sexta-feira, abril 16, 2010

As armadilhas da "contabilidade mental" para o investidor

Rodrigo Constantino, Jornal Valor Econômico

"Sempre pense no seu ponto de entrada como o fechamento da noite anterior." (Paul Tudor Jones)

Se alguém vai ao cinema e, no momento de comprar o ingresso percebe ter perdido o dinheiro que estava no bolso, provavelmente irá comprá-lo assim mesmo, usando alguma outra fonte (talvez pegando emprestado).

No entanto, se esta mesma pessoa já havia comprado o ingresso e descobre que o perdeu dificilmente irá comprá-lo uma segunda vez. Em ambos os casos o custo para ver o filme seria o mesmo: o dobro do normal. O que mudou de um caso para o outro, então?

Dinheiro não tem carimbo. Trata-se de um meio de troca válido para obter qualquer produto demandado. Todavia, no momento em que "carimbamos" aquele dinheiro, comprando algum ativo específico, realizamos uma espécie de "contabilidade mental", registrando a operação em um balancete no cérebro.

É justamente isso que ocorre quando o ingresso do cinema já foi comprado. Ao verificar que ele foi perdido, comprar um novo ingresso significaria registrar mentalmente o dobro do preço normal para aquele bem. O filme parece caro de repente.

Por outro lado, tendo perdido o dinheiro ainda não carimbado, a pessoa não associa que a compra do ingresso custa o dobro. Para ela, o dinheiro perdido servia para inúmeras coisas, e não necessariamente era o dinheiro do ingresso. Não havia ainda um registro contábil na mente.

Essa percepção foi chamada de "mental accounting" pelo economista de Chicago Richard Thaler, na tentativa de descrever o processo de categorizar e agrupar resultados econômicos em diferentes contas na mente.

A aplicação desse conceito pode ser útil no campo dos investimentos também. Muita gente compra ações e carimba aquele dinheiro, gravando na memória o preço pago pelo ativo. Com as oscilações de preço, o investidor então começa a analisar seu desempenho e tomar medidas sempre com base naquele preço antigo pago no momento da compra.

Essa postura pode ser bastante perigosa, principalmente em mercados com tendência de baixa. Quando o preço da ação começa a cair em queda livre, o investidor fica paralisado, e evita vender porque espera recuperar o prejuízo.

Ele está decidindo o que fazer com base na memória do preço de entrada, e não se concentrando no que deve ocorrer com o ativo em si. Entretanto, os mercados não ligam para o seu preço de compra. O racional não é fazer contas de quanto falta para recuperar as perdas passadas, e sim refletir sobre qual deve ser a tendência do ativo agora, independente dos seus registros contábeis.

O que importa não é o passado, mas o que está por vir. Saber reconhecer erros e realizar prejuízos é fundamental para a sobrevivência nos mercados. Tomar decisões emocionais, se negando a vender apenas porque isso significaria assumir um erro, pode ser o caminho mais rápido para a bancarrota. O ego não deve ficar acima da razão.

O preço pago pela ação é totalmente irrelevante para a decisão de quando vendê-la. Tal medida deve levar em conta apenas as expectativas em relação ao futuro da ação. Afinal, o dinheiro da compra das ações pode ter sido "carimbado" na memória, mas deve-se lembrar sempre que os ativos podem ser transformados novamente em dinheiro "sem carimbo" a qualquer momento, principalmente em se tratando de ativos com alta liquidez.

O apego emocional ao preço de entrada na ação deve ser evitado a todo custo. O preço de entrada é sempre o atual. E o relevante é para onde deve ir esse preço de agora em diante.

Para concluir, acrescento outro exemplo de "mental accounting" para reforçar a mensagem. Um jogador que ganha R$ 500 na roleta de um cassino tende a continuar jogando e colocando o dinheiro todo no risco, mesmo que antes ele não estivesse disposto a arriscar a mesma quantia do próprio bolso.

Isso ocorre porque ele não considera esse dinheiro como sendo seu ainda. Não houve um registro mental, pois ele está usando apenas seu lucro em fichas. Acontece que o lucro não realizado poderia ser transformado a qualquer momento em dinheiro.

Na prática, o resultado objetivo é exatamente o mesmo, ainda que o jogador possa se sentir diferente. O mesmo ocorre com todos os investidores que não sentem estar perdendo dinheiro na baixa apenas porque estão entregando lucros "não realizados". Um mecanismo razoável de proteção contra este auto-engano pode ser uma constante marcação a mercado dos ativos. Nunca é demais repetir: não importa o preço de antes; apenas o esperado para o futuro. O que passou, passou!

5 comentários:

Anônimo disse...

Grande artigo. Eu mesmo já passei por isso várias vezes quando tentava operar na bolsa.

O que vc colocou é apenas uma das várias razões que fazem do trading uma das atividades mais difícies do mundo, em termos de fortitude mental.

Creio que 1% da população estaria preparada para enfrentar a mudança de atitude mental que esta atividade exige.

Todo bom trader é meio louco, não costuma seguir padrões considerados "normais".

A maioria quer a segurança do rebanho, e o trader tem a coragem de estar sozinho, as vezes se sentindo estúpido.

Operar exige uma compreensão diferente do mundo, e um abandono do "ego" tão precioso aos simples mortais.

ntsr disse...

'No entanto, se esta mesma pessoa já havia comprado o ingresso e descobre que o perdeu dificilmente irá comprá-lo uma segunda vez.'

Pq não? Eu compraria e sinceramente, não consegui ver a diferença entre os dois casos

lingvo-shatanto disse...

Se o seguidores de seu Blog tiverem seguido seu conselho, Rodrigo, e porque a Bolsa caiu este mês mais de 3% (claro pode cair mais, ou não, como diria Caetano) e tiverem se desfeito de suas aplicações em bolsa, tiveram um baita do prejuízo.

Acho que o velho conselho ainda continua válido: de não colocar todos os ovos num mesmo cesto, de comprar na baixa e vender na alta, e ter paciência para esperar a maré alta voltar, sem esquecer de investir, ou melhor jogar no cassino (pois bolsa não é mais do que isso, mera loteria, onde a sorte - ou o azar - é fator preponderante), somente aquela parte de seus haveres que vc. está disposto a perder e a deixar sair pelo ralo...

De qualquer modo se vc. investir em ações de empresas sólidas e de tradição no mercado, mesmo que o valor de suas ações aparentemente sumam no espaço, os ativos da empresa estão e seus valores não são determinados pelos valores das ações, mas pelo valor da produção que a dita empresa tem condições de colocar no mercado, aí puramente mercantil, se ser comprada.

So não investa nessas empresas que prometem lucros astronômicos na bolsa mas a qualquer momento podem falir, pois aí, seus ativos vão mesmo para o beleléu.

José Carneiro da Cunha disse...

Artigo bacana.

Esse tipo de fenômeno tem sido muito estudado pelo pessoal de Behavioural.

Mesmo achando essa literatura legal e com grandes contribuições, acho que muitas vezes eles batem na HME injustamente.

abs

José Carneiro da Cunha

Mateus disse...

Esse "mental accounting" realmente é terrível, digo isso por mim, que infelizmente, em vários momentos na minha empresa me pego pensando desse jeito, especialmente quando sofro prejuízos.

Esse mês então como me atormentou esse pensamento, mas como diz você, o que passou passou, não adianta ficar pensando em um dinheiro "carimbado" na memória, especialmente em projeções de lucro quando o material que eu vendo sofre oscilações de preço por conta do dolar, então como diriam os italianos - "lascia a perdere", i.e "deixa pra lá", bola pra frente, que quem vive de passado é museu!