terça-feira, maio 30, 2006

Ocidentalismo



Rodrigo Constantino

Os professores Ian Buruma e Avishai Margalit escreveram um livro no qual cunharam o termo “ocidentalismo”, explicado como o retrato desumano do Ocidente pintado por seus inimigos. Nele, os autores tentam explicar os motivos do ódio que leva determinados grupos a declarar guerra ao estilo de vida ocidental e tudo que ele representa. A conclusão é que boa parte da culpa desse ressentimento originou-se no próprio Ocidente, através de certos pensadores e intelectuais.

A visão desumana do Ocidente reduz toda uma sociedade ou civilização a uma massa de parasitas sem alma, decadentes que vivem apenas para o prazer imediato. Quando essa visão de que os outros são menos humanos adquire força revolucionária, leva à destruição de seres humanos. As causas dessa imagem perversa possuem raízes históricas. Por trás dela, está a noção de que os homens desafiaram Deus, colocando-se como centro do universo e transformando suas relações em trocas impessoais ligadas apenas ao dinheiro. A cidade passa a ser vista como desumana, um zoológico de animais depravados, consumidos pela luxúria. Nas palavras dos autores, eis o resumo da visão ocidentalista da cidade, do capitalismo, e da ‘civilização-máquina’ ocidental: “uma prostituta sem alma como um autômato voraz”.

Os intelectuais ocidentais, com raras e nobres exceções, contribuíram muito para essa imagem. Entre as causas, pode estar o fato deles saberem que, em uma cultura comercial, o papel dos filósofos e dos literatos é, na melhor das hipóteses, marginal. Os temores e preconceitos afetam as idéias dos intelectuais urbanos, que se sentem deslocados num mundo de comércio em massa. Na tentativa de “reformar” os homens, como se apenas os intelectuais tivessem a sabedoria para conhecer o caminho da salvação e os verdadeiros interesses individuais, vários pensadores pariram idéias revolucionárias que derramaram oceanos de sangue. As massas foram cobaias desses cruéis experimentos.

Os exemplos são vastos. Os soldados do Khmer Vermelho, por exemplo, vinham de áreas miseráveis e eram analfabetos, mas os líderes do movimento que exterminou quase um terço da população do Camboja tinham estudado em Paris, sofrendo forte influência de Sartre e Marx. O próprio Pol-Pot era um desses. O objetivo era restaurar a pureza e a virtude do seu povo, e o meio usado foi o sistemático assassinato em massa. O mesmo ocorreu na “revolução cultural” de Mao Tse-Tung, na China, ou na revolução comunista dos bolcheviques.

As democracias liberais do Ocidente valorizam o indivíduo comum, e o livre comércio preserva justamente a busca da satisfação dos interesses particulares de cada um. Fica faltando, na visão dos ocidentalistas, o sacrifício e o heroísmo. O renascimento só pode vir através da destruição e do sacrifício humano, por esta ótica. O piloto kamikaze, durante a Segunda Guerra, é o símbolo perfeito disso. O culto à morte no Japão vicejou em meio ao mais alto nível de sofisticação tecnológica, cultural e industrial. Suas raízes não podem ser encontradas na pobreza. Esses kamikazes se viam como intelectuais rebeldes, enfrentando a corrupção ocidental, o capitalismo egoísta, e superficialidade da cultura americana. O arquiteto do ataque a Pearl Harbor havia estudado em Harvard. Não é muito diferente da situação que encontramos hoje na Al Qaeda. Bin Laden, um milionário com acesso aos grandes pensadores ocidentais, recruta jovens de classe média, usando a mesma retórica dos kamikazes.

As sociedades liberais do Ocidente dão oportunidades de conquistas extraordinárias aos indivíduos, mas tais conquistas são individuais. Isso não pode satisfazer aqueles que desejam ver o heroísmo e glória como partes de um empreendimento coletivo. O fascismo, o comunismo e o nazismo atraíam justamente o homem medíocre, porque lhe dava um vislumbre de glória por associação, seja da raça, da classe ou da nação. Os autores explicam: “O auto-sacrifício por uma causa nobre, por um mundo ideal, livre da cobiça humana e da injustiça, é o caminho para o homem comum sentir-se heróico”. O liberalismo ocidental, com sua natureza anti-heróica, passa a ser o grande inimigo dos radicais coletivistas.

Na conclusão do livro, os autores defendem a idéia de que o combate a este ocidentalismo, que prega a destruição dos valores seculares ocidentais, não está no uso do mesmo veneno dos inimigos da sociedade aberta, mas sim nos próprios valores que fizeram do Ocidente uma civilização mais rica e livre. Eles finalizam: “Não podemos permitir o fechamento de nossas sociedades como uma forma de defesa contra aquelas que se fecharam; do contrário, seríamos todos ocidentalistas e não haveria nada mais a defender”.

13 comentários:

Anônimo disse...

um cara que vai na comunidade do orkut e diz que marx foi responsavel por milhoes de morte nao merece respeito....por isso nao tem nenhum comentario nesse blog horroroso...
e ainda defende o modelo atual...que já mato?? vamos calcular...só de criança...sao o que? 1 a cade 3 segundos?

Alex Machado disse...

Alguém que faz um comentário desrespeitoso de forma anônima é que não merece respeito.

Sobre o blog ser horroroso, eu concordo (acredito que seja por conta da pouca variedade de modelos disponíveis no Blogger).

Porém a aparência aqui é oq menos importa. Você não deve conhecido um gulag de perto e é por isso que vem com essa ladainha sobre esse teórico do crime.

Sobre a falta de comentários... com o meu e o seu já são 2, mas o fato é que isto aqui não é concurso de popularidade.

Apresente argumentos sensatos ao invés de falar bobagens simplistas escondido atrás do anonimato.

Mateus disse...

Muito bom, como sempre. E muito oportuno.

André P.B. Selva disse...

Como sempre, mais um ótimo artigo do Rodrigo Constantino. O indivíduo anônimo deve ser justamente um dos radicais de que o artigo fala. Ficou ofendido pois a carapuça lhe coube com perfeição.

Rodrigo Constantino disse...

Faz sentido o primeiro comentário ser anônimo. Se eu fosse tão idiota, teria vergonha também de assinar meu nome. Minha nossa!

Juliano disse...

Deve ser algum moleque de 14 anos. Eu também era um comunista idiota com essa idade.

...se não for moleque, pior...

Juliano disse...

Deve ser algum moleque de 14 anos. Eu também era um comunista idiota com essa idade.

...se não for moleque, pior...

Alvaro Augusto disse...

Caro Rodrigo,

Como maneira de melhorar a qualidade do seu blog, sugiro que seja eliminada a possibilidade de comentários anônimos.

[ ]s

Alvaro Augusto

Débora Antunes disse...

Considerei este livro extremamente preconceituoso e cheio de desvios de argumentação. Ian Buruma, pareceu ser realmente o pensador sub-nível que alguns sites dizem e o livro parece ser todo feito para justificar a primazia ocidental.
Seu post faz parecer o contrário, mas nada de horrível, com diz o comentário anônimo, apenas opiniões divergentes.

Thiago Oliveira disse...

Bom não tenho 14 anos,mas desde essa época já me indignava com o modo como vivemos, por isso quando já adulto resolvi estudar o Marx e o Marxismo, que são coisas distintas.Existe a obra do Marx, com todos seus problemas e existe pensadores que partem do materialismo histórico, para analisar alguns fenômenos históricos. Agora colocar na mesma cesta, um Pol Pot e uma Rosa Luxemburgo, por exemplo é no mínimo falta de leitura para não dizer pilantragem acadêmica, e dessa forma de atuação não estão livres os intelectuais liberais nem os Marxistas ou Marxianos. Procurei algo sobre esse livro Ocidentalismo, porque estou lendo o Orientalismo do Said, que não é Marxista, alias faz algumas criticas ao pensador alemão, mas faz um formidável trabalho, sobre como o Ocidente cria uma representação do Oriente, e o corolário disso é a dominação, a exploração do trabalho escravo e outras coisas que qualquer criança de 14 anos sabe, coisas da linda forma de viver que o Ocidente espalha pelo mundo. Abraço a Todos Thiago Oliveira Martins, um COmunista de 25 anos de idade

Peri disse...

"Os intelectuais ocidentais, com raras e nobres exceções, contribuíram muito para essa imagem. Entre as causas, pode estar o fato deles saberem que, em uma cultura comercial, o papel dos filósofos e dos literatos é, na melhor das hipóteses, marginal."

Engraçado um pregador do capitalismo neoliberal dizer isso. Adam Smith é, entre outras coisas, considerado um filósofo. Sim, o dito-cujo está falecido já há um bom tempo, mas foi, entre outras coisas, filósofo. O papel do filósofo não é marginal, na civilização ocidental atual. E quanto a influência de Comte na sociedade em questão? Mesmo que muitos filósofos estejam mortos, suas obras regem, em grande parte, o funcionamento dessa civilização. Então o filósofo rege a sociedade, em grande parte. Você é o que você faz e, assim sendo, o filósofo é sua obra, e a obra em questão é o próprio filósofo. O filósofo, pois, rege (e muito) a sociedade atual. Até mesmo o método científico e a episteme sofrem constantes modificações pela filosofia atualmente, além de terem sido criações desta.

Armas não matam pessoas: pessoas matam pessoas. O mesmo vale para livros, que não matam pessoa alguma. Se fosse pra brincar de intelectual, assim como Constantino brinca, eu diria que o Capitalismo mata de fome mais de dez mil pessoas no mundo diariamente. E tenho fontes confiáveis para dizer tal coisa.

A direita tem o dom de falsear as a realidade: ela só vê o que quer e do jeito que quer. Ignora o massacre que a Civilização Ocidental promoveu no mundo todo, sob o pretexto de "civilizar" outros povos. Isso quando não tenta justificar uma atrocidade que sua civilização cometeu, valendo-se do fato de outras civilizações também terem cometido atrocidades. Um erro não justifica o outro, e o que a civilização ocidental fez com o mundo é algo sem precedentes na História. Pra se ter idéia, só na Diáspora Africana morreram mais de cem milhões de pessoas. Aí aparece alguém de direita dizendo que os negros já guerreavam entre eles e escravizavam uns aos outros, ignorando que tal fenômeno ocorria com menos intensidade e com muito menos crueldade do que a escravidão que a Civilização Ocidental impôs ao negro. Este é só um exemplo da deformação que a Direita faz; de como ela falseia a realidade de modo a tentar adequar a realidade à teoria, ao invés de rever suas infames, egoístas e obsoletas teorias.

"A principal diferença entre a Esquerda e a Direita reside no fato de que a primeira tende a adequar a teoria aos fatos, e a segunda, os fatos à teoria."

Peri Malesso Lira Nascimento

O Capitalismo é só um grande erro que existe em persistir. As crises estão aí para ilustrar o que digo.

Peri disse...

Até na Alemanha, que há algumas décadas viveu forte anti-comunismo, há estátuas do Marx em homenagem a ele (veja no documentário Sicko, do Michael Moore).
Se fosse para partir do princípio de que armas (ou livros, ou ideologias) matam pessoas (que é o que vejo Constantino fazer), eu diria: então quantas pessoas o Marx não salvou?
Sistemas públicos de saúde de qualidade, sistemas públicos de educação de qualidade surgiram em vários países de primeiro mundo, e de não tão boa qualidade no terceiro mundo (mas que mesmo assim representam um avanço). Isso teve forte relação com o corpo teórico marxista. Grande parte das atividades econômicas consideradas vitais ou estratégicas são fortemente controladas pelo Estado.
Mas o mais engraçado é ver Constantino xingando pessoas, na falta de argumentos. Vai votar no PSDB e ler Miriam Leitão.

Matheus disse...

"As sociedades liberais do Ocidente dão oportunidades de conquistas extraordinárias aos indivíduos, mas tais conquistas são individuais" diga isso pra quem conta as moedas do pão todo dia enquanto vê na tv que o Eike Batista sai de casa de helicóptero. Piadas de mal gosto essas ideias. Duvido que o autor já tenha sentido na pele como é pegar um trem lotado às 5h da manhã.