quinta-feira, novembro 01, 2012

Engana que a gente paga

Carlos Alberto Sardenberg, O GLOBO

Coisa de 200 anos atrás, jornalistas do “Times” de Londres já utilizavam um critério original para saber o que deviam ou não apurar e publicar. “Notícia, diziam, é tudo aquilo que alguém não quer ver publicado; o resto é propaganda.”

Desse ponto de vista, tudo que o governo fala, em qualquer país, deve ser entendido como propaganda e marketing. Claro, não é mesmo? Os governantes só falam aquilo que gostariam de ver publicado com o devido destaque.

No Brasil de hoje, isso faz muito sentido. Os governos, em todos os níveis, carregam na propaganda, em volume e conteúdo. Reparem, por exemplo, nos anúncios do Banco do Brasil e da Caixa.

Tem financiamento barato para todo mundo, quem toma empréstimo está felicíssimo porque comprou seu carro ou abriu seu negócio, todos prosperam e por isso riem o tempo todo. Um espetáculo: não tem inadimplência, os juros são baratíssimos. Parece que só os mais bobos, ou desconfiados, não correm lá para pegar dinheiro fácil.

Pode-se dizer que aqueles bancos estão no mercado, disputando clientes com as outras instituições. Mas não é bem assim. A propaganda dos bancos federais, assim como da Petrobras, outras estatais e de ministérios, não oferece propriamente um produto. Seu principal propósito é passar uma imagem positiva do país e, sobretudo, das ações do governo.

Regra do jogo, pode-se argumentar. Trata-se de propaganda paga, o governo, como qualquer outro anunciante, diz o que quer e ninguém é obrigado a acreditar.

Sabemos que não é bem assim. Nem precisa argumentar muito. É intuitivo. Trata-se de dinheiro público, mesmo no caso dos bancos comerciais, como BB e Caixa. Eles não funcionam como os privados. Recebem dinheiro do governo, já foram resgatados com injeções de capital público mais de uma vez e todo mundo sabe que não vão quebrar porque o governo, ou seja, o contribuinte, estará lá para cobrir eventuais buracos.

Necessariamente, portanto, deveriam agir de modo diferente, como instituições públicas, e estas, como todo governo, têm compromisso com a informação correta.

O que nos leva ao outro lado da história. Hoje em dia, entende-se que mesmo empresas privadas têm compromisso com o público. Propaganda enganosa não pode ser tolerada. Claro, é difícil definir e apurar a tentativa de ludibriar o consumidor, mas é outro problema, de regulação.

E, se isso vale para empresas privadas, por que não se aplica ao governo, suas empresas e suas repartições? Na verdade, a propaganda enganosa pública é mais grave, porque o governo tem também a obrigação de informar e, assim, orientar a sociedade.

Isso é especialmente importante no caso da política econômica. O governo, ator decisivo em qualquer economia, precisa dizer claramente o que vai fazer, prestar contas regularmente sobre o que está fazendo, dar as regras do jogo, mostrar como vê o andamento da situação e esclarecer o cenário com o qual trabalha.

Há rituais definidos para isso, aqui no Brasil e em toda parte. Os ministérios da área econômica e o Banco Central divulgam regularmente suas mensagens. Assim, em qualquer país organizado, os agentes econômicos, ao planejar e agir, consideram os cenários do governo para crescimento, inflação, arrecadação, gastos orçamentários etc.

Por isso, quando o nosso Ministério da Fazenda sustenta que o país crescerá 4,5%, quando todo mundo já viu que não vai dar, isto é, sim, um tipo de propaganda enganosa. Idem quando o Banco Central diz que cumpriu a meta de inflação quando o índice bateu em 6,5%, dois pontos acima. Há mesmo uma confusão, que parece deliberada, entre meta, centro da meta e margem de tolerância. Resultado: ficamos sem saber se o objetivo de fato é uma inflação de 4,5% (a meta ou o centro) ou qualquer coisa abaixo de 6,5% (o teto da margem de tolerância) ou até mais do que isso, como ocorreu recentemente.

Do mesmo modo, é uma informação enganosa quando o governo jura que vai cumprir a meta de superávit primário sem truques. Nestes casos, a informação do governo causa menos danos porque todo mundo já sabe que o cenário oficial não vai se realizar. Vale para todos os anúncios do setor público, federal, estadual e municipal, que simplesmente afirmam que tudo vai maravilhosamente bem.

Mas isso desmoraliza a informação pública e cria o ambiente, negativo, de que é assim mesmo: o governo mente e a gente não acredita ou deixa pra lá. Só que nós, cidadãos e contribuintes, fazemos o papel de trouxas. Nós pagamos pela farsa.

2 comentários:

Cleomilton Filho disse...

Considero-me um liberal, no sentido econômico e filosófico do termo. Sou um antiestatista convicto. Entretanto, algo me perturba no discurso do pessoal da ala mais libertária, como John Paul, republicano dos EUA.

Na quase totalidade dos discursos pró-libertarianismo, vejo duras críticas à política de guerra. É nesse aspecto, especificamente, discordo de meus colegas libertários.

Acredita-se que países que adotem efetivamente uma linha liberal/libertária devem se abster por completo no tocante à intervenção em outros países, bem como não devem gastar para ter um aparato bélico capaz de evitar abusos por parte de outras nações.

Ora, fico imaginando. Se o Estado não gasta com sua força armada, creio que se torna um alvo fácil e vulnerável às investidas nada democráticas de países instáveis, teocráticos ou autoritários.

Imaginem se os EUA não fosse a maior força bélica do mundo, vocês acham que países como Irá, Coréia do Norte, dentre outros que não mediriam esforços para destruir a "democracia ocidental", de fato respeitariam nosso estilo de vida de forma pacífica?

Infelizmente, diante do contexto hoje, não vejo outra alternativa a um Estado Democrático de Direito consolidado como os EUA não gastarem bilhões com suas forças armadas. É um gasto estatal necessário. Não vejo saída quanto a isso.

Então, aos mais libertários, fica o questionamento: qual seria a saída para a defesa da própria democracia capitalista senão os gastos governamentais com material bélico e de guerra, como forma de assegurar uma supremacia sobre nações instáveis e perigosas, como as teocracias muçulmanas? Porque essa estorinha de que todos os países viveriam em paz de forma cordial é um devaneio risível.

Obrigado.

Cleomilton Filho

Francisco disse...

"A situação se corrompe quando se corrompem os termos."

Curiosamente, Karl Marx.