sexta-feira, janeiro 13, 2012

Peito bonito é bem público


Rodrigo Constantino, para o Instituto Liberal

O silicone virou assunto de saúde pública no Brasil. Após ficar comprovado que há riscos de ruptura no material importado da França e da Holanda, o governo decidiu liberar o uso do SUS para as cirurgias de retirada de próteses mamárias que se romperam. As pacientes reclamam, alegando que a cirurgia deve ser preventiva também. O governo está sob pressão para liberar de vez a rede universal de saúde para toda cirurgia de troca de silicone.

O tema levanta algumas questões interessantes. Em primeiro lugar, parece que a Anvisa está tão preocupada em controlar a vida dos cidadãos nos mínimos detalhes que deixa passar casos mais graves como esse. Para se meter na quantidade de sal do pão francês os funcionários da agência arrumam tempo, mas não para detectar problemas no silicone importado. Tudo bem. Isso acontece, ainda que possamos questionar para quê serve tanto funcionário “cuidando” de nossa saúde...

Em segundo lugar, vemos claramente os riscos de abuso quando a saúde é “universal” e “gratuita”. Nesta quinta participei de um evento do IEE em Porto Alegre sobre o “documentário” Sicko, do mega-embusteiro Michael Moore. A despeito dos dados manipulados, das distorções deliberadas, das mentiras descaradas e do patético sensacionalismo, o filme serve para nos mostrar como é perigoso monopolizar os fins nobres em um debate delicado como esse.

Michael Moore tenta passar a idéia de que o slogan marxista (“de cada um de acordo com sua capacidade, para cada um de acordo com sua necessidade”) precisa ser incutido na cabeça dos americanos egoístas e insensíveis. Trocar o “eu” pelo “nós”, eis o que vai salvar a saúde dos americanos! O que Moore não mostra é como tais incentivos perversos realmente afetaram a qualidade da saúde nos países que adotaram este caminho.

Mesmo no Canadá há inúmeros problemas, como filas de espera, equipamentos obsoletos, corrupção e burocracia. Nem vou falar de Cuba, cujo modelo de saúde é defendido por Moore, porque é absurdo demais alguém em pleno século 21 cair no conto do vigário de que a saúde pública na Ilha-presídio funciona. Quando a “terrível” lógica do lucro desaparece, surge em seu lugar a lógica dos “favores”. Os poderosos funcionários públicos, que podem decidir o destino de um rim, são tentados pela corrupção o tempo todo. Muitos sucumbem.

Voltando ao problema do silicone, o mais correto seria cada paciente buscar ressarcimento perante seus médicos ou planos de saúde, e estes, eventualmente, devem processar seus fornecedores estrangeiros. Caveat emptor! Mas a mentalidade coletivista está tão disseminada que muitos passaram a crer que é um dever do governo (leia-se de todos) bancar qualquer risco alheio, inclusive em cirurgias meramente estéticas. Pensando bem, até que faz algum sentido. Afinal, peito bonito é mesmo um bem público.

11 comentários:

Anônimo disse...

se fosse silicone de bunda eu seria a favor do uso do sus, pq esse sim eh o patrimonio nacional!

Anônimo disse...

Rodrigo, posso estar enganado, porém acho que ao permitir a venda do produto aprovando sua qualidade, o governo se torna solidariamente responsável pelas lesões, donde decorre o dever de reparação às vítimas que o acionarem.

Estou certo ou estou errado??

Anônimo disse...

O Governo tb deveria bancar o recall dos carros.

Quem sabe ser solidarimante responsavel com a comida estraga que comi em um restaurante pq o governo autorizou o seu funcionamento.

O governo devia pagar o meu carro roubado, pois ele falhou em não exercer o seu serviço de segurança.

eduardo disse...

Rodrigo,seu post esta impecavel,apenas uma ressalva,silicone em mama nao tem fins exclusivamente esteticos.Serve para reconstruir a mama de pacientes que tiveram seu orgao extirpado por cancer.Acho que neste caso nao e vaidade tola,melhora a autoestima destas pacientes.Um abraço.

Anônimo disse...

Não é relacionado ao artigo, mas achei bem interessante: http://www.updateordie.com/2012/01/13/infographic-bill-gates-e-melhor-que-o-batman/#more-66631

Paulo H.O.

Anônimo disse...

A foto é de um travesti? A boca é estranha. Parece a da Gabi mas tem algo de masculino. Os braços também são malhados.

Se bem que a mulher do Belo...

Anônimo disse...

O órgão explicou porque não agiu preventivamente e detectou o problema antes das ocorrências?
E agora, vai explicar para as pessoas que poderão perder consultas e datas de cirurgias pois, há necessidade de trocar o silicone de seios?

Anônimo disse...

Eu, na qualidade de pagador de impostos, tenho o direito de apalpar os seios das mulheres beneficiadas com o implante pelo SUS. Eu paguei, é meu.

Rebeca Sena disse...

O governo não pensa no bem estar da população , sabendo que faz mal colocar prótese.
Eles tinham que investir na saúde , dando mais oportunidades , orientado na alimentação , porque hoje o Brasil tem quase a metade de obesos , isso é prejudicial .
Siga o meu blog >
conselhos-sabios.blogspot.com

PM - Reconstrução da Mama disse...

Ainda não assisti ao Sicko do Michael Moore, mas qualquer argumento que cite Cuba como modelo de saúde está condenado ao fracasso. Além disso, insistir em defender apenas o "free universal healthcare", como Moore, não leva o debate sobre o grande problema que se tornou a saúde pública mundial a lugar algum.

O caso das próteses de silicone PIP/Rofil representa um momento propício para discutir os princípios do SUS - universalidade, integralidade e equidade. Nossos governantes adoram dizer que, no papel, o SUS é melhor modelo de saúde pública no mundo. Mas isso de nada adianta se, na prática, só recebemos notícias chocantes da precariedade da saúde pública na TV ou nos jornais.

O problema da saúde ficou grande demais. Ficou caro demais. Com o envelhecimento da população, provavelmente se tornará insustentável até em países desenvolvidos modelo.

A idéia de que "é um dever do governo (leia-se de todos) bancar qualquer risco alheio" que ajudou no desenvolvimento das políticas de bem estar social no pós-guerra já está condenada. Porém, as pessoas que deveriam implementar as reformas nos sistemas de saúde público e suplementar não o fazem e não o farão porque isso destruirá seu capital político.

Enfim, não acredito que veremos reformas de peso até que seja tarde demais.

Fernandinho Brasileiro disse...

Qual a sua opinião sobre o documentário "CApitalismo: A love Story",que ele fez sobre a crise econômica?