quinta-feira, janeiro 25, 2007

Massa de Ressentidos



Rodrigo Constantino

"The mass never comes up to the standard of its best member, but on the contrary degrades itself to a level with the lowest." (Henry David Thoreau)

No seu livro sobre as multidões, Gustave Le Bon tenta definir o que seria uma massa de pessoas, sob o ponto de vista psicológico. Vou deixar a definição a cargo do autor original: "Uma massa é como um selvagem; não está preparada para admitir que algo possa ficar entre seu desejo e a realização deste desejo. Ela forma um único ser e fica sujeita à lei de unidade mental das massas. No caso de tudo pertencer ao campo dos sentimentos, o mais eminente dos homens dificilmente supera o padrão dos indivíduos mais ordinários. Eles não podem nunca realizar atos que demandem elevado grau de inteligência. Em massas, é a estupidez, não a inteligência, que é acumulada. O sentimento de responsabilidade que sempre controla os indivíduos desaparece completamente. Todo sentimento e ato são contagiosos. O homem desce diversos degraus na escada da civilização. Isoladamente, ele pode ser um indivíduo; na massa, ele é um bárbaro, isto é, uma criatura agindo por instinto."

Não há como ler tal definição e não pensar nas criaturas que compõem o Fórum Social Mundial. Junto àquela multidão de milhares de pessoas, encontramos de tudo, uma verdadeira Torre de Babel. Entretanto, o uníssono que ecoa de pessoas tão diferentes é ensurdecedor. Desde jovens drogados, tentando reviver o Woodstock, passando por líderes de movimentos revolucionários e chegando até economistas teoricamente renomados, todos repetem as mesmas coisas. E como fica claro na definição de Le Bon, não poderia ser algo elaborado, inteligente, pois precisa conquistar as emoções de todos, incluindo o mais mentecapto dos seres presentes ali. Por isso resume-se tudo à simples expressões, como o combate à globalização, neoliberalismo, capitalismo, Bush e Estados Unidos, ou então à defesa pela "justiça social". Tem muita emoção contida ali, e quase nenhum conteúdo.

Se fosse possível analisar as características de cada indivíduo pertencente ao fórum, iríamos encontrar uma variedade incrível de objetivos e motivações. Alguns lutam genuinamente por causas específicas, como fim da violência às mulheres. Outros apenas repetem, como autômatos, o que foram ensinados a repetir. Juntam causas diversas como o ambientalismo, o multiculturalismo, o homossexualismo, o socialismo e mais outros “ismos”. O fantástico disso tudo é que, após jogar esses complexos e distintos ingredientes no liquidificador, sai algo monolítico, compacto, cujo único objetivo é atacar os bem sucedidos, destruir o progresso, culpar os bodes expiatórios de sempre. Bush é o causador de todos os males do mundo! E assim eles podem ficar mais tranquilos, pois entenderam porque estão naquela situação. São vítimas. Não existe soluções práticas propostas, não existe debate lógico e imparcial. Os opositores não são convidados para debater. Existe, na verdade, uma união de ressentidos, excluídos ou invejosos, que financiados e controlados por oportunistas, se transformam num movimento de massa.

Como já vimos acima, essa massa não pensa, mas age por instinto. Não existe pensamento coletivo, apenas individual. Essas pessoas se tornam massa de manobra para grupos oportunistas, e acabam defendendo como solução para os problemas do mundo uma receita que justamente agrava tais problemas, como o maior controle governamental. São tão dominados por desejos cegos e irracionais que nem sequer percebem as contradições intrínsecas às suas ideologias dogmáticas. Acusam os Estados Unidos de explorador comercial ao mesmo tempo que tal país tem déficit com quase todos os demais países, importando mais bens que exportando. Acusam a globalização mas esquecem que o socialismo sempre foi globalizante, através do Comintern, só que não era uma globalização via livre mercado, e sim imposta a base de violência e terror. Acusam o comércio internacional ao mesmo tempo que culpam o embargo a Cuba como causa da miséria da ilha presídio. Defendem a democracia ao lado de ditadores socialistas. Condendam os ricos durante uma manifestação com orçamento milionário. Criticam os subsídios agrícolas enquanto estendem tapete vermelho a Bovè, maior símbolo desses subsídios. Clamam por liberdade de expressão ao lado de tiranos que suprimem tal liberdade em seus quintais. Se intitulam pacifistas enquanto jogam coquetéis Molotov em policiais. Chamam Bush de terrorista enquanto apóiam o ex-ditador genocida do Iraque.

Não há bom senso, não há lógica. Apenas um bando de marionetes sendo usado para propósitos obscuros de poucos e poderosos grupos. A ignorância é um excelente ingrediente para o populismo demagógico, e criando-se poucos e bem definidos bodes expiatórios, assim como depositando fé messiânica nos chavões nobres do altruísmo estatal e na retórica, governos de esquerda vão vencendo eleições mundo afora, e tomando o poder. Não precisam convencer ninguém através da capacidade administrativa, do currículo, histórico ou programas concretos e lógicos. Basta inflar o discurso com as expressões decoradas através de um processo pavloviano, encher de emoção as falas e cuspir mensagens supostamente nobres, bem intencionadas. O resto, a psicologia de massas se incumbe, num mundo onde a estupidez é infinita e o raciocínio independente é mais raro que diamante.

16 comentários:

Fabra disse...

Rodrigo

Faltou lembrar o Nelson Rodrigues que já dizia
"toda unanimidade é burra"

Anônimo disse...

Oi Rodrigo,

Tudo bem? Você poderia fazer um contraponto deste artigo com "A Sabedoria das Multidões"?

um abraço,
Rodrigo

Rodrigo Constantino disse...

Claro, xará!

Repare logo no primeiro parágrafo do artigo que vc citou:

"No livro The Wisdom of Crowds, James Surowiecki defende a tese de que as multidões desfrutam de mais sabedoria do que se imagina. Para apresentar tal sabedoria, entretanto, um grupo de indivíduos precisa preencher quatro condições: diversidade de opiniões, independência de julgamento, descentralização e agregação. É uma idéia contra-intuitiva a princípio, mas a suposta sabedoria das multidões tem lógica, além de mostrar evidências empíricas a seu favor."

Veja novamente:

"um grupo de indivíduos precisa preencher quatro condições: diversidade de opiniões, independência de julgamento, descentralização e agregação."

Eis o que faz um GRUPO diverso, com indivíduos independentes, tão diferente de uma MASSA, no sentido que Le Bon deu.

Certo?

Ricardo Froes disse...

Desculpem-me os Rodrigos pela intromissão, mas reunir uma multidão que preencha as tais quatro condições é impossível, dependendo do que se considera uma multidão, é claro. Se baixarem o gabarito para meia dúzia, quem sabe?

Multidões não são sábias nem na teoria nem na prática.

Rodrigo Constantino disse...

Ricardo, engana-se. O mercado financeiro é isso. Não é preciso juntar a multidão fisicamente. No mercado financeiro temos uma multidão de seres com julgamentos independentes, diversidade de opiniões e descentralizados, e por isso é tão difícil "vencer" do mercado. Claro que de vez em quando ele exagera, normalmente quando começa a agir como uma grande massa uniforme...

Diego. disse...

Indispensável a leitura de "A Rebelião das Massas" de Jose Ortega y Gasset p/ compreender um pouco mais deste fenomeno.

Jabuticabo disse...

sou mais o Simon Le Bon.

Ricardo Froes disse...

Exatamente o que eu falei. Se baixar o gabarito, é fácil. Eu estava pensando em algo mais amplo do que se restringir uma multidão a um grupo que tem os mesmos princípios e fins.

Jabuticabo disse...

Atualmente, ainda que já tenha sido pior no passado, nenhuma tesouraria, corretora etc precisa ganhar do mercado, já que 100% do CDI já é uma taxa pornográfica e, ainda que isto imponha um benchmark duro para um administrador de portfolio, não é difícil se hedgear no mesmo benchmark.

Em português, ainda que superar a taxa básica de juros altíssima represente um desafio para o investidor ativo em um banco ou outra instituição financeira, ele tem instrumentos para garantir a remuneração ao menos desta taxa básica.

embat disse...

acabei de ler o texto e me lembrei da musica Anthem do Rush

Ricardo Froes disse...

Li hoje que não haverá mais Forum Social em 2008. Parece até que leram o artigo e concordaram que esse tipo de evento não leva a lugar nenhum. Disseram que vão se limitar agora a balbúrdias isoladas à época dos Foruns de Davos, talvez, até que algum luminar da esquerda brasileira tenha a brilhante idéia de perpetuá-lo aqui no Brasil.

Daniel Correa disse...

Rodrigo, este texto me lembrou aquela famosa video conferência entre Davos e Porto Alegre.

A auto comiseração é uma doença a ser tratada. Lembro de Jesus que quando açoitado, perseguido, não emitiu um "ai". Ele sabia quem era e o que estava fazendo.

Já no FSM... é ai pra todo lado.!
abraço

joseantonio disse...

Hitler pode ter pensado e feito muita coisa errada, mas sempre concordarei com algumas coisas que ele dizia: "as massas têm dificuldade de comprensão"; uma propaganda será tanto mais abrangente quanto mais baixo for seu "espírito", pois deve ser compreendida pelo mais desprovido intelectualmente dentre seu público alvo, e, claro, saber manipular as massas é um pré-requisito para o sucesso de determinados movimentos (sobretudo políticos).

C. Mouro disse...

Bem, Hitler efetivamente sabia manipular o "homem massa" (aquele que toma a forma que lhe dão), sendo um conhecedor da estupidez humana, como bem o demonstra no seu "Minha luta". Contudo, parecia ser tão louco a ponto de crer nas próprias manipulações.
Na viagem resolvi dar uma lida em Sêneca:

"Nada, verdadeiramente,faz-nos cair em males piores quanto seguir as opiniões comuns, considerando ótimo aquilo sobre o qual todos estão de acordo. Devido a isso, no momento em que temos nuitos mocdelos, não vivemeos nem mesmo segundo a razão, mas na imitação dos outros."

"Portanto, o nosso primeiro dever é o de não seguir, como fazem os animais,orebanho daqueles que nos precedem, dirigindo-nos não onde é preciso andar, mas onde se vai"

"A realidade é que a multidão se levanta contra a razão, defendendo o mal que lhe é próprio. Assim, ocorre nos comícios, pelos quais os próprios eleitores, quando o mutável favor popular tem feito um giro sobre si mesmo, maravilham-se de haver eleito os pretores."

"As atividades humanas vão mal, quando a maioria decide sobre as coisas que mais valem: o parecer da multidão é o pior."

...É, coisa em torno de 2000 anos.

Penso que a multidão não aé sábia como conjunto, mas os sábios inclusos na multidão estão sempre, mesmo que involuntáriamente, contornando e aproveitando a estupidez da massa em sua volta como oportunidades em próprio benefício, e que podem beneficiar outros.
As decões numa multidão desorganizada são individuais, apenas a massa é um corpo sem cabeça que então passa a seguir "pastores" e adorar "bezerros de ouro". O "homem massa" destituído do orgulho individual se vê induzido a adorar mitos e seguir "messias" salvadores.

Bem, agora vou ler o artigo, que já imagino brilhante.

Abraços
C. Mouro

C. Mouro disse...

O paragrafo citado foi absolutamente fantástico, genial.

A ele somo a perfeita frase:
"Apenas um bando de marionetes sendo usado para propósitos obscuros de poucos e poderosos grupos."

Como previsto, excelente artigo.

C. Mouro

marco barretto disse...

Talvez seja essa a razão de grupos (poderiamos chamar de massa ???)de senadores e deputados ,(reunidos em assembleias / camaras, etc )ou seja os nossos mendigos ,(pedintes de votos ) estarem sendo tao habilmente manipulados pelos "intelectuais "do PT...tssss...