quinta-feira, julho 02, 2009

Manipulações Estatísticas



Rodrigo Constantino

“As estatísticas são como o biquíni: o que revelam é interessante, mas o que ocultam é essencial.” (Roberto Campos)

Quando vi a reportagem sobre estudo novo do Ipea, alegando que o pobre trabalha quase o dobro que o rico para pagar impostos, essa frase de Roberto Campos veio à mente na mesma hora. Um pequeno livro escrito em 1954 por Darrell Huff, How to Lie With Statistics, simplesmente nunca perde sua validade. Os truques estatísticos continuam sendo utilizados em larga escala por jornalistas, economistas, contadores, políticos, etc. Um público leigo, sem condições de julgar tecnicamente o estudo em questão, e sem um olhar mais crítico, pode facilmente ser vítima de oportunistas de plantão.

Voltando ao estudo do Ipea em parceria com a Receita Federal, intitulado “Receita Pública: Quem paga e como se gasta no Brasil”, a imprensa deu grande destaque à conclusão de que os pobres que ganham até dois salários mínimos precisam trabalhar, na média, 197 dias para pagar impostos, contra “apenas” 106 dias dos que ganham mais de trinta salários. Onde pode estar a “pegadinha” nesse caso, lembrando que o diabo está sempre nos detalhes? Justamente na expressão “média”. Em primeiro lugar, qual média foi usada? O estudo não explica se foi a mediana, a média aritmética simples, ou a moda, por exemplo. E dependendo de qual delas se utiliza, o resultado pode ser totalmente diferente. Vejamos um exemplo para ilustrar isso:

Supondo uma população de 100 indivíduos, onde 90 ganham R$ 100 mensais e 10 ganham R$ 1.000, qual a média de salário? Ora, basta somar todos os salários recebidos e dividir esse valor pelo total de habitantes, o que dá uma média de R$ 190. No entanto, essa média representa 90% a mais do que ganha quase todo mundo. Em qualquer população com grande desvio padrão, a média simples não faz muito sentido. Alguns pontos fora da curva podem distorcer totalmente a média. Será que o mesmo aconteceu na análise do Ipea? Será que alguns bilionários não distorceram a média de taxa de imposto paga pelos “ricos” que ganham 30 salários? Além disso, podemos perguntar: quantos dias um pobre tem que trabalhar a mais que um rico para comprar um aparelho de celular? Não parece natural que os mais pobres deverão trabalhar mais, na média, para pagar qualquer coisa?

A pergunta poderia ser feita de maneira bastante diferente, dependendo do objetivo do estudo. O Ipea poderia perguntar, por exemplo, quanto do total de impostos arrecadados incide sobre aqueles que ganham mais de 30 salários. Repare como o efeito seria bem diferente. Como o Brasil é um país com enorme desigualdade material, em boa parte causada pelo excesso de governo, é natural que os mais ricos concentrem boa parte da renda, e também dos impostos! Mas claro que colocar os mais ricos como os responsáveis pela quase totalidade dos impostos que sustentam o governo não teria o mesmo apelo sensacionalista desejado pelo Ipea.

O estudo afirma que “famílias com renda de até dois salários-mínimos pagam 48,8% da sua renda em tributos; famílias com renda acima de 30 salários-mínimos, cerca de 26,3%”. Não obstante a conclusão de que os impostos são escandalosos no total, resta perguntar: por que devemos analisar apenas o percentual? Ora, quem ganha dois salários paga, na média, cerca de R$ 450, enquanto quem ganha 30 salários paga, na média, quase R$ 3.700, segundo o próprio estudo. Será que a notícia teria o mesmo efeito midiático se fosse assim: “Os mais ricos pagam na média um imposto oito vezes maior que os mais pobres”? E é melhor nem falar sobre o retorno desses impostos, já que os mais ricos acabam tendo que pagar tudo dobrado depois, para ter segurança, hospital privado, escola privada, etc. Qual a verdadeira carga tributária dos “ricos”?

Além disso, qualquer estudo estatístico corre sérios riscos de credibilidade dependendo dos dados utilizados. Eis que no próprio estudo consta o alerta de que “há R$ 430,6 bilhões arrecadados em 2006 que não foram utilizados no cálculo da carga tributária por terem incidência incerta sobre a renda dos contribuintes”. Ou seja, “dos R$ 808,6 bilhões que compuseram a Carga Tributária Bruta de acordo com o IBGE, somente R$ 378 bilhões foram considerados identificáveis por sua incidência sobre a renda dos proprietários ou não proprietários”. Em outras palavras, o estudo do Ipea analisou, na verdade, menos da metade dos impostos arrecadados pelo governo! Será que o resultado é confiável?

Uma das importantes lições de Huff no livro é para sempre buscarmos o viés de quem patrocina o estudo estatístico. No caso, qualquer um sabe que o Ipea sofreu um processo de politização e ideologização desde que Márcio Pochman assumiu a presidência. E nem é preciso especular muito. No próprio estudo, consta a seguinte passagem: “[...] o sistema tributário deve buscar a progressividade – tributar mais os ricos do que os pobres”. Ou seja, o Ipea já partiu da premissa de que deve haver progressividade, e tentou mostrar que o governo deve aumentar a carga já absurda sobre os mais ricos. Parece evidente que esta era a meta do Ipea com tal pesquisa. A estatística foi uma ferramenta auxiliar nessa tarefa ideológica. Os números confessam qualquer coisa sob tortura!

PS: Apesar da clara intenção do Ipea, o tiro pode ter saído pela culatra. É que a pesquisa acabou mostrando o que muitos ainda ignoram: que os pobres pagam muito imposto no Brasil. Afinal, muitos ainda pensam apenas nos impostos diretos (IR, IPVA e IPTU), esquecendo que existem dezenas de taxas, impostos e contribuições incidindo indiretamente sobre tudo que consumimos. O Ipea afirma que os mais pobres entregam compulsoriamente a metade do pouco que ganham para o governo. Eis o resultado de delegar ao governo o poder de praticar o “altruísmo” com esforço alheio. Em nome da luta contra a pobreza e a desigualdade, o governo acaba concentrando renda em Brasília e espalhando miséria, metendo as mãos em metade do que os pobres ganham. Em nome da “justiça social”, uma máquina de injustiça é alimentada pelos pagadores de impostos.

6 comentários:

Alice disse...

Olá

Juro que não consigo entender de onde sairam esses números de 48,8% e 26,3%. É claro que os mais pobres comprometem uma percentagem maior da sua renda para comprar 1 quilo de feijão. Mas e o resto, que faz parte do consumo normal de classe média, como alimentos muito industrializados, produtos mais sofisticados etc. que têm uma carga brutal de impostos? Uma passagem de ônibus tem vários impostos e taxas embutidos, mas eles não são muito maiores para que anda de carro? Nossos carros são movidos a impostos e não álcool ou gasolina. Tem impostos pagos pela Petrobrás em todas as fases da produção e distribuição, impostos pagos pelos postos, e de onde o dinheiro para isso sai? Quanto imposto tem em uma simples peça para carro? Ninguém consome dinheiro, usa-o para investir ou comprar bens. Produtos caros sempre têm alíquotas maiores, portanto o imposto é maior em termos absolutos e relativos. Nem vou escrever sobre imposto de renda e outros.

MARCO ANTONIO disse...

Belo texto, Constantino.

Estatística tem pegadinhas e a frase de Roberto Campos vem a calhar. Você expôs o tema com clareza e, no final, mostrou que a pegadinha pode ser também uma pegadinha.

Manipular números e dados é uma arte. Os desavisados, sem tempo nem formação (ou informações) para fazer análise daquilo que está sendo publicado, são presas fáceis da utilização ideológica das estatísticas sociais.

Tenho um amigo brincalhão, professor de matemática, que brinca com esse negócio de estatística e conta uma piada: "A imprensa noticia que 40% dos acidentes no trânsito envolvem motoristas alcoolizados. Daí se pensar que 60% são causados por motoristas que ingerem refrigerantes."

Feliz aniversário. Vida próspera e longa.

Um abraço.

Everardo disse...

O estudo do IPEA está certo. Não acredito que ele esteja manipulando dados estatisticos. Não comprometeria assim a seriedade daquele instituto.

Rodrigo Constantino disse...

O Everardo marxista é um crente! Ele TEM que acreditar no Ipea, não com base em algum argumento lógico, mas porque o Ipea "não iria se comprometer". O que TODOS (menos os marxistas) sabem é que Pochman já comprometeu o Ipea totalmente, e que ninguém mais (além dos marxistas) leva esse instituto a sério...

Rodrigo

rezende disse...

Oi rodrigo

até hoje não consegue entender o estudo do IPEA que diz que , em 2008, pobre teve uma carga tributaria bruta de 53,90 % e trabalha 196 dias para pagar estes tributos. No caso tratado estamos falando de até 2sm. vejamos os impostos pagos até 2 salario mínimo:
1)Imposto de renda - quem ganha até 2 SM, APLICA-SE -alíquota zero (NADA PAGA) ;
(Instrução Normativa RFB nº 803, de 28 de dezembro de 2007 diz que no ano calendário de 2008 que tem base de caluclo ate r$- 1.372,81 nada paga de IMPOSTO DE RENCA. )
2) -IPTU- Maioria das cidades isenta até 70 metros quadrado ; ou paga pouco já que utiliza pouca Área ou tem pouco propriedade;
3) IPVA- se posuirem carros são de baixo valor e geralmente usados , logo pagam muito pouco ou nada ;
4) ICMS ENERGIA E AGUA – geralmente tem tarifa social – mas se não tiver pagam proporcional ao consumo. Obviamente pagam menos do que os “ ditos “ ricos.
5) Outros ICMS ( compras em supermercados etc) – Icms de alimentos está cheio de benefícios ( arroz , feijao 7 % ; verduras – isento etc) logo vão pagar de acordo com consumo . se consumirem menos pagarão menos . o imposto é proporcional ao consumo.
Pergunta –se - Onde está a mágica deste calculo em que os pobres, até 02 sm , possuem uma carga tributária bruta de 53,9 % e trabalham 196 dias para pagar tributos ???
Pessoalmente acho que esconde uma tentativa de implantar a luta de classe identificando os pobres como coitadinhos e os ricos como uns demônios responsavel por todas desiguldade e sofrimento deste pais. Acho que melhorar de vida é uma busca que todos devem ter como objetivo. E estes estudos são irresponsável e escondem uma ideologias de 1917 , provada ser boa para apenas uns companheiros que se tornam a casta com seus privilégios e a maioria esmagadora iguais na pobreza, sem incentivo e perspectivas de vida .

Rodrigo é possivel explicar este numero CTB (ATE 2SM) de 53,90 ?? e DIAS TRABALHOS POR PESSOAS QUE GANHAM ATÉ 2 SM É DE 196 dias ???
( NUMEROS APURADOS PELO ESTUDO IPEA)
rezende

Eduardo R., Rio disse...

"Como mentir com Estatística", de Darren Huff.
http://dererummundi.blogspot.com.br/2013/06/mentiras-mentiras-do-caracas-e.html