segunda-feira, dezembro 24, 2012

Sejamos pragmáticos


João Luiz Mauad, O GLOBO

Tão logo surgiram as primeiras notícias do mais recente massacre de crianças nos
Estados Unidos, começaram as pressões para a revisão da lei de controle de armas.
O presidente Obama, por exemplo, em discurso emocionado, disse que algo precisava
ser feito com urgência para evitar futuros episódios semelhantes e conclamou o
Congresso a discutir a questão “sem ideologias”. Portanto, sejamos pragmáticos.

Quem quer que pretenda analisar os fatos e as possíveis soluções de forma racional
e objetiva precisa, antes de mais nada, colocá-los em perspectiva. Muito embora
massacres como aquele sejam cruéis e chocantes, é necessário relativizá-los
para saber até que ponto uma ação política restritiva das liberdades individuais,
francamente conflitante com alguns princípios constitucionais fundamentais da nação
americana, seria realmente necessária, urgente e efetiva.

Vejamos então alguns dados empíricos relevantes. No livro "Risco: a Ciência e a
Política do Medo", o jornalista canadense Dan Gardner calculou que a probabilidade
de um estudante americano ser assassinado na escola era praticamente irrisória
- menos de 1 em 1,5 milhão. Muitos sequer imaginam, mas nos últimos 30 anos
morreram, em média, três vezes mais pessoas atingidas por raios nos EUA do que
vítimas de atiradores possessos – 51 a 18 por ano.

Diante desses números, a pergunta lógica é: vale à pena fazer alguma coisa para
tentar reduzir ainda mais as chances desses massacres, tendo em vista os eventuais
efeitos colaterais indesejáveis dessas medidas? Em outras palavras, será que o
tratamento não seria pior que a doença?

Calcula-se que existam na América 310 milhões de armas não militares nas mãos dos
cidadãos (mais de uma arma por cabeça), enquanto o índice de homicídios praticados
por tais armas é de cerca de 4 para cada 100.000 pessoas, com tendência fortemente
declinante nas últimas décadas. Não se sabe quantos crimes são evitados, todos os
dias, por conta do farto arsenal mantido pela população ordeira, mas a lógica nos
induz a pensar que tirar do cidadão a prerrogativa de legítima defesa só dará mais
vantagem e confiança aos bandidos. Senão, vejamos:

No Brasil, o acesso a uma arma, pelo menos legalmente, é muito difícil, quase
impossível. Apesar disso, o índice de homicídios por armas de fogo está na casa
dos 20 para cada 100.000 habitantes ou 5 vezes o padrão americano. Chacinas por
aqui também não faltam, vide São Paulo nos últimos meses. A experiência brasileira
demonstra, portanto, que dificultar a aquisição legal de armas não é sinônimo de
segurança, muito pelo contrário.

Sejamos pragmáticos: alterar a constituição de um país, em vigor de forma eficaz
há mais de 2 séculos, por conta de alguns casos isolados, ainda que chocantes,
não é uma decisão sensata. Políticas públicas não devem ser ditadas no calor
das emoções, simplesmente para apaziguar os ânimos mais exaltados, até porque
boa parte das pessoas não conhece as estatísticas ou vislumbra os possíveis
efeitos colaterais de certas políticas. O clamor público, quase sempre irracional ou
manipulado ideologicamente, nunca foi bom conselheiro.

9 comentários:

Anônimo disse...

Se os professores da escola estivessem armados, o maluco nao teria feito grande estrago...

PHO.

Anônimo disse...

Massacre em escolas americanas deixou de ser fato isolado há muito tempo.

samuel disse...

nem todos são contra o desarmamento EIS AQUI UM QUE É A FAVOR
A FAVOR DO DESARMAMENTO http://www.youtube.com/watch?v=nQMZLl0x3cM

Mario disse...

Se eu fosse um cidadão norte-americano, eu seria a favor da liberdade de comerciar armas. Eu acho até que eu iria querer uma para minha defesa pessoal. Concordo em absoluto com o autor João Luiz Mauad quando ele diz que uma ou outra matança de um louco não justifica um controle maior de armas. A discussão deve ser mais profunda. Como ele afirmou, o tratamento poderia ser pior do que a doença, porque, "(...)Não se sabe quantos crimes são evitados, todos os dias, por conta do farto arsenal mantido pela população ordeira, mas a lógica nos induz a pensar que tirar do cidadão a prerrogativa de legítima defesa só dará mais vantagem e confiança aos bandidos.". Trata-se, sem dúvida, de um debate importante, que não deve ser conduzido, porém, pelas emoções da hora.

Mario.

Anônimo disse...

Quando acontece essas coisas ninguém fala do inferno que é ser dessa geração de desequilibrados, que crescem sem uma família estruturada, várias vezes são filhos de mães solteiras ( exatamente esse caso ) e não sabem o que é ter um pai.
Resumindo: todo o projeto de família da esquerda.

Anônimo disse...

Rodrigo

Alem da desestruturação familiar o sistema educacional Americano é cruel.
Estudei nos EUA, completei a High School lá.
Por sorte eu era bom esportista e tinha a malandragem Brasileira além de ser destaque por ser Exchange Student, mas o indivíduo que não for popular, bonito, bom esportista, rico ou destaque por algum motivo é execrado pelo resto da escola e para aqueles o premio é uma Cheerleader no banco de traz do carro...
Bullying is a must.
O carinha é humilhado, alvo de gozações e brincadeiras de mau gosto.
Ve-se isso constantemente nos filmes. Quem tem dúvidas assista Carrie- A estranha ou até mesmo o The Big Bang Theory onde os Sheldon já quis fazer uma arma para desintegrar as outras crianças.
O sistema é competitivo demais e acaba criando esses monstros. As armas nada tem a ver com isso. Se não for uma arma de fogo será uma ANFO.

Salvatti disse...

“O sistema é competitivo demais e acaba criando esses monstros.”

Resta saber por que brasileiro que se muda para os EUA não quer voltar de jeito nenhum. Na minha família tem dois casos, sem contar os parentes que foram para lá a trabalho e ficaram maravilhados com o mercado. Aliás, um dos casos, da minha prima, foi para estudar. Nunca mais voltou.

Eu ainda acho que tudo é questão de traquejo, e que nosso sistema brasileiro é pior.

Anônimo disse...

Tem que ler e entender o que escrevi.
Eu morei lá e estudei lá, e sei o que estou falando. O sistema que falei é o escolar e depende de qual time você faz parte. Eu me dei bem o que não me impediu de ver o que acontecia com os menos favorecidos. O fato de muito brazuca ir e ficar não explica nada afinal ainda e melhor ser pobre lá do que aqui. Faxineira lá ganha mais do que engenheiro aqui. Eu moraria lá sem dúvida, alias vou frequentemente para lá tanto a trabalho quanto a passeio, mas tenho minhas dúvidas se gostaria que meus filhos estudassem lá.Tenho um filho que é diretor de uma multinacional Americana aqui e que foi transferido para lá por 4 anos que pensa a mesma coisa. Quando a mulher engravidou voltou.

Salvatti disse...

Violência física, segregação social e bullying. Eu penso que sempre “depende de qual time você faz parte”. Quando não depende? Eu estudei em escola particular e pública. Eu me recordo de uma perversidade parecida com a da cinematografia por você citada.
Se for para pensar em melhoria, eu pergunto ao colega que tipo de cidadão forma os EUA, e que tipos formam as nossas escolas no Brasil?