terça-feira, outubro 07, 2008

O Dinheiro do Papa



Rodrigo Constantino

“O problema com o catolicismo brasileiro é que entende de menos o Mercado e reverencia demais o Estado; seu desamor aos ricos excede seu amor aos pobres.” (Roberto Campos)

A crise financeira atual chegou a um patamar tão preocupante que até o Papa resolveu dar “pitaco”. O Papa Bento XVI disse que a crise financeira global prova a futilidade da corrida para o sucesso e para o dinheiro e que a fé em Deus é melhor do que passar a vida a procurar riqueza material. Algumas pessoas mais maliciosas poderiam alegar que Sua Santidade adota uma postura oportunista, tentando angariar novas almas desesperadas para seu rebanho. Afinal, como disse Sebastien Faure, “as religiões são como pirilampos: só brilham na escuridão”. Mas talvez seja maldade comparar o Papa ao Bispo Macedo, cuja Igreja Universal costuma agir justamente feito urubu em busca de carniça, vendendo conforto aos desesperados. No entanto, é preciso ser sincero e constatar que a Igreja Católica não tem sido uma amiga muito fiel dos que pretendem sair da pobreza.

Em primeiro lugar, a incoerência do discurso do Papa frente à riqueza (bem material) que o Vaticano exala chama a atenção dos mais céticos. Quando arquitetos, artistas e colunistas milionários defendem as maravilhas socialistas do conforto de suas mansões, não temos dificuldade em detectar a hipocrisia gritante. Por que seria diferente no caso do Papa? Como não gosto de dois pesos e duas medidas, prefiro adotar um critério imparcial de julgamento. E a verdade é que parece muito fácil falar que não precisa quando se tem. Para o Papa, que vive no conforto do Vaticano, deve ser fácil desmerecer a busca pelo conforto material. Por que Sua Santidade não cede sua luxuosa residência aos que perderam suas casas especulando para sair dos casebres dos guetos? Por que a Igreja Católica, conhecida latifundiária, não cede seus terrenos para a moradia dos miseráveis? Por que não vende parte de seu ouro, agora que ele subiu de preço, para garantir abrigo e comida para os mais pobres? Pregar o altruísmo passando o chapéu para recolher recursos alheios é fácil. Assim como falar da futilidade da riqueza material quando se vive no maior conforto material.

Muitos conservadores brasileiros criticam a Teologia da Libertação, marxista até a alma, ou mesmo a CNBB, tomada por bispos esquerdistas. Mas o fato é que podemos encontrar similaridades entre a própria Igreja Católica e o socialismo. Esse ataque à riqueza material é apenas um exemplo. Na própria Bíblia temos a seguinte passagem: “A teu irmão não emprestarás com juros nem dinheiro, nem comida, nem qualquer coisa que se empreste com juros” (Deuteronômio 23:19). Ora, todos sabem que a Igreja sempre condenou a usura, e por séculos foi assim, dificultando o funcionamento do crédito entre poupadores e investidores. A ignorância sobre como o livre mercado produz riqueza de forma impessoal acaba levando a esta postura tola, que deposita tudo no altruísmo. Muito melhor seria ler Adam Smith, ao constatar em 1776 que não é da benevolência do açougueiro que temos comida, mas sim da busca de seus próprios interesses. O juro é apenas um preço de mercado, como outro qualquer, permitindo o encontro entre aqueles que possuem diferentes preferências intertemporais. Alguns poupam parte da renda, gastando menos do que ganham, e outros precisam de mais recursos do que disponibilizam. O ataque ao empréstimo com juros é o ataque à própria criação de riqueza.

Para quem ainda não se convenceu da simbiose possível entre catolicismo e socialismo, sugiro a leitura da Encíclica Populorum Progressio, escrita pelo Papa Paulo VI, antecessor de João Paulo II e que fala em nome do Vaticano. Em uma das passagens, o Papa diz que é lamentável que o sistema da sociedade tenha sido construído considerando o lucro como um motivo chave para o progresso econômico, a competição como a lei suprema da economia, e a propriedade privada dos meios de produção como um direito absoluto que não tem limites e não corresponde à “obrigação social”. Em outras palavras, o Papa lamentou que o capitalismo de livre mercado predominasse em relação ao socialismo. Os interesses coletivos, seja lá quem os define, estariam acima do direito de propriedade privada, o que torna indivíduos sacrificáveis pelo “bem comum”. O Papa ignora que, no livre mercado, o lucro é fruto do bom atendimento da demanda dos consumidores, ou seja, é o indicador de que os indivíduos, através de trocas voluntárias, estão satisfeitos. Todos sabem o que aconteceu nos países que tentaram abolir o lucro, a competição e o direito de propriedade privada. O resultado foi a miséria, a escravidão e o terror. São conseqüências inexoráveis do socialismo colocado em prática.

Como resposta ao Papa e todos os católicos que ainda condenam o dinheiro, segue uma parte do discurso de um dos personagens principais de Atlas Shrugged, famosa novela de Ayn Rand:

“Então o senhor acha que o dinheiro é a origem de todo o mal? O senhor já se perguntou qual é a origem do dinheiro? O dinheiro é um instrumento de troca, que só pode existir quando há bens produzidos e homens capazes de produzi-los. O dinheiro é a forma material do princípio de que os homens que querem negociar uns com os outros precisam trocar um valor por outro. O dinheiro não é o instrumento dos pidões, que pedem produtos por meio de lágrimas, nem dos saqueadores, que os levam à força. O dinheiro só se torna possível através dos homens que produzem. É isto que o senhor considera mau? Quem aceita dinheiro como pagamento por seu esforço só o faz por saber que ele será trocado pelo produto de esforço de outrem. Não são os pidões nem os saqueadores que dão ao dinheiro o seu valor. Nem um oceano de lágrimas nem todas as armas do mundo podem transformar aqueles pedaços de papel no seu bolso no pão de que você precisa para sobreviver. Aqueles pedaços de papel, que deveriam ser ouro, são penhores de honra; por meio deles você se apropria da energia dos homens que produzem. A sua carteira afirma a esperança de que em algum lugar no mundo a seu redor existem homens que não traem aquele princípio moral que é a origem da produção? Olhe para um gerador de eletricidade e ouse dizer que ele foi criado pelo esforço muscular de criaturas irracionais. Tente plantar um grão de trigo sem os conhecimentos que lhe foram legados pelos homens que foram os primeiros a plantar trigo. Tente obter alimentos usando apenas movimentos físicos, e descobrirá que a mente do homem é a origem de todos os produtos e de toda a riqueza que já houve na terra.”

Entre o dinheiro do Papa e o dinheiro de Ayn Rand, eu não tenho a menor dúvida de qual merece mais respeito. Quem condena a riqueza material não é amigo verdadeiro dos pobres, e sim da pobreza.

24 comentários:

Mateus disse...

Por outro lado, não se pode negar que a igreja católica foi, no século XX, voz importantíssima contra o comunismo. Ou não?!

Fernando disse...

Belo comentário, mas:

1. a Bíblia não condena a usura. O texto de Deuteronômio que você citou diz ainda no versículo 20: "[Do estrangeiro poderás exigir juros;] porém do teu irmão não os exigirás, para que o Senhor teu Deus te abençoe em tudo a que puseres a mão, na terra à qual vais para a possuíres."

2. A Bíblia também não diz que o dinheiro é a raiz de todos os males, mas que "...o [amor ao dinheiro] é raiz de todos os males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé, e se traspassaram a si mesmos com muitas dores.

Marcos disse...

Eis o "fogo amigo" que Thomas Sowell nos avisava, sendo "atirado" por Rodrigo Constantino.

Rodrigo Constantino disse...

Uai, agora não posso mais criticar a ICAR???

Ricardo disse...

Por mim como católico creio ser importante ler e ouvir críticas a minha igreja. Mas seria interessante fundamentar tas críticas com dados pois se todo o patrimônio do Vaticano fosse vendido ( zerando mesmo o ativo... ) e dividido por, digamos 4 bilhões de pessoas, isso acabaria a pobreza ? É o valor do patrimônio da ICAR a causa da pobreza e da fome ? Após zerar todo o ativo e perder sua estrutura operacional, acabaria toda injustiça social e pobreza ?? Quanto vale o patrimônio da ICAR ?? Dá quantos dólares por pessoa pobre no mundo ? Seria um trilhão de dólares (10% do pib dos USA )?? Se dividido por 4 bilhões de pessoas dá US$ 250,00 por cabeça e isso uma única vez, pois o ativo zerou. Acabou a pobreza ??

Rodrigo Constantino disse...

Ricardo, sem dúvida não acabaria com a pobreza, nem é causa da pobreza. Mas seria menos hipócrita.
Como no caso dos esquerdistas milionários que pregam o socialismo usufruindo daquilo que só o capitalismo pode oferecer.

Rodrigo

Ricardo disse...

Concordo que soaria menos hipócrita, de fato, mas meu objetivo foi contribuir com o debate de forma pragmática pois no texto são lançadas perguntas acerca do motivo pelo qual a ICAR não cede o patrimônio e riquezas para mitigar na prática problemas sociais. Um dos motivos é que não resolve mesmo a questão da pobreza. Como eu, católico, também não vou resolver se doar tudo que tenho. Mas confesso que isso me faz sentir um pouco hipócrita. Os outros são hipóteses como as que você levantou, associadas à motivações diversas. Quanto à hipocrisia da esquerda que você cita, senti na própria pele esse fato. E hoje, vivo em Angola, país que é comunista para os pobres e BEM capitalista para pouquíssimas pessoas.

Jeová disse...

"1. a Bíblia não condena a usura. O texto de Deuteronômio que você citou diz ainda no versículo 20: "[Do estrangeiro poderás exigir juros;] porém do teu irmão não os exigirás, para que o Senhor teu Deus te abençoe em tudo a que puseres a mão, na terra à qual vais para a possuíres.""

Ou seja: condena a usura de um cristão em cima de outro.

Anselmo Heidrich disse...

Irretocável, caro Rodrigo, irretocável. Este 'camarada' Ratz morreu e esqueceram de enterrar. Cada vez que abre a boca compete com Lula, mais e mais...

Mauricio Ferrão disse...

Ricardo, liberais não são contra o acúmulo de riquezas. A hipocrisia no caso da Igreja Católica é acumular riquezas ao passo que condena a acumulação de riquezas.

Fernando disse...

Jeová,

Nunca ignore um contexto, seja histórico, político, cultural, econômico, etc. Observe que o texta sagrado diz "A teu irmão não emprestarás com juros...". Irmão aqui trata-se de judeu para judeu; evangélico para evangélico, espírita para espirita, etc. Poucos praticam isso. Contudo fica a dica.

Fênix disse...

Irmão na passagem significa outro judeu (em outras palavras: irmão de sangue/ a grande maioria...)

A aversão a estrangeiros, e descrito em toda bíblia...

Quando a população era constituída em sua maioria de judeus eles se reunião numa espécime de associação para empresta dinheiro

Mauricio disse...

Cosntantino não suporta criticas ...

O cara quer mesmo discutir a biblia como se fosse um manual de economia...

Mauricio disse...

O Dawkins faz um trabalho muito melhor em desmoralizar a igreja não se sujeitando a aceitar as doutrinas dela como teorias "alternativas".

Jeová disse...

"Nunca ignore um contexto, seja histórico, político, cultural, econômico, etc. Observe que o texta sagrado diz "A teu irmão não emprestarás com juros...". Irmão aqui trata-se de judeu para judeu; evangélico para evangélico, espírita para espirita, etc. Poucos praticam isso. Contudo fica a dica."

Eu não estou ignorando contexto nenhum. Eu só estou argumentando que o Constantino estava certo ao dizer que a Bíblia condena a usura, pois ela realmente condena a usura de "irmão para irmão" - o que, de qualquer forma, ele deveria ter ressaltado.

Rodrigo Constantino disse...

Ora, mas isso está implícito. Afinal, não somos TODOS irmãos, segundo o Cristianismo?

Rodrigo

Jeová disse...

Rodrigo,

Eu não sei qual é a interpretação cristã, mas, provavelmente, "irmãos", aí, são os cristãos e judeus ou apenas os cristãos e é altamente improvável que irmãos, aí, sejam todos - já que a passagem é complementada com a afirmação de que se pode cobrar juros de estrangeiros.

Sobre a interpretação judaica, tenho certeza de que "irmãos" tem o mesmo significado de judeus.

É correto dizer que a Bíblia condena a usura - pois quem condena uma prática em determinada circunstância condena tal prática -, mas é mais preciso ressaltar que a condenação não é em todos os casos.

Ernesto Heredia Dias disse...

Há um ótimo livro "Os Judeus, o dinheiro e o Mundo" que conta a história do judaísmo e como o cristianismo originou-se a partir de uma dissidência daquele. Justamente uma das questões principais é de que no judaísmo a riqueza é uma condição a ser buscada - como forma de melhor servir a Deus, ao passo que para os cristãos é recomendável ser pobre (é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus).
No ano de 312 o imperador bizantino de nome Constantino (origem do nome da cidade de Constantinopla) converte-se ao Cristianismo. Ele restitui à sua igreja todos os bens confiscados dos judeus por seus predecessores. Está feita a fortuna da cristandade.

Ernesto Heredia Dias disse...

Há um ótimo livro "Os Judeus, o dinheiro e o Mundo" que conta a história do judaísmo e como o cristianismo originou-se a partir de uma dissidência daquele. Justamente uma das questões principais é de que no judaísmo a riqueza é uma condição a ser buscada - como forma de melhor servir a Deus, ao passo que para os cristãos é recomendável ser pobre (é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus).
No ano de 312 o imperador bizantino de nome Constantino (origem do nome da cidade de Constantinopla) converte-se ao Cristianismo. Ele restitui à sua igreja todos os bens confiscados dos judeus por seus predecessores. Está feita a fortuna da cristandade.

Thomás disse...

O texto de Deuteronômio que você citou diz ainda no versículo 20: "[Do estrangeiro poderás exigir juros;] porém do teu irmão não os exigirás, para que o Senhor teu Deus te abençoe em tudo a que puseres a mão, na terra à qual vais para a possuíres.

Independentemente da definição de "irmão", se não encontramos nessa frase uma tendência anti-capitalista, no mínimo vemos um nacionalismo intervencionista digno de nacional-desenvolvimentistas da pior espécie.

É a velha lógica estranha do "comércio de soma-zero", mas que só funciona em relação ao estrangeiro (porque, aparentemente, dentro de um mesmo país o comércio pode, sim, gerar benefícios para os dois lados).

Mas também, devemos refutar a Bíblia por um monte de outras razões mais significativas do que essa, como matar com pedradas mulheres "impuras" e companhia.
Esse livro escrito por desocupados não é guia para absolutamente nada.

Mauricio Ferrão disse...

Rodrigo, a título de curiosidade:

- Católicos e espíritas consideram todos os seres humanos como sendo "irmãos";

- Evangélicos, usam o "título" apenas para os que professam a mesma fé.

Mauricio disse...

Independentemente da definição de "irmão", se não encontramos nessa frase uma tendência anti-capitalista, no mínimo vemos um nacionalismo intervencionista digno de nacional-desenvolvimentistas da pior espécie.


O texto foi escrito a mais de 1000 anos e vocês insistem em seguir a linha do Constantino em dividir tudo entre Capitalismo x Comunismo ...

bebeto_maya disse...

A igreja fala da acumulação de riquezas pessoais e não dos ativos institucionais. Como instituição a Igreja pode usufruir de sua fortuna, pois em teoria, estaria focada na causa divina. Acho que essa foi sua gafe. Lembre-se que sacerdotes fazem voto de pobreza.

Anselmo Heidrich disse...

Mas, o papamóvel não deixa de ser uma Mercedes...