terça-feira, junho 17, 2008

A Batalha das Idéias



Rodrigo Constantino

“Mude as idéias, e você poderá mudar o curso da história”. (Edmund Burke)

As crenças marxistas, tanto de um determinismo histórico como de um excesso de materialismo, como se tudo no mundo se resumisse a uma luta de interesses entre classes, prejudicaram bastante o avanço da civilização onde exerceram forte influência. Paradoxalmente, isso mostra justamente o poder das idéias, para o bem ou para o mal, no curso da história. Ou seja, nega a própria crença determinista. Os seres humanos são dotados de livre-arbítrio, e nem tudo se resume aos interesses materiais imediatos. Quem acredita nisso está dando uma confissão e tanto sobre seu caráter, como bem colocou Benjamin Franklin: “Aquele que é da opinião de que dinheiro fará qualquer coisa pode muito bem ser suspeito de fazer qualquer coisa por dinheiro”. Há muito mais do que dinheiro na vida. No final do dia, serão as idéias que determinarão os rumos das coisas.

Vários pensadores de diferentes vertentes chegaram a esta conclusão. O poeta alemão Heine afirmou que “os conceitos filosóficos nutridos na quietude do escritório de um professor poderiam destruir uma civilização”. Victor Hugo escreveu que “nada neste mundo é tão poderoso como uma idéia cuja hora é chegada”. O grande economista Ludwig von Mises constatou que “idéias e somente idéias podem iluminar a escuridão”. A filósofa Ayn Rand destacou que “o homem não pode fugir da necessidade de uma filosofia; sua única alternativa é se a filosofia o guiando será escolhida por sua mente ou por acaso”. A lista de pensadores importantes que depositaram enorme relevância no poder das idéias é gigantesca.

O escritor José Ingenieros escreveu: “Quando colocamos a proa visionária na direção de uma estrela qualquer e nos voltamos às magnitudes inalcançáveis, no afã de perfeição e rebeldes à mediocridade, levamos dentro de nós, nesta viagem, a força misteriosa de um ideal”. Quem deixa essa força se apagar, ficando simplesmente inerte, não passa “da mais gelada bazófia humana”. O autor conclui: “O ideal é um gesto do espírito em direção a alguma perfeição”. O culto ao “homem prático”, como se um arcabouço de idéias devidamente refletidas não fosse importante, representa uma ameaça ao progresso humano. “Uma vida não examinada não vale a pena ser vivida”, teria concluído o filósofo grego Sócrates. A máxima de simplesmente “deixar a vida levar”, sem um devido processamento de idéias, costuma levar ao precipício. Até mesmo essa decisão, de viver fugindo de uma reflexão mais profunda, é fruto de uma idéia: a de que não importa muito pensar e ter idéias.

O economista John M. Keynes foi outro que percebeu a relevância das idéias no curso dos acontecimentos. Ele escreveu em sua Teoria Geral: “As idéias de economistas e filósofos políticos, tanto quando estão certas como quando estão erradas, são mais poderosas do que é normalmente compreendido. De fato o mundo é governado por pouco mais. Loucos na autoridade, que escutam vozes no ar, estão destilando seu frenesi de algum rabisco acadêmico de poucos anos antes. Estou certo de que o poder dos direitos adquiridos é muito exagerado comparado à gradual invasão de idéias. Não, de fato, imediatamente, mas depois de certo intervalo; pois no campo da economia e filosofia política não existem muitos que são influenciados por novas teorias depois que estão com vinte e cinco ou trinta anos de idade, logo as idéias que os servidores públicos e políticos e mesmo agitadores aplicam provavelmente não serão as mais novas. Mas, cedo ou tarde, são as idéias, não os direitos adquiridos, que são perigosas para o bem e para o mal”. No caso de Keynes, infelizmente, foram para o mal, para o crescimento do governo e conseqüente redução das liberdades individuais.

A força dos canhões é fundamental, mas a direção para onde eles apontarão depende basicamente das idéias disseminadas. O que permitiu a criação da nação mais livre do mundo foi justamente o poder das idéias Iluministas, bastante influenciadas por John Locke e pelos “founding fathers” da América. Por outro lado, o que permitiu o terror, a escravidão, o genocídio e a total miséria soviética também foi o poder das idéias, dessa vez as socialistas e marxistas. Da mesma forma, aquilo que garante o atraso de muitos países islâmicos, assim como o terrorismo dos fanáticos, é justamente o poder das idéias.

Idéias têm conseqüências. Infelizmente, graves conseqüências muitas vezes. E exatamente para evitar isso é que devemos combater essas idéias erradas com outras idéias. A batalha deve ser travada no campo das idéias. O mundo será um lugar mais livre apenas se os liberais vencerem o debate, não através da força, mas dos argumentos. “O argumento pela intimidação é uma confissão de impotência intelectual”, disse Ayn Rand. Cabe aos defensores da liberdade mostrarem ao mundo quem tem argumentos sólidos, e quem tenta apenas impor suas vontades pela força, por completa impotência intelectual. Somente quando tal distinção estiver mais clara para a maioria, poderemos usufruir de um mundo realmente mais livre. Um mundo onde as boas idéias predominam.

6 comentários:

Augusto Araújo disse...

Aplausos

Mauricio disse...

Aplausos [2]

Anônimo disse...

Pois é, né Rodrigo, você critica tanto as idéias marxistas que "prejudicaram bastante o avanço da civilização"... A única experiência socialista, meu caro, foi a Comuna de Paris onde vocês massacraram. Lá foi o único modelo de democracia. E esta experiência foi a mais o modelo de democracia mais avançado do mundo.

Agora, caro Rodrigo, já que estamos debatendo aqui sobre idéias, o que me diz sobre o filósofo John Locke iluminista citado por você que defendeu a escravatura? Tá pensando que todo o mundo aqui é idiota?

Rodrigo Constantino disse...

"Tá pensando que todo o mundo aqui é idiota?"

De forma alguma. Apenas aqueles que ainda conseguem defender aberrações como o marxismo, socialismo e comunismo. Esses são os idiotas úteis. Se bem que a maioria é formada por safados mesmo.

Rodrigo

Anônimo disse...

A guerra das idéias é a guerra de uma vida inteira. Nessa guerra os vencidos não morrem, apenas mudam de lado ! Escolhamos nossas armas !

Daniel M. (DF) disse...

R.C.
Peço licença para fazer um comentário mais ou menos deslocado deste texto. Na semana passada o ministério do planejamento autorizou a realização de mais um concurso para a Ancine. Até aí nenhuma surpresa no processo de inchaço da administração pública. O que chama a atenção na nota do MPOG (http://www.planejamento.gov.br/recursos_humanos/conteudo/noticias/znoticia.asp?Cod=2441) é como o governo trata essa tão desnecessária Agência. “A Ancine é uma agência reguladora organizada como autarquia federal, que conta com uma carreira típica de Estado, a Carreira de Regulação e Fiscalização da Atividade Cinematográfica e Audiovisual.” Creio que muito da discussão sobre liberdade individual passa, na prática, pela limitação da atuação do estado. Nesse sentido, temos mesmo é que colocar nossas barbas de molho, porque regulação atividade cinematográfica é tudo menos uma “carreira típica de estado”. Onde vai parar isso tudo?

Obrigado pelo espaço e parabéns pelo seu blog.