quinta-feira, maio 08, 2008

A Liberdade de Crusoé


Rodrigo Constantino

“Se eu sou ou não meu próprio mestre e posso seguir minha própria escolha e se as possibilidades das quais devo escolher são muitas ou poucas são duas questões inteiramente diferentes.” (Hayek)

O que é a liberdade? Muitas pessoas confundem liberdade com poder. Para o libertário Murray Rothbard, a questão é objetiva: liberdade é a ausência de coerção ou invasão humana. Isso não quer dizer que o indivíduo livre pode fazer tudo aquilo que deseja. A abstração de se analisar a vida isolada de Robinson Crusoé em uma ilha deserta, e depois acrescentar algumas poucas pessoas no cenário, pode representar um exercício bastante útil para a compreensão da liberdade. Creio que quase ninguém diria que Crusoé não é um homem livre em sua ilha. No entanto, há muitas coisas que ele não pode fazer, mesmo sozinho no seu mundo.

Para praticamente todas as demandas que Crusoé tem na ilha, ele logo descobre que o mundo natural não satisfaz imediatamente e instantaneamente seus desejos. Ele não está no Jardim do Éden, mas num mundo muitas vezes hostil e totalmente indiferente aos seus anseios. Para alcançar seus objetivos, ele deve pegar os recursos naturais que dispõe e transformá-los em objetos úteis, para satisfazer suas demandas. Para pescar, ele precisa antes construir uma lança ou rede. Para obter trigo, ele teria antes que plantar. Em suma, Crusoé deve produzir antes de consumir.

Os homens não possuem conhecimento inato do que devem ter como metas adequadas, tampouco nascem com ferramentas instintivas e automáticas para conhecer os meios necessários para atingir tais metas. Diferente dos animais irracionais, que adotam comportamentos instintivos, os seres humanos precisam pensar para descobrir a melhor forma de sobrevivência. O homem precisa aprender como viver. E para tanto, ele precisa utilizar seu poder de observação, abstração e pensamento, ou seja, sua razão. O uso da mente, a aquisição de conhecimento sobre o que é melhor para ele e como conquistar isso, é um método unicamente humano de existência e conquista.

Crusoé aprende sobre tudo isso através da observação de como as coisas funcionam na natureza, ou seja, descobrindo a natureza das diferentes entidades específicas que encontra. Em outras palavras, ele aprende as leis naturais da forma que as coisas se comportam no mundo. Por trás de cada bem produzido por Crusoé, por trás de cada transformação feita pelo homem nos recursos naturais, está uma idéia direcionando os esforços, uma manifestação do “espírito” humano. Para criar a luz elétrica, por exemplo, antes é necessário conhecimento específico e uma boa idéia. Isso vale para tudo produzido pelos homens. A força bruta não é nada sem uma idéia como guia. O grande valor está na capacidade mental.

O indivíduo, através de sua própria consciência, também descobre o fato natural primordial de sua liberdade: sua liberdade de escolha, sua liberdade para usar ou não sua razão sobre determinado aspecto. Em resumo, seu livre-arbítrio. Ele descobre ainda que sua mente pode comandar seu corpo e suas ações, em vez de ser apenas uma marionete sem controle algum de seus atos. Ele tem a responsabilidade de suas ações. Ou seja, ele tem uma propriedade natural sobre si próprio. O fato de que o conhecimento necessário para sua sobrevivência e progresso não lhe é dado ao nascer nem determinado por eventos externos, e o próprio fato de ele ter que usar sua mente para descobrir isso, demonstra que ele é livre por natureza para empregar ou não sua razão, i.e., que ele tem livre-arbítrio. Para viver como homem, ele deve escolher ser homem, usar sua capacidade racional.

Nenhum ser humano é infalível. Todos estão sujeitos ao erro. No entanto, podemos assumir que a meta de todos é a sobrevivência, e esta se dá somente pelo uso da razão. Qualquer um que tentar negar a meta da sobrevivência participando de uma discussão está justamente afirmando tal meta, pois se fosse realmente contra ela, não haveria porque participar de um debate ou mesmo continuar vivo. Logo, o objetivo de Crusoé na ilha será sobreviver da melhor forma possível, reduzindo seu desconforto. Ele terá que descobrir como fazer isso. Ele é livre para tanto. Mas ele encontra limites no seu poder. A confusão entre poder e liberdade é uma das mais perigosas armadilhas do mundo moderno.

Quando alguém diz que o homem não é livre para voar, o que está sendo dito, na verdade, é que o homem não tem o poder de voar. Nada além da sua própria natureza o impede de voar. De acordo com as leis da natureza humana e do mundo, o homem é capaz de uma limitada gama de ações. A liberdade de Crusoé para pensar, adotar suas idéias e escolher suas metas é inviolável na ilha. Mas isso não quer dizer que ele seja onipotente ou onisciente. Tais atributos não são de nossa natureza humana. Ele encontra limites naturais e pode falhar em suas escolhas. Seu poder, em resumo, é limitado. Não faz sentido algum definir liberdade a partir do poder de uma entidade realizar um ato impossível para sua natureza. Ninguém seria livre no mundo!

Agora é possível passar para as relações interpessoais. Encontrando recursos naturais disponíveis, aprendendo como utilizá-los e transformando-os em algo mais útil, Crusoé está “misturando seu trabalho com o solo”, na concepção de Locke para propriedade. Desse modo, ele está convertendo naturalmente a terra e seus frutos em sua propriedade. Para Rothbard, o homem isolado possui aquilo que ele usa e transforma. Não faria sentido Crusoé se declarar dono de toda a ilha apenas porque nela chegou primeiro. Se Sexta-Feira surge em cena, ele pode simplesmente ocupar uma parte inexplorada da ilha, e realizar trocas com Crusoé. Pode-se supor que Sexta-Feira vive em outra ilha, bem em frente à ilha de Crusoé, que nada muda na análise. Ambos serão proprietários de seus espaços e daquilo que criam a partir deles, devendo obter o que o outro produziu somente através de trocas voluntárias.

A oportunidade de especialização nos melhores usos de recursos, possível pelas trocas, permite a multiplicação exponencial da produtividade e qualidade de vida e todos os envolvidos nas trocas. Isso foi bem explicado pela Lei das Vantagens Comparativas, descoberta por David Ricardo. Crusoé pode se especializar na pesca, e Sexta-Feira na agricultura, e depois ambos estarão em melhor situação trocando. Ao contrário do que muitos dizem, as trocas voluntárias não levam ao “darwinismo social”, prejudicando os “fracos” e favorecendo os “fortes”. Elas permitem justamente que os menos aptos possam desfrutar, através do livre mercado, das vantagens da maior produtividade, porque também é vantajoso para o mais apto praticar comércio com o menos apto. Mesmo se Crusoé for melhor que Sexta-Feira tanto na pesca quanto na agricultura, vai fazer sentido ele se especializar e trocar, favorecendo Sexta-Feira. É a mesma lógica que faz um advogado que cozinha bem focar na advocacia e pagar por uma cozinheira. Além disso, como não há coerção envolvida, a troca só ocorre se ambas as partes a enxergarem como benéfica. É um axioma econômico.

E para finalizar, outro axioma econômico surge dessa constatação toda: somente através da produção e das trocas é possível consumir. Claro que alguém pode receber algo como um presente, mas isso só será possível se este tiver sido produzido por alguém antes. Logo, fica evidente que falar em “direitos” a produtos feitos pelos homens não é compatível com a idéia de liberdade obtida da abstração de Crusoé. Para Sexta-Feira ter “direito” a uma casa, Crusoé teria que ter a obrigação de construir esta casa. Crusoé seria vítima de coerção. Seria um escravo. Muitos defendem o Estado como meio para tais “direitos”, ignorando que Estado não é ente concreto. Bastiat entendeu isso perfeitamente, resumindo de forma brilhante: “O Estado é a grande ficção através da qual todo mundo se esforça para viver à custa de todo mundo”. Quando partimos do raciocínio de Crusoé na ilha trocando com Sexta-Feira, isso fica evidente demais. A existência de mais privilegiados não muda a natureza do ato, apenas aumenta o número de vítimas.

A verdadeira liberdade é a liberdade de Crusoé, ausente de coerção humana, da invasão de agressores. Ao acrescentarmos milhões de pessoas a mais na equação, vários como Sexta-Feira, isso apenas expande absurdamente as oportunidades de trocas vantajosas e de ganhos de produtividade. Mas é crucial lembrar algo tão ignorado atualmente: as trocas devem ser voluntárias!

19 comentários:

Leonardo Miranda disse...

Muito bom.

C. Mouro disse...

Ôpa!
...rapidinho, mas não posso deixar de registrar o que acabei de surrupiar do prof. Tambosi, pois achei show de bola ...hehehe! Aí vai:

"A verdade é útil para todas as pessoas. A mentira é útil para algumas pessoas."

Tinha que surrupiar essa!

Abração
C. Mouro

Jeová disse...

Não sei se você teve intenção, ao citar Hayek, de homenageá-lo, mas no dia 8 de maio, dia da publicação do artigo, fez 109 anos do nascimento dele.

Leonardo Bernardes disse...

"Nenhum ser humano é infalível. Todos estão sujeitos ao erro. No entanto, podemos assumir que a meta de todos é a sobrevivência, e esta se dá somente pelo uso da razão. Qualquer um que tentar negar a meta da sobrevivência participando de uma discussão está justamente afirmando tal meta, pois se fosse realmente contra ela, não haveria porque participar de um debate ou mesmo continuar vivo."

Podemos assumir? Quem? Você fala em nome de quem? Em nome da "razão universal" presente em todos nós? Quem lhe autorizou assumir essa meta em nome de todos, o argumento da sobrevivência?

Você justifica um enunciado universal alegando que ele é verdadeiro porque, caso contrário, as pessoas não continuariam vivendo. Mas muitas pessoas efetivamente não continuam vivendo. Além do mais, você insiste em ignorar o fato de que um conhecimento não pode se constituir dessa forma. Escrevi longamente alegando o porquê e você continua sem se dar por isso. Nesse caso seu argumento está condicionado a uma premissa insustentável.

Jonas disse...

Leonardo, concordo em parte com voce.

Rodrigo disse: " podemos assumir que a meta de todos é a sobrevivência ".

Concordo quando voce disse que ha pessoas que não estão mais vivendo, contratirando este principio de Rodrigo.

Acho que o axioma correto, e irrefutavel, contendo um pouco do sentido da frase dita pelo Rodrigo seria este: "Todo individuo busca sair de um estado de menor satisfação, para um estado de maior satisfação".

Esta é uma caracteristica universal do comportamento humano. Ate mesmo o suicidio obedece a este principio. Todo e qualquer movimento humano, atende a este axíoma.

E sobre os aximomas que são modificados, o que ocorre é que eles nunca foram axiomas. É equivocado dizer que o objetivo de todos é a sobrevivencia. Estabelecer isso como um axioma exigiria mais cedo mais tarde uma mudança.


Mas podemos estabelecer como axioma, que "todo individuo busca sair de um estado de menor satisfação , para um estado de maior satisfação".

Leonardo Bernardes disse...

Jonas,

Não é possível entender o problema se não for esclarecido o mau uso do conceito de axioma. Não existem axiomas irrefutáveis. O axioma é indemonstrável, é uma verdade definida como auto-evidente (mas não uma verdade do conhecimento, não como uma espécie de experiência que ninguém poderia negar. O valor de verdade é esse porque convenciona-se que tem que ser esse). Logo ele é introduzido não por alguma constatação, mas pela necessidade de dar fundamento a algum procedimento teórico (1). Vou repetir, por ser indemonstrável, ele não pode ser derivado de um pretenso conhecimento. Se ele é demonstrado, ele já não é mais axioma.

Além do problema de não ser demonstrável, a frase que Rodrigo alega ser conhecimento, não é. É fácil argumentar quando tudo que precisamos fazer é atribuir aos nossos fundamentos o caráter de irrefutáveis. Difícil é dar fundamentação lógico a eles. Essa alegação carece de qualquer base lógica. Como expliquei até a exaustão nos comentários do post anterior e numa publicação que fiz no meu blog.

Recapitulando: não existem axiomas irrefutáveis (vide axioma das paralelas, de Euclides. O axiomas das paralelas não deixou de ser axioma porque foi refutado, ele era um axioma porque cumpria uma função lógica na fundamentação da geometria euclidiana. Não existe isso de "nunca foi uma axioma"). A irrefutabilidade que se quer atribuir ao axioma é a tentativa de contaminá-lo -- pelo desconhecimento da diferença entre o campo lógico e o epistemológico -- com a caráter absoluto que os positivistas pensavam poder atribuir ao conhecimento. Pretensão vã desde pouco depois de 1711, quando nasceu David Hume. Se alguém mais acredita que existe algo irrefutável, por favor, reporte-se ao meu argumento (nos comentários do post anterior e no post no meu blog), e diga onde ele está falho. Onde a minha argumentação falha em mostrar a impossibilidade de conhecimento definitivo. (desde que não seja, obviamente, recorrendo a paradoxos)

(1) “Whereas the axiomatic method was formerly used merely for the purpose of elucidating the foundations on which we build, it has now become a tool for concrete mathematical research. [...] It is perhaps proper to say that the strength of modern mathematics lies in the interaction between axiomatics and construction.” Hermann WEYL (1951). A half-century of mathematics, p. 523-524

C. Mouro disse...

Vejamos:

"Recapitulando: não existem axiomas irrefutáveis (vide axioma das paralelas, de Euclides. O axiomas das paralelas não deixou de ser axioma porque foi refutado, ele era um axioma porque cumpria uma função lógica na fundamentação da geometria euclidiana. Não existe isso de "nunca foi uma axioma")."

Pô! Se axioma é uma verdade por si evidente, ela não pode ser mentira, não pode ser falsa. Se algo é refutado verdadeiramente, então é falso, não é verdade, logo não é conhecimento que possa ser apreendido imediatamente.

Uma verdade por si evidente, apreendida de pronto, só será verdade se for verdade.
O que não existe é uma verdade por si evidente que seja uma mentira. ...pô!

É uma verdade evidente que o individuo SEMPRE buscará o bem maior ou o mal menor dentre as possibilidades. Como brilhantemente o Jonas colocou.

Aliás isso tem relação com uma velha tese de que ninguém age de livre vontade contra seu próprio bem. Assim, o altruísta é apenas um egoísta que sente-se aumenta seu bem estar ao ajudar outros, e não aquele que prejudica a si em beneficio alheio, pois isso, de livre vontade, não é possivel tal qual não é possível erguer-se puxando os cabelos para cima. Só forças externas podem contrariar a livre vontade do indivíduo. Contudo, ao se limitar artificialmente as opções de um indivíduo, se está fazendo com que opte pelo mal menor dentre as opções ruins.

Na verdade a intenção de coagir se faz segundo uma presunção de que o mal menor, subjetivamente assim analisado, será a opção de mal menor, mas nem sempre o que se presume mal menor o será de fato para a vitima.

Enfim, a idéia de axioma como uma verdade por si evidente não condiz com a idéia de que um axioma pode ser uma mentira. Isso é uma contradição nos próprios termos, uma aberração lógica.

...Ará! vamos então cada um dando novo significado para axioma e no fim nada é tudo sob a visão teórico-pratica enquanto dialética conceitual de um processo de coisificação onde o sujeito é objeto enquanto ator de um contexto contextualizado numa hermeneutica propedêutica laboral fenomenológica doxamente falando, é claro. E neste entorno teórico-pratico enquanto dialético doxologicamente conceituando episteme chegamos a conclusão de que a coisificação doxológica sob um olhar epistemológico contextual a verdade é só uma mentira e como tal essa verdade é falsa.

Abração
C. Mouro

Leonardo Bernardes disse...

C. Mouro,

Por favor, me responda, eu estou falando árabe?
É preciso o mínimo de humildade pra saber sobre o que falar, quando não estamos aptos a entender.

Por ser uma verdade LOGICAMENTE auto-evidente (e não EPISTEMOLOGICAMENTE), ao axioma não cabem os valores de verdade VERDADEIRO ou FALSO. Um axioma é refutado, não porque seja falso, mas porque não serve mais para fundamentar uma construção teórica. ("Whereas the axiomatic method was formerly used merely for the purpose of elucidating the foundations on which we build ..." Hermann WEYL (1951). A half-century of mathematics, p. 523-524). Pense, apenas considere a possibilidade de que existam coisas no mundo que exijam um vocabulário e tratamento exterior a esse domínio jurídico e ao senso comum -- a idéia de verdade evidente é senso comum puro! Se quiser, sugiro a leitura desse manual que parece produtivo.

Você escreveu milhares de linhas sem sequer ter entendido o que eu falei. Sem entender do que se trata um axioma e sem ter entendido até agora a diferença do tratamento entre os valores de verdade no campo lógico e epistemológico. Você pode passar a vida toda repetindo esse mantra se não conseguir entender minhas críticas -- ou não quiser entender.

Rodrigo Constantino disse...

"Não existem axiomas irrefutáveis. O axioma é indemonstrável, é uma verdade definida como auto-evidente (mas não uma verdade do conhecimento, não como uma espécie de experiência que ninguém poderia negar. O valor de verdade é esse porque convenciona-se que tem que ser esse)."

Leonardo, por curiosidade, vc já leu Ayn Rand?

A existência existe. Isso é ou não um AXIOMA?

Tente refutar isso SEM cair em contradição, e verá que é simplesmente impossível.

Rodrigo

Leonardo Bernardes disse...

Olha o que eu escrevi no meu post, que você não deve ter lido:

"Rodrigo,

O que você está me apresentando é um paradoxo, não uma demonstração de que existem verdades absolutas. Um paradoxo, aliás, fartamente documentando e transformado em anedotas de todo tipo. Ele pode ser melhor representando da seguinte maneira: o enunciado "esta afirmação é falsa" será verdadeiro se, e somente se, for falso. Podemos formular o paradoxo com os termos da sua frase: o enunciado "não existe verdade absoluta" só será verdadeiro se, e somente se, for falso"

Um paradoxo não pode servir de fundamento. Você continua ignorando minha crítica e desviando a questão para problemas sem a menor relevância. Escrevi um longaaaaa crítica, nos comentários e num post. Por favor, clique nos links para entender o que é um paradoxo e por que ele se constitui.

C. Mouro disse...

"democracia popular" chinesa, por exemplo ou Cubana. São democracias, só que populares.

"Justiça social" é uma justiça que não é justa mas social.

liberdade que não é liberdade, vira potência.
Direito que passa ser usufuto.
em seu
igualdade que já não é igualdade de direitos, mas de usufruto material.

Aliás temos até a lógica sem lógica, pois que meramente dependente das classes e lá vai o raio.

...e mais uma infinidade de deformações, como tenho dito. Assim, cada interessado/celebridade inventa o seu próprio dialeto aproveitando o conceito das palavras, até que se tenha absurdamente verdades não verdadeiras como meio de fazer com que mentiras sejam verdades.
Figuras de linguagem viram ciência pura e separa-se o conhecimento da realidade da própria verdade e em meio a tanta lambança ninguém está certo ou errado, pois que certo e errado passam também a depender de falatório célebre.

O grande inimigo é mesmo a lógica, pois atrapalha "belas teorias" estapafúrdias. Contudo, a lógica é a ferramenta para se apreender a realidade.

Quando temos verdades que não são verdadeiras, então temos o assassinato da lógica.
Ora, conhecimento que não é verdadeiro é apenas crença, não é conhecimento. Ciencia que não é verdadeira não é ciência é besteirol.

...ulha-lhá! que magavilla:

"O valor de verdade é esse porque convenciona-se que tem que ser esse"

...Credo em cruz!

Verdade é uma palavra convencionada para representar aquilo que é real. Assim, conhecimento só pode o ser se da realidade, caso contrário será crença.
Uma crença se pretende conhecimento da verdade, mas é só uma crença. E uma crença ciente de que apenas almeja convencionar algo por verdade, não é nem mesmo uma crença e sim apenas uma fraude deliberada, uma empulhação.

A palavra verdade, o símbolo, é convencionada para se referir àquilo que entendemos por, então, verdade/realidade.
Pegar um "não-fato" e convenciona-lo como fato é fraude, sejlá em nome do fim que for. É deliberado mau uso do vocabulário: Empulhação.

Ou seja, não convencionamos fatos às palavras, mas as palavras aos fatos - estes são o significado das palavras para eles convencionadas. É a palavra que é convenção para referência (endereço mental do significado).
Absurdo: verdade é palavra convencionada para referência ao que é real. Contudo, depois disso vamos convencionar o não-real como verdade de forma "doxo-epistemológica". Daí tantos filodoxos para a filodoxia da ciência.

...e acaba-se chegando a idéia de que a verdade pode ser convencionada... isso é apenas CRENÇA comum, consensual, que nada tem com a verdade dos fatos.
Convencionar fatos para as palavras não é nem uma crença na verdade, é lambança.

Que beleza:

"O axioma é indemonstrável, é uma verdade definida como auto-evidente (mas não uma verdade do conhecimento"

Por exemplo uma "verdade auto evidente" é que eu sou Maomé. Eu assim defino com um propósito. Então isso será auto evidente mesmo que ninguém assim o perceba?

Algo para ser auto evidente tem que ser auto evidente. pô! se não for, não será, independente do que eu afirme.
O fato de não sabermos a demonstração não significa que seja efetivamente indemonstrável, mas que talvez apenas ainda não possamos demonstra-lo. Os fatos existem de forma independente da nossa percepção ou compreensão.

A crença não faz o fato. É preciso existir para ser descoberto, é preciso descobrir para saber. é preciso pensar e julgar.

Abs
C. Mouro

C. Mouro disse...

Corrigindo:

A crença não faz o fato. É preciso existir para ser descoberto. É preciso descobrir para saber. É preciso saber para conseguir.
É preciso pensar e julgar.

Eu heimm!
...essa conversa não vai ter fim.

Abraços finais.
C. Mouro

Leonardo Bernardes disse...

Bem, vou esperar então que Rodrigo restitua a sanidade dessa caixa de comentários. "Fenomenológica doxamente falando, é claro".

C. Mouro disse...

Depende se num contexto teórico-prático dialético-histórico. Onde a praxis dialética de um ator contextualizado se devela epistemológicamente na coisificação do sujeito objeto enquanto ator contextualizado na praxis histórica de um não-ser-objetivo.

Abs
C. Mouro

jonas disse...

Leonardo, li seu blog mas não entendi muito bem. Peguemos esta questão: "todo individuo busca sair de um estado de menor satisfação, para um estado de maior satisfação".

Tal principio é uma caracteristica universal do comportamento humano, abrangendo desde a auto mutilação, ao suicidio. É um lei natural observavel, perfeitamente demonstravel. Ou não?

Poderia refutar isto?

um abraço!

Leonardo Bernardes disse...

Jonas, já que você se mostrou interessado, vou tentar tornar as ainda coisas mais claras.

A pergunta central é: como é possível que observações justifiquem lei gerais? Enunciados válidos pra TODOS os homens? Você precisa entender que observações são sempre referentes a casos particulares (enquanto enunciados gerais tem que valer pra TODOS OS CASOS POSSÍVEIS). O que nós observamos são homens em particular que apresentam características. Não é possível observar todos os homens ao mesmo tempo e em TODOS OS TEMPOS HISTÓRICOS, certo? Então vamos pegar a sua afirmação: observamos que João busca sair de um estado de menor satisfação, para um estado de maior satisfação. Observamos que José busca sair de um estado de menor satisfação, para um estado de maior satisfação. Daí seguimos observando casos, observando casos, até alcançarmos um ponto em que nos sentimos confortáveis pra dizer que essa observação vale pra todos os homens -- MESMO AQUELES QUE NÃO OBSERVAMOS e mesmo aqueles que ainda irão nascer. Vamos então, a partir das observações, generalizar, fazer da nossa conclusão uma lei natural. Não se observam leis naturais, se observam casos particulares que, pela frequência, são levados a condição de leis naturais, entendeu a passagem? Mas ela tem validade lógica? Não. Esse é o caso! O que significa dizer isso? Quer dizer que não há garantias de que os casos observados continuarão a ser observados. Quer dizer que nada me garante que não nascerá amanhã alguém que não acompanhe a regra! Por que? Porque a garantia se estabelece pela articulação entre os termos de uma proposição, o acúmulo de observações não se relaciona entre si. O que o homem faz é esperar que o mundo se comporte da mesma forma, como uma mulher espera que um homem ligue no dia seguinte (não há garantias lógicas). Agora talvez você possa entender meu post. Releia o exemplo de Sócrates e verá o que garante a necessidade lógica. Demonstrar é o processo lógico de prova, se demonstrarmos algo, se aceitarmos as premissas, a conclusão se impõe necessariamente e todo caso contrário é impossível. Releia o post, sugiro. Ou então, melhor ainda, leia A treatise of human nature, pelo menos a introdução e o livro I.

O que Rodrigo não entende, Jonas, porque não sabe, é a diferença entre uma verdade evidente e uma verdade demonstrada. Ele tenta me provar um axioma e me desafia a negá-lo, mas ora, não se pode negar uma verdade auto-evidente (um axioma é indemonstrável, quantas vezes eu preciso repetir isso?). Não se pode provar algo que por definição prescinde de prova. Um axioma não é refutado porque ele é falso, estou repetindo isso pela segunda vez, mas porque ele não serve mais de fundamento a uma construção teórica. A única forma lógica que só permite enunciados verdadeiros, é a tautologia! "Chove ou não chove". Mas uma tautologia não fala sobre o mundo porque não pode acontecer as duas coisas ao mesmo tempo, por isso ela será sempre verdadeira, PARA TODOS OS CASOS POSSÍVEIS. Repito, um axioma não pode ser demonstrado, mas ele pode ser substituido segundo interesses teóricos diversos. Não se trata de dizer que ele é falso. Vou recortar a definição de geometria não-euclidiana do Wikipedia pra você entender:

Em matemática, uma geometria não euclidiana é uma geometria baseada num sistema axiomático distinto do da geometria euclidiana. Modificando o axioma das paralelas, que postula que por um ponto exterior a uma recta passa exactamente uma recta paralela à inicial, obtêm-se as geometrias elíptica e hiperbólica.

Abraços

Jonas disse...

Leonardo, já entendi. Porem, o principio que levantei, você parece não poder refuta-lo. É uma lei geral do comportamento humano, aplicavel a qualquer pessoa em qualquer periodo do tempo. Não ha como existir uma pessoa capaz de quebrar esta regra devido a uma impossibilidade lógica!

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"Todo individuo busca sair de um estado de menor satisfação, para um estado de maior satisfação".

ou

"Ninguem troca 10 por 9."
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É algo irrenunciavel. Voce jamais poderá afirmar: "É possivel que haja uma pessoa em tal periodo de tempo, que busque sair de um estado de maior satisfação , para um estado de menor satisfação", ou "Ha uma pessoa que troque 10 por 9".

Ninguém pode apontar uma unica situação ou uma circunstância em que essa regra possa ser negada.

Não se trata de observar cada pessoa, em todos os periodos de tempo. Trata-se de uma impossibilidade logica, dizer que alguem busca sair de um estado de maior satisfação, para menor satisfação. Ou trocar 10 por 9.

Um suicida, entende que sua satisfação será elevada com o suicidio. Um masoquista com a dor. Alguem que troca 10 por 9 voluntariamente, esta atribuindo maior valor ao que vai receber do que ao que irá dar.

Caso nao atribuisse, nem precisaria trocar. Bastaria se desfazer do que ja tem. Mas mesmo se desfazendo, ela esta trocando 10 por 9, pois entende que estara melhor se desfazendo de algo.

Espero ter sido claro. Por via das duvidas, irei colar um trecho de "A logica da vida":


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"Valendo-nos de um aforismo criado pela sabedoria popular, podemos enunciar a regra básica do comportamento humano reduzindo-a à sua expressão mais simples, como sendo: “Ninguém troca 10 por 9". Vale dizer: voluntariamente, ou seja, por vontade própria ninguém troca algo a que atribui mais valor por algo a que atribui menos valor.

Obviamente, ninguém troca 10 por 9: ninguém troca 10 dólares por 9 dólares. Quem quiser assim proceder não precisa encontrar um parceiro para efetuar uma troca: basta renunciar ao que tem. Os que assim o desejarem são livres para fazê-lo até o limite de suas propriedades, num primeiro momento, e até o sacrifício de sua própria vida, num caso mais extremo. Convém esclarecer, apenas por uma questão de precisão conceitual, que quem assim agisse, por livre e espontânea vontade, não estaria trocando 10 por 9; estaria preferindo se desfazer daquilo a que atribui menos valor – seus bens e sua própria vida – para receber em troca aquilo a que atribui maior valor – a gratidão dos que beneficiou ou a satisfação íntima de ter feito o que considera ser um bem.

Ninguém, de livre e espontânea vontade, troca 10 por 9. É uma impossibilidade lógica. Ninguém conseguirá apontar uma situação ou uma circunstância em que essa regra possa ser negada. Embora, na vida real, as escolhas que temos que fazer sejam bem mais complexas, por mais complexas que sejam a lógica subjacente é sempre a mesma: ninguém troca aquilo a que atribui mais valor – no sentido mais amplo do termo – por algo a que atribua um valor menor. Ou seja: ninguém age para causar a si próprio uma insatisfação.

Por maior que seja o grau de complexidade de nossas escolhas e das trocas que fazemos no nosso dia-a-dia, envolvendo valores de natureza exclusivamente material ou de natureza sentimental, moral, afetiva ou estética, a lógica subjacente será sempre a mesma. Numa troca voluntária estaremos sempre recebendo algo a que damos mais valor e renunciando àquilo a que damos menos valor. Estaremos sempre trocando 9 por 10. Ninguém troca 10 por 9."

Leonardo Bernardes disse...

Desculpe, Jonas, mas você não entendeu.

O problema que a crítica ao método indutivo traz é precisamente esse: o conhecimento nunca é capaz de conjurar o espectro das possibilidades contrárias. Já expus isso inúmeras vezes aqui nos comentários e no post, não vou mais repetir. Nunca nenhum conhecimento pode se afirmar como definitivo. Agora, se você quiser fazer algo irrefutável por decreto, bem, você pode. É algo muito semelhante a instaurar um axioma ou aceitar um dogma da Igreja. Mas só não pode dizer que isso é algo lógico, pois não é. Se você se interessa por lógica, é sempre conveniente começar pelos cânones: Aristóteles, Tarski, Frege. Esqueça a Lógica da vida..

Bem, encerro minha participação por aqui. Escrevi demais e pouca gente tentou me entender, ou formular uma questão baseada no entendimento da minha crítica. Mantenho as sugestões, para a crítica ao método indutivo, leiam David Hume. Para aprofundar os conhecimentos relativos as consequências dessa crítica para a ciência moderna: Popper e Lakatos. Axiomas, sistemas axiomáticos e questões matemáticas diversas: Poincaré, Hilbert são suficientes.

Tschüs

Roça & Suzy disse...

Caro Constantino, enviei um email (que consta do Parllata) para você na semana passada sobre a viabilidade de entrevistá-lo para o blog Direto do Abismo ( http://darkabysses.blogspot.com ). Tenho total consciência de que sua agenda é superlotada. De qualquer maneira gostaria de insistir no assunto no interesse de pessoas comuns como nós e a maioria de dos blogueiros que resolveram colocar suas próprias opiniões na rede de maneira bem amadorística.
Seria uma luz no abismo em que nos encontramos termos a honra de sua resposta a algumas questões que remeteríamos por email.
Qualquer que seja a sua resposta, por favor,nos informe no email diretodoabismo@gmail.com ou suzannbly@gmail.com
Um grande abraço.
Suzy (suzanna t. bradley)