terça-feira, janeiro 30, 2007

Diferenças Gritantes



Rodrigo Constantino

Analisar o mercado financeiro do Brasil e dos Estados Unidos por dentro é interessante para se concluir coisas importantes, e lamentar como nosso país está atrasado em termos gerais. Enquanto no Brasil ainda se tem a imagem de cassino da bolsa de valores, nos Estados Unidos este veículo é utilizado para a captação de recursos para inúmeras empresas, estimulando o empreendedorismo e a criação de riqueza e empregos. Fora isso, a divisão setorial dá um bom retrato do nosso atraso, mostrando como estamos distantes da era do capital intelectual.

Utilizei como fonte a Economática, incluindo sua própria definição setorial. Até a data de hoje, o valor de mercado das milhares de empresas americanas com o capital aberto chega a US$ 12 trilhões, enquanto as empresas brasileiras não chegam a US$ 700 bilhões. Em relação ao PIB, vemos que os Estados Unidos possuem um mercado de capitais bem mais desenvolvido. O maior setor, em ambos os países, é o de finanças e seguros. Tal setor tem um valor de mercado acima de US$ 3,3 trilhões nos Estados Unidos, e US$ 150 bilhões no Brasil. Ou seja, este setor é algo como 20 vezes maior nos Estados Unidos. Isso para não falar que lá existem centenas de bancos e seguradoras privadas, enquanto no Brasil são apenas poucas empresas, que cabem em uma mão, considerando ainda que uma dessas é o Banco do Brasil, que é estatal. Enquanto isso, os brasileiros ficam repetindo que banqueiros são ladrões e culpados pelos elevados juros. Os americanos sabem melhor o quão importante é este setor no século XXI.

O setor de comércio possui um valor de mercado acima de US$ 1 trilhão nos Estados Unidos, e conta com uma variedade incrível de empresas. No Brasil, este setor representa apenas 3% do valor total em bolsa, ou um terço da participação americana, e meia dúzia de empresas dominam a cena. Em contrapartida, o setor de energia elétrica no Brasil, predominantemente estatal, responde por 10% do valor total, contra apenas 3% nos Estados Unidos.

Nos Estados Unidos, o setor de fundos tem um valor de mercado superior a US$ 350 bilhões, mais que o dobro do nosso setor de finanças e seguros. Na bolsa brasileira não existem representantes deste importante e crescente setor, cujos participantes são normalmente tachados de especuladores, com tom claramente pejorativo.

A velha economia tem mais peso relativo no Brasil. O setor de mineração, por exemplo, representa 12% do total no Brasil, com uma única empresa, a CVRD, respondendo por quase todo este valor. Nos Estados Unidos o mesmo setor tem apenas 3% do valor total das empresas. Com papel e celulose ocorre o mesmo, representando 3% no Brasil e apenas 1% nos Estados Unidos. Em petróleo e gás, o Brasil tem 16% do valor das empresas, contra 11% nos Estados Unidos. E há um enorme agravante aqui: a Petrobrás, uma empresa de controle estatal, responde sozinha por quase todo este valor, enquanto nos Estados Unidos existem dezenas de empresas privadas competindo. Mas só de mencionar a desejável privatização da Petrobrás alguém pode apanhar em nosso país, e com certeza será acusado de “entreguista”.

Uma das diferenças mais chocantes está no setor de química, que representa 15% do total americano contra somente 2% no Brasil. Para piorar a situação, a Braskem é o destaque brasileiro, enquanto nos Estados Unidos o grosso desse setor está nas mãos de laboratórios farmacêuticos. Enquanto no Brasil o falso dilema de “lucro ou vidas” é enaltecido, e a quebra de patentes é demandada e comemorada, nos Estados Unidos a busca pelos lucros é vista como um excelente meio de salvar vidas. Os laboratórios valem bilhões, lucram bilhões, e entregam em troca inúmeros remédios que reduzem o sofrimento das pessoas ou salvam suas vidas.

Por fim, a diferença mais gritante de todas está no setor de software, com um valor de cerca de US$ 1 trilhão nos Estados Unidos, com quase uma centena de empresas negociadas em bolsa, enquanto no Brasil este setor praticamente não existe. Em plena era do capital intelectual, o Brasil quer disputar os mercados mundiais com o petróleo de uma estatal. Enquanto isso, o valor de mercado da Google, sozinha, já é 50% maior que o da Petrobrás.

Não dá para negar que o mercado financeiro brasileiro tem avançado bastante, com melhoria na governança corporativa, com a abertura de capital de novas empresas em novos setores e com a maior participação dos investidores pessoa física, que começam a perceber que bolsa não é sinônimo de jogatina. Mas ainda temos muito para progredir. Não apenas no mercado financeiro, que é um reflexo da economia geral, mas na própria economia em si. O Brasil precisa se tornar um país com ambiente mais amigável aos negócios, com menos burocracia e impostos, com império das leis, com agências reguladoras independentes, com um Banco Central independente, com maior abertura comercial e com leis trabalhistas mais flexíveis. Em resumo, com menor interferência estatal na economia.

Dizem que o “caminho do meio” é sempre bom. Será que é mesmo desejável ser meio íntegro e meio desonesto, ou meio inteligente e meio burro? O Brasil precisa sair desse meio termo entre capitalismo e socialismo. A parte podre está prejudicando demais a parte boa. O Brasil precisa de reformas liberais, que tornem o país verdadeiramente capitalista. Aí sim, o mercado financeiro será um reflexo disso, com diversas empresas de diversos setores levantando capital mais barato para seus investimentos produtivos, gerando riqueza e empregos para a nação. Até lá, teremos que conviver com essas diferenças gritantes entre Brasil e Estados Unidos, usando o sucesso deles como bode expiatório para nossos males.

10 comentários:

Anônimo disse...

Com juros reais de dois dígitos, quem é louco de investir em empresas no Brasil?

Anônimo disse...

É uma tristeza quando se compara, mas vamos lá:

Eu morei quase 3 anos nos EUA como imigrante ilegal e voltei ao Brasil em 2002. Paguei imposto de renda nos EUA nos anos fiscais 2000 e 2001, sendo que como sabem Bush foi eleito em 2001. Pois bem, eu recebi em Fevereiro de 2002, aqui no Brasil, um cheque de US$ 300 que TODOS os cidadãos americanos pagadores de impostos receberam (leiam de novo a minha situação: imigrante ILEGAL), fora as restituições da receita americana pois eu, ganhando em torno de USD 13.000 por ano (cerca de R$ 2.300 ao câmbio de hoje, por mês), era considerado pobre.

Minha vida desde 2002 foi difícil, mas mesmo assim eu consegui melhorar de vida no Brasil e pertencer hoje à classe média, ter carro zero e uma casa legal, ou seja, aproximadamente o mesmo padrão de vida que tinha lá em 1 ano de América.

Resumo, para não se alongar: preciso de 5 anos no Brasil, com sorte, para conseguir o mesmo que em um ano nos EUA.

Eu poderia falar que pagava USD 17/mès pelo telefone e falava a vontade e que enchia o tanque com pouco mais de USD 20, além de ter serviços que os brasileiros nem imaginavam na época e pagando uma titica, mas isso fica para depois..

Enfim, estou indo embora. Não para a Amperica, mas para a Austrália.. perdi, depois de 5 anos, a fé no futuro do Brasil, e olha que tenho uma vida até boa comparada à maioria do nosso povo.

Tenho carro, e tenho medo de que me roubem. Tenho casa, mas tenho grades para me proteger. Tenho ruas, e tenho medo de andar nelas. Não tenho filhos, pois tenho medo de perde-los para a violência.

É foda!!! (Perdão, mas só dizendo assim mesmo).. enquanto eu só quero o direito de viver em paz e com prosperidade, "nunca na história desse país" se discutiu tanta bobagem como PACs e como devemos ajudar os pobres bolivianos..

Anônimo disse...

É uma tristeza quando se compara, mas vamos lá:

Eu morei quase 3 anos nos EUA como imigrante ilegal e voltei ao Brasil em 2002. Paguei imposto de renda nos EUA nos anos fiscais 2000 e 2001, sendo que como sabem Bush foi eleito em 2001. Pois bem, eu recebi em Fevereiro de 2002, aqui no Brasil, um cheque de US$ 300 que TODOS os cidadãos americanos pagadores de impostos receberam (leiam de novo a minha situação: imigrante ILEGAL), fora as restituições da receita americana pois eu, ganhando em torno de USD 13.000 por ano (cerca de R$ 2.300 ao câmbio de hoje, por mês), era considerado pobre.

Minha vida desde 2002 foi difícil, mas mesmo assim eu consegui melhorar de vida no Brasil e pertencer hoje à classe média, ter carro zero e uma casa legal, ou seja, aproximadamente o mesmo padrão de vida que tinha lá em 1 ano de América.

Resumo, para não se alongar: preciso de 5 anos no Brasil, com sorte, para conseguir o mesmo que em um ano nos EUA.

Eu poderia falar que pagava USD 17/mès pelo telefone e falava a vontade e que enchia o tanque com pouco mais de USD 20, além de ter serviços que os brasileiros nem imaginavam na época e pagando uma titica, mas isso fica para depois..

Enfim, estou indo embora. Não para a Amperica, mas para a Austrália.. perdi, depois de 5 anos, a fé no futuro do Brasil, e olha que tenho uma vida até boa comparada à maioria do nosso povo.

Tenho carro, e tenho medo de que me roubem. Tenho casa, mas tenho grades para me proteger. Tenho ruas, e tenho medo de andar nelas. Não tenho filhos, pois tenho medo de perde-los para a violência.

É foda!!! (Perdão, mas só dizendo assim mesmo).. enquanto eu só quero o direito de viver em paz e com prosperidade, "nunca na história desse país" se discutiu tanta bobagem como PACs e como devemos ajudar os pobres bolivianos..

C. Mouro disse...

O grande problema, e não só no BR, é que as populações ainda "enxergam" a organização estatal (Estado) como uma entidade mistica, um ser mágico ao qual se deve pedir para conseguir. Certamente que dando "algo em troca" (isto está na mente) pelo que deseja, e o culto, a adoração subserviente é a forma mais banal de atender à entidades mágicas.
Assim, tal qual como com o "bezerro de ouro" as massas ainda cultuam o Estado como uma entidade mistica, provedora, capaz de solucionar todos os problemas que afligem (materiais e psicologicos); também como fonte da moral, da "justa justiça" (justiça social). De forma que se o governo estabelece "direitos" para privilegiar esse ou aquele, imediatamente os parasitas bradam "é meu direito", quando é apenas uma ordem que o governo dá para uns atenderem outros (escravidão).
A maioria das leis são apenas ordens discricionárias e não leis iguais para todos.

Seria necessário entender que o Estado é apenas uma organização (uma empresa) prestadora de serviçõs à população e não uma entidade superior, suprema, que deve gerir a vida do tal povo - como pecuaristas gerenciam a vida da boiada.
Nada mudou muito, apenas agora os reis, soberanos, são eleitos ou impostos pela força. A corte de privilegiados também persiste.
Enfim, se entende o governo como uma entidade suprema, um mito, almejando-se apenas que os intermediarios obtenham os favores deste mito, bastando que tenham "vontade política" para faze-lo prover o "bem comum".
O Estado é entendido como um deus, e deve ser cultuado. ...é o "bezerro de ouro" dos novos tempos.

Abs
C. Mouro

Kleber Eduardo Men disse...

Sou estudante de História e trabalho como editor de jornalismo numa universidade particular. Quando se falamos em privatizações, principalmente da Petrobrás, notamos que dentro da sala de aula somos vistos como idiotas e ignorante. Se um cara defende Marx, Engels, Trotski, Lenin, ou coisa parecida, ele é culto e inteligente, mas se a pessoa fala em discurso liberal com uma posição menos ideológica, porém pragmática, somo taxados de idiotas, burros e defendemos o "Império Norte Americano". E tem mais, as coisas pioram quando além de liberal, o cara é pobre, vindo da classe média baixa como eu. O problema do Brasil é que pobre tem de ser pobre e a nossa cultura ajuda a perpetuar essa ideologia. Mas, seu comentário exemplifica um pouco do que nos deixa bem pobre mesmo.

Anônimo disse...

Eu trabalho na Califórnia, no tal Vale do Silício. Fui transferido pela minha empresa e não tem um dia em que eu não me pergunto se eu não estaria melhor no Brasil.

Você tem um carro muito melhor aqui, todos aqueles eletrônicos, mas dá para se ter a certeza, todo dia, de que a troca do Brasil pelos EUA tem algumas desvantagens animais: comida, parentes, fazer amigos, sair à noite, o clima tropical (e isto é animal, aqui quando faz frio é f..., e estamos falando da Califórnia), ter de falar outro idioma o tempo todo (e não adianta, cara, vc pode ser um gênio lingüístico q tem uma diferença dificilmente transponível com relação ao falante nativo).

Na média, aqueles 13.000 USD compram nos EUA perto do mesmo que 13.000 reais no Brasil, a não ser que você só gaste o salário com carros e eletrônicos, que são mais baratos. Por outro lado, os serviços, a moradia e a alimentação são muito mais caros. Eu acho que isto quase empata para uma vida de classe média típica de uma cidade como o Rio ou SP.

Alugar um apto. de 1 quarto sai por, no mínimo dos mínimos, 400 dólares por mês, provavelmente dividindo com alguém. Se você tiver uma família, custa mais de US$1.000. Em São Francisco, US$2.000.


2 libras de carne custam US$5.00, por baixo (910 gramas). Um belo New York Steak custa mais, coisa de 10 dólares a libra.

1 almoço na rua dos piores custa US$3.50 (Wendy's). Normalmente, sai entre US$5.00 a US$12, bem por baixo. Em um restaurante, o céu é o limite.

Um aparelho de DVD custa US$30.00, e um Corolla com 7 anos de uso sai por uns US$4000.00. Não dá 100 dólares por mês de parcela e mais uns 500 por ano de taxas + manutenção. Um defeito mais sério justifica vender pro ferro-velho e comprar outro.

A mensalidade da AT&T está 15. Com a Vonage, paga-se 20.00 para falar em todo território dos EUA.

Uma mensalidade de telefone celular da Cingular sai uns outros 25.00

Cabo básico está 40.00.

Então o pacote básico da vida nos EUA sai perto de US$1000 por mês, apertado pacas.

Você PRECISA ter um plano de saúde, ou o nível de atendimento é o de um "John Doe", um indigente, marginalmente melhor que o do SUS, se tanto. Uma ida a um ER (pronto-socorro) por uma razão à toa, pode custar mais de US$3.000 (se o seu filho cai no chão e resolvem tirar algumas chapas, por exemplo).

O orçamento de US$1.000 não costumam dar para o plano de saúde, então ou a sua empresa lhe dá um (às vezes acontece) ou você conta com a sorte e com o benefício de ser jovem e quase nunca adoecer.


Entendo que este "pacote" seja muito bom para alguém que não consegue isto no Brasil e vá tentar a sorte por aqui, normalmente com sucesso aliás (brasileiro se vira muito bem, todos sabemos) mas não dá para acreditar que isto seja uma vida de classe média, porque não é.

E é isto um negócio que tem muita gente que não percebe.

Não sei se é o caso de quem comentou acima, mas tem gente que fez curso universitário, que tinha emprego no Brasil e que vem aqui lavar prato, entregar pizza, vive uma vida de pobreza e acha muito bom porque consegue comprar um Corolla 99.

No final, vc tem que ganhar o dinheiro para ter uma vida decente aqui. É mais fácil, na média, ganhá-lo aqui mas, se vc já ganha, elas por elas, pau a pau, por exemplo, como um economista ou um motorista de táxi, aqui ou no Brasil, é legítimo pensar duas vezes sobre em que país se instalar, muito mais do que a intuição comum pode fazer a gente crer, e é isso que a minha experiência ensinou.

Mario disse...

"Enquanto no Brasil o falso dilema de “lucro ou vidas” é enaltecido, e a quebra de patentes é demandada e comemorada, nos Estados Unidos a busca pelos lucros é vista como um excelente meio de salvar vidas."

É preciso ser muito canalha (é o caso do Brasil) para quebrar patentes. Isto é pura pirataria! Ninguém (principalmente, os capitalistas) é idiota para enfiar os lucros no colchão. O lucro é o "sangue novo" para novas pesquisas. A quebra de patentes dos medicamentos anti-AIDS, promovida pelo Brasil, provocaram o encerramento das pesquisas, até onde sei, em pelo menos 28 laboratórios dos EEUU.

Fabio Braga disse...

Eu fiquei em dúvida com uma coisa sobre o caso dos anônimos acima:

O primeiro anônimo frisou que era imigrante ilegal e por isso, acredito eu, ganhava menos que um imigrante legal.

O segundo anônimo, pelo que indicou, é um transferido logo legalizado.

Os salários são iguais, ou seja, $1.000 por mês, ou o anônimo do vale do silício está ganhando abaixo da média?

Eu fiz intercâmbio nos EUA e o pai da família, com 2o grau completo e trabalhando numa fábrica, ganhava em torno de USD 50.000 por ano, pelo que me disse. Ele tinha 45 anos na época, e tinha uma casa grande, 3 carros sendo 2 zero e um barquinho. Vivia beeem melhor do que a média no Brasil e se dizia classe média.

Anônimo disse...

Só me limitei a dizer que esta grana (1.000 por mês) mal dá para o pacote básico da vida nos EUA. Não disse nada sobre o quanto eu ganho ou deixo de ganhar.

50.000 hoje, na maioria dos EUA, é um salário modesto de classe média. A maior diferença é que tem muito mais classe média aqui.

Mario disse...

Não por acaso, recebi de uma das minhas amigas lá do norte:

"In the first place, we should insist that if the immigrant who comes here in good faith becomes an American and assimilates himself to us, he shall be treated on an exact equality with everyone else, for it is an outrage to discriminate against any such man because of creed, or birthplace, or origin. But this is predicated upon the person's becoming in every facet an American, and nothing but an American...There can be no divided allegiance here. Any man who says he is an American, but something else also, isn't an American at all. We have room for but one flag, the American flag... We have room for but one language here, and that is the English language... and we have room for but one sole loyalty and that is a loyalty to the American people." Theodore Roosevelt, em 1907

Na minha opinião, este é um dos fatores que explicam a grandeza daquele país, em (quase) tudo só pode ser conquistado com muito trabalho e, não, via bolsas-isso ou aquilo.

Observe-se que, guardadas as proporções, explica o desenvolvimento de SP para o Sul, aqui no Brasil, onde se concentram as maiores colônias de imigrantes (pertenço a uma delas, com orgulho).