aron e outros] foram péssimos intérpretes, da corrente iluminista advinda dos filósofos da moral, do outro lado da mancha, parece continuarem os mesmos, e orgulham de assim o serem.

sol maba disse...

affffffffffffff qdo vi o jornal pensei q estava ouvindo um louco...impondo o q? affffffffffffff
quem é ele p proibir vestirmos o q quizermos? eu hemmmm quem é quem p ordenar mudar uma cultura: affffff n hora m arrepiei rsrsrsr e olha q eu curtia a figura rsrrsrsr, mas bah vim aqui p t dizer q uma figura q trab comigo chamado lipe me passou este texto e catei um pedacinho p blog, s vc nao curtir é só falar retiro, mas valeu por falar!
bjusol
http://solmaba.blogspot.com/

Queila disse...

"(...)Assim também, é importante que os países ocidentais evitem impedimentos para que os cidadãos muçulmanos pratiquem a religião como decidam praticá-la – por exemplo, tentando determinar o tipo de roupa a ser usado pelas mulheres muçulmanas. Impossível não ver que há hostilidade disfarçada contra algumas religiões, por trás dessa máscara de liberalismo.(...)"
Trecho do discurso de Barack Obama no Cairo

Adriano disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Adriano disse...

Parabéns pelo texto, o argumento está perfeito.

Uma objeção mínima: "redhead" quer dizer ruivo(a) e não vi muito sentido em manter no original.

Eneida disse...

"Resumindo: O que deve ser proibido é alguém ser obrigado a usar a burca. O problema é que nessa religião irracional do islamismo, os próprios pais e familiares obrigam as mulheres a usarem a burca, desde de criancinha".

Bem lembrado Sérgio...

A questão aí passa pelas influências do meio sobre a tal de "liberdade individual".Elas escolhem usar a burka, ou a "escolha"(?) delas é resultante da obrigatoriedade do meio aonde elas vivem ou foram criadas?

Até q ponto é liberdade individual, e até q ponto é a religião forçando-as a usar o tal "adereço"?

Pergunta q não quer calar.


Ass: Morena Flor

Mestre disse...

Cultura? Essas mulheres já são proibídas por seus "maridos" e parentes de se vestir e comportar como quiserem há séculos. Na verdade, em seus países, não podem nem falar com outros homens que nao sejam seus "donos" ou parentes. Do contrário, são presas, punidas, mortas ou estupradas por isso.

Isso é a beleza dessa cultura?

Não sei se proibir a burca na França seja uma solução racional, mas com certeza o uso da burca não é uma escolha 100% racional, nem mesmo 100% voluntária. Como mudar isso? Não sei há solução... porque o mínimo que se tente debater qualquer assunto sobre isso já é motivo para bombásticas declarações terroristas.

Iriscelta disse...

O Presidente francês agiu corretamente!!

Evandro de Souza disse...

O argumento é bom, sempre acho que o melhor caminho para democracia é respeitar as diferenças, o problema aqui é outro, o que acontece com essas mulheres é crime, imagine um freira, ela usa a roupa por escolha própria, mas as bucas são impostas, e essas mulheres não podem falar nada, não tem direitos! tá na hora de acabar com isso!