quarta-feira, novembro 29, 2006

Invidia



Rodrigo Constantino

“Envy is a drive which lies at the core of man’s life as a social being, and which occurs as soon as two individuals become capable of mutual comparison.” (Helmut Schoeck)

A inveja é um sentimento com profundas conseqüências para o progresso da humanidade, e caso não seja devidamente domesticada, pode limitar bastante nossos avanços. O filósofo austríaco Helmut Schoeck escreveu um brilhante livro sobre o tema, chamado Envy: A Theory of Social Behaviour. Seu trabalho deveria ser lido por todos, principalmente por aqueles que defendem uma utopia na qual seria possível construir uma sociedade igualitária, desprovida da inveja. O autor deixa claro, com sólidos argumentos e vasta experiência empírica, que não só é impossível a construção de tal sociedade, como o motivador de seus defensores é muitas vezes a própria inveja.

Em primeiro lugar, é interessante traçar as diferenças entre a inveja e o ciúmes. No caso deste, uma terceira pessoa está envolvida, e o ciumento pretende preservar algo que considera sua propriedade. Ele quer preservar seu ativo de terceiros. Já no caso da inveja, há um impulso destrutivo, onde o outro não ter algo é mais importante que tudo. A eliminação do próprio ativo passa a ser o objetivo. A inveja se mistura muito com o ressentimento, fruto de um sentimento de inferioridade, onde a desgraça alheia é mais importante que a satisfação pessoal do invejoso. Se um vizinho quebrar a perna, o invejoso irá regozijar-se, ainda que isso não faça ele andar melhor. Se um rico for à bancarrota, o invejoso irá comemorar, ainda que isso não o faça mais rico. O homem intensamente invejoso pode inclusive ser possuído pelo desejo de autodestruição, incapaz de tolerar que outros saibam aproveitar a vida e demonstrar felicidade.

Helmut conclui pontos interessantes sobre a inveja, como o fato de mínimas diferenças serem suficientes para despertar muita inveja no homem invejoso, ou que normalmente a inveja está mais atrelada à proximidade das pessoas. Em outras palavras, um não precisa ser um miserável para invejar um rei, sendo mais provável a inveja surgir entre empregados de um mesmo nível onde um deles recebeu um aumento relativo ou um elogio do chefe. Isso derruba o sonho dos igualitários em criar uma sociedade onde todos fossem materialmente iguais, como se isso pudesse eliminar a inveja do mundo. Pelo contrário, em tais sociedades – caso pudessem existir – a inveja seria de um nível bastante elevado, onde um simples agrado de alguém, o olhar de uma mulher, uma mísera demonstração de superioridade intelectual, faria despertar uma inveja incontrolável no invejoso.

No livro, o autor vai buscar os indícios de inveja – e os mecanismos desenvolvidos para evitá-la – nas sociedades mais primitivas que se tem conhecimento. A crença na magia negra, por exemplo, teria pouca diferença da fé socialista de que o pobre é pobre por ser explorado pelo patrão, ou a crença das nações subdesenvolvidas de que assim estão por culpa das nações mais ricas. O uso de algum bode expiatório, seja a magia negra, o desejo dos deuses ou o capitalismo explorador, serve para consolar aqueles invejosos que não suportam o sucesso alheio explicado por mérito ou alguma superioridade qualquer em relação a si próprio. Se o vizinho teve uma colheita melhor, não pode ser pela sua maior eficiência e produtividade, pois isso seria um atestado de superioridade que o invejoso não está disposto a dar. Diferente daquele que observa e admira o sucesso alheio, o invejoso vai buscar refúgio nas “explicações” fantasiosas, como o uso da magia pelo vizinho, a sorte, o destino traçado pelos deuses etc.

Se todos possuem, em diferentes graus, o sentimento de inveja, a busca de proteção contra o invejoso, o “mau olhado”, sempre esteve presente nas diferentes culturas também. Quanto mais uma sociedade conseguiu controlar os invejosos e dar mais espaço e liberdade para os inovadores, mais progresso atingiu. A alocação de escassos recursos não é eficiente quando o medo da inveja alheia é grande demais. Se o fruto do sucesso será tomado por medidas claramente invejosas como o imposto progressivo, deixam de existir os incentivos adequados para que o empreendedor se arrisque. Se as desigualdades não são toleradas, se alguém souber a priori que seu sucesso será motivo de forte inveja por parte de seus vizinhos, as realizações pessoais serão ínfimas, e por conseguinte a da sociedade em questão também.

Por isso que as comunas israelenses, os kibbutzin, jamais seriam capazes de evoluir da subsistência agrária, e o pouco avanço existente vem emprestado de fora, dos países industriais capitalistas. O socialismo, a pura idealização da inveja, onde todos devem ser iguais como os insetos gregários são, seria a vitória da mediocridade sobre o talento, sobre as conquistas individuais. Numa sociedade igualitária, a inveja derrota o sucesso, as realizações pessoais. Eis o ideal dos invejosos, que trabalham para incutir um forte sentimento de culpa naqueles que, de alguma maneira, destacaram-se na sociedade. Temendo a inveja alheia, muitos desses sucumbem também ao sonho – ou pesadelo – igualitário.

Com isso em mente, deixo a conclusão nas palavras do próprio filósofo: “O desejo utópico por uma sociedade igualitária não pode ter surgido por qualquer outro motivo que não a incapacidade de lidar com a própria inveja”.

16 comentários:

Cesar Leal disse...

Excelente post.
Confesso que nunca pensei nisso, e analisando, isto é certíssimo.

Parabéns pelo blog!

$ disse...

A inveja é a consequência da falência de um conceito massacrado desde o fim do iluminismo: justiça.

É impossível invejar alguém por algo que se sabe que ele merece, no máximo se pode ambicionar atingir o mesmo resultado.

Destruído o conceito de justiça, aceita a tese que o ganho de um sempre vem às custas da perda de outro, qualquer valor, virtude ou qualidade de alguém se torna motivo para a inveja.

C. Mouro disse...

Perfeito $
e uma das coisas que contribui para a destruição da idéia de justiça é a de que a bondade é um valor superior a justiça. DCe forma que não se analise mais se algo é justo, mas sim se bondoso, se atende uma necessidade ou se uma concessão ideologicamente consagradora. Por esta visão da bondade, aquele que age justamente e que só ajuda se sente-se bem ao faze-lo, e na medida que julga adequada, será rotulado como avarento, ganacioso, insensível e etc.. Assim, sob a hierarquia de valores ideologicos arbitrados irracionalmete, ser justo nada vale. E os invejosos se escondem sob tais valores para maldizerem e até prejudicarem aqueles que invejam, camuflados por valores ideologicos.
Ou seja, se mal diz um sujeito meramente por não ser generoso, de modo que a generosidade torna-se obrigatória ideologicamente (obrigação) e sem medida - quanto mais contra si em favor alheio, mais valorizado ideologicamente, mais altruísta - Logo, tende-se a crer que usufruir do alheio por necessidade é ideologicamente "justo", a avareza é pecado e etc..
Da mesma forma se dá o trato com a bandidagem. Não se questiona mais o que é ou não justo, mas sim que bandidos são humanos e o perdão lhes é devido (ideologicamente). Logo, esquece-se que a pena é castigo justo, é retribuição, que ainda serve para desestimular. Mas pela visdão "bondosa" deve-se recuperar o bandido para salva-lo. E mais meritórios os que toleram a bandidagem, que não julgam a bandidagem, mas se preocupam com tais "seres humanos". ...e tome de legiões de cheira-rolas paparicando facínoras nas prisões, justificando-os e os apoiando moralmente para livra-los de pressões da consciencia. ...e logo que saem voltam a destruir vidas inocentes e famílias inocentes.
DE FATO A IDÉIA DE JUSTIÇA ESTA MORRENDO, SUFOCADA POR IDEOLOGIAS FARISAICAS.
Abraços
C. Mouro

Joao Luiz disse...

Valeu, Rodrigo! Mais um tiro na mosca. Aliás, se você continuar prolífico como tem sido ultimamente, não vai sobrar assunto para nós, pobres mortais.

Um abraço
João L Mauad

Rodrigo Constantino disse...

Isso vindo do autor de Liberalismo: filosofia e ética, é uma grande piada! Parabéns por mais esse excelente artigo, João, que tomei a liberdade de repassar com os devidos méritos.

$ e C. Mouro, grato pelas contribuições também, sempre excelentes.

Marcio Rosa disse...

"O socialismo, a pura idealização da inveja, onde todos devem ser iguais como os insetos gregários são, seria a vitória da mediocridade sobre o talento, sobre as conquistas individuais. Numa sociedade igualitária, a inveja derrota o sucesso, as realizações pessoais. Eis o ideal dos invejosos, que trabalham para incutir um forte sentimento de culpa naqueles que, de alguma maneira, destacaram-se na sociedade."



Bravíssimo!

Bruno L. disse...

Muito bom, Rodrigo! Na minha singela opinião, os seus artigos estão cada vez melhores. E incomodando muito mais gente, pelo que tenho visto, hehe.

Claudio/Niterói disse...

Excelente artigo...como os outros que costumo ler no Diego Casagrande. Gostaria de fazer apenas uma ressalva,pois já morei em Kibbutz há 20 anos e meu filho mais velho esteve em Israel(passou 1 ano) 2 anos atrás: Lá tem Kibbutz pobre,Kibbutz rico,somente agrário, agrário e industrial. O que eu fiquei, naquela época já fabricava e exportava coletores solares. Existia um socialismo que buscava realmente um maior conforto para todos e todos davam o máximo como se fossem sócios de uma mesma empresa, querendo lucrar o máximo.O que movia eles não era a inveja, mas o medo de voltar a passar necessidade, como passaram, quando chegaram da Europa. Mas as gerações nascidas em Israel queriam sair do Kibbutz, correr riscos... a verdade é que o Kibbutz deu certo, como forma de uma comunidade se proteger e se organizar, mas é extremamente limitado e limitador.O que eles querem é correr o mínimo de riscos, mas isso é muito pouco para os jovens,que acabam saindo dos kibbutzin em busca de outro tipo de vida. Mas o mais importante é que viver em um Kibbutz é uma opção, um ato voluntário e não esse socialismo que tentam nos enfiar goela abaixo, nos escravizando e tirando nossa renda, que é mais fácil e inteligente do que tirar nossa propriedade.

Claudio/Niterói disse...

Excelente artigo...como os outros que costumo ler no Diego Casagrande. Gostaria de fazer apenas uma ressalva,pois já morei em Kibbutz há 20 anos e meu filho mais velho esteve em Israel(passou 1 ano) 2 anos atrás: Lá tem Kibbutz pobre,Kibbutz rico,somente agrário, agrário e industrial. O que eu fiquei, naquela época já fabricava e exportava coletores solares. Existia um socialismo que buscava realmente um maior conforto para todos e todos davam o máximo como se fossem sócios de uma mesma empresa, querendo lucrar o máximo.O que movia eles não era a inveja, mas o medo de voltar a passar necessidade, como passaram, quando chegaram da Europa. Mas as gerações nascidas em Israel queriam sair do Kibbutz, correr riscos... a verdade é que o Kibbutz deu certo, como forma de uma comunidade se proteger e se organizar, mas é extremamente limitado e limitador.O que eles querem é correr o mínimo de riscos, mas isso é muito pouco para os jovens,que acabam saindo dos kibbutzin em busca de outro tipo de vida. Mas o mais importante é que viver em um Kibbutz é uma opção, um ato voluntário e não esse socialismo que tentam nos enfiar goela abaixo, nos escravizando e tirando nossa renda, que é mais fácil e inteligente do que tirar nossa propriedade.

Mario disse...

Há um aspecto interessante, para não dizer canalha e hipócrita. Explico. Que um miserável inveje algum abastado até seria aceitável. Porém, o que ocorre é bem diferente. São, em geral, ricos, como os Chicos Buarques, Chauís, Sáderes, Minos Cartas, Veríssimos, Brunos Maranhões, e o próprio poderoso chefão que hoje deita-se entre lençóis de linho egípcios, que tem um Airbus super luxuoso, com trocentos serviçais, cuja companheira gasta R$1800 por dia com cartão de crédito (e nós pagamos) que insuflam os miseráveis a invejar, semeando o ódio.

Os comunistóides são mestres em distorcer fatos históricos. Se lembrarmos um pouco da revolução industrial, há quase 2 séculos, antes dela, quem nascia miserável jamais tinha a chance de ter alguma coisa. A indústria, com os empregos e salários que gera, representa a grande chance para que miseráveis tenham alguma coisa em troca de seu único bem, que é a capacidade de trabalho. Dizer que isso é exploração é, no mínimo, ausência de neurônios.

Caro Rodrigo, parabéns e agradeço pela lógica que apresenta em seus textos.

"Against logic there is no armor like ignorance." -- Laurence J. Peter

C. Mouro disse...

Mario,
você tocou em pontos chaves. O pobre tende a invejar o seu vizinho pobre da mesma forma que o rico inveja seu vizinho rico. Então ricos usam pobres para tentar destruir outros ricos.
Para entender isso podemos nos valer de Nietzsche - tenho que cita-lo como homenagem merecida, independente de da idéia ter-se originado de sua leitura ou não - ele exemplifica o caso da não compreensão da dor de quem é visto num patamar muito diferente do seu: um principe ao subtrair algo do plebeu não perceberá a dor que causa a este, sente-se muito diferente. ALgo como quando matamos insetos ou animais, tendemos não percebe-los em seu sofrimento por estarem muito distantes de nós - um criador de animais para abate nada sente sobre sua criação.
Assim, um governate que vê a massa adora-lo como se a um deus provedor, mágico, muito "superior" a eles, tende a ver essa massa como algo desprezível, de méritos infimos, a quem ele "o grande" faz concessões generosas que o destacam ainda mais, efetivamente sente-se um rei, ou nobre, com direitos divinos sobre a plebe (ponta da hierarquia social - laicos); como se o cargo lhe atribuisse superioridade.
.
Esse tipo de idéia, de sociedade hierarquizada, é que causa muito dos males. A liberdade de empreender e criar riqueza independente dos superiores hierárquicos é que produz inconformidade. A "nobreza" não suporta a idéia de um "sem berço" progredir independentemente, quanto mais supera-los. Pensam: "um reles plebeu ter a chance de ser mais rico que um nobre, que uma autoridade!?". Para certos tipos isso é uma heresia, eles querem a sociedade hierarquizada e estática. A igualdade material que pregam não os inclui, eles imaginam a igualdade apenas para aqueles que eles consideram devessem ser iguais: a plebe deve ser igual entre si, pensam. E não se incluem, pois são autoridades, são elite oligarquica ou burocrática, e não se conformam com simples plebeus com padrão material similar ou superior ao seu, isso os atormenta. Então sentem inveja até de um comerciante capaz de vicer razoavelmente, pois desejam que este viva, imaginam, como a plebe deve viver. Daí vermos milionários com discursos socialistas contra a ganância alheia. Um exemplo é o Faustão que num dos seus programas fez um discurso irado contra a ganância dos donos de padaria, por terem aumentado o preço do pão. De outra vez condenou a ganancia das elites que "só pensam em comprar carro importado... enfia o carro importado lá..." Mas nem por um segundo ele olhou para os milhôes que fatura, centenas de vezes mais que donos de padaria gananciosos.
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O socialismo é cria de uma grande saudade do Feudalismo. Essa "raça" quer uma sociedade hierarquizada que lhes assegure o status e o padrão material; e para isso combatem a maneira Sun Tzu, fazendo o inimigo lutar contra si mesmo, semeia a cizânia na "plebe": pobre X rico, empregado X patrão, negro X branco, consumidor X comerciante, nacional X estrageiro e etc., sempre polarizações que por fim acabam jogando todos contra todos, de onde colhem prazeirosamente seu Poder: privilégios e riqueza.
Abraços
C. Mouro

BOOTLEAD disse...

Na mosca Rodrigo!

É isso aí mesmo, veja o caso dos "petralhas", qualquer um deles, desde o mais idiota dos militantes, que claro você deve mesmo a contragosto ter que por algum motivo se relacionar com algum, não dá pra escapar. Neste caso, você já deve ter notado, que mesmo quando enrustidos de um falso "to nem aí" é tudo mentira, disfarce, pois na realidade são invejosos ao extremo e como não têm capacidade para "ser" ou "ter" aquilo que eles dizem abominar preferem mesmo é tirar e se não podem tirar, só resta destruir. Por isso veneram esta corja maldita que se apoderou do poder. Basta ver o exemplo do seu "líder mínimo", já completou um mandato e ainda não esqueceu o FHC, mandato este que o apedeuta não passou um dia sequer sem citar o nome do seu alvo de inveja, já que no caso o que ele inveja não é material, e ele não pode tirar, ou seja: a inteligência, a cultura, o "finesse", a família, os relacionamentos, etc, etc.. neste caso só lhe resta tentar destruir a qualquer custo o hospedeiro dos motivos de sua inveja, já que ele nunca vai poder "ser" igual, muito menos melhor do que o FHC.

Marcio Rosa disse...

Obrigado amigos...

continuo aprendo muito
com todos vocês.

Anônimo disse...

Realmente, todos os bens que a humanidade alcançou (saúde, tecnologia, cultura) e desfruta vem de pessoaas que olharam para dentro de si e buscaram o melhor, e todo o mau que existe na sociedade (calúnia, difamação, roubo, assalto, sequestro, assassinatos) vem de pessoas que olham para o vizinho e desejam a sua suposta felicidade (suposta porque a felicidade é relativa).

Marisol de Paula Reis disse...
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Gbrein disse...

Gostaria que voce nao fosse tao superficial em relacao as sociedades existentes em Israel.
Estou hj em Um Kibutz Shitufi(de raiz, Socialista) ate dezembro.
e apesar da privatizacao de muitos, a visao que voce coloca eh muito superficial sobre eles.
Ja que muitos deles sao fabricantes de tecnologias de ponta e de subsistencia em israel.
existem alguns como Baram, Bari, Hatzeirim, que sao totalmente socialistas e "milhonarios", pela tecnologia que vendem.
Alem disso aqui existe um grande fenomeno hj de formacao de Comunas(nao kibutz) que sao pequenas comunidades socialistas.