terça-feira, janeiro 09, 2007

O Caminho Para a Anomia



Rodrigo Constantino

“As crises de legitimidade sempre têm algo a ver com a incapacidade das sociedades em criar lealdade a seus valores básicos; se esses valores se tornam autodestrutivos, a crise torna-se aparente.” (Ralf Dahrendorf)

O sociólogo alemão Ralf Dahrendorf, que acompanhou os terríveis anos nazistas bem de Berlim, escreveu em 1985 um livro chamado A Lei e a Ordem, onde traçou alguns paralelos entre a situação que estavam vivendo os países desenvolvidos nesta época e a era que antecedeu o nazismo. Seu principal alerta era quanto ao caminho para a anomia, que costuma anteceder regimes totalitários. Afinal, os índices de criminalidade estavam em alta nesses países desenvolvidos, ameaçando a paz e a ordem dos cidadãos.

Em primeiro lugar, é interessante definir o que exatamente o autor pretendia com o uso do termo anomia, resgatado na sociologia por Durkheim, em seu estudo sobre o suicídio. Dahrendorf estava preocupado com a incidência crescente da impunidade, cuja conseqüência é a anomia, “quando um número elevado e crescente de violações de normas torna-se conhecido e é relatado, mas não é punido”. Com isso, ele não pretende justificar os crimes individuais, mas apenas reconhecer que a “anomia é uma condição social, que pode fazer brotar vários tipos de comportamento, como ocorreu durante a queda de Berlim, em 1945”. Logo, a conexão entre anomia e crime não é causal. “A anomia fornece uma condição básica, onde as taxas de crimes tendem a ser elevadas”.

No dicionário Aurélio, o termo anomia está definido como “ausência generalizada de respeito a normas sociais, devido a contradições ou divergências entre estas”. Isso reforça o que o sociólogo tinha em mente, ao afirmar que “a anomia é então concebida como uma ruptura na estrutura cultural, ocorrendo especialmente quando houver uma aguda disjunção entre, de um lado, as normas e os objetivos culturais e, de outro, as capacidades socialmente estruturadas dos membros do grupo em agirem de acordo com essas normas e objetivos”. No estado de anomia, as normas reguladoras do comportamento das pessoas perderam sua validade. As violações de normas simplesmente não são mais punidas.

“Esse é um estado de extrema incerteza, no qual ninguém sabe qual comportamento esperar do outro, sob determinadas situações”. As normas são válidas se e quando elas forem tanto eficazes como morais, ou seja, julgadas corretas. A anomia é, pois, “uma condição em que tanto a eficácia social como a moralidade cultural das normas tendem a zero”. Todas as sanções parecem ter desaparecido neste quadro social, e isto leva ao desaparecimento do poder legítimo, transformado em poder arbitrário e cruel. O “contrato social”, entendido aqui como normas aceitas e mantidas através de sanções impostas pelas autoridades concernentes, é rasgado, restando o vácuo em seu lugar. Tudo passa a ser visto como permitido, já que nada mais parece ser punido.

Uma das causas que levam a esta anomia está na imagem de homem romântica, porém errada, que muitos alimentam desde Rousseau e seu “bom selvagem”. Essas pessoas “supunham que bastava as pessoas serem liberadas das restrições impostas a suas ações pela história, pela cultura e pela sociedade, para que pudessem viver, felizes e em paz, para todo o sempre”. Para Dahrendorf, “essa imagem do homem é um dos marcos principais no caminho para a anomia”. Ainda que bem intencionados, esses românticos teriam buscado Rousseau, mas encontrado Hobbes, com a luta de todos contra todos.

Quando as ligaduras, os “liames culturais associados com certas unidades básicas às quais os indivíduos pertencem, em virtude de forças fora de seu alcance, mais do que escolha própria”, estão enfraquecidas, o mundo tende a ser mais desorientador e desconcertante. Não é fácil achar substitutos para tais ligaduras, que sustentam os principais valores de uma sociedade. O enfraquecimento progressivo desses valores morais, assim como a impunidade, o declínio na validade das normas sociais, são ingredientes perigosos que podem levar à anomia. Os costumes e as leis são complementares: quanto mais sólidos os costumes, mais eficientes tendem a ser as leis. O assustador é quando ambos – costumes e leis – perderam o valor.

Não há como ler o livro de Dahrendorf sem pensar na situação atual do Brasil. A impunidade é crescente, e os valores básicos estão completamente deturpados ou enfraquecidos. Políticos cometem crimes à luz do dia, nada acontece, e os próprios eleitores ainda votam neles novamente. A crença de que as leis não funcionam mais é generalizada. O país caminha, infelizmente, para a anomia descrita pelo sociólogo. Algo precisa ser feito. No próprio livro, podemos ter alguma idéia do que precisa ser feito.

Em primeiro lugar, é importante acertar o diagnóstico do problema. Não basta repetir que a causa dos males reside somente na economia, e que necessitamos apenas de políticas sociais, pois isso não é verdade. O buraco é bem mais embaixo. Vivemos uma crise de valores morais, uma falência das instituições necessárias para a manutenção da lei e da ordem, e um problema de pobreza agravado, muitas vezes, pela própria ação do Estado. Mas nem tudo está perdido. E a anomia ainda pode ser evitada, mesmo que leve tempo. Basta lembrarmos que os Estados Unidos e a Inglaterra, principais países citados por Dahrendorf no livro, deram a volta por cima. Reagan e Thatcher, é verdade, deram importantes contribuições. Mas elas não seriam suficientes nem possíveis sem todo um trabalho de base que tivesse alterado a mentalidade do povo e seus valores morais, abrindo o caminho para as mudanças institucionais.

Foge ao escopo deste artigo focar nas soluções do problema. Mas não custa, ainda que en passant, apelar para o sucinto resumo do próprio autor. “A resposta para o problema de lei e ordem pode ser colocada numa única expressão: construção das instituições”. O autor teria, com certeza, o apoio do prêmio Nobel de economia, Douglas North, que vem batendo incansavelmente nesta tecla. É mais fácil falar que fazer, claro. Mas isso não muda o fato de que compreender o que deve ser feito já é um bom começo. Estamos longe disso ainda, em minha opinião. Nem todos entendem o valor das instituições. E é preciso explicar também que isto não significa que quanto mais instituições, melhor. O outro perigo, além da anomia, é a hipernomia, o crescimento desordenado de normas, sanções e instituições, que gera apenas mais incerteza e desconfiança.

Com isso em mente, podemos concluir nas palavras do próprio Dahrendorf: “Somente através de um esforço consciente para construir e reconstruir as instituições podemos esperar garantir nossa liberdade em face da anomia”.

10 comentários:

embat disse...

identificar o problema do brasil jah foi feito a mt tempo

o problema eh q o brasil nao tem mais jeito, sendo a unica saida o aeroporto

aqueles que ainda tentam construir algo "neztepaiz", quando existem 100 tentando destruir, precisam deixar de ilusao e tentar sair o mais rapido possivel deste hospicio

MARCO ANTONIO disse...

Contantino,

Bom. Gostei. A palvra até parece com anemia, disfunção orgânica que resulta normalmente em falta de energia para reagir e manter-se alerta.

Não tinha ainda o link de seu blog no meu. Agora o farei.

Um abraço.

Anônimo disse...

Como diria o saudodoso Sérgio Porto, "deixa ele ir, deixa ele ir".
Eu acho que tudo o que o Constantino está certo, contanto que os nossos "liberais" não queiram promover outra Redentora para resolver o problema...

Freeman disse...

Constantino, acredito que este é um daqueles artigos que sentimos como mais importantes, que geram, porém, menor repercussão.

Parabéns, mais uma vez. O problema do Brasil e de outros países do Ocidente é cada vez mais embaixo.

"São os valores e as instituições, estúpido...", parafraseando.

C. Mouro disse...

...É, há muito tempo um sujeito dizia que "é preciso virar os valores de cabeça para baixo". Foi quem olhou mais criticamente para os valores e presumiu que levariam àquilo que hoje podemos contemplar.
O sujeito analisou profundamente essa questão dos valores e logicamente concluiu. Mas qualquer um que se dedicasse a analisar fatos e idéias poderia chegar às mesmas conclusões ...o ruim da verdade é que ela é universal e sem época, o que atrapalha toda originalidade. Assim, tudo que poderia ser dito sobre a verdade já o foi por meia dúzia de autores, que ao lê-los nos frustramos por descobrir que nos enganamos sobre a originalidade, pois que só os imbecis conseguem ser originais produzindo imensa quantidade de asneiras, toões e distorções de autores e doutrinas para adequar a suas vontades e manias; chegam mesmo a criar várias histórias originais (não estórias) para satisfazerem-se ideologicamente, nada os detem em suas originalidades sobre as "verdades" que criam em suas ideologias.
...Não tem jeito, como disse Voltaire "deixaremos esse mundo confuso e perverso da mesma forma que o encontramos".
...Mudam as moscas, mas a merda é sempre a mesma, ou, "plus ça change plus c´est la même chose"
Bem, o profético autor foi F. Nietzsche, com quem não se pode concordar em tudo, mas em quase tudo, um autor inigualável.
Abraços
C. Mouro

C. Mouro disse...

Ia esquecendo: congratulações pelo ótimo artigo que bem entendido é ainda "muito mais ótimo".
...O caminho é formar bases, não adianta fazer "comandantes" se as tropas não os entende nem obedece. As tais esquerdas fizeram exatamente isso, atuavam na base do pensamento para desencadear a estupidez. Não foram combatidas nesta estratégia, já que os imbecis se contentavam em se auto enganarem com "travestis eleitorais" que postos em cargos de Poder satisfaziam aqueles que se gabavam ou consolavam de "ter um homem" no Poder, ao mesmo tempo que aqueles que dormiam com tais travestis reclamavam dos "homens" que estavam no Poder. E com isso incutiram na cabeça da massa que o travesti e homem é exatamente a mesma coisa. E com essa canalhioce apoiada pelos que se dizem "de direita" a esquerda conquistou credibilidade para suas baboseiras nunca refutadas por aqueles imbecis que acreditavam que a tal direita (seja lá o que isso possa ser) ou os travestis iriam protege-los, iludindo-se e gabando-se de "estarem no Poder", como se a "cantar vitória" substituisse a realidade.
A esquerda foi sutilmente tomando TODO ESPAÇO, doutrinando, catequizando, imbecilizando, corrompendo, chantageando, infiltrando e assumindo o controle da tropa para fazer com que os "comandantes" a obedecessem até que pudesse se instalar no Poder confortavelmente.
Não fosse a Internet e já seriamos uma Cuba, só que com a população satisfeita na miséria e com pavor da liberdade. ...estamos apenas perto disso.
Há que se atuar na base expondo idéias, desmoralisando dogmas e lugares comuns, combatendo fantasias "científicas" com conhecimentos, argumentos e lógica, para que em algumas décadas se possa ter liberdade igual para todos e justo bem estar para todos que o mereçam.

Abraços
C. Mouro

ciscoblog disse...

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Delsiolive disse...

Excelente artigo Rodrigo!
Aprendi muito com a exposição!

Abs.

Anônimo disse...

Parabéns. Grande análise! Penso que a degenerescência já avançou demais, e que talvez não haja mais caminho de volta.

Anônimo disse...

Para desespero desta esquerda com atitude de ditadura disfarçada de solicialista, temos ai um novo Lula.
Tudo leva a crer, que Lula irá se aliar aos países ricos e dar uma BANANA para esse Mercosul que só tem países que mas querem tirar do Brasil que nos dar. SABE DE UMA COISA!! Lula estar indo pelo caminho certo. Para que se aliar a esses visinhos egoístas, e que o interesse deles é simplesmente tirar só vantagens do Brasil. Nossos visinhos tentam impor uma imagem que o Brasil precisa mais deles, do que eles do Brasil. Mas uma coisa é certa, ELES ESTÃO ENGANADOS. Espero que Lula acorde e se alie a países que tem a nos dar e não a nos tirar. Também estamos observando que Lula estar se afastando do Ditador Hugo Chávez, e até fotos oficiais, Lula evita de tirar ao lado dele. Valeu Lula, você estar indo pelo caminho certo, ficar ao lado de quem tem, e não de quem quer nos tirar. Martine Morais Universitária 22 Anos