domingo, outubro 12, 2008

A Essência Deflacionária do Capitalismo



Rodrigo Constantino

"Um sujeito como Bernanke é capaz de olhar para um país como o Zimbábue e dizer: ‘Ei, pelo menos eles não estão atormentados pela deflação!’” (Lew Rockwell)

O capitalismo naturalmente leva a uma tendência de queda geral dos preços. Isso é possível graças aos ganhos de produtividade, resultado do avanço da técnica. Os homens conseguem extrair mais recursos usando menos insumos. Se antes era viável produzir certa quantidade de algum produto, e agora é possível produzir o dobro usando os mesmos recursos, a tendência é de queda no preço deste produto, assumindo o resto constante. Assim costuma funcionar a economia em seus diferentes setores. As inovações tecnológicas geram ganhos de produtividade que permitem margens maiores de lucro, mesmo com preços menores. Isso sem falar dos ganhos de escala também, já que os preços menores atraem diversos compradores, diluindo os custos fixos e aumentando o lucro.

Podemos verificar esta tendência de longo prazo em inúmeros produtos diferentes, desde commodities até produtos de alta tecnologia. Basta verificar quanto custava um computador na década de 1980, e quanto custa um notebook hoje, com muito mais capacidade e velocidade. Apesar de o produto ser bem melhor, o preço é bem menor. O mesmo vale para televisores, carros, máquinas de todo tipo etc. Nos setores mais ligados à tecnologia, onde esses ganhos de eficiência são maiores, esse processo de mais qualidade por menor preço ocorre de forma bem acelerada. Mas ele é uma realidade em todos os setores, pois essa é a própria essência capitalista, que garante o contínuo progresso. E o resultado disso seria justamente uma tendência de preços declinantes. Eu digo seria, pois isso não acontece na prática. E o motivo é a atuação do governo no setor monetário.

A globalização com seu concomitante aumento da competição, o progresso tecnológico mais acelerado que nunca, e uma rápida disseminação do conhecimento permitem ganhos extraordinários de eficiência. Nesse contexto, os preços de praticamente todos os produtos poderiam estar em queda. Mas os governos detestam a palavra “deflação”. O mandato dos bancos centrais costuma ter uma meta de inflação positiva, medida através de uma cesta de preços de produtos diferentes. Em outras palavras, se um índice de preços está aumentando cerca de 2% por ano, os governos soltam fogos de artifício. Mas por que isso? Como acabamos de ver, esses preços poderiam estar caindo 2% ao ano, ainda mais numa era de tanta inovação tecnológica e com a entrada de três bilhões de chineses e indianos no mercado de trabalho mundial. A Internet e a globalização são forças propulsoras da produtividade, jogando os preços para baixo. Mas o governo acaba agindo na contramão dessa tendência, estimulando os preços através de políticas monetárias frouxas, com baixos juros e emissão de moeda. Se a resultante for um aumento generalizado de preços na casa de “apenas” 2% ao ano, o governo cumpriu seu mandato. E o que deveria ser uma queda geral de preços acaba virando uma “pequena” inflação. Esta, afinal, é sempre um fenômeno monetário, como dizia Milton Friedman.

Por que os governos fazem isso, afinal? Parte da explicação está na rigidez dos salários. Como qualquer outro preço, o salário depende da oferta e demanda. Todo economista admite que manter o preço de um produto qualquer acima do valor que iria atender toda a demanda existente, acaba gerando estoque de excedentes não vendidos. Basta pensar numa empresa que vende computador. Se seu preço está acima daquele que permite uma demanda pela totalidade da quantidade ofertada, a empresa ficará com um estoque dos produtos não vendidos. A única forma de ela eliminar esse estoque, assumindo o resto constante, seria reduzir o preço até atender a demanda toda. Trata-se de uma lógica simples de economia. No entanto, quando se trata do salário, alguns economistas ficam relutantes em admitir a mesma lógica. Mas ela existe para todos os bens e serviços, incluindo o trabalho. No livre mercado, o salário se ajusta até o patamar em que não existe mais desemprego involuntário. Qualquer um que deseja trabalhar irá encontrar um emprego, e o preço irá depender da oferta e da demanda apenas. Mas os governos não permitem isso, intervindo no mercado de trabalho através de mecanismos que tornam o salário mais rígido e artificialmente elevado.

Ora, se há uma tendência natural de queda dos preços, mas um dos importantes insumos não pode se ajustar livremente, então as empresas correm sérios riscos de perda da margem de lucro. Se há uma deflação e as empresas ficam impedidas de fazer tais ajustes nos salários, isso pode agravar a situação e gerar recessão. Como é impopular para os governos a queda dos salários nominais, mesmo que o poder de compra não seja afetado por causa da queda dos demais produtos, então a saída é inflacionar. Ou seja, os salários nominais ficam mantidos constantes, os mais pobres ficam contentes, mas os demais preços sobem. O resultado é perda real do poder de compra, mas a ignorância popular ofusca esta realidade por um tempo. Os trabalhadores são literalmente ludibriados pela política monetária do governo.

A busca por uma “estabilidade” de preços é altamente perigosa quando os preços estão em tendência de queda, e é justamente nesses momentos que a demanda pela estabilização fica mais popular. A possibilidade de uma deflação, ainda que um resultado natural do capitalismo, sempre assusta os políticos. O salário, como vimos, é parte da explicação. O crédito é outra parte. O devedor assume uma dívida em determinado valor nominal, e se ocorre queda geral de preços, sua dívida fica maior. A inflação é também, portanto, uma política que transfere renda dos poupadores para os devedores. Em uma economia alavancada, que funciona na base de muito crédito, há pressão dos grupos de interesse por um pouco de inflação, já que a deflação poderia ser fatal para alguns devedores, ainda que benéfica para os poupadores.

Uma terceira parte da explicação dos motivos de uma política inflacionária encontra-se no desejo de controle da atividade econômica por parte dos governos. O governo teme ficar sem instrumentos que possam estimular a economia se esta entrar numa fase de ajuste necessário, porém impopular, após um período de excesso de investimentos ruins. Para evitar a qualquer custo um nível declinante de atividade, normal depois de uma fase de pujança, o governo acaba criando inflação. Afinal, nunca é vantajoso para o governante que o seu mandato seja aquele de ajuste necessário. Para ele, é interessante estimular artificialmente a economia, jogando o ajuste necessário para frente, para o colo do outro governo. É a famosa analogia do bêbado que cometeu excessos e precisa passar por uma ressaca para os ajustes do organismo. Buscando evitar tal ajuste, o governo injeta mais liquidez, postergando a ressaca. Mas isso tem um elevado custo, que pode ser uma ressaca bem maior depois, ou mesmo uma cirrose.

A união de uma revolução tecnológica muito importante, com essa postura inflacionária dos governos, pode ser explosiva. Soma-se a isso a natural ganância dos indivíduos, e temos uma receita quase certa para a formação de uma bolha especulativa. O enorme ganho de produtividade proveniente das mudanças tecnológicas estimula uma queda nos preços, e isso permite uma política monetária bem expansionista. Uma bolha acaba nascendo desse casamento, e um dia a conta chega, cobrando pesados juros. André Jakurski, na “orelha” do livro Manias, Pânicos e Crashes, de Charles Kindleberger, faz um excelente resumo dessa seqüência:

"Muitas bolhas são causadas quando, durante um longo período de baixa inflação, os bancos centrais injetam grande liquidez nas economias. Essa liquidez, sem utilização imediata na economia real, é atraída para os ativos financeiros ou até imóveis, causando uma forma diferente de inflação: a dos preços desses ativos. Como, em princípio, os mandatos dos bancos centrais são os de manter sob controle a inflação de bens e serviços e esta de fato não se manifesta, cria-se um ambiente de extremo otimismo e confiança na perpetuação da prosperidade, estimulando a ganância e a especulação. Nessas circunstâncias, pressões competitivas tornam as instituições financeiras mais liberais na extensão de crédito, mesmo para negócios que dependem do boom econômico para a sua sobrevivência. A revolução tecnológica excita as mentes, criando a justificativa palpável para a extrema valorização dos ativos. A alavancagem financeira entra em cena. Os ingredientes necessários para uma súbita reversão das expectativas estão presentes".

Em resumo, muitas bolhas são criadas porque não se aceita a essência deflacionária do capitalismo. Excessos cometidos pela “exuberância irracional” sempre ocorrerão, especialmente em tempos de mudanças tecnológicas radicais. Mas eles não precisam se transformar necessariamente em bolhas que colocam em risco toda a economia. Os ciclos econômicos acabam bem mais voláteis por conta da hiperatividade dos governos e seus bancos centrais, que fogem da queda geral dos preços como o diabo foge da cruz. Ora, se o governo não aceita de forma alguma a deflação, e se ele concentra o poder monetário em suas mãos, nada mais normal do que um cenário de pressão inflacionária quase constante. Quando alguma grande inovação tecnológica oculta esta realidade por um tempo, temos os ingredientes para uma bolha especulativa. O resultado pode ser o pior possível: o somatório de uma recessão com um quadro inflacionário, i.e., a famosa estagflação. O ideal seria o governo deixar as forças capitalistas atuarem em paz, permitindo a continuidade da tendência deflacionária natural do sistema de livre mercado.

4 comentários:

Alex disse...

Caro Constantino, excelente o seu artigo, gostaria somente de apontar que quando o dinheiro corrente é criado através de dívida, o problema do contrato impossível se torna presente. Ou seja, quando dá criação do dinheiro não existe simultaneamente a criação do dinheiro para o pagamento dos juros devidos, assim a necessidade de se ter a economia sempre em expansão.

Veja o video Money Changers no Youtube.

Vitor disse...

Muito bom.
Acho que voce deveria dar aula em universidade. Pelo menos assim seria uma sementinha de esperanca nas proximas geracoes.
Abs e continue com o excelente trabalho.

Mauricio disse...

Po, vc fala de manter o bom humor mas apagou o Link que coloquei para o He-Man falando !!

E olha que você concorda com o que ele falou !!

Johnny disse...

Como sempre textos com pontos de vistas muito interessantes. Parabéns.