quinta-feira, novembro 23, 2006

Puritanismo Autoritário



Rodrigo Constantino

“Perecer, quer o vosso ser próprio, e por isso vos tornastes desprezadores do corpo!” (Nietzsche)

Muitas vezes, por trás de uma pregação de puritanismo exacerbado, encontra-se um sentimento humano bastante mesquinho, considerado por vários filósofos como um enorme vício. Após alguns malabarismos, entretanto, os pregadores tentam transformar tal vício em aparente virtude. Os verdadeiros motivadores, se expostos à luz da razão, fariam com que os bois recebessem seus verdadeiros nomes. Não são nomes bonitos.

H. L. Mencken escreveu: “Existe somente um impulso honesto no fundo do Puritanismo, e este é o impulso de punir o homem com a capacidade superior para a felicidade – trazê-lo para baixo até o nível de ‘bom’ homem, i.e., do estúpido, covarde e cronicamente infeliz”. São palavras duras e diretas, provenientes do “Nietzche americano”, mas que sem dúvida forçam uma reflexão. Algumas pessoas não sabem ou não conseguem ser felizes de verdade, ou aproveitar determinados prazeres materiais, e um forte sentimento de inveja as domina. A inveja é um sentimento poderoso e destrutivo, onde a felicidade de sua vítima não é o foco, mas sim a infelicidade do vizinho. Se este quebrar a perna, o invejoso irá vibrar, como se pudesse andar melhor agora.

Assim, pessoas que sentem dificuldade de aproveitar a vida usufruindo dos prazeres do corpo, sem que isso seja sinônimo de futilidade, vazio ou niilismo até, partem para a agressão dos costumes dos demais, tratados como vícios terríveis, pecados mortais. Tentam incutir culpa naqueles seres felizes, como se tal felicidade fosse um pecado. Vários sucumbem a tentação de defender o uso de coerção – o Estado – para impedir que os demais possam usufruir livremente desses “vícios”. Desta forma, aquele que não consegue beber apenas socialmente prega a lei seca; aquele que não consegue fumar maconha esporadicamente defende sua criminalização; aquele que não suporta a tentação da prostituta pede que sua profissão seja banida por lei; aquele que não resiste aos jogos de azar, caindo na compulsão, pede intervenção estatal; etc. Isso não quer dizer que todos aqueles que defendem tais coisas são necessariamente invejosos, mas sim que todos os que usam o puritanismo para tal fim são.

Isso para não falar dos “puritanos” apenas nas aparências – os hipócritas – que precisam defender um estilo de vida o qual são incapazes de seguir na prática, mesmo com toda a imposição moral que se impõem. Hugo Mann, o personagem de Cabeça de Negro, romance de Paulo Francis, foi no cerne da questão: “Todo carola precisa pecar feio para se arrepender; quebra a monotonia da carolice; a rotina corrompe qualquer fé”. Os “pecadores” em questão adoram pregar um ideal de vida que entra em confronto com a natureza humana, para depois martirizarem-se com seus desvios de conduta. De fato, com tanta dicotomia criada artificialmente entre corpo e alma, como se para esta ser “salva” aquele tivesse que sofrer, fica praticamente impossível atingir a felicidade. Nosso corpo, afinal, faz parte do que somos, e não é apenas uma carcaça que transporta a alma.

Se para a minha felicidade um determinado estilo de vida parece inadequado, isso não quer dizer que meu vizinho tenha que seguir a mesma receita. Contanto que meus atos não tirem a liberdade do outro, devo ser livre para ser feliz à minha maneira. Os que pedem para o Estado proibir tudo aquilo que eles mesmos não conseguem evitar voluntariamente, ignoram este princípio, e deixam a inveja falar mais alto. O sentimento é algo como ‘já que eu não posso, ninguém mais deve poder’. Talvez ninguém melhor que o próprio Nietzsche tenha detectado as causas desse puritanismo aparente: “Há uma inconsciente inveja no vesgo olhar do vosso desprezo. Não sigo o vosso caminho, ó desprezadores da vida! Não sois, para mim, ponte que leve ao super-homem. Assim falou Zaratustra”. E está falado!

13 comentários:

C. Mouro disse...

Rapaz! ...artigo simplesmente estupendo.
Penso que compreender a origem das idéias é muito mais importante para a lierdade do que enaltecer os resultados econômicos da liberdade.
Enquanto pensava-se que a defesa da eficiência econômica da liberdade seria eficiente, a camarilha safada atuava nas bases, fazendo seu catecismo safado nas escolas (todo ideológico é covarde suficiente para doutrinar criaças inocentes, incapazes de opor críticas às suas pregações ideológicas), infiltrando-se nos meios de comunicação, corrompendo artistas (até Nietzsche já havia colocado a questão da canalhice dos artistas, sempre comprados pelo Poder, e tb a questão dos jornalistas corruptos e a desinformação) e aliciando empresários safados para sua ideologia canalha (redundancia).
Ou seja, enquanto focava-se na eficiencia economica e até na religião, da qual originou-se as idéias totalitárias e socialistas, aqueles que defendiam o Poder absoluto (um novo feudalismo, com a sociedade hierarquizada, atuavam nas bases do pensamento; doutrinavam com sua lavagem cerebral até as crianças e dominavam os meios de comunicação (a Globo enriqueceu e tornou famosos os militantes socialistas, discriminando os não alnhados - e diziam ser cria da CIA, embora mais provavel do Ouro de Moscou). Enfim, a corja socialista atuava prioritariamente nas bases, propagandeava os valores ideológicos que favoreceriam as idéias socialistas de Poder totalitário (os mesmos valores religiosos - sincretismo tão comum às ideologias), fortaeciam-se como mito agregante consagrador; tomavam para si a defesa da justiça mudando-lhe o nome para "justissa social" a fim de deturpar a idéia de justiça, da mesma forma que deturparam a idéia de Direito e até confundiram a idéia de Lierdade e tc. etc. e tal. Enfim, tipos da mais abjeta covardia e desprezo ético e até moral. .....ih!
Abraços
C. Mouro

C. Mouro disse...

Enquanto os não socialistas-marxistas e até mesmo liberais se contentavam com a conquista de cargos, contentavam-se com vitórias eleitorais, a corja se infiltrava em todos os espaços para atuar nas consciências, deformando-as e aniquilando-as pela pregação insistente, obstinada e criadora de valores ideológicos para o grupo - Uma lavagem cerebral ao não permitir o debate, fazendo existir apenas uma versão a ser "bebida" pelos que não tinham meios próprios para pensar e julgar, ou demasiado preguiçosos ou meramente corrompidos pelas conveniências materiais e/ou psicológicas.
Foi assim que mais esta ideologia safada se apossou das mentes flácidas e da alma dos espertalhões.
Obs.: O aparelhamento (infiltração) almeja os pequenos cargos que acabam controlando os grandes cargos: não adianta ter generais se os soldados obedecem mesmo a lideranças externas à tropa. É assim que o PT domina todo o setor dito público ou "patrimonio do pova". Não há corrupção sem a participação ou anuencia do PT já há muito tempo. ....quem monta as provas para cargos de influência e tem obediência ideológica, até a quem lhe atribui a tarefa, pode facilmente garantir alguns cargos (de formiguinha e formigão) a militantes ideológicos ou partidários. É assim que o PT vem dominando a máquina pública, até os mais altos escalões.
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Há que se explicar mais do que meramente a eficiência economica da liberdade. Há que se atuar nas bases do pensamento. É preciso que as idéias liberais desenvolvam e difundam uma moral própria, para não sucumbir à moral quinta coluna, elaborada e difundida para que os imperadores dominassem a população na base, e não apenas pela força física.
Há ideologias para formar rebanhos ensandecidos prontos ao sacrifício e a luta, mas há ideologias que visam apenas induzir à subserviencia absoluta ante o Poder já estabelecido - que não precisa mais de guerreiros (cães) e sim de servos (ovelhas).
A arte dialética é manobrar as duas coisas numa únca ideologia safada (redundancia).
Abraços
C. Mouro

Luís Guilherme Fernandes Pereira disse...

O que me impede de continuar estendendo seu argumento:
"Aquele que não consegue viver com os próprios bens prega a ação do estado contra ladrões"
"Aquele que não consegue segurar seu impulso assassino quer criminalizar o homicídio"
até todos os crimes do código penal?

Não está clara a separação entre desejo neutro e aquele prejudicial.

Rodrigo Constantino disse...

C. Mouro, seus comentários enriquecem meu blog e me poupam muito trabalho...

Luis Guilherme, a diferença entre os casos é evidente: num deles, o fraco e invejoso pede a ação do Estado para impedir que outro faça algo que SOMENTE LHE DIZ RESPEITO, enquanto que nos seus exemplos, o sujeito pede para que o Estado DEIXE de EVITAR que as ações dos invejosos afetem sua liberdade. Simples assim.

Juliano disse...

Rodrigo, gostei de ver. É óbvio que em um país como o Brasil, liberais e conservadores devem juntar suas forças contra a insanidade comunista. Porém, não devemos fingir que somos iguais, assim arriscando perder a identidade. Devemos sempre lembrar que lutamos pela liberdade e pelo indivíduo, e que o fato de alguns se oporem ferozmente ao comunismo não os torna automaticamente amantes da liberdade.

Ronan Jimson disse...

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Luís Guilherme Fernandes Pereira disse...

Por que o uso esporádico da maconha somente me diz respeito? E os cassinos? E a bebida? Não há famílias destruídas porque um dentre eles fumou, jogou, bebeu? É claro que podemos diferenciar o exacerbo da parcimônia, mas será que isso é válido para a maconha, por exemplo? Um homem, que trata drogados em uma fazenda, disse que há casos de intoxicação irreversível pela maconha no primeiro uso. Será que isso afeta só o usuário?

Concordo contigo que o suicídio não pode ser crime, nem deve ser deixar de usar o cinto de segurança, nem se deve barrar o fumo em lugares abertos. Isso só afeta aquele que decide por fazê-lo. Mas nessas outras questões não podemos ser tão simplistas.

Até!

Rodrigo Constantino disse...

Caro Luis Guilherme,

Que a família cuide desse doente, não o Estado! E respondendo sua questão sobre a maconha: pelo que sei, não tem vício automático não. Conheço muita gente que já fumou e parou tranquilamente.

Rodrigo

C. Mouro disse...

Sobre a pretensa lógica do Guilherme, tenho a dizer que há argumentação que se origina da agitação sentimental, e que acaba por inibir a razão. Essa, então, argumentação pífia, é meramente uma verbalização da inconformidade emocional, e por tal não é fruto de reflexão sincera. Realmente foi uma infeliz argumentação, possível apenas pelo pouco cuidado ao refletir ou muita vontade de conturbar a questão, visando confundir e obscurecer para não esclarecer. (hipóteses)
Realmente o apreço pela liberdade dificulta o arrebanhamento em questões subjetivas, e a discordância é salutar. Mas quando alguém afirmando-se liberal ou libertário tende a moldar a idéia de liberdade às suas preferências particulares, ou achismos arbitrários, não está defendendo a liberdade igual para todos (esse “igual para todos” tem uma explicação que já não “guento” repetir).
Há explicações que exigem minúcias para evitar saídas pela tangente e alguns "não-entendis" convenientes.
Vejamos um exemplo bem fácil, para qualquer um, sobre a questão de se desejar que o estado, ou qq outro, impeça o próprio indivíduo de "cair em tentação" de agir, e o desejo de que o Estado, ou qq outro, impeça outro indivíduo de agir contra o indivíduo (aquele que tal deseja):

Um sujeito pode desejar que o Estado proíba o assassinato arbitrário; e com tal desejo ele está querendo garantir a si mesmo uma menor chance de ser assassinado arbitrariamente. Da mesma forma, ao desejar a proibição do roubo ele deseja diminuir a chance de ser roubado - ele é egoísta, e está pensando em si mesmo, no próprio bem estar. Por isso quer proibir certas ações contra si e, em consequência, também contra todos os demais (adendo: +/- a questão do açougueiro de Smith) - Esse foi um velho debate que tive na rede liberal, onde defendia que ética (pela lógica, coerência mental) é fruto da razão, que prevê que não se pode exigir dos outros o que não se exige de si mesmo. Pois que isso só daria certo se pregado para imbecis ou imbecilizados pela emoção que admite arbítrios de líderes que se excluem do que pregam. Lembrando ainda que uma característica dos imbecis é "prever" que todos são imbecis ou, mais propriamente, que são tão agudos quanto ele próprio.
Mas, retomando, podemos perceber o seguinte:
Um sujeito que deseja proibir, por exemplo, o "viadismo", não pode alegar estar desejando proteger-se da ação alheia, a menos que seja alguém que tenha vontade de "liberar o trazeiro”. Afinal, o fato de outros apreciarem tal coisa não implica em força-lo a algo que não queira fazer. Assim, é consistente prever que tal sujeito quer que o proíbam de praticar aquilo que julga errado. OU ENTÃO deseja apenas, em sua insegurança, ostentar para todos que ele não se dá a tais práticas – teme a desconfiança alheia. Em ambos os casos está pensando no que julga ser o próprio bem estar (o melhor para si). Sendo não só egoísta, mas, sobretudo, egocêntrico, ao desejar envolver obrigatoriamente os demais no que julga seu bem estar. Claro que sim! pois tolerar o "viadismo" alheio em nada lhe toca, em nada o obriga a tal prática indesejada.
Isso posto, a questão das drogas é semelhante. Já que o argumento de proibir as drogas para que se detenha o roubo por parte dos viciados, também valeria para se proibir a comida, o luxo, os carros e qualquer outra coisa que se pudesse adquirir em trocas espontâneas que não estejam ao alcance de todos imediatamente. Ou seja, ao estado cabe proibir o roubo, o assalto, o assassinato e etc., e não àquilo que possa induzi-los nas mentes fracas, que ambicionam por quaisquer meios. Porém, pode-se ainda argumentar que as drogas são OBJETIVAMENTE nocivas ao viciado, e assim almejar IMPOR o "bem alheio" altruísticamente. Contudo, esse "bem alheio" é SUBJETIVO se o alheio dele discorda – se concorda procurará uma clínica. E, como ele, muitos outros "bens" também são altruístas, são tão “nobres” quanto. Descamabando-se fatalmente para o COLETIVISMO, onde alguns se afirmam portadores da receita do "verdadeiro bem comum", ou da “felicidade geral”. ...definitivamente isso não é coisa de quem almeja a liberdade igual para todos, mas sim apenas a própria liberdade maior do que a de muitos dos demais – logicamente excetuando-se os que pensam da mesma forma; algo como defender a liberdade de expressão apenas para aqueles que desejam expressar aquilo com que "EU" subjetivamente concordo. Ou seja, não defende liberdade de expressão.
Quem quer proibir o que não lhe diz respeito é um egocêntrico com tendência a totalitário na medida que aceito em seus arroubos messianicos, "salvador da humanidade".
Por enquanto, creio que basta para que se entenda a questão pelo meu ponto de vista. Até argumento que me convença do contrário, imagino-me correto no que penso, como o Guilherme, penso, imaginou-se.
Enfim, não fui diferente do que já foi colocado.
Abraços
C. Mouro

C. Mouro disse...

Boa obs.:
"o fato de alguns se oporem ferozmente ao comunismo não os torna automaticamente amantes da liberdade"
.
Isso é um fato. Aliás, até mesmo "comunistas" (socialistas ou adoradores do, também mágico, deus-Estado) brigam entre si. O nazismo e o fascismo bem o demonstram. Da mesma forma o Comando vermelho e o Terceiro Comando são inimigos, mas não significa que um pratica crimes e o outro é contra tal prática.
A camarilha socialista se vale muito da confusão gerada pela pretensa lógica (eu chamo de lógica chinfrim) que também formalmente se conhece por falácia. Embora não se nomeie falácias suficvientes para cobrir todas as canalhices e imbecilidades da lógica chinfrim.
O comunismo efetivamente nunca existiu e nem existirá em strictu sensu, é apenas um pretexto de bela aparencia, mas impossível até em teoria, quanto mais na prática. É mera empulhação safada. Contudo o uso "cultural" impreciso de certos termos ajuda a causar confusão. Por isso tanto me bato quanto ao uso dos termos, inclusive considero o termo "capitalismo" uma idiotice de grande imprecisão, cujo o uso só ajuda a empulhação destes maníacos ideológicos.
Nem Marx definil o capitalismo segundo principíos morais ou norma de conduta, restringindo-se mais a criar uma fantasia para DESCREVE-LO em suposições alegadas como consequência, e que não se verificavam nem mesmo durante a vida de Marx. Ou seja, mera fantasia de tremenda imprecisão, cujo o uso prejudica a compreensão. E esta confusão foi bem vinda ao besteirol marxista.
É preciso abandonar a imprecisão dos termos para que se possa entender melhor as coisas. Isso é bastante antigo, pois até a torre de babel bem demonstra que essa confusão de termos que impede a comprrensão é estratégica.
Ocorre que os não socialistas andam sempre na rabeira, são os socialistas que impõem a pauta, eles difundem os termos imprecisos para gerar confusão, pois o debate claro lhes é desfavorável ....mas infelismente são seguidos em suas idiotices até pelos que a eles se opõem, e por tal não o atingem mortalmente. Como conseguir isso se os termos lhes são favoráveis da a imprecisão??????????
Abs
C. Mouro

C. Mouro disse...

Êpa ..
Porra! Cacete! eu escrevi "definil" , "infelismente" ...nessa eu errei mesmo, mas só vi depois de mandar, ao reler ...assim o Juliano vai empombar comigo, ...hehehe! mil perdões por meu analfabetismo! puta merda que vergonha! ...hehehe!
Abs
C. Mouro

Anônimo disse...

Rodrigo,
fantástico artigo.

barros.cynthia@yahoo.com.br

Beto disse...

magnífico...merece ser citado em meu blog.