segunda-feira, dezembro 13, 2010

Os Chacais no Poder



Rodrigo Constantino

“A característica do momento é que a alma vulgar, sabendo que é vulgar, tem a coragem de afirmar o direito da vulgaridade e o impõe em toda parte.” (Ortega y Gasset)

Não sou um saudosista e jamais idealizei o passado. Longe disso! Acredito que todo saudosista costuma se imaginar como parte da aristocracia no passado, nunca como um dos plebeus, cuja vida era dureza. Dito isso, parece-me inegável que algo se perdeu nesta transição para os regimes populares modernos. As conquistas, em minha opinião, compensam as perdas com ampla margem. Mas estas existem. Principalmente se levarmos em conta as promessas anteriores às mudanças. E ao ler o excelente livro “O Gattopardo”, de Tomasi Di Lampedusa, esta é a sensação que fica.

O livro, único romance escrito pelo italiano, ele mesmo de família nobre, retrata com ares autobiográficos a decadência da nobreza siciliana, durante a revolução liderada por Garibaldi no século XIX. O Príncipe Fabrizio Salina, personagem principal, encarna o pessimismo de quem “contemplava o ruir da sua casta e do seu patrimônio sem nada fazer e sem nenhum desejo de remediar o desastre”. Ele era apenas um observador dos acontecimentos que pareciam inevitáveis em seu tempo.

A passagem mais famosa do livro é também uma de suas mais importantes lições. O sobrinho querido de Don Fabrizio, Tancredi, ao decidir se alistar nos exércitos garibaldinos, explica ao tio sua lógica: “Se nós não estivermos presentes, eles aprontam a república. Se queremos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude”. No primeiro momento, estas palavras ficariam registradas na memória de Don Fabrizio, mas somente com o tempo ele teria uma compreensão mais clara de seu completo significado. A promessa de “tempos gloriosos” para a Sicília já durava algum tempo, e muitos tiros tinham sido disparados por tal objetivo. Mas nenhuma mudança estrutural ocorreria de fato.

As palavras enigmáticas de Tancredi adquiriam maior clareza: “Muita coisa ia acontecer, mas seria tudo uma comédia, uma comédia ruidosa e romântica com algumas manchas de sangue no traje burlesco”. O resultado da “revolução” seria apenas uma “lenta substituição de classes”. E as novas classes que subiriam ao poder não seriam melhores que as antigas; pelo contrário: “Nós fomos os Gattopardos e os Leões; os que vão nos substituir serão pequenos chacais, hienas; e todos, Gattopardos, chacais e ovelhas continuaremos a crer que somos o sal da terra”.

A sensação de asco que o nouveau riche Calogero Sedàra despertava em Don Fabrizio era total, sinal dos tempos modernos. A insensibilidade à graça de objetos ilustres no palácio era indiretamente proporcional à atenção ao valor monetário dos bens. Don Fabrizio, de repente, sentiu que o odiava; “era ao afirmar-se dele, de cem outros semelhantes a ele, às suas obscuras maquinações, à sua persistente avidez e mesquinharia que se devia a sensação de morte que agora pesava sobre esses palácios”. Os novos donos do poder e do dinheiro eram brutos se comparados aos nobres de antes.

Na resenha que Mário Vargas Llosa fez do livro de Lampedusa, merece destaque o contraste do autor frente ao modismo de sua época, na década de 1950, quando a literatura estava impregnada de ideologia e todos deveriam seguir a posição moral e politicamente correta a favor do progresso da humanidade. As utopias estavam no auge da fama, e muitos sonhavam com as revoluções socialistas que trariam o paraíso à Terra. O livro, com mensagem mais pessimista – ou realista, diriam alguns –, faria um alerta contra o romantismo destes que pensam ser possível atingir alguma perfeição quando se trata de modelo social.

Vargas Llosa resume: “Em vez de um lustroso gattopardo, o símbolo do poder será uma flâmula tricolor. Mas, sob essas mudanças de nomes e de rituais, a sociedade se reconstituirá, idêntica a si mesma, em sua imemorial divisão entre ricos e pobres, fortes e fracos, senhores e servos. Variarão as maneiras e as modas, porém para pior: os novos chefes e donos são vulgares e incultos, sem os refinamentos dos antigos”. E não acabaram quase sempre assim todas as revoluções redentoras, que iriam colocar um fim nas divisões de classes?

Para Étienne La Boétie, em seu “Discurso Sobre a Servidão Voluntária”, os vários atentados realizados contra imperadores romanos “não passaram de conspirações de pessoas ambiciosas, cujos inconvenientes não se deve lamentar, pois se perceber que desejavam, não eliminar, mas remover a coroa, pretendendo banir o tirano e reter a tirania”. A própria Revolução Francesa eliminou a nobreza para colocar em seu lugar o Terror de Robespierre.

A última passagem de “A Revolução dos Bichos”, de Goerge Orwell, desfere similar golpe aos utópicos: “As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já era impossível distinguir quem era homem, quem era porco”. O destino daqueles que acreditam nas promessas de barbudos “salvadores da pátria” será invariavelmente o mesmo: trocar seis por meia-dúzia na melhor das hipóteses; ou por algo muito pior na mais provável delas. Sai uma arrogante aristocracia, e entra um metalúrgico ignorante com mais sede ainda pelo poder, mais corrupto ainda que seus antecessores. São os chacais alçados ao poder pelos idiotas que, de repente, descobriram que são em maior número.

Como o regresso ao feudalismo não é desejável de forma alguma, só resta aos liberais seguir na luta por reformas constantes, na batalha realista por uma gradual evolução da sociedade, rejeitando as soluções revolucionárias mágicas e tentando limitar o estrago causado pelos chacais famintos.

5 comentários:

Philip Zimbardo disse...

Dentro de cada um de nós há um conformista e um totalitário, e não é preciso muito mais do que o uniforme certo para que ele venha à tona.

Corruptocracia: Roubar é poder! disse...

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Por falar em soluções milagrosas:

CNE QUER FIM DA REPROVAÇÃO NO ENSINO FUNDAMENTAL

As novas diretrizes curriculares para o ensino fundamental de nove anos foram aprovadas pelo Conselho Nacional de Educação (CNE). Uma das determinações do órgão é que todos alunos devem ser plenamente alfabetizados até os 10 anos de idade. O CNE ainda "recomenda fortemente" que as escolas não reprovem os alunos até o 3º ano dessa etapa.

O parecer já foi homologado pelo ministro da Educação, Fernando Haddad, e deve ser publicado na próxima terça-feira no Diário Oficial da União. "Nossa orientação é muito clara: todas as crianças têm direito de aprender e as escolas devem assegurar todos os meios para que o letramento ocorra até os 10 anos de idade.

O parecer recomenda que os três primeiros anos do ensino fundamental sejam considerados um bloco único, um ciclo de aprendizagem. Durante esse período, a escola deve acompanhar o desempenho de cada aluno para garantir que ele seja alfabetizado na idade correta. O texto ressalta que cada criança tem um ritmo diferente nesse processo e, por isso, deve ser contínuo.

"Assim como há crianças que depois de alguns meses estão alfabetizadas, outras requerem de dois a três anos para consolidar suas aprendizagens básicas, o que tem a ver, muito frequentemente, com seu convívio em ambientes em que os usos sociais da leitura e escrita são intensos ou escassos, assim como com o próprio envolvimento da criança com esses usos sociais na família e em outros locais fora da escola", informou o documento.

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A educação está sendo manipulada de acordo com interesses políticos, ou seja, vamos mostrar os índices de que houve “melhora” no ensino, para conseguir dinheiro no estrangeiro e por outro lado, manter o grupo dominante único.

Kitagawa disse...

??? Não vai contra a sua ideologia exaltar pessoas (os nobres) cuja única justificativa para serem ricos e poderosos era terem sangue azul? O fato de serem cultos e refinados justifica os privilégios que eles tinham?

Morena Flor disse...

Tudo isso, Rodrigo, só me leva a uma conclusão: Tudo é pela sede de poder. Já dizia a minha mãe: Ninguém faz nada sem interesse.

E é IMPRESSIONANTE como a história se repete: Grupos q querem tirar tiranos do poder não o fazem pq querem uma ordem justa e igualitária, mas tão somente trocar a tirania alheia pela própria. Foi assim com a revolução francesa com o Terror de Robespierre, foi assim com os grupos comunistas q tentaram trocar a ditadura militar pela ditadura do proletariado, e por aí vai.

Morena Flor disse...

Kitanawa,


Pelo q entendi do texto, Rodrigo não quer aqui justificar os privilégios da nobreza pelo argumento da "cultura" das aristocracias q estavam no poder no passado: Antes disso, ele quer simplesmente fazer lembrar q não é pelo fato de ser "do povo" q um governo é necessariamente melhor q o anterior - muito pelo contrário, os fatos históricos nos revelam q a ânsia ensadecida pelo poder não conhece limites de classe social. Se o fato de se ter cultura pode não melhorar as coisas, não tê-la - e nem valorizá-la - não torna as coisas melhores: Vide o caso da américa latina, cada vez mergulhada no populismo e no autoritarismo de esquerda. Aqui não se quer dizer q um é melhor do q o outro, sob quaisquer subterfúgios. Muito pelo contrário, o q se demonstra é que o q se quer é o poder, mesmo que travestido de boas intenções.