quarta-feira, outubro 22, 2008

A Caneta Milagrosa



Rodrigo Constantino

“Como alguém pode ler história e ainda confiar nos políticos?” (Thomas Sowell)

Eu já escrevi alguns artigos mostrando como é enganosa a acusação de que a atual crise financeira tem sua raiz no livre mercado. Mostrei como o governo tem suas impressões digitais em todas as cenas do crime. Ainda assim, algumas pessoas cobram uma postura em relação às possíveis soluções. Deixando de lado o aspecto do diagnóstico então, assumindo que todos aceitaram a grande parcela de culpa do próprio governo na crise, resta questionar se as soluções para o problema se darão através da caneta estatal. Eu acredito que não, mas respeito aqueles que pensam o contrário, alegando que no momento do incêndio o mais importante é apagar o fogo. A postura pragmática que demanda mais governo pontualmente para resolver a crise tem sido adotada inclusive por alguns liberais, como a revista The Economist e muitos economistas da Escola de Chicago. Não creio que esta linha de raciocínio deva ser ridicularizada, mas pretendo mostrar que ela vem falhando. Ao que parece, o governo usa gasolina para apagar o fogo, aumentando o problema.

Antes de tudo, é preciso deixar bem claro que não apenas o governo americano, mas todos os governos têm sido hiperativos desde o começo da crise. É fundamental destacar este fato agora, enquanto estamos no meio do furacão, pois os historiadores econômicos costumam ter memória curta. A tentação de reescrever a história com um viés ideológico poderá ser irresistível para muitos. O mesmo problema faz com que a Crise de 29 receba uma interpretação falaciosa. Todos repetem sem muito conhecimento que a depressão foi causada pela inação do governo. E muitos afirmam que o mundo atual é mais interligado e conta com governos mais ativos e com mais expertise em crises. Ignoram que o Federal Reserve já tinha 16 anos de vida naquela época, e que o governo americano atuou bastante nos mercados, inclusive para favorecer países europeus em crise aguda. E depositam fé demais na sabedoria e capacidade dos burocratas, que são bastante limitadas. O fato de Ben Bernanke ter estudado a fundo a Grande Depressão não lhe dá poder milagroso para evitar uma nova crise de assustadoras proporções.

A lista de medidas adotadas pelos diferentes governos do mundo durante esta crise é tão extensa que nem caberia em um pequeno artigo. Seria preciso um livro inteiro só para apresentar as ações estatais desde o começo dos problemas maiores. Podemos mencionar algumas delas, só para dar uma idéia da magnitude da coisa. Somente o Federal Reserve, por exemplo, já criou inúmeros mecanismos para facilitar a liquidez nos mercados: Term Auction Facility; Discount Window; Primary Dealer Credit Facility; Asset Backed Commercial Paper Money Market Fund Liquidity Facility; Emergency Loans; Maiden Lane LLC (Bear Stearns Fed Facility); Foreign Term Auction Facility; e Open Market Operations Collateral. Além disso, o Fed reduziu a taxa básica de juros e passou a remunerar as reservas dos bancos em seu poder. Em termos mais simples, o Fed inundou o mercado de liquidez, num total que já ultrapassa US$ 1 trilhão.

Mas o Fed não está sozinho! Se os seus super-poderes não são suficientes, para isso existe o Tesouro. O Congresso americano aprovou um pacote de resgate no montante de US$ 700 bilhões, conhecido como TARP. O governo americano, depois de ter participado de uma operação de salvamento do Bear Stearns, assumiu o controle da Fannie Mae e Freddie Mac, as gigantes do setor imobiliário que já contavam com garantias estatais. Foi agente ativo nas operações de resgate da AIG, WaMu, e outras importantes instituições. Comprou ações preferenciais em outros bancos. Garantiu todos os depósitos bancários dos americanos, sendo que o FDIC contava com míseros US$ 45 bilhões de reserva. E muito mais que nem compensa citar, pois o big picture já está claro. Lembrando que isso tudo apenas nos Estados Unidos, cuja dívida pública ultrapassou a astronômica cifra de US$ 10 trilhões.

Mas o governo americano não está sozinho! Se os seus mega-poderes não bastam, para isso existem os demais governos do mundo. O governo da Islândia, por exemplo, nacionalizou o banco Glitnir, em dificuldades. O governo irlandês garantiu os depósitos bancários, abrindo precedente que foi logo seguido por todos os outros governos. O governo da Espanha anunciou um fundo de emergência. O governo da Inglaterra aprovou um enorme pacote de resgate dos bancos. O ECB, banco central europeu, cortou os juros em ação coordenada com o Fed e o Banco da Inglaterra. O governo da Áustria garantiu todos os depósitos e baniu a venda de ações a descoberto. Os governos das Nações Unidas aprovaram um pacote de 1,3 trilhões de euros para salvar os bancos. O governo da Suécia lançou um pacote de resgate financeiro. O Banco do Canadá cortou a taxa de juros. O governo da Holanda garantiu 200 bilhões de euros como linha de crédito.

A lista não acaba aqui, mas creio ter ficado evidente que uma coisa não pode ser repetida dessa vez: a afirmação de que a crise se agravou porque os governos nada fizeram. A ignorância não poderá justificar qualquer afirmação deste tipo. Se existe uma coisa que os governos desses países todos não merecem é a acusação de inação. Se isso é desejável ou não, são outros quinhentos, e a história dirá. Mas uma coisa é certa: tantas medidas governamentais não têm aliviado a crise até agora. Muito pelo contrário: desde que os governos iniciaram essa chuva de medidas, o cenário parece ter apenas se agravado. O índice de ações americanas S&P 500, por exemplo, tinha corrigido aproximadamente 17% desde o seu pico em 11 de outubro de 2007 até o dia 7 de setembro de 2008, data do anúncio do resgate da Fannie Mae e Freddie Mac. Desde então, em menos de dois meses, ele já caiu mais 35%. Os mercados aceleraram o derretimento após as medidas dos governos.

Vimos em outros artigos que o governo foi parte das causas da crise. Será que o governo deve ser parte da solução? Pelo visto, não. Claro que alguém sempre poderá argumentar que a situação estaria ainda pior não fossem as medidas estatais. Nunca saberemos isso com certeza. Mas tanto a boa teoria econômica como os dados empíricos levam a uma enorme desconfiança em relação a esta crença na capacidade dos governos de resolver tudo. Eu faço parte do pequeno grupo de economistas que acreditam que as ações do governo têm atrapalhado, em vez de ajudar. O governo é sem dúvida parte dos problemas, e não da solução. Se os agentes de mercado cometeram excessos, em boa parte por culpa já do próprio governo, terão que enfrentar uma fase de ajuste necessário e doloroso. O governo não pode impedir isso. Ele pode – isso sim – retardar os ajustes e ampliar o sofrimento. O governo pode transformar uma necessária recessão numa depressão. E por favor, não venham acusar novamente o livre mercado se isso acontecer!

4 comentários:

juliano disse...

Rodrigo, tudo que um governo gosta é uma situação de emergência. Vamos ver favoritismos e desfavoritismos, vamos ver arbitrariedade. Vamos ver essa situação ser explorada politicamente para fazer uma gigantesca distribuição de riqueza. Estamos vendo isso nos EUA e europa. Mas nos mercados emergentes, regidos quase autoritariamente sob uma máscara democrática, é onde poderemos ver as medidas mais destrutivas e arbitrárias. Está aí hoje o exemplo de Lula e seu grupo, fazendo uma farra de decretos emergenciais resgatando bancos menores, resgatando construtoras com os fundos da poupança, vendendo dólares para salvar empresas que especularam com o câmbio. Ao contrário de lá, aqui ninguém abrirá a boca para falar nada. Só mesmo escritores como você. Nem na oposição encontramos alguém que irá questionar essas políticas.

O exemplo dos Kirchner na Argentina é ainda mais feio. Simplesmente usaram a crise como desculpa para assaltar o cofre das pensões privadas.

Podemos esperar mais exemplos desse conforme a crise for chegando nas ruas. Além da volatilidade de mercado, teremos alto risco político. Teremos um intervencionismo desenvergonhado nos países emergentes.

Um abraço

Mauricio disse...

Mostrei como o governo tem suas impressões digitais em todas as cenas do crime.

Na verdade, você possivelmente só explicou por que a Fannie mae teria falido, niguem obrigou banco nenhum a negociar os títulos de risco como se não fossem de risco.

Jeová disse...

"Na verdade, você possivelmente só explicou por que a Fannie mae teria falido, niguem obrigou banco nenhum a negociar os títulos de risco como se não fossem de risco."

Ainda tá nisso???

Ao assunto do texto:

Eu não entendo como um liberal pode, por motivos econômicos, ser favorável a intervenção. A recessão é necessária! Ponto final!

Mauricio disse...

Depois de coisas como o PROER, eu não vejo exatamente onde vocês acham que algum político consegue alavancar a sua imagem tentando salvar banqueiro de crise.