terça-feira, novembro 27, 2012

... e se fosse seu filho?

Dr. José Nazar, psiquiatra e psicanalista 

É isso mesmo, ...e se fosse o seu filho, ou sua filha, que estivesse perdido no mundo das drogas, vivendo nos escombros de uma cracolândia. Qual seria a sua posição, você seria contra ou a favor de uma internação hospita- lar à força? Nesse caso, a coisa seria diferente?
E você, qual é a sua opinião, é contra ou a favor de uma internação compulsória? Esta foi a pergunta que lancei para alguns pro- fissionais, que têm reagido de uma maneira veemente contra a ideia das internações compulsó- rias para usuários de drogas, mesmo em casos de muita gravidade. 
Mas quando lancei, mesmo sem pensar, a pergunta: e se fosse seu filho? A resposta veio rápida: aí seria totalmente diferente!
De fato, essa não é uma questão simples de se resolver. Se é que algum dia ela venha a ser resolvida, pois parece que o ser humano necessita da droga para continuar vivendo.
A sociedade como um todo deveria participar, se implicar, praticar um pouco mais de cidadania, dizer o que acha de uma situação tão difícil quanto delicada como essa. Isso porque, todos estamos no mesmo barco, fazemos parte dessa tragédia, de algo esdrúxulo que redundou na construção de redutos abismais, assim chamados de cracolândia.
Esse fato, atual, tornou-se motivo de um debate que não vai ficar por aí, de graça, isso ainda vai render. A coisa toda circula entre o que se torna necessário, no sentido de uma medida justa, no sentido de fazer cessar algo desconhecido pelo próprio sujeito, de uma doença compulsiva grave, que coloca em risco máximo, a vida do usuário de drogas – e, como consequência, a de outros também, sejam familiares ou não –, e aquilo que é permitido por lei, o que é humano ou não, agressivo ou aterrorizante, em relação a intervenções.
Difícil para os governos, para os agentes de saúde, para a sociedade, para os cofres públicos. Um problema de saúde pública!
O problema reside na iniciativa atual do governo – diga-se, corajosa, saudável num certo sentido –, que resolveu olhar de frente para esta questão limite, levando a sério uma iniciativa de se criar uma política pública, mais agressiva, contundente, radical, em relação aos excessos que têm com- parecido, em relação ao uso abusivo de drogas, mais especificamente, do crack.
Veja, em se tratando de doenças da cabeça, não existe uma medida justa, correta, sem dor.
As intervenções propostas neste plano inicial de combate aos excessos da pulsão de morte geram consequências.
Muitas são as pessoas que não concordam com uma internação compulsória de usuários de crack. Uns se apoiam em leis existentes, estabelecidas, profissionais da área de saúde mental, que acreditam ser possível alcançar o mesmo objetivo, utilizando procedimentos menos agressivos, e por aí vai. Só que a coisa continua, formam-se guetos, núcleos alimentados pelos efeitos catastróficos de uma pulsão de morte, suicídio em massa.
A razão de tal recusa encontra respaldo no argumento de que o sujeito deve ter liberdade de dizer se aceita ou não tratar a sua dependência em regime fechado. Esse ponto de vista vale até para aqueles de- pendentes que vivem suas vidas no abandono dos redutos denominados cracolândia.
Acreditam que possa haver uma outra maneira de abordar uma situação como essa, sem a necessidade do uso da força, abrindo perspectivas de diálogos.
O debate sobre o uso e o abuso de drogas ultrapassa todos os valores preconizados pelas dimensões da existência humana.
Quem sabe responder por uma questão como esta, tão difícil quanto delicada, que toca fundo os impasses da vida e da morte?
O indivíduo que se encontra imerso no vício de crack, ele mesmo não pensa mais, há muito abriu mão da sua dignidade de desejo, e deixou de responder por si mesmo. Tornou-se um objeto, onde não mais sabemos quem é quem, se ele próprio não se tornou a própria droga.
Uma cracolância é algo que promove os piores sentimentos em todos nós. Ali, naquele amontoado de indivíduos em sofrimento, existe um pedacinho de cada um de nós, de um dejeto, de uma escória, de uma...desistência.
Portanto, sou inteiramente a favor das internações compulsórias. Isso não é sem erros, isso não é sem dor, isso não é sem uma margem de risco. Mas é melhor do que nada fazer. Desculpem-me!

5 comentários:

Anônimo disse...

Infelizmente a internação compulsória também não funciona. Quem se viciou em crack só tem um caminho: a morte.

Anônimo disse...

Prezado Nazar
Não se desculpe. Somente os inocentes e os ideólogos de um projeto falido para a saúde mental do nosso país ainda acreditam em soluções politicamente corretas. A internação compulsório é a única medida adequada neste momento. Só discordo quando você diz que um pedacinho de todos nós esta lá:não, não esta. A cracolândia("esquerdolândia") é resultado de uma política errada imposta por um grupo de profissionais que teimam em desafiar os fatos. Temos profissionais abnegados que estão tentando reverter este caos na política de saúde mental de nosso país. Saudações. Márcio Astrachan

Salvatti disse...

Recomendo a pesquisa abaixo (http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u462460.shtml):

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“Condições de vida influenciam vício em cocaína, aponta estudo”
(...)
“’Um mês de exposição a um ambiente enriquecido acaba completamente com os comportamentos característicos da dependência’, segundo os cientistas”.
(...)
“’Se as condições que rodeiam essas pessoas são pobres, se libertar do vício pode ser um trabalho extremamente difícil’, destacaram os pesquisadores, estimando inclusive que um ambiente ‘enriquecido’ pode ser considerado ‘preventivo’”.

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Se o livre mercado promove riqueza e liberdade, qual a dúvida? Estado recolher para cuidar de quem precisa de cuidados e dignidade é tendência socialista. Que não falte colhão aos que apenas desejam a polícia limpando a paisagem do bairro.

Anônimo disse...

O Sr Salvatti esta enganado. Não existem pesquisas em lugar nenhum do mundo que comprovem que a mudança de ambiente resulta em melhora imediata( nem de médio ou longo prazo) do toxicômano. Por gentileza, informe onde foi feita a pesquisa e a metodologia empregada. O argumento contra esta ideia ultrapassada é simples e qualquer estudante de Psicologia, Medicina, Enfermagem, Assistente Social e Sociologia sabe: nem todos os que vivem na pobreza se transformam em toxicômanos. A Toxicomania é uma doença que deve ser tratada por equipe especializada e não por aventureiros politicamente corretos.E, se necessário, com avaliação desta equipe, internar( salvar uma vida e proteger outras). Isso vale para qualquer classe social.
Márcio Astrachan

Salvatti disse...

Márcio Astrachan,

OAB, Conselho de Psicologia, Enfermagem e Assistência Social, as últimas três por você citadas, não aprovaram a solução. Em visita a Casa Viva, por exemplo, encontraram, basicamente, um depósito de crianças. É difícil imaginar, no país da Fundação Casa? Aos hipócritas, talvez.

Ademais, faz mal esse discurso esquerdista de prender para cuidar, com indevido apelo a coletivo e risível reducionismo onde a panacéia faz sentido.

Não defendo relativismo, mas separemos o conservador do liberal: O estratagema do Estado para tirar, recolher e encarcerar, é preocupante. Não é porque a insuportável Maria do Rosário foi contra a internação que eu vou, automaticamente, defender o contrário.

Se é p/ tanto, eu prefiro a tese do Dâniel Fraga: se está na rua, vai preso, porque rua não é lugar de ficar. Acho bem mais honesto, até porque é o que tem ocorrido.

E que se construam mais dessas casas públicas de internação, pois vamos precisar.

Salvatti