segunda-feira, julho 16, 2012

O infiel

Luiz Felipe Pondé, Folha de SP

Confesso: sou um infiel. Não no sentido de infidelidade amorosa, mas religiosa. Não creio no aquecimento global por causas antropogênicas (trocando em miúdos, não acho que nossos carros estejam aquecendo o planeta, e se o Sol fosse um Deus como uns pirados achavam que ele era, estaria rindo de nós e nossos ridículos celulares).

Freud estava certíssimo quando dizia que a maturidade é para poucos e viver uma infância retardada é um modo "seguro" de não enfrentar a vida adulta, que é sofrida, incerta, injusta e inviável.

Isso mesmo, repito para que meu pecado conste nos autos: não creio que o aquecimento global seja causado por emissão de gás carbônico, acho (inclusive tem cientista que afirma isso, os ecocéticos) que o recente aquecimento começou antes dos últimos cem anos, nos quais nosso gás carbônico cresceu, e ciclos de esquentamento e esfriamento sempre ocorreram.

Inclusive aquele aquecimento que se deu entre 50 mil e 20 mil anos atrás (muito conhecido por quem estuda religiões pré-históricas como eu), foi bem benéfico para nossos ancestrais, assim como também o foi o da Idade Média.

Não há consenso acerca das causas antropogênicas do aquecimento global, há sim consenso (todo mundo que estuda religião sabe disso) ao redor do fato que apocalipse sempre deu dinheiro. Gastava-se dinheiro com indulgências na Baixa Idade Média, por que não seria o medo do fim do mundo ainda hoje uma mina de dinheiro?

O mercado do apocalipse verde tem seus sábios-profetas-cientistas, mágicos, gurus espirituais, nutricionistas-sacerdotes de alimentação sagrada, mercado de cristais sustentáveis, enfim, tudo que há nos fanatismos humanos.

Ninguém saiu às ruas (muito menos nus) pela mecânica newtoniana, pela relatividade de Einstein, pelo empirismo de Bacon ou pelo evolucionismo darwiniano. Aliás, que mania mais "teenager" essa de tirar a roupa toda hora. Já estão barateando os seios.

As pessoas saem às ruas porque o verdismo é uma espiritualidade fanática como qualquer outra, regada a comunismo requentado: o verdismo é uma melancia, verde por fora, vermelho por dentro. A certeza daqueles que não comem carne acerca do pecado dos que comem é mais forte do que a condenação do orgasmo feminino pelas autoridades eclesiásticas mais idiotas que caminharam pela Europa nas Idades Média e Moderna.

Acho que a ciência do aquecimento global que afirma categoricamente que somos nós que aquecemos o planeta está mais para astrologia (sem querer ofender a astrologia) do que para astrofísica. Estamos perdendo um tempo danado deixando que as tribos dos sem-roupa fique atrapalhando um cuidado mais técnico acerca do futuro do planeta.

Isso não quer dizer que não exista um problema de sustentabilidade no mundo, apenas que os fanáticos verdes nem sempre ajudam a enfrentá-lo.

A "verdade científica" em jogo é o que menos importa, mesmo porque nenhuma controvérsia científica ao redor do tema pode ser vista como algo diferente de heresia. Discordar não é ser visto como alguém que debate teorias científicas, como deve ser o convívio saudável em qualquer ciência, mas sim como recusa de adesão a uma forma de verdade superior e pura.

As bobagens do tipo "teoria gaia" ofuscam os corações e mentes, como todo fanatismo sempre o fez, e impede muitas vezes de ver que a natureza em sua beleza é muitas vezes mais Medeia do que Gaia.

Em 1755, quando o grande terremoto destruiu Lisboa, a comunidade intelectual europeia se esforçou para eliminar das causas a "vontade de Deus". Hoje, supostos cientistas reintroduzem a forma mais vagabunda de metafísica na ciência, a da "deusa natureza".

Os coitados do Kant e do Newton nunca imaginaram que um dia iríamos retroceder às trevas assim. Andamos sim em círculos.

A pergunta que não quer calar é: se está certo quem diz que quando se quer saber a verdade sobre a sociedade deve-se seguir o dinheiro, cabe a nós identificarmos quem está ganhando rios de dinheiro com esse fanatismo que já se constituiu em mais um fator a dificultar sairmos do buraco econômico em que estamos.

8 comentários:

Guilherme Marinho disse...

No ponto!
Muito bom!

Getulio Malveira disse...

Muito bom esse texto!

Anônimo disse...

98% dos climatologistas,Academias de Ciências de vários países (Brasil, Canadá, França, Alemanha, Índia, Itália, Itália, Japão, Rússia, Estados Unidos, Inglaterra, etc.), Instituições como a NASA’s Goddard Institute of Space Studies, National Oceanic and Atmospheric Administration, Environmental Protection Agency, American Geophysical Union, National Center for Atmospheric Research, etc concordam com a tese do aquecimento global antropogênico.
Que tal dar uma lida no "O guia científico do ceticismo quanto ao aquecimento global", disponível na internet?
Todas as críticas dos céticos do clima são rebatidas, com indicações de artigos científicos, no site skepticalscience.com.
Não se deve confundir ciência com ideologia.

Anônimo disse...

Sem temor "ecológico", na mosca!
Vivemos na Idade Média Moderna. A cegueira é enorme e ajuda o bolso dos espertos.
Como diz um ditado por aí, não guardei o nome, creio que Cassiano de tal: "A maior tragédia da nossa época foi a atrofia das asas em proveito das patas".
Nunca li frase tão sintética sobre o nosso momento atual.

Anônimo disse...

A unica ressalva que faço é: muito cuidado com Kant! Kant, como bom idealista que era, tentou conciliar o empirismo baconiano, o vitorioso método científico, fato percebido por ele, com a "Razão Pura", que é pura mistificação idealista. Toda a sua obra é uma tentativa fracassada de salvar o idealismo.

Paultruc

Anônimo disse...

Ele acha que os carros não causam aquecimento global? Sério mesmo? Isso é uma questão de "achar"?

Anônimo disse...

O cara de novo analisa uma questão científica sob um prisma ideológico (que paradoxalmente critica).

É muito duplipensar.

Anônimo disse...

O pondé acha q é filósofo e usa seu senso comum para dar uma de cientista. Isso com seu típico jeito chato de ser...