quarta-feira, janeiro 21, 2009

A Era da Esperança



Rodrigo Constantino

“Não há erro pior na liderança pública do que alimentar falsas esperanças que logo serão frustradas.” (Winston Churchill)

A euforia que tomou conta dos Estados Unidos durante a posse de Obama foi um espetáculo constrangedor e preocupante. Milhões de pessoas idolatrando um único indivíduo, chorando de emoção em homenagem a um político. Trata-se de um sinal dos novos tempos, da era do governo Todo-Poderoso, até mesmo na “terra da liberdade”. O bordão “a esperança venceu o medo” resume a retórica do momento, abraçada por milhões de pessoas apavoradas com a pior crise econômica desde a depressão de 1929. Essa massa de desesperados deposita toda a sua esperança no presidente, visto como um “messias salvador”, um ser sobrenatural que possui o poder da cura para todos os males do mundo. O Deus moderno passou a ser o governo, e o presidente americano é seu novo profeta.

Talvez ciente do alerta feito por Churchill na epígrafe acima, o discurso de Obama foi bem mais sóbrio que o esperado, quase um balde de água fria nos mais sonhadores, pregando uma nova era de responsabilidade. Curiosa expressão, usada por aquele que defende as políticas expansionistas do governo como solução para a crise. O governo americano já possui mais de US$ 10 trilhões em dívidas, um déficit fiscal crescente, e um banco central que leva aos limites seu balanço para substituir a função dos bancos comerciais em crise. Soa no mínimo estranho o presidente que assume propondo pacotes bilionários, sem lastro para tanto, falando em responsabilidade. Obama deveria se lembrar de Sêneca, quando este disse: “longo é o caminho ensinado pela teoria; curto e eficaz é o do exemplo”. Se Obama leva a sério seu recado, poderia começar com mais responsabilidade fiscal no próprio governo, anunciando cortes em vez de expansão nos gastos públicos.

Infelizmente, os pilares ideológicos dos “pais fundadores” da nação estão cada vez mais abandonados pelos americanos. O próprio culto à presidência demonstra como o país se afastou dos princípios liberais de seus fundadores. Estes enxergavam com enorme desconfiança o governo, visto como um “mal necessário”, cuja função básica era apenas preservar as liberdades e o direito de propriedade privada. Algo muito diferente da imagem que muitos têm do governo atualmente, uma espécie de Deus capaz de criar riqueza num estalo de dedos. Thomas Jefferson, Benjamin Franklin, Thomas Paine e demais líderes da Revolução Americana jamais teriam defendido tanto poder concentrado em um único homem. A República americana, que no passado soube limitar os poderes do governo, acabou se transformando numa simples democracia popular, uma espécie de “ditadura da maioria”, onde as liberdades individuais ficam totalmente ameaçadas. O Estado, como já havia previsto Bastiat, virou “a ficção através da qual todo mundo se esforça para viver à custa de todo mundo”.

No seu livro sobre as multidões, Gustave Le Bon tenta definir o que seria uma massa de pessoas, sob o ponto de vista psicológico. Ele escreve: "Uma massa é como um selvagem; não está preparada para admitir que algo possa ficar entre seu desejo e a realização deste desejo. Ela forma um único ser e fica sujeita à lei de unidade mental das massas. No caso de tudo pertencer ao campo dos sentimentos, o mais eminente dos homens dificilmente supera o padrão dos indivíduos mais ordinários. Eles não podem nunca realizar atos que demandem elevado grau de inteligência. Em massas, é a estupidez, não a inteligência, que é acumulada. O sentimento de responsabilidade que sempre controla os indivíduos desaparece completamente. Todo sentimento e ato são contagiosos. O homem desce diversos degraus na escada da civilização. Isoladamente, ele pode ser um indivíduo; na massa, ele é um bárbaro, isto é, uma criatura agindo por instinto".

Nelson Rodrigues, com seu poder de síntese, resumiu: “a unanimidade é burra”. Robert Menschel, autor de Markets, Mobs and Mayhem, constatou que as massas desejam ser lideradas, e freqüentemente não ligam muito para onde. O filósofo Ortega y Gasset, em A Rebelião das Massas, também tratou do assunto de forma interessante, descrevendo o “homem massa” como uma típica criança mimada que quer impor seus desejos. São como bóias à deriva, dispostos a depositar poder em quem promete atender tais anseios imediatos. Em resumo, as massas agem por instinto, delegando a responsabilidade para algum líder carismático qualquer. Eis onde reside o perigo!

A esperança não venceu o medo: ela foi criada por ele! E em vez dos americanos resolverem enfrentar os duros fatos da realidade atual, eles preferiram sonhar, depositando no governo já inchado o poder de fazer milagres. Todos repetem que Obama vai tirar a nação do atoleiro econômico. Obama é o super-homem! Esquecem que a economia funciona bem quando a “mão invisível” pode funcionar sem tantas amarras. Milhões de indivíduos decidem isoladamente suas ações, e o livre mercado se encarrega de produzir um resultado eficiente. Por outro lado, o dirigismo estatal é o caminho da ineficiência e da servidão. A história está repleta de exemplos para ilustrar isso. Por mais genial que fosse, nenhum ser humano seria capaz de absorver o conhecimento pulverizado na população toda. Basta usar a razão para compreender a lógica disso. Obama e seus aliados são apenas seres humanos, sujeitos às mesmas falhas de todos os outros. Não são oniscientes, tampouco santos dispostos a sacrificar seus interesses particulares em prol do bem-comum. São seres humanos, demasiado humanos. E nenhum ser humano deveria concentrar tanto poder assim.

Mas as multidões não querem saber disso. Elas não desejam refletir sobre tais argumentos racionais. Elas estão com medo, e precisam abraçar cegamente a esperança de que Obama irá solucionar todos os problemas, ainda que isso seja claramente falso. Vivemos na era da esperança. E como Baltazar Gracian disse, “a esperança é a grande falsária da verdade”.

8 comentários:

sol-moras-segabinaze disse...

Gozada a babação generalizada gerada pela posse do Obama. Essa lua-de-mel de prazeres orgiásticos vai durar mais uns meses até perceberem que um homem não é capaz de revogar as leis econômicas, nem instalar a paz eterna e muito menos "salvar" o planeta. Na realidade, os que dizem que agora começa a "reconstrução da América" vão redobrar o seu ressentimento com o "Império" que frustrou, malvado como só ele, o conto de fadas. Se o eleito se deixar levar pelo populismo econômico à la New Deal, corre o risco de fazer o dólar perder de vez o seu valor. Se imagina que apenas com diálogo os fanáticos islâmicos vão ficar repentinamente tolerantes, corre o risco de levar mais um atentado nas ventas. E se é de otimismos simbólicos e discursos bem intencionados que a Terra precisa pra se "salvar", corre-se o risco da energia e os alimentos ficarem ainda mais caros e inacessíveis aos mais pobres, em nome de quem todo esse teatrinho é encenado.

Cláudio Arnoldi disse...

Excelente.Postei algo parecido em meu blog. O clima de euforia que tomou conta dos EUA me lembra muito o Brasil pós-Eleições 2002. E todos sabemos que os resultados foram fatais...Com relação às massas, recomendo a leitura de "Psicologia das massas e análise do eu", de Sigmund Freud.

Att.CA
http://claudioarnoldi.blogspot.com/

D disse...

Concordo plenamente. Parabéns Rodrigo.

Denis Diniz disse...

Eeehhhh... Ortega Y Gasset disse em A Rebelião das Massas: “A massa, na falta de pão, destrói a padaria...”

Quando os EUA e o mundo chocados assistiram o 11 de setembro e Bush disse que quem não estivesse ao lado deles(EUA) estaria contra eles vimos o presidente americano alcançar um dos maiores índices de popularidade. Mas a opinião pública americana sofre hoje, assim como em todo Ocidente, do mal da frivolidade. As belas canções em prol dos direitos humanos de alguns poucos terroristas foi conquistando os frívolos e irresponsáveis corações americanos até que esquecessem dos direitos humanos dos milhares de inocentes que morreram no ataque. Agora a alegre opinião pública mundial quer que sejam dados aos terroristas benefícios que eles não estariam dispostos a compartilhar com o Ocidente.

Concordo que o governo Bush cometeu seus equívocos como qualquer governo faria mas creio que os americanos não deveriam embarcar (como o fizeram) na onda de frivolidade mundial. Os EUA são os líderes do mundo, tem responsabilidades que os “alegres” não tem e não precisam demonstrar ao mundo do que são capazes já que sua posição no mundo já é uma eloqüente demonstração. Aos europeus, leves de responsabilidade, é fácil condenar esta ou aquela medida americana já que a eles não cabem o encargo da decisão.

O terrorismo é algo com que o Ocidente não aprendeu tratar, mas as responsabilidades recaem, por razões óbvias, em ombros americanos. Para lideranças megalomaníacas como o “Pop Star” presidente francês, por exemplo, é muito fácil cantar belas canções já que a França, desde Napoleão, o primeiro, se tornou insignificante no cenário internacional.

É muito fácil gargarejar bravatas quando se está livre de responsabilidades. A França socialista, quando se viu ameaçada pelos artefatos nucleares iranianos anunciou que poderia até mesmo lançar um ataque nuclear contra aquele país como medida preventiva. Como a França não tem importância, o mundo não deu ouvidos e o fato passou despercebido. Mas com Obama as coisas serão diferentes. As responsabilidades inerentes ao cargo que ocupa não lhe permitirão alardear bravatas por muito tempo. Agora veremos por quanto tempo seu sorriso simpático manterá a frívola opinião pública ao seu lado e ao lado de medidas irremediavelmente impopulares que ele será obrigado a tomar.

Ernesto Heredia Dias disse...

Pôxa Rodrigo! Comparar o Brasil (102º lugar) com Cingapura (2º lugar) no ranking da Heritage, é covardia tua. Mas comparar o Brasil com o Chile (8º lugar) que está bem mais próximo de Cingapura no ranking, deixa demonstrado como é possível um país latinoamericano estar bem posicionado - dá o que pensar sobre o Brasil.

Maristela disse...

Parabéns pelo artigo, Rodrigo! Muito lúcido, e como sempre acontece com vc., muito bem escrito. É impressionante como o medo cria de fato a esperança, mesmo qdo. tudo não passa claramente de fumaça demagógica, de apelo populista às massas e - pior ainda - à grande mídia. Nem Lincoln e George Washington escaparam da engenhosa propaganda obamista!
Maristela.

Yashá Gallazzi disse...

Parabéns pelo site. Realmente muito bom e rico em textos interessantes. Parabéns também pelas demais iniciativas, como o Instituto Millenium. Aliás, como se faz para participar dele? Acharia muito interessante poder contribuir de alguma forma.

Também tive um artigo publicado no O Globo sobre a posse de Obama. Deixo o link para a leitura, caso interesse: http://oglobo.globo.com/opiniao/mat/2009/01/22/obama-a-revolucao-que-nao-vira-754095491.asp

Para quem tem interesse em aprofundar mais o debate - e isso é sempre interessante - convido a conhecer o meu blog: Construindo o Pensamento (http://construindoopensamento.blogspot.com/)

Saudações,

Yashá Gallazzi.

Marcelo Werlang de Assis disse...

Caro Constantino,

Este teu artigo é mesmo de grande primor! Considero como extraordinários aqueles escritos que, ao dissertar com propriedade sobre assuntos vitais, me dão a impressão de não haver mais nada a acrescentar ou a corrigir. Parabéns, Rodrigo, por este texto sublime sobre a mentalidade de autodestruição a que os indivíduos se entregam quando se aglomeram nas "massas", as quais nada mais são do que uma mera repetição do rebanho de ovelhas comandado por um pastor humano, o qual vê seus animais como meios para fins próprios (alimentação/carne, roupas/lã, para consumo próprio ou para venda). Lembrando o saudoso Ludwig von Mises: "The cattle breeder is also a benevolent despot". Seguir tais déspotas travestidos de Messias é o caminho perfeito para o Bem Comum, isto é, para a destruição humana.
Grande abraço, Constantino!!!
Marcelo Werlang de Assis.