terça-feira, abril 02, 2013

De volta do futuro


Rodrigo Constantino, O GLOBO

O ano é 2030. Cheguei aqui com minha DeLorean, na esperança de encontrar um país mais próspero e livre. Qual não foi minha surpresa quando dei logo de cara com uma enorme estátua de Lula!
Curioso, perguntei a um transeunte do que se tratava. Um tanto incrédulo com minha ignorância, o rapaz explicou que era a homenagem ao São Lula, ex-presidente e “pai dos pobres”. Havia uma estátua dessas em cada cidade grande do país. Afinal, tínhamos a obrigação de celebrar os 150 milhões de brasileiros incluídos no Bolsa Família.
Após o susto inicial, eu quis saber quem pagava por tanta esmola, e se isso não gerava uma nefasta dependência do Estado. O rapaz parece não ter compreendido minha pergunta. Disse que estava com pressa para entrar na fila do pão, e que seu cartão de racionamento ainda dava direito a uns bons cem gramas.
Em seguida, vi na televisão de uma loja um rosto conhecido, ainda que envelhecido. Era o ministro Guido Mantega! E pelo visto ele ainda era o ministro. Ele estava explicando o motivo pelo qual sua previsão de crescimento de 5% não se concretizou. A queda de 3% do PIB havia sido culpa da crise em Madagascar. Mas tudo iria melhorar no próximo ano.
Notei então o preço do aparelho de TV: 100 mil bolívares. Assustado, perguntei ao vendedor do que se tratava, explicando que eu era de fora. O homem disse que, em 2022, após a inflação chegar em 20% ao mês, o governo cortou três zeros da moeda. Pensei logo no bigodudo. Como isso não funcionou, o governo decidiu adotar o bolívar, moeda comum do Mercosul.
Descobri que os países “bolivarianos” chegaram a adotar o escambo, depois que suas respectivas moedas perderam quase todo o valor frente ao dólar. A moeda comum foi uma medida urgente, pois estava difícil efetuar as trocas. O criador de gado argentino precisava encontrar um produtor de soja brasileiro disposto a trocar o mesmo valor de gado por soja. Era um caos!
Levantei ainda alguns dados no jornal “Granma Brasil” (parece que o “controle democrático” da imprensa havia finalmente passado, e o governo se tornou o dono do único jornal no país). A inflação oficial era de “apenas” 30%, mas todos sabiam nas ruas que ela era ao menos o triplo disso. Um centenário Delfim Netto desqualificava os críticos do Banco Central como “ortodoxos fanáticos”.
Não havia mais miserável no Brasil, pois a linha de pobreza era calculada com base no mesmo valor nominal de 2010. Mas havia mendigos para todo lado. Um desses mendigos me pareceu familiar. Eu poderia jurar que era o Mr. X! Mas não poderia ser. Afinal, ele era um dos homens mais ricos do país, e tinha ótimo relacionamento com o governo. O BNDES era um grande parceiro seu.
Foi quando decidi ver que fim tinha levado o banco estatal. Soube que, após o décimo aumento de capital na Petrobras (que agora importava toda a gasolina vendida), e vários calotes dos “campeões nacionais”, o BNDES tinha se unido ao Banco do Brasil e à Caixa, esta falida nos escombros do Minha Casa Minha Vida, para formar o Banco do Povo. O símbolo era uma estrela vermelha.
O Tesouro já tinha injetado mais de US$ 2 trilhões no banco, para tampar os rombos criados na época da farra creditícia. Especialistas gregos foram chamados para prestar consultoria.
Com fome, procurei um restaurante. Todos eram muito parecidos, e tinham a mesma estrela vermelha na entrada. Soube então que era o resultado de um decreto do governo Mercadante em 2018. Em nome da igualdade, todos os restaurantes teriam que fornecer o mesmo cardápio pelo mesmo preço. Frango era item de luxo, e custava muito caro. Continuei faminto.
Veio em minha direção uma multidão de mulheres desesperadas protestando. Quis saber o que era aquilo, e me explicaram que, em 2014, quase todas as empregadas domésticas perderam seus empregos por causa de mudanças nas leis. Havia ficado proibitivo contratá-las. Desde então, elas vagam pelas ruas protestando e mendigando, sem oportunidades de emprego. “O inferno está cheio de boas intenções”, pensei.
Um rebuliço começou perto de mim, e uma tropa de choque surgiu do nada e arrastou um sujeito até a cadeia. Descobri que ele foi acusado de homofobia e enquadrado na Lei Jean Willys, pegando 10 anos de prisão por ter dito abertamente que preferia um filho heterossexual a um filho gay. A pena foi acrescida de 2 anos pelo uso do termo gay, em vez de “homoafetivo”.
Desesperado com tudo, eu ajustei minha máquina de volta para 2013, decidido a fazer o que estivesse ao meu limitado alcance para impedir um futuro tão maldito do meu país.

25 comentários:

João Melo disse...

Rodrigo,

Como teremos várias eleições, (espero), até 2030, este seu pesadelo, embalado com Rivotril de 2mg, não será realidade rs.
Como diria o meu diretor, um impecável texto hilário.

Celso Costa disse...

Rodrigo,

Parabéns, muitas vezes acho que você exagera, mas desta vez foi ao ponto com "humor", mas sem perder a realidade.

Anônimo disse...

Rodrigo, sinceramenta não te entendo.Qualquer não parasita com o mínimo de razão passando por muito menos já pensaria em fugir desse esgoto de país, de preferência pra um lugar onde não aceitassem o mesmo tipo de idiotas úteis que votam em qualquer bolsa esmola da vida

Eduardo Buys disse...

Rodrigo, compartilhei no face:
"DE VOLTA DO FUTURO
Extraordinário texto de um bem humorado Rodrigo Constantino.
Vale navegar por aí, dar boas gargalhadas e, depois, concluir como o escritor:
pés no chão, e tratar do que fazer para não permitir que um futuro destes, embora fictício e hilário, mas que nos dá uma forte sensação de um parentesco possível com a realidade, não venha à nos pertencer. Não podemos fazer por merecê-lo!
@edubuys"

Pablo Moron disse...

Anonimo, é claro que dá vontade de cair fora dessa merda, mas as coisas não são assim tão simples, existe um negocio chamado família, que nem sempre vai querer ir com vc, no caso familia, pais, avós e ainda tem os amigos, começar a vida num país estrangeiro é muito mais complicado, pois nossos cursos universitarios não tem valor lá fora, conheço varias pessoas que disseram foda-se e foram e não se arrependem, mas é muito complexo.

samuel disse...

Triste, mas lastreado nos fatos de hoje onde já estamos na Economia comunista, aquela de crescimento ZERO com pleno emprego dependendurado no ESTADO.

Noé disse...

Constantino, achei fantástico o texto sobre o "Brasil 2030".

Parabéns.

Que Deus continue te abençoando com lucidez e talento sempre mais destacados.

Noé disse...

Rodrigo, PARABÉNS pelo excelente texto "DE VOLTA DO FUTURO". Oxalá fosse ele metido na cabeça de milhões de brasileiros alienados, que ainda acreditam em Saci Pererê e promessas dos políticos brasileiros (com honrosas exceções, lamentavelmente quase desconhecidas).

Parabéns, com louvor!

Anônimo disse...

Cada vez mais tenho a certeza que a esquerda tem os livros 1984 e Animal's Farm como livros de cabeceira. É incrivel como conseguem usar o duplipensar e a reescrita da história para enganar. Meu maior medo é que assim como em 1984, os "proles" nunca alcancem um estado de consciência.

Dengones disse...

Engraçado como só tem comentários positivos no seu texto, mesmo sendo ele tão polêmico. Eu não vejo esse afundamento da economia que você descreve no seu texto. Não vejo também nenhum tipo de movimento em direção ao comunismo malfadado adotado na URSS, apesar de também não ver o neoliberalismo que impera na europa e favorece os bancários em detrimento da maior parte da população. Eu sou profissional autônomo, e nos últimos anos vejo um aumento exponencial nos meus ganhos particulares, não senti nenhum sinal da crise que a Globo tanto alarda. Talvez por que esteja havendo uma redistribuição do PIB, uma redução na concentração de renda, que é interessante apenas àqueles que a concentravam anteriormente. Mas mesmo neses casos eu acho que a situação está assim tão ruim. Claro que é mais difícil para alguém com uma renda de uns 12 ou 13 mil reais por mes pagar mais 300 ou 400 reais e manter a empregada doméstica. Tenho um tio que reclamou disso. Ele é empresário, e estava acostumado a pagar pouco para seus empregados, mesmo sua empresa dando tanto lucro pra ele... acho que deve ser complicado para quem estava acostumado a ter a concentração das mordomias vendo o "povão" andando de carro e falando no smartphone, coisa que pouco tempo atrás seria um luxo só acessível a uma elite exclusivista, da qual talvez, por sorte, você faça parte, e por isso defenda os interesses.
Espero estar errado em minhas conclusões quanto a seus interesses em publicar um texto tão reacionário quanto este. Espero, também estar errado quanto à conclusão que eu cheguei lendo os comentários, de que você só aceita comentários favoráveis a seu trabalho, o que desqualifica seu discurso e abre precedente à discução da sua firmeza de caráter e convicção na suas crenças, além da sua capacidade de debater e comprovar seu ponto de vista.

Anônimo disse...

'acho que deve ser complicado para quem estava acostumado a ter a concentração das mordomias vendo o "povão" andando de carro e falando no smartphone'

Esse povo é incapaz de pensar com lógica.Tudo pra eles é emocional.

Claudio Solon disse...

Seu texto parece cansado. Talvez v. tenha acordado depois de um pesadelo e foi despejar sua (nossa) justa frustração com o rumo que o país toma. Mistura de 1984, de George Orwell, com o filme de volta para o futuro, com seriado walking dead e Wagner ao fundo. Penso que estamos longe deste destino que v. imaginou, mas perto, por pura falta de racionalidade, de não conseguirmos desenvolver nossos imensos potenciais naturais e humanos. Que sua diarréia tenha passado ou sua enxaqueca se dissipado.

Claudio Solon disse...

Rodrigo, vejo uma contradição na sua conduta como jornalista. V. parece ser "pour" a liberdade de expressão e de imprensa, mas se dá o direito de restringir os comentários aos seus textos, dando-se à possibilidade do direito, digamos, pouco transparente, de selecionar aqueles que melhor lhe aprouver a comentar. Não é isto uma forma de censura? É como se diz: fácil ser pedra, mais difícil ser vidraça. V. pode dizer como aquele ditado alemão: "na minha banheira sou almirante" e eu diria, então afunde-se. KKKKKK

Rodrigo Constantino disse...

Não, Claudio Solon, não é censura.

Eis algo que esquerdista nunca entende. Isso aqui é PROPRIEDADE PRIVADA. Eu não sou obrigado a publicar qualquer imbecil. Assim como você não precisa aceitar em SUA CASA a presença de pessoas de direita.

Censura é quando o GOVERNO usa coerção para impedir a liberdade de expressão.

Ou seja, O GLOBO é livre para publicar quem quiser, e se você não gosta, você é livre para criar um jornal concorrente. Não há censura. Mas quando o governo intimida ou impede alguém de se expressar, aí sim temos censura. Entendeu?

É básico isso, mas noto que muita gente não compreende essa obviedade...

Rodrigo Constantino disse...

Em tempo: os blogs que mais vetam comentários contrários são... os de esquerda! Outro detalhe que o rapaz deixou passar.

Eles estão no DIREITO deles, diga-se de passagem. Não é censura (agora até você deve ter entendido isso).

Já eu publico comentários contrários, desde que focados nos argumentos, não em ofensas pessoais ou palhaços de se acham engraçadinhos com ironias de quinta categoria.

Sacou?

Claudio Solon disse...

Constantino,

Existem necessidades de esclarecimentos aqui. O seu texto agora é onírico: parece continuar no transe.

Esta confusão pode acabar lhe matando. Devagar com o andor!

V. conseguiu em poucas linhas definir comunicação em um blog publicado num veículo de massa como algo PRIVADO; conseguiu redefinir o que se chama CENSURA; conseguiu me confundir, não sei v. me preconcebe esquerdista, ou imbecil, ou beócio e que eu não intuo corretamente as suas diatribes.

Essa discussão sobre o público e o privado merece mais reflexão. Isto aqui NAO é privado. Se não seu escritos não teriam status de público. V. parece confundir relação cliente e fornecedor e direito de propriedade. Além disto, sou assinante do GLOBO, e o espaço também pertence aos leitores. Portanto, prezado censor, mais elegante seria evitar publicar qualquer tipo de comentário.

Veja aqui a definição de censura, trazida da wikipédia, que v. poderia ter consultado antes de parir sua definição para o termo. Vamos à wikipédia:

" Censura é o uso pelo estado ou grupo de poder, no sentido de controlar e impedir a circulação de informação. A censura criminaliza certas acções de comunicação, ou até a tentativa de exercer essa comunicação. No sentido moderno, a censura consiste em qualquer tentativa de suprimir informação, opiniões e até formas de expressão, como certas facetas da arte.

O propósito da censura está na manutenção do status quo, evitando alterações de pensamento num determinado grupo e a consequente vontade de mudança. Desta forma, a censura é muito comum entre alguns grupos, como certos grupos de interesse e pressão (lobbies), religiões, multinacionais e governos, como forma de manter o poder. A censura procura também evitar que certos conflitos e discussões se estabeleçam." Como foi mesmo que v. definiu censura?

O destempero de seu comentário parece fruto de uma possível insegurança. Como v. não tem estofo para ir mais fundo, v. trata de desqualificar, ou de prejulgar o outro para que a ignorância seja ofuscada pela sua ignomínia.

Seu texto cheira a naftalina. V. não parece estar no "main stream". Parece não saber ultrapassadas estas concepções de direita e esquerda nascidas na revolução francesa e parece nunca ter ouvido falar sobre o mundo pós-moderno, policultural, hiperinformativo, sem fronteiras.

Para sua surpresa, sou defensor do estado mínimo e eficaz, e se eu fosse o estado, controlaria apenas o essencial. E sim, sou um empresário, pago impostos, emprego mais de 100 almas, não forneço para o governo, e torço para pessoas como v. façam uso de espaços como este para com coerência e elegância, irem re-formando esta horda que chama estado Brasil.


Rodrigo Constantino disse...

Claudio,

Vc segue com a confusão. Talvez por ter a Wikipedia como fonte...

O GLOBO tem um espaço para leitores sim. Espaço que ELES, os donos, criaram, e que ELES, os funcionários dos proprietários, escolhem. Eles não publicam tudo que mandam. Eles filtram. E podem. Não é censura.

Novamente: se eu mandat um artigo atacando a Carta Capital para a revista, eles devem publicar? E se não publicarem, isso será censura? Só na cabeça de um esquerdista, ou de alguém que tem a Wikipedia como guru.

Rodrigo Constantino disse...

Curioso vc falar em desqualificar, pois é tudo que tem feito até aqui. Naftalina? Esse é o cheiro do petismo, do esquerdismo, do socialismo.

Ah sim: esse papo de que esquerda e direita são conceitos ultrapassados costuma ser coisa de quem defende o esquerdismo com nova roupagem.

E veja quanta gente da ESQUERDA atual ainda defende a Rev. Francesa! A utopia igualitária que justifica tiranias nunca morre...

Anônimo disse...

' Isto aqui NAO é privado'

Claro que é.Tu que não sabe o que significa privado.

'Se não seu escritos não teriam status de público.'

Agora você está confundindo a obra de arte do mestre picasso...
Público no sentido de pertencer ao povo (que é balela, na verdade pertence ao governo)como as ruas, etc, é uma coisa, público no sentido de ser fácil pra qualquer um ter acesso é outra muito diferente.

Direito de falar o que quiser você tem no seu site, ou nos espaços que não tem dono.

Claudio Solon disse...

"Je ne suis pas d'accord avec ce que vous dites, mais je me battrai jusqu'à la mort pois que vous ayez le droit de le dire". Voltaire. Outros dizem que esta citação pertence a uma escritora inglesa Evelyn Beatrice Hall. " I disapprove of what you say, but I will defend to the death your right to say it." Na verdade parece ser uma paráfrase das idéias de Voltaire a partir do "essay sur la tolérance". A partir daí v. pode começar a pensar. Ah! Mr M, foi proibido o uso da wikipédia e do google como fontes de informação.

Anônimo disse...

Você ainda não entendeu nada.Não tem nada a ver com defender o DIREITO de diser, imagine o seguinte: no muro da SUA casa vc escreve o que quiser, no muro da minha mando EU.

Anônimo disse...

Se eu tivesse uma máquina do tempo, voltaria a 1889 com certeza. É provável que não acreditassem em mim.

Diria que um homem semi-analfabeto e que faz sexo com cabritas seria eleito presidente do país. E que isso seria orgulho nacional.

Que a carga tributária chegaria a 40% do PIB e ainda haveria um déficit gigantesco nas contas públicas.

Que construiriam Brasília.

Que 30% dos estudantes universitários seriam semi-analfabetos. Talvez almejando o cargo de presidente.

Que 50 mil pessoas seriam assassinadas a cada ano. Não, não estaremos em guerra, responderia aos mais temerosos. 50 mil assassinados em tempos de paz.

Enfim. Minha distopia seria tão irreal e inimaginável para os governantes e para a população daquela época, que, provavelmente, ninguém iria acreditar ou morreriam de depressão.

Víctor Rogério disse...

Excelente texto, Rodrigo.
Parabéns.
(O texto foi, pela pertinência e argúcia, reproduzido no blog do Fucs. http://revistaepoca.globo.com//blogs/Fucs/Politica/noticia/2013/04/de-volta-ao-futuro.html)
Grande abraço.

Theresa disse...

Rodrigo
"never argue with stupid people, they will drag you down to their level and beat you with with experience"
MarkTwain

Anônimo disse...

Ótimo texto. Temo que você não esteja tão errado quanto às perspectivas de futuro, mas como voltou para fazer o que estiver ao seu alcance para mudá-lo, vamos lá.
Seus livros deveriam ser adotados no ensino médio, supondo que o governo não controlasse o que os alunos devem aprender.