terça-feira, março 06, 2007

Altruísmo ou Socialismo?


Rodrigo Constantino

“A Igreja Católica nunca desistiu da esperança de restabelecer a união medieval entre igreja e estado, com um estado global e uma teocracia global como o grande objetivo.” (Ayn Rand)



Ayn Rand comprou uma amarga briga com os religiosos mais fervorosos. Ela condenou o símbolo da cruz – da tortura e sofrimento do homem – defendendo em seu lugar o valor da busca pela felicidade de cada indivíduo nesta vida. O sacrifício individual, no sentido de colocar os interesses dos outros acima dos próprios, não deveria ser algo enaltecido como nobre, segundo ela. O altruísmo, então, seria incompatível com o individualismo, onde cada um é um fim em si. Isso não significa que a solidariedade deva ser condenada, mas sim que a própria felicidade deve ser a grande prioridade dos indivíduos. Não devemos nossa existência ao próximo nem devemos viver em função dos outros. A Igreja Católica, pregando o oposto, acabou virando alvo das ácidas críticas de Ayn Rand.

Foi o caso da Encíclica Populorum Progressio, escrita pelo Papa Paulo VI, antecessor de João Paulo II e que fala em nome do Vaticano. O altruísmo pregado pela Igreja pode, mesmo na mente do seu líder maior, se confundir bastante com o socialismo, sendo a diferença imperceptível a olho nu. Não é por acaso que muitos tentaram um casamento entre as idéias católicas e as socialistas, como foi o caso da Teologia da Libertação ou mesmo da CNBB. Não sem alguma razão, os conservadores cristãos mostram que tal união seria absurda pelos próprios valores do Cristianismo, que prega o foco no indivíduo e separa a Igreja do Estado, repetindo para dar a César o que é de César. Mas como podemos notar em diversos trechos dessa Encíclica, a linha é tênue, e não foram poucos os seguidores de Cristo que migraram para o socialismo.

Em uma das passagens, o Papa diz que é lamentável que o sistema da sociedade tenha sido construído considerando o lucro como um motivo chave para o progresso econômico, a competição como a lei suprema da economia, e a propriedade privada dos meios de produção como um direito absoluto que não tem limites e não corresponde à "obrigação social". Em outras palavras, o Papa lamentou que o capitalismo de livre mercado predominasse em relação ao socialismo. Os interesses coletivos, sabe-se lá quem os define, estariam acima do direito de propriedade privada, o que torna indivíduos sacrificáveis pelo "bem comum". O Papa ignora que, no livre mercado, o lucro é fruto do bom atendimento da demanda dos consumidores, ou seja, é o indicador de que os indivíduos, através de trocas voluntárias, estão satisfeitos. Todos sabem o que aconteceu nos países que tentaram abolir o lucro, a competição e o direito de propriedade privada. O resultado foi a miséria, a escravidão e o terror. São conseqüências inexoráveis do socialismo colocado em prática.

Em outro trecho, o Papa afirma que Deus pretendia que a terra e tudo que ela contém fosse para o uso de todo ser humano. "Logo", ele continua, "enquanto todos os homens seguirem a justiça e a caridade, os bens criados deveriam abundar para eles numa base razoável". E ainda conclui que "todos os outros direitos, incluindo aqueles da propriedade e do livre comércio, devem estar subordinados a este princípio". O Papa, entretanto, não define o conceito de "razoável", que é totalmente arbitrário. Ou seja, enquanto todos não tiverem acesso aos bens produzidos de uma forma "razoável", podemos invadir, pilhar e roubar. A declaração é inequívoca: "O bem comum exige por vezes a expropriação, se certos domínios formam obstáculos à prosperidade coletiva". Fora isso, devemos questionar: bens produzidos por quem? O minério-de-ferro encontra-se na natureza, mas dele até um automóvel existe um processo complexo que foi descoberto e realizado por indivíduos. Um fogão, uma geladeira, um avião, uma casa, nada disso cai do céu, nada disso nasce em árvores. Tudo é fruto do uso de mentes criativas e do esforço de indivíduos. Se todos terão direito a estes bens produzidos, significa que alguém terá o dever de produzi-los. Logo, podemos escravizar indivíduos, em nome da máxima socialista aqui implícita: "de cada um pela capacidade, a cada um pela necessidade".

Não satisfeito, o Papa Paulo VI foi mais além ainda, mergulhando no mais escancarado socialismo. Ele disse que o mundo foi dado para todos, não apenas para os ricos. E isto, para ele, significa que a propriedade privada não constitui para ninguém um direito absoluto e incondicional, "já que ninguém tem direito de reservar para seu uso exclusivo aquilo que é supérfluo, quando a outros falta o necessário". Traduzindo, isso quer dizer que cada um deve ter o direito de consumir somente o básico necessário, até que todos tenham um mesmo grau de consumo. Se alguém no mundo passa fome, ou não tem uma geladeira, então um "rico" não deveria ter o direito de ter um telefone celular ou um computador. Países que tentaram adotar este modelo, que é uma idealização da inveja disfarçada de altruísmo, acabaram na completa miséria. Os ricos são destruídos, mas os pobres ficam ainda mais pobres.

Na mesma Encíclica, o Papa aventurou-se ainda na diplomacia internacional, afirmando que deve ser repetido que a riqueza supérflua dos países ricos deveria ser colocada a serviço das nações pobres. Ele reconhece que isso exigiria grande sacrifício por parte dos homens ricos, e questiona se estes estão preparados para pagar maiores impostos para que as autoridades públicas possam intensificar os esforços em favor do desenvolvimento. Pergunta se estariam preparados para pagar preços maiores pelos bens importados, de forma que seus produtores possam ser remunerados de forma mais "justa". Não obstante a enorme ineficiência dos meios pregados pelo Papa, que apenas prejudicam ainda mais os pobres, seria o caso de perguntar se o Papa considera um tratamento desigual justo, forçando os mais ricos a pagar mais por um mesmo produto. Novamente, a solução mágica para o fim da pobreza parece ser a destruição dos mais ricos. A desigualdade pode até acabar, mas não a miséria. Todos ficariam igualmente miseráveis.

Enfim, as passagens da Encíclica são declarações típicas de socialistas, com discursos politicamente corretos, nobres apelos, mas total desapego ao conceito objetivo de justiça, completa falta de compreensão dos conceitos básicos de economia, e uma escancarada propaganda em prol do ataque aos bem sucedidos. As passagens demonstram uma ignorância sobre o processo produtivo, sobre o que leva os homens a buscarem o progresso, digna do mais marxista dos militantes. A solidariedade não pode ser dissociada da palavra "voluntária". Os que pregam uma solidariedade compulsória, defendendo o altruísmo com o esforço alheio, querem apenas posar de nobres almas delegando a terceiros a responsabilidade. Buscam o monopólio das virtudes, enquanto defendem meios imorais e ineficientes, que levam ao oposto daquilo pregado. Pregam o altruísmo, e acabam com o socialismo. Para Rand, isso se deve ao ódio à mente humana, e por tabela ao próprio homem, à vida, e à sua felicidade nesse mundo, que deveria ser seu grande objetivo.

24 comentários:

Alexandre disse...

Olá. Parabéns pelo blog. Rodrigo, há algum livro em português que explique a filosofia da Ayn Rand? Antes de me aventurar nos originais queria ler uma obra mais sintética...
abs.

Anônimo disse...

Pra variar, brilhante!

sol-moras-segabinaze disse...

Uma loucura essa encíclica!

Eis aí um resumo explicativo da tendência socialista da ICAR brasileira. Depois de ler as declarações desse papa, não é de se espantar o predomínio de CNBBs, Boffs e Bettos.

Grandes cabos eleitorais de Lula e do PT, aliás.

C. Mouro disse...

Paulo VI foi o papa que trocava presentes e mesuras com Brejnev.

A igreja é a empresa mais rica do mundo, e se enriqueceu vendendo caridade. Os palácios dos papas, os aviões, os penicos de ouro, os cristais e etc., ah! se for da igreja, aí pode, aí é certo.

Lucro é aquilo que excede o valor do custo. Sem lucro não há progresso, tudo permanecerá a mesma coisa. Ou seja, mesmo o salário é em parte lucro. H´um custo de investimento para o empregado poder trabalhar; o que excede esse custo é lucro.

Ou seja, essa corja ideologica manipula as palavras.
Um marceneiro que compra a matéria, as ferramentas e infraestrutura vende os móveis por um valor superior ao custo, e fatura R$ 1000,00 - estes mil sãqo o lucro dele.
Outro arranja um empreggo e ganha R$ 900,00 de salário. Ele não investiu nada, mais ainda tem um custo de deslocamento, alimento e etc., o resto do salário é lucro.

A questão ideologica é a fórmula de Sum Tzu: fazer o inimigo lutar contra si mesmo. Assim, a política, o governo, procura inimizar setores da população, e emnquanto eles se odeiam e brigam, o Poder (governo e agregados) colhem os benefícios.
O cristianismo foi a continuação de uma politicagem populista para dominar a população via a estratégia do chinês.
Isso ainda vai durar, até que o homem saiba pensar e não queira ser enganado por fantasias coletivistas que o fazem pensar que poderá viver as custas dos outros.
Ideologia é canalhice, e muitos a ela se apegam por ingenuidade e outros por canalhoice mesmo.

Abraços
C. Mouro

Alvaro Augusto disse...

Depois que Jesus de Nazaré expulsou aqueles vendedores do templo, sempre sobra espaço para argumentos socialistas de fundo cristão. Contudo, conforme já escrevi nesse espaço, não havia capitalismo no tempo de Jesus. Antes da revolução industrial, a única maneira de acumular riqueza era por meio de guerras, saques, impostos e escravidão. Na época, a riqueza estava concentrada em menos de 1% da população e não é surpresa que os ricos fossem vistos como "maus". Hoje não há mais para esse argumento, pois já ficou claro (pelo menos para quem sabe um pouquinho de economia) que os empresários também "ajudam os pobres", mesmo que façam apenas o que se espera deles e não entrem nessa onda de "responsabilidade social", etc.

[ ]s

Alvaro Augusto
http://alvaroaugusto.blogspot.com

Joao Luiz disse...

Rodrigo,

Você sabe que nenhum indivíduo, ou instituição, está certo 100% das vezes. Mesmo os mais brilhantes cientistas e pensadores cometeram deslizes. Alguns mais, outros menos, todos escreveram várias páginas de bobagens e coisas sem nexo. Creio que as obras devam ser analisadas no conjunto, cabendo a nós tentar separar o joio do trigo (a imagem bíblica não foi proposital) e não apenas julgá-las só pelo que têm de bom ou de ruim. Imagine se fôssemos analisar a obra de Adam Smith somente pelas bobagens que escreveu sobre a teoria do valor...

Se a Encíclica de Paulo VI tem, indiscutivelmente, um viés socialista, por ter sido idealizada por alguns próceres da então nascente "Teologia da Libertação", a Rerum Novarum, de Leão XIII é um libelo primoroso sobre a liberdade, a propriedade privada e o empreendedorismo. Trata-se de uma obra que deveria fazer parte do curriculo de qualquer curso básico de economia. Esta Encíclica é considerada tão importante para a Igreja Católica que mereceu uma outra, realizada por João Paulo II, em comemoração aos seus cem anos (Centesimus Anus).

Como você, gosto muito da obra de Ayn Rand. Acho que ela produziu passagens soberbas em defesa do capitalismo, do individualismo e da liberdade, mas não podemos esquecer que o seu radicalismo (quase fanático) chegou a provocar arrepios mesmo em alguns dos mais fervorosos liberais, como Von Mises.

Se você aceita uma sugestão, releia um pouco Karl Popper, um autor que sei que você admira e que também combatia o irracionalismo fanático, mas que, acima de tudo, respeitava as crenças alheias, até porque jamais negou que ele próprio professasse uma fé: na razão. Sugiro especialmente os tópicos sobre a tolerância e o Racionalismo Socrático.

Um abração

Rodrigo Constantino disse...

João,

Acho importante mostrar que a Igreja nem sempre lutou pela liberdade, longe disso! É importante também expor as ligações entre catolicismo e socialismo. É importante separar conservadores de liberais. E por fim, Popper, que eu realmente admiro, é tachado de "amador" por Olavo. Aliás, admiro demais seus artigos (se vc for o Mauad), e lamento que ainda associe seu nome ao de Olavo pelo MSM. Vc e Cândido Prumes não deveriam escrever naquele site de conservadores radicais. Olavo faz mal ao Liberalismo. Pense nisso.

Abraços,

Rodrigo

PS: no meu próximo livro sobre Ayn Rand, que será lançado em breve, consta um apêndice com a cartinha que Mises mandou para Ayn Rand após a publicação de Atlas Shrugged. Apenas elogios!

Bruno Battaglia disse...

Devem ter doido os argumentos do Olavo. Você não pára de falar em religião, e principalmente mal do cristianismo. Nem sou cristão, mas pelo menos você deveria mudar de assunto um pouco. Está na cara que são mensagens para o Olavo de Carvalho. É um pouco infantil, e espero que volte a falar do assuntos mais ligados à economia. Sinceramente, em filosofia você não bom.

Um abraço.

Rodrigo Constantino disse...

Não deixa de ser engraçado alguns apenas repetindo que não entendo do assunto e pedindo para que eu volte a falar apenas de economia. Cáspita! Jamais falei APENAS de economia. Defendo o LIBERALISMO, lato sensu. Quando eu falava da idealização da inveja socialista, os conservadores iam ao delírio. Agora mostro a inveja dos "puritanos", e eles reclamam. Ora ora.

Se não sou bom nisso, que rebatam com argumentos! Mostrem, por exemplo, onde estão os erros neste artigo. A encíclica papal, que alguns consideram infalível desde que a Igreja inventou isso para combater os avanços da ciência, é claramente socialista. Onde errei? Onde falei besteira? As passagens do próprio PAPA, ícone máximo da ICAR, são exatamente iguais ao que um Frei Betto repete pela Teologia da Libertação, ridicularizada pelos conservadores. Onde está a coerência destes?!?!?!?!

Rodrigo

C. Mouro disse...

Alvaro,
até faz sentido suas colocações. Contudo, vou discordar. Sêneca, cícero eram, pelo que sei, admirados pela população, e certamente muitos outros ricos o eram.
O que havia era certa inconformidade com a cobraça de impostos, por parte da população. Tanto que o assunto é farto na bíblia, e mesmo Paulo dá forte contribuição com suas afirmações de que se deve pagar impostos às autoridades, que são da vontade de deus.
Na Roma houve inflação e muitas das politicagens atuais. Parece-me que os comerciantes eram acusados de aumentar preços por ganâmncia e etc. e tal.
Esse ambiente político é que produziu o populismo cristão, ancorado na autoridade do deus que arbitra o certo e o errado: "sua vontade é o certo, não se pode questionar deus". E, certamente o apoio do deus aos políticos, malhando os comerciantes e os ricos, vinha de encontro aos interesses políticos. O cristianismo foi uma aplicação política, visando semear a cizânia na "tropa inimiga".
Os ricos não eram mal vistos por ser sua riqueza injusta, e comerciantes n~]ao necessáriamente eram ricos malvados, nem mesmo necessáriamente ricos.

Nem me lembro se foi Cícero que disse que um homem só pode ser considerado rico se for capaz de sustentar um exército. ...bem, os governantes são ricos.

Essa questão do uso do termo capitalismo é complicada, pois que usado mais cronologicamente.
Até hoje considero dificil uma definião para capaitalismo sem um tanto de empirismo.

Porém, se capitalismo significar a existência de trocas espontaneas, a coisa muda bastante.

Ora, se haviam comerciantes vendendo bugingangas e gente comprando, havia capitalismo.

Se não estou enganado, é isso.

Abraços
C. Mouro

Anônimo disse...

"Um homem sábio só será de fato útil como homem, e não se sujeitará à condição de "barro" a ser moldado para "tapar um buraco e cortar o vento”; ele preferirá deixar esse papel, na pior das hipóteses, para as suas cinzas. 'A minha origem é nobre demais para que eu seja propriedade de alguém. Para que eu seja o segundo no comando ou um útil serviçal ou instrumento de qualquer Estado soberano deste mundo'. "

Thoreau

C. Mouro disse...

O surgimento e crescimento do socialismo marxista, eu entendo quase que um repetição (como farsa?) do cristianismo: um populismo arbitrário travestido de "vontade divina" (no outro caso travestido de "científico")

Talvez isso tenha levado Marx com sua visão de história a dizer que o socialismo triunfaria. ...um idiota supersticioso.

Dá um bom paralelo, sobretudo os sincretismos....;

Abraços
C. Mouro

Catellius disse...

A Igreja Católica faz caridade...

fazer caridade com o dinheiro alheio é fácil, quando se tem isenção de impostos, quando se recebe donativos, quando se é uma multinacional com escolas, hospitais e terrenos em todos os cantos do mundo
dispenso tal caridade, ainda mais quando vem carregada de proselitismo e homilias de desinformação

C. Mouro disse...

Caro Catellius,
a igreja não faz caridade, ela VENDE caridade.
Caridade quem faz é quem produz para doar, quem apenas intermedia isso cobrando gorda comissão, está apenas vendendo essa caridade para aqueles que pagarão por ela.

Esse é o comércio mais lucrativo de todos os tempos. `Por isso o próprio Estado/governo está cada vez mais tendente a ser apenas uma organização que intermedia a caridade.
Vai longe a idéia de que o governo deve ser uma organização prestadora de serviços. Essa idéia já tá quase morta.
O que se instala cada vez mais é que o governo é legitimo dono de toda nação, incluso a população. Assim, tudo que faz é favor. Pois que os impostos não estão mais sendo entendidos como pagamento por serviços, mas sim como aluguel que pagamos aos proprietários da nação: o Estado (fantasia/abstrato) é o legitimo dono, e os políticos apenas os executivos nomeados pelo dono.

Ou seja, qauando o governo realiza algo, tende a se considerar que prestou um favor a que devemos ser gratos.
Quando o governo faz leis ARBITRANDO sobre a vida da população, a massa e eleite hjá entendem que é direito do dono arbitrar sobre sua propriedade.


cuisp!
o rebanho vai e vai e vai...

Abraços
C. Mouro

Joao Luiz disse...

Rodrigo,

Tudo bem. "A Igreja nem sempre lutou pela liberdade". E daí? O que isso prova? Que os cristãos estão todos errados? Que suas crenças não são pertinentes? Será que é por aí?

Já houve "ligações entre catolicismo e socialismo"? E daí? Também houve "ligações" entre o ateísmo e o comunismo e nem por isso ser ateu é incompatível com o liberalismo. Recentemente, você nos lembrou que Hitler era católico. porém, ele era também alemão e arquiteto (acho). Será que isso faz alguma diferença? Todos os alemãs, ou arquitetos, estariam marcados pelo, digamos, "pecado original" de Hitler ou os russos pelo de Stalin?

Se você acha importante separar conservadores de liberais, por que não concentrar-se na análise comparativa das duas doutrinas? Sempre lembrando que o conservadorismo não se resume à religiosidade. Assim como conheço alguns cristãos socialistas, há vários conservadores ateus. Aliás, se você me permite - e peço desculpas pelo texto longo -, cito aqui Von Mises para ajudar-me a tentar mostrar que o liberalismo não é incompatível com qualquer religião:

"O liberalismo é uma doutrina inteiramente voltada para a conduta dos homens nesse mundo. Em última análise, a nada visa senão ao progresso do bem-estar material exterior do homem e não se refere às necessidades interiores, espirituais e metafísicas. Não promete felicidade e contentamento aos homens, mas, tão-somente, a maior satisfação possível de todos os desejos suscitados pelas coisas e pelo mundo exterior.

Freqüentemente, o liberalismo tem sido censurado por sua atitude puramente externa e materialista que privilegia o que é terreno e transitório. A vida do homem, como se diz, não consiste em comer e beber. Há necessidades superiores e mais importantes do que o alimento e a bebida, o abrigo e a roupa. Nem mesmo as maiores riquezas terrenas podem dar felicidade ao homem. Nesse sentido, o liberalismo é a mais completa e absoluta nulidade, pois ele nada tem a oferecer às aspirações mais profundas e mais nobres do homem".

Sobre o Olavo, eu não escrevi para defendê-lo ou para tomar partido na disputa de vocês (até porque aprendi que, a partir de certo ponto, rusgas pessoais mais cegam do que esclarecem). Pensei que isso tivesse ficado claro. Se citei Popper é porque este é um autor que sei que ambos admiramos.

Sobre escrever para o MSM, além de ser cristão, sempre fui muito bem tratado por lá. A propósito, penso que as idéias liberais devem ser divulgadas onde quer que se apresentem os espaços, sejam eles quais forem. Eu já cansei de debater com socialistas em sites de esquerda, por exemplo. Tomei muita porrada, mas se plantei uma só semente, já valeu a pena. Escrever apenas para aqueles que pensam igual a nós não ajuda muito a causa.

Finalmente, Keynes também escreveu uma crítica "melada" sobre "O Caminho da Servidão". Mises e Rand tinham muito em comum, mas é notório que também tiveram suas desavenças.

Um Abração

PS: Espero que você divulgue a data do lançamento do livro. Se for no Rio, quero poder estar lá para apanhar um exemplar autografado.

Joao Luiz disse...

Rodrigo,

Sobre a referência que fiz sobre as rusgas entre Rand e Mises, segue um comentário interessante (colado do blog Selva Brasilis):

Michael Shermer escreve sobre o livro de Brian Doherty “Radicals for Capitalism: A Freewheeling History of the Modern American Libertarian Movement". Ele faz uma observação muito pertinente acerca da intolerância das idéias que ocorre com todo movimento intelectual que se presume absolutamente correto: "Another disturbing theme running throughout the libertarian movement, so well recounted by Mr. Doherty, is the sense that we are absolutely right. Absolute certainty generates absolute intolerance". E mais adiante ilustra esse ponto com a seguinte passagem: "Barbara Branden, a close friend of Rand's, recalled a dinner catastrophe that resulted from the first meeting between Rand, the libertarian economist Henry Hazlitt, and Ludwig von Mises, the greatest intellectual defender of freemarket economics of the 20th century. "The evening was a disaster. It was the first time Ayn had discussed moral philosophy in depth with either of the two men. ‘My impression,' she was to say, ‘was that von Mises did not care to consider moral issues, and Henry was seriously committed to altruism. . . . We argued quite violently. At one point von Mises lost his patience and screamed at me.'" Economist and Nobel laureate Milton Friedman, one of the godfathers of libertarianism, recalled an incident at the first meeting of the Mont Pelerin Society in 1947, at which was gathered a veritable Who's Who of free market economists (including himself, Hayek, Hazlitt, Mises, Fritz Machlup, George Stigler, and Frank Knight). "One afternoon, the discussion was on the distribution of income, taxes, progressive taxes, and so on. In the middle of that discussion von Mises got up and said ‘You're all a bunch of socialists,' and stomped out of the room." Such moral absolutism leads to moral absurdities, and the libertarian movement has been plagued with the problem for the entirety of its history. Defining a movement with bullet points that require a commitment to the entire list before membership is conferred more often than not leads to lower membership rolls, and libertarians are more guilty than most at excommunicating those who deviate even slightly from the canon".

Thiago disse...

É percebo essa tendência dos libertários a serem extremamente intolerantes para com outras doutrinas religiosas ou outras opiniões diferentes tanto quanto os religiosos fanáticos a que tanto dizem combater

Isso porque é muito fácil ser libertário: É só ser a favor de tudo. É ou não é?

Eutanásia, aborto, suicídio, drogas.

Gostaria de saber a opinião de vocês sobre o casal de irmãos alemão que tem 4 filhos e querem mudar a lei do incesto. Eles vivem juntos e casados.

Meu objetivo não é fazer troça não ou provocar, apenas ver os argumentos.

Abraço

Thiago

Anônimo disse...

CARTA ENCÍCLICA
«RERUM NOVARUM»
DO PAPA LEÃO XIII
(trechos)

"A solução socialista

3. Os Socialistas, para curar este mal, instigam nos pobres o ódio invejoso contra os que possuem, e pretendem que toda a propriedade de bens particulares deve ser suprimida, que os bens dum indivíduo qualquer devem ser comuns a todos, e que a sua administração deve voltar para - os Municípios ou para o Estado. Mediante esta transladação das propriedades e esta igual repartição das riquezas e das comodidades que elas proporcionam entre os cidadãos, lisonjeiam-se de aplicar um remédio eficaz aos males presentes. Mas semelhante teoria, longe de ser capaz de pôr termo ao conflito, prejudicaria o operário se fosse posta em prática. Pelo contrário, é sumamente injusta, por violar os direitos legítimos dos proprietários, viciar as funções do Estado e tender para a subversão completa do edifício social.

A propriedade particular

4. De facto, como é fácil compreender, a razão intrínseca do trabalho empreendido por quem exerce uma arte lucrativa, o fim imediato visado pelo trabalhador, é conquistar um bem que possuirá como próprio e como pertencendo-lhe; porque, se põe à disposição de outrem as suas forças e a sua indústria, não é, evidentemente, por outro motivo senão para conseguir com que possa prover à sua sustentação e às necessidades da vida, e espera do seu trabalho, não só o direito ao salário, mas ainda um direito estrito e rigoroso para usar dele como entender. Portanto, se, reduzindo as suas despesas, chegou a fazer algumas economias, e se, para assegurar a sua conservação, as emprega, por exemplo, num campo, torna-se evidente que esse campo não é outra coisa senão o salário transformado: o terreno assim adquirido será propriedade do artista com o mesmo título que a remuneração do seu trabalho. Mas, quem não vê que é precisamente nisso que consiste o direito da propriedade mobiliária e imobiliária? Assim, esta conversão da propriedade particular em propriedade colectiva, tão preconizada pelo socialismo, não teria outro efeito senão tornar a situação dos operários mais precária, retirando-lhes a livre disposição do seu salário e roubando-lhes, por isso mesmo, toda a esperança e toda a possibilidade de engrandecerem o seu património e melhorarem a sua situação.

5. Mas, e isto parece ainda mais grave, o remédio proposto está em oposição flagrante com a justiça, por-que a propriedade particular e pessoal é, para o homem, de direito natural. Há, efectivamente, sob este ponto de vista, uma grandíssima diferença entre o homem e os animais destituídos de razão. Estes não se governam a si mesmos; são dirigidos e governados pela natureza, mediante um duplo instinto, que, por um lado, conserva a sua actividade sempre viva e lhes desenvolve as forças; por outro, provoca e circunscreve ao mesmo tempo cada um dos seus movimentos. O primeiro instinto leva-os à conservação e à defesa da sua própria vida; o segundo, à propagação da espécie; e este duplo resultado obtêm-no facilmente pelo uso das coisas presentes e postas ao seu alcance. Por outro lado, seriam incapazes de transpor esses limites, porque apenas são movidos pelos sentidos e por cada objecto particular que os sentidos percebem. Muito diferente é a natureza humana. Primeiramente, no homem reside, em sua perfeição, toda.a virtude da natureza sensitiva, e desde logo lhe pertence, não menos que a esta, gozar dos objectos físicos e corpóreos. Mas a vida sensitiva mesmo que possuída em toda a sua plenitude, não só não abraça toda a natureza humana, mas é-lhe muito inferior e própria para lhe obedecer e ser-lhe sujeita. O que em nós se avantaja, o que nos faz homens, nos distingue essencialmente do animal, é a razão ou a inteligência, e em virtude desta prerrogativa deve reconhecer-se ao homem não só a faculdade geral de usar das coisas exteriores, mas ainda o direito estável e perpétuo de as possuir, tanto as que se consomem pelo uso, como as que permanecem depois de nos terem servido."

Adilson Almeida

Thiago Rachid disse...

A política lida com a realidade. A Fé com o Transcendente. Gosto de seus artigos e os acho bem fundamentados. Porém, prefiro ler sobre política do que religião. O liberalismo vem sendo consagrado pelo fracasso da esquerda latino-americana. Acho que você não pode perder a oportunidade de deixar isso bem claro aos seus leitores.

Tarrasch disse...

O Constantino parece ser um pouco desonesto.
Usar Paulo VI para atacar a Igreja é demais.
É notório que esse pontífice era comunista e que, tentando abrir a Igreja ao mundo secularizado e liberal, na verdade apenas permitiu o início de um processo de autodemolição, conforme suas próprias palavras, pouco depois do desastre Concílio Vaticano II.
Qual a diferença entre o ódio de Constantino e dos comunistas à Igreja Católica?
Qual a contribuição dos liberais, como Constantino, no enfrentamento ao petismo?
Não são esses liberais os primeiros a aderirem ao PT, usufruindo da política monetária responsável de Malan-Palocci?
São estes liberais que estão fazendo fortuna no mercado financeiro, enquanto jogam o país no esgoto petista, e, evidentemente, não deixando de lutar contra a lei natural, por exemplo, batalhando pelo Aborto e pela Liberalização das Drogas.

Anônimo disse...

no que consite a "lei natural"?

Tarrasch disse...

Paulo VI: Papa que tocou de fato o Concílio Vaticano II, que provocou a maior crise da Igreja Católica por, justamente, fazer concessões ao liberalismo.
E que curioso! Este pontífice era comunista, e permitiu à Teologia da Libertação devastar a fé católica. Era o tempo de D. Helder Câmara...

Tiago disse...

Bom,
O Papa João Paulo II, com todo o seu carisma, foi "infalível" e incansável no combate ao comunismo.

C. Mouro disse...

Certamente o combateu elogiando as coisas boas que o comunismo fez, recebendo Fidel, indo a Cuba, reproduzindo o discurso da esquerda com perfeição e etc.

...Porra! até uns católicos conservadores chegaram a se aoborrecer com JPII tantas foram as que fez.
Mesmo no MSM um cubano fez seu protesto contra o enrabichamento de JPII, ...não conseguir se segurar foram muitos "combates" eleogiosos.
JPII falava uma frase contra e três discursos a favor (claro que se opunha ao alegado ateísmo do marxismo).

...hehehe!

Abs
C. Mouro