sexta-feira, outubro 10, 2008

Remando Contra a Maré



Rodrigo Constantino

"Seja audacioso quando os outros estiverem com medo e tenha medo quando os outros forem audaciosos." (Warren Buffett)

A crise financeira continua fazendo vítimas, e claramente entrou numa fase de pânico. As ações no mundo todo, em queda livre, já perderam quase a metade de seu valor desde o pico recente. O preço das principais commodities despencou, a volatilidade disparou, os saques de fundos não param de crescer, e muitos começam a mencionar a grande depressão de 1929 como paralelo ao momento atual. Normalmente, esses momentos de desespero costumam representar bons pontos de entrada nas bolsas.

Não há garantia alguma de que as coisas vão melhorar e de que já vimos o pior dessa crise. Fazer previsões sobre o futuro financeiro é uma tarefa ingrata, e uma postura humilde diante dos mercados, com milhares de investidores profissionais atuando, se faz sempre necessária. A arrogância é uma das grandes inimigas do sucesso. Dito isso, a hora de ousar um pouco mais é justamente quando quase todos estão apavorados. Como disse o investidor Mark Mobius, na mesma linha de Buffett na frase da epígrafe, compre quando os outros estão vendendo desesperadamente e venda quando os outros estão comprando gananciosamente. Ir contra a maioria, no entanto, nunca é fácil. Exige estômago para agüentar a pressão, e sempre foi mais fácil errar em conjunto do que sozinho. Mas são as apostas contrárias ao consenso que permitem os maiores retornos, por outro lado. E como disse Max Gunther, autor de Os Axiomas de Zurique, “se o seu principal objetivo na vida é fugir das preocupações, então você nunca deixará de ser pobre”. Quem tem muito medo de perder, dificilmente irá ganhar.

O autor de The Art of Contrary Thinking, Humphrey Neill, lembra que as massas ficam mais entusiasmadas e otimistas quando deveriam estar mais cuidadosas e prudentes, e ficam mais medrosas quando deveriam estar corajosas. O especulador Michael Steinhardt, autor de No Bull, lembra que quando o mundo quer comprar apenas títulos do Tesouro americano, então podemos quase fechar os olhos e comprar ações. Vários foram os casos de sucesso no passado, de investidores que tiveram a coragem de desafiar as previsões extremistas do consenso. Claro, existem muitos casos também onde aqueles que desafiaram as visões alarmistas perderam feio. O principal motivo costuma ser um erro de timing, com apostas cedo demais. Afinal, como dizia John M. Keynes, “os mercados podem permanecer irracionais por mais tempo que você pode permanecer solvente”.

Por isso é fundamental evitar a alavancagem ou a iliquidez, já que uma venda forçada pode tirar você do jogo antes do tempo ideal. Tentar acertar exatamente o fundo do poço, sem margem para perdas maiores antes dos ganhos esperados, é uma das formas mais caras de jogatina. Os cassinos são mais baratos nesse caso. Como alertou Bernard Baruch em seu livro de memórias My Own Story, não tente comprar na mínima e vender na máxima, pois isso não pode ser feito, à exceção dos mentirosos. O uso de alavancagem através de derivativos pode ser fatal também. Warren Buffett sempre alertou para este risco, afirmando que os derivativos são como armas financeiras de destruição em massa. Como vemos agora nessa crise de credit crunch, ele estava certo uma vez mais. Quem abusava do poder de alavancagem sofreu uma dura lição.

Por fim, podemos sempre esperar o melhor, mas devemos estar preparados para o pior. O futuro é incerto, e ninguém sabe o que vai acontecer. Se os custos do fracasso de uma aposta forem altos demais, comprometendo a saúde financeira inteira do investidor, não há recompensa que justifique tal aposta. Brincar de roleta russa não é algo muito racional. Arriscar uma parte do patrimônio, especialmente quando os preços estão convidativos e o fim do mundo parece precificado nos mercados, pode fazer sentido. Mas o ideal é preservar o capital, e por isso não é desejável colocar tudo a perder. Quem deseja remar contra a maré apenas para bancar o “macho” deveria procurar ajuda no divã, não nos mercados. Mas quem assume as limitações em relação ao conhecimento do futuro, e ainda assim resolve fazer uma aposta responsável nas bolsas, focando num horizonte de mais longo prazo, pode obter um excelente retorno. Essa postura não combina com o sonho de rápido enriquecimento sem esforço algum, típico justamente das bolhas financeiras. Mas pode ser adequado quando as bolhas estouram, para quem tem tranqüilidade de remar contra a maré, sempre ciente do risco de que a maré pode ser, na verdade, um tsunami.

3 comentários:

Mateus disse...

Comprei 20 mil de PETR4 hoje, espero que tenha feito um bom negócio.

Ratoloco disse...

primeiro o pânico,depois a calmaria. sim petr4 tá bonito para entrada nos 23 e saída rápida nos 32.

Eu sou partidário no fundo de um gold rush, com os governos do mundo falando em abrir o cofre eu sei bem que o nome disso é inflação.

Muito bom o artigo, vou repassar Rodrigo.

Jeová disse...

Mateus, não sou especialista, mas acho que você deveria ter esperado pelo menos a Bovespa bater os 30.000 pontos.